O mito do Rapto de Europa

O mito de Europa, também conhecido como o mito do Rapto de Europa, é possível que seja, de um ponto de vista cultural e artístico, um dos mais famosos mitos da Grécia Antiga, estando muito bem representado nos mais diversos lugares – de facto, clicando na imagem abaixo, até podem comprar, a um preço muito razoável, um mosaico com esta cena mitológica para vossa casa (e convém deixar claro que, infelizmente, não fomos pagos para dizer isto). Recorde-se então o mito:

Rapto de Europa em mosaico

O mito de Europa fala-nos de uma jovem de grande beleza. Um dia, enquanto apanhava flores numa área próxima de uma praia, ela e as companheiras viram um touro de enorme beleza. Curiosas, afagaram-lhe a face, cobriram-no de carinhos, mas somente Europa teve a coragem de subir para o seu dorso. E, quando o fez, o touro rapidamente se pôs em corrida, chegando até a passar pelo próprio mar, como se de um simples prado se tratasse.

Levando-a para a ilha de Creta, o touro revelou-lhe então a sua verdadeira identidade – era Zeus, que queria consumar a sua paixão pela jovem! Dessa relação viriam a nascer diversos rebentos, os mais famosos de entre eles provavelmente Sarpédon e Minos.

 

Normalmente, este mito de Europa, ou do Rapto de Europa, termina por aqui. Algumas fontes até dizem que esta jovem casou com um Astério, rei de Creta, mas ninguém parece ter dedicado muito tempo ao destino final da heroína. Sabemos, pelo menos, que Cadmo, cujo pai comum encarregou de procurar o paradeiro da irmã, jamais a tornaria a reencontrar em vida, e terá sido pelos seus constantes gritos pela sua irmã desaparecida que, em termos de pura lenda, o nosso continente ficou conhecido por esse nome. Dificilmente terá sido verdade, toda essa ideia, mas… é uma bela história da Mitologia Grega para justificar o nome do nosso continente, não é?

Encontrado o túmulo de Rómulo?!

Túmulo de Rómulo (fotografia de Andrew Medichini/AP)

Recentemente foi encontrado em Roma o túmulo de Rómulo, mas só hoje foram publicadas fotografias do local (ver acima, podem carregar na imagem para ler mais sobre o assunto, em Inglês), daí termos demorado alguns dias a escrever estas linhas. O curioso é que não existia qualquer esqueleto no seu interior. Porquê?

Porque, como contámos anteriormente, acreditava-se que esta figura fundadora de Roma não tinha morrido; como tal, a existência do seu corpo era impossível, sendo este túmulo exclusivamente o local em que era prestado um culto significativo ao herói.

Esta é uma novidade interessante, pelo que convém adicionar que, segundo lemos, se espera que o local possa vir a ser visitável pelo público dentro de dois anos.

Porque está um tritão representado no Palácio da Pena?

Tritão  do Palácio da Pena

Quem visitar o chamado “Pórtico do Tritão”, no Palácio da Pena, em Sintra, poderá ver uma belíssima representação de um tritão, um deus marinho menor, por cima de uma das portas. Mas o que faz esse monstro marinho no local? Bem, se consultarmos um site “oficial” do local, aqui, podemos ler o seguinte:

Há duas possíveis origens para este Tritão, ambas literárias. Uma é a obra de Damião de Góis de 1554, onde é mencionado um Tritão que tinha sido avistado a cantar com uma concha numa praia perto de Colares. Mas também Luís de Camões menciona um Tritão no Canto IV dos Lusíadas, cuja descrição lembra o monstro [do Palácio] da Pena.

Esta informação sempre nos pareceu enganadora, na medida que poderá dar ao leitor a sensação de que a associação de um tritão à cultura portuguesa nasceu no século XVI. Quando tanto Damião de Góis como Camões se referem a um tritão, fazem-no quase certamente porque em diversas fontes da Antiguidade (nomeadamente Plínio e Cláudio Eliano, se a memória não nos engana) existiam referências à existência de uma caverna próxima de Lisboa em que podia ser ouvido o canto de um tritão.

Esses autores nunca nos falam da região de Colares (essa identificação parece provir de Damião de Góis), nem são muito específicos no local do acontecimento, dizendo-nos exclusivamente que era próximo da cidade que viria a ter o nome de Lisboa. Mas o que esta menção tem de notável é o facto de ser um dos mais antigos mitos associados à futura capital de Portugal, juntamente com o dos cavalos lusitanos, o da suposta fundação da cidade por Ulisses e o do Tejo (de que falaremos algum outro dia).

 

Dada a fama dos mitos, é natural que tanto Damião de Góis como Camões tenham decidido torná-los parte das suas obras, imortalizando-os entre uma nova audiência. E, nesse seguimento, se o tritão do Palácio da Pena é mesmo o referido nestas duas obras (algo de que não temos a certeza…), faz todo o sentido que tenha sido representado no local pela sua relação com os antigos mitos, os mais antigos associados ao nosso país e, por isso, um digno exemplo da história mitológica de Portugal.

