Em busca da Princesa Magalona

Já ouviram falar da Princesa Magalona? Já foi uma figura muito famosa, mas hoje em dia está bastante esquecida. Nesse contexto, podemos até dar um exemplo de aquela que foi a sua popularidade – num famoso filme português, Aldeia da Roupa Branca, de 1939, surge uma breve sequência em que um grupo de crianças ensaia uma pequena peça de teatro. Nela estão representadas uma princesa, um pastor, uma bruxa e alguns anjos. Pouco depois, quem está a ensaiar a peça diz que a cena pertence à “nova história da Princesa Magalona, que eu comprei em Lisboa”.

A Princesa Magalona

Aos mais curiosos poderia surgir uma questão – afinal de contas, quem é essa tal “Princesa Magalona”?

 

Em busca de uma resposta acabámos por descobrir que existe mesmo uma história com esse nome. Tratava-se, originalmente, de uma história medieval, que parece ter sido popular por toda a Europa e que até teve diversas edições em Portugal. Mas, nas edições a que tivemos acesso, já dos séculos XVIII e XIX, intituladas História verdadeira da princesa Magalona, filha d’El-Rei de Nápoles, e do nobre, e valoroso cavalheiro Pierres, Pedro de Provença, e dos muitos trabalhos, e adversidades, que passaram, sendo sempre constantes na fé, e virtudes, e como depois reinaram, e acabaram a sua vida virtuosamente no serviço de Deus, não existe qualquer referência ao momento mostrado no filme. De facto, a história do livro não tem quaisquer elementos mágicos, apresentando uma trama que muito se assemelha a tantos outros romances de cavalaria. E, na verdade, parte do seu conteúdo até é muito brevemente aludido no Dom Quixote de Cervantes, através de uma menção ao “rapto” de Magalona por Pedro.

 

Mas seria, então, a história presente no filme pura fantasia cinematográfica? Parecia-nos que sim, até que nos apercebemos da existência de diversas histórias tradicionais associadas ao nome de uma outra “Princesa Magalona”, que não era a figura medieval e cuja herança ainda hoje pode ser encontrada no substantivo magalona, que o dicionário da Priberam diz tratar-se de uma “mulher vistosa, ataviada”.

Nesse contexto, o breve momento do filme parece derivar de uma ligação entre duas tradições reais mas distintas – a personagem ter comprado um possível folhetim em Lisboa; e ele conter uma possível “nova” história de uma princesa cujo nome era bem conhecido nas histórias orais da época.

Esta possibilidade faz até sentido se tivermos em conta o carácter muito tradicional, quase estereotipado, das personagens da peça – a bela princesa, o pastor que não gosta da cidade, a feiticeira cujos poderes nada podem contra a religião cristã, etc. E se, nesse seguimento, a história aí parcialmente representada não parece existir de forma mais completa… até faria algum sentido que sim!

A verdadeira lenda da Porca de Murça

A chamada Porca de Murça

Imaginem-se, por um breve momento, a passear na vila de Murça, no norte de Portugal, conhecida pelo que é chamada a Porca de Murça. Ao cruzarem o Largo 31 de Janeiro poderão encontrar a estátua presente na imagem acima. Mas… o que vêem representado nela? É uma porca, um javali, um urso, ou um outro animal?

 

Queiramos ou não, a resposta a essa questão é um elemento fulcral da lenda da Porca de Murça. Numa dada altura do passado nacional esta estátua celta foi encontrada perto da povoação em questão, e dela derivou a lenda de que, em tempos já há muito idos, um enorme animal tinha assolado aquela região, até que foi atacado e morto pelos habitantes, restando dessa grande batalha apenas a memória imortalizada na estátua que pode ser vista ali na fotografia.

