Um “ABC” do século XVI

Ainda se lembram dos primeiros tempos de escola e dos livros que, bem nas suas primeiras páginas, tinham as letras do alfabeto ilustradas – A para avião, I para igreja, X para xilofone, Z para zebra, etc.? O que hoje aqui trazemos é um alfabeto semelhante, mas da segunda metade do século XVI. Vem da obra Contos e Histórias de Proveito e Exemplo, uma das primeiras compilações de contos morais nacionais. Surge no final da primeira parte do texto, na qual o autor tenta ajudar uma mulher de 20 anos, já casada mas que agora queria aprender a ler (o que era pouco comum na época). Instando-a a conhecer as letras do alfabeto, o autor escreve-lhe então o seguinte:

Amiga de sua casa;
Benquista [i.e. estimada] da vizinhança;
Caridosa com os pobres;
Devota da Virgem;
Entendida em seu ofício;
Firme na fé;
Guardosa [i.e. que cuida bem] de sua fazenda;
Humilde a seu marido;
Inimiga de mexericos;
Leal;
Mansa [i.e. no sentido de sossegada];
Nobre;
[H]Onesta;
Prudente;
Quieta;
Regrada;
Sisuda [i.e. séria];
Trabalhadeira;
Virtuosa;
Xpã [i.e. cristã];
Zelosa da sua honra.

Pelo contexto percebe-se que estas palavras indicam as grandes virtudes que se esperavam de uma mulher nessa época, devendo elas aprendê-las juntamente com o próprio abecedário, como as crianças de hoje começam por aprender as letras e significados mais indicadas para os seus próprios contextos. Tristes sinais dos tempos, que estas importantes virtudes já não sejam ensinadas nas mesas da escola…

A lenda de Jiraiya em vídeo

Muito sucintamente, Jiraiya é uma figura famosa do folclore japonês. De facto, é tão famosa que o nome do herói é frequentemente reaproveitado em séries nipónicas, de que Naruto poderá até ser um dos exemplos mais presentes nos nossos dias. Para conhecerem um pouco mais sobre este herói poderão ver o filme apresentado abaixo, datado de 1921, em que a lenda de Jiraiya é retratada de uma forma bastante fácil de perceber.

“Amadis de Gaula” e os infindáveis filhos das figuras da Antiguidade

Amadis de Gaula foi provavelmente o mais famoso de todos os romances de cavalaria produzidos na Península Ibérica. Resumi-lo num punhado de frases soar-nos-ia redutor, mas podemos referir que se trata da história da belíssima Oriana e das muitas aventuras pelas quais Amadis passou em sua honra. E é, de facto, sobre uma dessas aventuras em que hoje nos focamos. Num dado momento Amadis foi capturado por Briolanja, que o amava e que dele desejava ter um filho. Mas será que o herói cedeu às tentações da carne, gerando um rebento com ela?

Capa de Amadis de Gaula

A sua amada Oriana pensou que sim, mas o texto do romance não deixa essa informação totalmente clara. Pelo menos uma das edições a que tivemos acesso parece dar a entender que, originalmente, nada de errado se tinha passado entre as duas personagens, mas também acrescenta que o episódio de Amadis de Gaula em questão foi alterado por ordem do “Infante Dom Afonso de Portugal” (i.e. o filho de Dom Dinis), de forma a dar uma prole compassiva à solitária Briolanja.

Isto é possível de se fazer porque, quase certamente (que nestas coisas nunca podemos ter uma certeza absoluta), Amadis, Oriana e Briolanja se tratavam de personagens ficcionais. Nunca tiveram uma existência fora do campo da ficção, e como tal podem ter as suas existências alteradas como melhor se encaixar na trama. Se um dado editor lhes quisesse, por exemplo, dar 20 filhos e encenar uma batalha de todos eles contra o próprio pai, nada o impediria de o fazer.

 

Voltemos então à Antiguidade, a uma figura como Ulisses. Será que teve filhos de Circe e de Calipso? Por muito que os Poemas Homéricos nos possam levar a uma resposta em particular, absolutamente nada impediria autores posteriores de alterar a história, para que esta se inserisse melhor nos seus objectivos individuais. Desde que respeitassem algumas regras – por exemplo, a virgindade perpétua de Ártemis ou de Atena não deveria ser violada, e seria estranha a existência de um Zeus totalmente fiel à esposa – podiam fazer tudo o que desejassem com as personagens que tinham em mãos. Assim se compreendem as divergências de informação que se encontram em determinadas fontes; uma figura como Príamo podia ter tantos filhos e filhas como necessário para a história. E, nesse sentido, não existe uma resposta certa ou errada ao número e identidade de uma descendência – Amadis, como Ulisses, Édipo, ou qualquer outra figura ficcional, podem ter (e até deixar de ter) filhos e filhas, em número tão grande e diverso como a trama requeira. E, mesmo assim, Oriana e Penélope, como tantas outras heroínas, só seriam traídas se os autores assim o desejassem. Bastaria torná-lo real com palavras ditas ou escritas.