A lenda da Cadeira do Diabo

A lenda da Cadeira do Diabo, que aqui contamos hoje, vem de Espanha, mais precisamente da localidade de Valladolid:

 

Em meados do século XVI desapareceu uma criança em Valladolid. Os habitantes da cidade muito procuraram pelo desparecido, até que um deles ouviu estranhos barulhos vindos da casa de um tal “Andrés de Proaza”, estudante de Medicina e supostamente tanto português como judeu. Em busca de respostas, entraram nessa casa e viram Andrés sentado numa cadeira, enquanto que na mesa próxima estavam os corpos dissecados da criança desaparecida e de diversos animais.

Andrés contou aos presentes que tinha feito um pacto com o Diabo e que este lhe tinha dado uma cadeira com poderes sobrenaturais – quem nela se sentasse ou receberia todo o conhecimento do mundo, ou acabaria morto em três dias.

Face ao abominável pacto, ou talvez pelos seus crimes bem reais, Andrés foi morto na forca, mas ninguém parecia saber o que fazer com a cadeira, temendo-se que a sua destruição levasse aos mais diversos malefícios. Então, ela foi passando de mão e mão até aos nossos dias, dizendo-se que todos aqueles que nela se sentaram morreram pouco depois.

A Cadeira do Diabo

Existem outras versões da história, nomeadamente em que é dito que só morreria quem se sentasse na Cadeira do Diabo e não tivesse perfeitos conhecimentos de Medicina, mas contamos aqui apenas o essencial da história.

A infame cadeira pode ser vista na imagem acima, mas atente-se a um pormenor delicioso, o facto de uma pequena corda dificultar que alguém se tente sentar nela. Estará ela realmente embruxada pelo diabo? Fica o convite de que quem passar por essa cidade espanhola visite o Museu do Palácio de Fabio Nelli e faça a tentativa, de forma a averiguar toda a potencial verdade por detrás desta lenda da Cadeira do Diabo.

 

 

P.S.- Se também existe o conceito de “Devil’s Chair”, ou Cadeira do Diabo, nos EUA, aí ele é usado com outro sentido, nomeadamente para designar uma espécie de cadeiras que existem em diversos cemitérios. Em diversos locais associam-lhes lendas que foram surgindo ao longo do tempo, nas quais, de um modo geral, elas são associadas a esse inimigo de Deus.

A lenda da Bezerra de Monsanto

A lenda da Bezerra de Monsanto, que aqui contamos hoje, tem de começar com uma pequena história a ela acessória – quem viver perto de Lisboa certamente que conhece o parque florestal com o nome de Monsanto. Porém, quando há uns anos inquirimos sobre uma possível origem do nome, foi-nos contada uma lenda de outro Monsanto, uma pequena vila próxima de Idanha-a-Nova. É essa segunda lenda que aqui recordamos hoje, a primeira ficará para outro dia.

A Bezerra de Monsanto?

Conta o povo que há muitos, muitos séculos atrás, o local que se tornaria a aldeia de Monsanto foi cercado pelos Romanos. Durante quase uma década que estes cercaram o castro, enquanto que os habitantes locais se tentavam aguentar como podiam. Numa dada altura, já quase sem qualquer espécie de alimento, consideraram capitular. Discutiram essa possibilidade uma e outra vez. Enquanto que alguns queriam desistir, outros queriam resistir até à sua própria morte.

Foi nesse contexto que uma jovem sugeriu tentar-se algo de muito pouco vulgar – quis pegar na última bezerra que tinham, enchê-la da comida ainda restante e depois oferecê-la aos Romanos. Assim o pensou, de semelhante forma o sugeriu, e ainda melhor o fizeram os habitantes da localidade.

Os atacantes, vendo então uma bezerra tão gorda, que os futuros Portugueses tão gentilmente lhes ofereceram após tantos anos de cerco, acreditaram que estes ainda tinham comida e bebida para muitos mais anos, e como tal decidiram retirar-se, desistindo de conquistar o local.

 

É uma bela lenda, esta conhecida sob o nome da Bezerra de Monsanto, mas não é totalmente original. Histórias semelhantes já eram contadas na Antiguidade, em que uma povoação era salva da destruição de um cerco tomando partido de um derradeiro gesto semelhante a este… seria mera coincidência, ou estaria a jovem de Monsanto também familiarizada com esses outros exemplos, usando-os em seu proveito na situação em que se encontrava? Só ela saberia responder…

 

 

P.S.- E, afinal de contas, qual é a verdadeira origem do nome da Serra de Monsanto lisboeta? Se nunca ouvimos qualquer lenda associada a ela, parece que o nome vem do tempo de Dom Dinis, altura em que esse rei atribuiu a posse das terras em questão a um conde, supostamente de apelido Castro, que tinha a posse das mesmas terras de onde era originária a famosa bezerra. É, portanto, uma origem semelhante à do nome da Quinta do Anjo, já que o facto de um determinado conde ser mais famoso por uma posse de outra terra levou a um nome semelhante nesta que está mesmo às portas de Lisboa!