 

Mas, a acreditar nessa breve lenda, qual foi o animal a atacar os aldeões, e que pode ser visto tanto na estátua como no emblema da vila? Uma enorme porca de Murça? Uma ursa? Um javali? Outro animal? É, talvez mais que tudo, aquilo que nela quisermos ver, uma reinterpretação de uma antiga estátua, cujo significado original já há muito se perdeu nas areias do tempo…

Alguns ditados e provérbios portugueses pouco conhecidos

Para celebrar esta quadra de Natal trazemos, desta vez, algo bastante inesperado – numa espécie de prenda, decidimos recordar alguns provérbios ou ditados portugueses dos Antigos que já poucos parecem conhecer nos nossos dias. Para quem estiver curioso, estes vieram de obras como Tradições Populares de Portugal (de Leite de Vasconcelos), de um texto com esses conteúdos da autoria de Perestrello da Camara, e de outras fontes literárias e orais a que fomos tendo acesso:

Ditados Portugueses Pouco Conhecidos

  • “Até ao Natal salto de pardal, de Natal a Janeiro salto de carneiro e de Janeiro a Fevereiro salto de outeiro.” (Ou, em alternativa, “De Santa Luzia ao Natal, um salto de pardal, de Natal a Janeiro, um salto de carneiro.”)
  • “Falar com sete pedras na mão.”
  • “Joaninha voa voa, leva as cartas a Lisboa.”
  • “Deus lhe dê tantos anos de vida como de palmos tem uma formiga.”
  • “Pita que canta quer galo.”
  • “Casa de pombos, casa de tombos.”
  • “Bafo de cão até com pão.”
  • “Bafo de gato que nem chegue ao fato.”
  • “Miguel Monteiro, não és santo e queres ir no andeiro.”
  • “Merda e o cagalhão não entram na confissão.”
  • “Antes burro vivo que cavalo morto.”
  • “Madrasta, o nome lhe basta.”
  • “Ovelha que berra, bocado que perde.”
  • “Das largas ceias estão as sepulturas cheias.”
  • “Abade de onde canta, daí janta.”
  • “Demasiada afeição cega a razão.”
  • “Nunca digas ‘desta água não beberei, deste pão não comerei’.”
  • “Amigo, amigo, de longe te trouxe um figo, assim que te vi, comi-o.”
  • “Não há melhor espelho que amigo velho.”
  • “Anão dos assobios [i.e. entre ridículo e de diminuta estatura].”
  • “Antigo como a Sé de Braga.”
  • “Arrufos de namorados são amores dobrados.”
  • “Dia de barba, semana de porco, ano de casado [são momentos trabalhosos].”
  • “Boca de mel, coração de fel.”
  • “Prata é o bom falar, ouro é o bom calar.”
  • “Tanto a propósito como canção de noivado em cemitério.”
  • “Cão que muito ladra, pouco morde.”
  • “Esperar pelas cebolas do Egipto [i.e. por coisa impossível].”
  • “Entrar como Pilatos no Credo.”
  • “A cruz nos peitos e o Diabo nos feitos.”
  • “A gulodice tem matado mais gente do que a espada.”
  • “Os jornalistas vivem de folhas, mas não produzem seda como as lagartas.”
  • Ninfa de lupanar.”
  • “Mal por mal, antes Pombal.”
  • “Marido banana e efeminado, depressa emparelha com o veado.”
  • “Primeiro está a obrigação que a devoção.”
  • “Ensinar o pai a fazer filhos.”
  • “Isso existia já antes de haverem pardais.”
  • “O ídolo das mulheres não é o marido, mas sim a moda.”
  • “Lágrimas de um herdeiro são um riso disfarçado.”
  • “Nunca faltou um paspalhão para uma paspalhona.”
  • “É costume em Portugal comer bem e dizer mal.”
  • “A quem Deus quer bem, o vento lhe apanha a lenha.”
  • “Rei por natureza, Papa por ventura.”
  • “A familiaridade é a sepultura do amor.”
  • “A formiga, ainda que pequena, mata o crocodilo.”
  • “As saudades são filhas do amor e enteadas do engano.”
  • “Macaco velho não trepa em ramo seco.”
  • “Não tem eira, nem beira, nem ramo de figueira.”
  • “Os erros dos médicos a terra os cobre.”
  • “Cavalo que voa não carece espora.”
  • “Zangado como um diabo que bebe água-beta.”
  • “Não sou camaleão, que me mantenha com vento.” [Na altura, e desde tempos da Antiguidade, se acreditava que os camaleões comiam apenas vento.]
  • “O elogio mais bem merecido é o do nosso inimigo.”
  • “O fim da vida é triste, o meio nada vale, e o começo é ridículo.”
  • “Homem sem feitiços é como cavalo sem freio.”
  • “Mulher feia, à luz da candeia.”
  • “De conselhos e mulher feia tenho eu a barriga cheia.”
  • “Arco-íris à tarde, não vem cá em balde.”
  • “Aberta em Castela, água na terra.”
  • “Mal vai ao cavalheiro quando não chove em Fevereiro.”
  • “Em não chovendo em Fevereiro, nem bom prado, nem bom palheiro.”
  • “Fevereiro quente, não o vejas tu nem o teu parente.”
  • “Março, mal quanto molhe o rabo ao gato, se de Fevereiro ficou farto.”
  • “Natal ao soalhar, Páscoa à roda do lar.”
  • “Mulher que dá no marido, é porque Deus é servido.”
  • “O frio e a fome fazem o gado galego.”
  • “Bocado comido não granjeia amigo.”

