A triste história de Okiku

O tema de hoje vem do Japão e tem diversas versões, pelo que contamos aqui apenas o essencial desta triste história de Okiku, também conhecida como Sara-kazoe, i.e. “a contadora de pratos”, em virtude da principal acção que lhe trouxe a sua fama.

Okiku e o poço

Okiku era uma criada virgem de um senhor muito importante. Este, movido pela luxúria, pedia-lhe repetidamente que cedesse aos seus desejos e aceitasse ter sexo com ele. Mas, uma e outra vez, ela rejeitou aceder ao que lhe era pedido.

Um dia, sempre comandado pelo seu desejo sexual, o senhor decidiu pôr em prática um plano, que passou por esconder um valioso prato de um conjunto de 10. Depois, esperou. Quando Okiku notou o desaparecimento, lembrou-se que a sentença dada por um tal roubo seria a da sua morte. Chorou. Num enorme desespero, esperando que talvez estivesse a ver mal, contou os pratos – 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8… 9! Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito… nove! 一, 二, 三, 四, 五, 六, 七, 八 … 九! Mas, por muitas vezes que os contasse, a conclusão era sempre a mesma – faltava um prato!

Cada vez mais desesperada, sem saber o que fazer da sua vida, Okiku foi falar com o seu senhor e pediu-lhe a maior clemência. Mas este, prosseguindo com o seu plano e novamente movido pela sua intenção sexual, fez-lhe uma proposta simples – o desaparecimento seria esquecido somente se ela aceitasse fazer amor com ele.

Mas… ela rejeitou. Talvez o tivesse feito mil outras vezes, se o seu senhor lhe pedisse outras mil. Mas, desta vez, enraivecido como nunca, este bateu-lhe, matou-a, e atirou o seu corpo para o fundo de um poço.

 

Conta-nos a mesma história que o espírito de Okiku ainda habita esse local, localizado nas redondezas do Castelo de Himeji, e durante as noites ainda pode ser ouvido a gemer a sua infinita melodia – “1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8… 9!” – antes de soltar um horrendo grito!

Duas histórias assustadoras, e um pequeno evento

Para celebrar a vinda do Halloween (ou a véspera do Pão por Deus, se preferirem tradições portuguesas), as próximas três noites serão ocupadas por três histórias assustadoras, com a noite seguinte – de 31 de Outubro para 1 de Novembro – a ser ocupada por uma experiência, o primeiro encontro físico deste espaço, onde se procurarão contar – e escutar – outras histórias da mesma natureza.

Uma porta de madeira, só isso

Para esta primeira noite iremos a uma história supostamente real, que nos foi contada durante a nossa busca por relatos orais em território português. Provém de um casal que vive numa pequena aldeia no distrito de Bragança, que nos permitiu partilhá-la de forma anónima.

 

Segundo o patriarca do casal, em casa de alguns amigos, hoje já falecidos, durante as noites de lua cheia costumava-se ouvir alguém a bater à porta. Mas, por muitas vezes que se inquirisse sobre a identidade do visitante, nunca era obtida qualquer resposta. Então, uma dada noite, aquele que se viria a tornar o relator da história decidiu tentar algo de diferente, perguntando simplesmente “Ao que vem? O que deseja?”, levando à resposta de uma voz masculina misteriosa – “Quero um alqueire de trigo.” Esse desejo foi cumprido, sendo colocado no local antes da noite seguinte, e… tanto o trigo desapareceu, como a presença do “visitante” nunca mais foi sentida.

 

A esta história, a esposa do relator acrescentou que também ela já tinha passado por algo semelhante. Há mais de 70 anos, quando ainda vivia com os pais, durante a noite por vezes eram ouvidos barulhos de uma máquina de costura no piso superior da casa – o que nada teria de errado, não fosse o facto de esta apenas ter um piso térreo. Em busca do que se poderia andar a passar, os habitantes da casa falaram com uma vizinha mais idosa, que lhes disse que naquela casa tinha vivido uma menina que tinha prometido a Nossa Senhora um novo véu, mas que ela tinha falecido antes de acabar de o coser. Assim, foi comprado um véu e este foi oferecido à igreja local, o que fez cessar por completo os estranhos barulhos [ver mais aqui].

 

Mas… serão estas histórias reais? Será que realmente tomaram lugar? Fomos repetidamente assegurados que sim, que as almas penadas que tinham promessas por cumprir agiam de formas como estas, mas… será que algo de semelhante já se passou com os leitores? Como sempre, se tiverem histórias semelhantes para contar, por favor deixem-nas nos comentários.

Como é que os heróis homéricos sabiam as ascendências uns dos outros?

Há vários anos atrás foi-nos posta uma pergunta que poderá fazer sorrir – como é que os heróis homéricos sabiam as ascendências uns dos outros? Claro que na Ilíada existem os mais diversos momentos em que as paternidades e eventos de um e outro herói são mencionadas, mas como podiam eles saber isso uns dos outros? Será que, como uma amiga costumava dizer, “paravam para conversar”?