 

Festas Felizes para todos, com estes ditados portugueses que hoje são até muito pouco conhecidos!

A origem do Presépio de Natal

Um presépio

Na Língua Portuguesa poucas palavras são tão singulares como presépio. Quase toda a gente parece saber o que significa, mas ao mesmo tempo é também um vocábulo quase completamente esquecido durante 11 meses do ano. E, na verdade, o nome “presépio” vem do Latim; entre os seus significados originais encontra-se o do local em que os animais domésticos comem, não somente a própria manjedoura (vista na imagem acima como o berço de Jesus Cristo), mas também todo um imaginário que a envolve.

 

Agora, se o local do nascimento de Jesus Cristo não é totalmente estável nas fontes literárias que temos – alguns autores falam de um estábulo, enquanto que outros se referem a uma caverna – porque é esta cena religiosa tão representada nos nossos dias? Bem, conta-nos a Vida de São Francisco de Assis (da autoria de São Boaventura), que por volta do ano 1233, na cidade italiana de Greccio, o santo decidiu representar a Natividade com o objectivo de recordar ás pessoas a verdadeira essência do Natal.

Segundo a mesma fonte, esse primeiro Presépio tinha já uma manjedoura, feno, um boi e um burro, mas não nos é dito se já apresentava outras figuras (sob a forma de pessoas reais ou estátuas). Foi celebrada uma missa em seu redor, cuja beleza levou os crentes às lágrimas, e após ser desmanchado foram vários os milagres suscitados pelo feno que aí tinha sido utilizado.

 

Foi através de esta singular ideia de São Francisco de Assis, feita com aprovação papal, que a representação do nascimento de Jesus Cristo entrou para o imaginário da Igreja, sendo depois disseminada para toda a Europa ao longo dos séculos. E foi também assim que o Presépio veio a entrar em nossas casas, tanto em Portugal como em muitos outros países pelo mundo fora.

Origem e significado da expressão “Bicho de sete cabeças”

Esta expressão, bicho de sete cabeças, parece ser utilizada tanto no masculino como no feminino, referindo-se frequentemente a uma bicha com as mesmas características. Mas, seja uma bicha ou um bicho, tanto o seu significado como a sua origem parecem ser as mesmas.

A Hidra de Lerna e Hércules

A expressão tem a sua origem no difícil confronto de Hércules com a Hidra de Lerna, de que já falámos anteriormente. Essa interrelação entre a expressão dos nossos dias e o antigo mito é fácil de notar se tivermos em conta que ela admite um certo grau de cepticismo, significando não só a uma situação complicada, mas uma também com um fundo mais imaginário do que real, em que provavelmente nem tudo é o que parece.

Assim, dizer a alguém algo como “Essa situação não é um bicho de sete cabeças” equivale a dizer-lhe que se encontra numa posição que não é tão difícil de superar como lhe poderá estar a parecer.