 

Não temos, naturalmente, uma resposta totalmente fidedigna para dar, até por ser uma questão derivada de uma obra de ficção e uma convenção de poemas épicos, mas numa obra chinesa, 西遊補, aparece uma sequência que neste contexto merece ser trazida à luz. Dois combatentes estão em pleno combate, a trocar os mais diversos golpes, quando um deles diz ao outro:

Espera! Se eu não te falar sobre a minha família, quando eu te matar e te tornares um fantasma irás continuar a pensar que eu sou apenas um pequeno general sem nome. Mas permite-me contar-te: eu, o Rei Pramit, sou nem mais nem menos que um descendente directo do Macaco Sun, o Grande Sábio Igual ao Céu, que causou grande confusão no Céu.

Será que monólogos como estes, de pura vangloriação, também tinham lugar, muitas vezes de forma implícita, no imaginário do poeta da Ilíada? É bastante possível que sim, mesmo que se pense que nunca tenham acontecido em confrontos bélicos mais reais.

Porque é que os ciganos não gostam de sapos?

Afinal de contas, porque é que se pensa que os ciganos não gostam de sapos? Há alguns dias fomos contactados por uma publicação nacional que nos queria colocar essa questão curiosa. Assim, fomos levados a questionar essa ideia – será que eles temem esses animais, apenas não gostam deles, ou a realidade até é completamente diferente? Do que os ciganos têm medo… será mesmo de sapos, como a cultura popular portuguesa frequentemente nos diz?

Sobre os Ciganos e os sapos

Infelizmente, por muito que tentássemos nunca conseguimos encontrar qualquer mito ou lenda concretos que justifiquem esse suposto temor. Porém, como evidenciado pela prática corrente em muitas lojas portuguesas, que usam um sapo de louça para tentar afastar os ciganos dos seus recintos, na verdade esta crença não passa por terem medo do pequeno animal, em si mesmo, mas de uma ideia que este lhes parece sugerir. E, pergunte-se então, que ideia grotesca é essa?

 

Essencialmente, e segundo foi possível apurar, em alguns dialectos da língua romani, ou dita “cigana”, a palavra beng significa tanto sapo como diabo. Por isso, para este povo olhar para a figura de um sapo poderá ser equacionado a evocar o diabo, o que, por sua vez, empresta a sua protecção a um determinado local; e se essa figura tão bem conhecida na nossa cultura até não tem na cultura deles precisamente o mesmo simbolismo que na cristã, não deixa de ser temida.

Trata-se, portanto, de uma inferência sapo -> beng -> diabo, propiciando o afastamento dos ciganos tal como aconteceria no nosso caso se, por exemplo, alguém colocasse à porta da sua loja uma imagem que consideramos particularmente ofensiva ou chocante. Não é totalmente correcto dizer que eles têm verdadeiramente medo desse animal, mas sim que o evitam como também nós procuraríamos evitar alguma ideia que consideramos menos positiva, e.g. um local em que se realizam rituais “maléficos” de alguma seita brasileira.

A (falsa) história de São Inácio Castellaneta, e as torturas dos Romanos aos Cristãos

Num episódio recente dos Simpsons, a trama introduziu um (ficcional) Santo Inácio Castellaneta. Supostamente vivendo em 250 d.C., recusou-se a abandonar a fé cristã e, como tal, os romanos cortaram-lhe a cabeça, os braços, as pernas e os dedos. Depois, atiraram-lhe flechas feitas de cobras congeladas e retiraram-lhe os olhos, cobrindo-lhe as respectivas cavidades com pistachios cobertos de chocolate – mas o santo continuou a recusar-se a abandonar a fé cristã. Então, finalmente, pareceram cozer os seus ossos em vinho de cereja. Depois, esse martírio levou a uma dada tradição na cidade de Springfield.

Um falso santo

A breve sequência pode ser vista carregando na imagem acima, mas o que ela tem de particularmente especial é o facto de representar um falso martírio com contornos que até poderiam ser verdadeiros. Tem lugar no século III d.C., apresenta uma figura cristã disposta a defender a sua fé pessoal contra todas as torturas, e mesmo após a sua morte a memória dos eventos pelos quais passou ainda perdura. Na verdade, se tivessemos lido este relato num livro, dificilmente duvidaríamos da sua veracidade. O que levanta uma questão – será que coisas como estas realmente aconteceram aos mártires cristãos?

 

Entre os muitos mártires dos primeiros séculos da nossa era contam-se algumas histórias absolutamente incríveis. Desde santas cujos seios foram cortados e cozinhados, até figuras religiosas cuja cabeça decepada quase nos faz sorrir face à constelação de tantas outras torturas por que passaram, não podemos deixar de pensar se não existiria um carácter muito sádico nos Romanos. Só isso permitira justificar as tamanhas torturas a que, supostamente, sujeitaram os Cristãos. Mas, repita-se, será que esses relatos são mesmo verdade? A história é frequentemente escrita pelos vencedores, e… por isso, não sabemos, nem temos forma de saber, até que ponto os Romanos infligiam mesmo nos Cristãos aquelas torturas de que muito ouvimos falar, até porque nada nos códigos legais de então previa tais abusos para com os criminosos. É, então, uma questão que tem mesmo de permanecer em aberto…