A mitologia do Senhor dos Anéis

O tema da mitologia do Senhor dos Anéis, da autoria de J. R. R. Tolkien, é fascinante, porque se refere a um conjunto de mitos e lendas construídos pelo autor, mas com uma base significativamente realista, em alguns instantes até brevemente derivada dos mitos nórdicos e germânicos. Mas já lá iremos, por agora convém apresentar, de uma forma muitíssimo breve, os quatro principais volumes que compõem a série.

Tudo começa com O Hobbit, em que a personagem principal, Bilbo Baggins, é como que convidado a juntar-se a uma aventura. São muitas as peripécias por que vai passando, mas o mais importante é o facto de este primeiro livro explicar como é que ele obteve o famoso anel que dá nome a toda a série. Sim, também obtém uma grande fortuna, e uma armadura de mithril (um metal ficcional, inventado para esta série), mas esses são elementos secundários face ao próprio anel.

Depois, na trilogia que compõe o Senhor dos Anéis em si mesmo – A Irmandade do Anel, As Duas Torres, e O Regresso do Rei – o que tem essencialmente lugar é um desenvolvimento desse tema inicial, com o herói principal a tornar-se agora Frodo Baggins, numa intenção geral da destruição do poderoso anel, que desde o seu início é apresentado como tendo um misterioso poder de invisibilidade.

A Mitologia do Senhor dos Anéis

Claro que este pequeno resumo é demasiado redutor do interesse de toda a série, mas é mais que suficiente para aqui se introduzir a mitologia do Senhor dos Anéis. Se à partida este anel tem poderes mágicos, o porquê de os ter só vai sendo revelado progressivamente, mas nunca de uma forma completa. É um anel misterioso, cuja completa realidade nunca é revelada, ou pelo menos não como esperaríamos de uma obra de ficção. E, de uma certa forma, esse ambiente de mistério pauta todas estas quatro obras, como também O Silmarillion, obra póstuma em que o universo das lendas da série é explorado de uma forma mais intensa. Por exemplo, quando é apresentada uma área de nome original Helm’s Deep, as personagens até podem comentar sobre a origem do nome, mas fazem-no de uma forma relativamente incerta, como se não tivessem a certeza absoluta do que estão a comentar – apenas o “ouviram dizer”, sem certezas de maior.

 

Essa insegurança, essa imperfeição de muitas das personagens, que não sabem ou já não têm a certeza de algo, é – pelo menos para nós – o elemento mais curioso de toda a mitologia do Senhor dos Anéis, porque preserva um elemento muito realista do mundo. Quem ler uma obra como a Descrição da Grécia de Pausânias, poderá ver que o seu autor, e mesmo as fontes a que foi tendo acesso, nem sempre têm a certeza dos mitos e lendas que comunicam ao leitor. Realisticamente, assim é o mundo – bastará que se recorde, como exemplos nacionais, a Cruz de Popa ou a Pedra Amarela – até porque não sabemos as histórias por detrás de tudo aquilo que nos rodeia.

 

Na trilogia do Senhor dos Anéis, bem como na obra que a precede, é curiosa essa presença, sempre dual, do mito e da lenda. Existe a aventura das diversas personagens, aquela que já apresentámos super sucintamente acima, mas por detrás dela também está contido um palco riquíssimo, que deixa sempre muito que pensar, ainda para mais a quem se interesse por estes temas. Por exemplo, quando Bilbo Baggins e os seus companheiros confrontam o dragão Smaug, fazem-no num contexto muito semelhante ao do confronto germânico com Fafnir, e quando os heróis de uma outra aventura encontram o misterioso – e infinitamente poderoso (?) – Tom Bombadil, como não ver nele um herdeiro das lendas de figuras como o Homem Verde?

 

 Terá sido mera coincidência? Quando construiu estas aventuras, é fácil notar que J. R. R. Tolkien sabia o que estava a fazer, fruto do seu estudo de obras de ficção como Beowulf. E, nesse sentido, se as histórias que nos contou não são, na verdade, derivadas dos mitos nórdicos ou germânicos, têm pelo menos a sua inspiração às costas. Mas, ao mesmo tempo, também são aventuras pautadas por um pensamento tácito, de natureza mitológica e lendária, que raramente se encontra nos nossos dias. E isso acaba por ser interessante, tão interessante como as próprias aventuras que os heróis vão vivendo nas suas páginas. Quem quiser poderá lê-las só por isso, pelas tramas por que vão passando as diversas personagens, enquanto que alguém mais interessado na área da Mitologia poderá, até em alternativa, pensar mais no papel das próprias lendas no espírito de toda a série, em momentos como aqueles em que a personagens discutem entre si histórias e versos que ouviram em outros tempos, mas que não estão necessariamente ligados aos seus próprios feitos.

 

Para quem tiver especial interesse nessa mitologia do Senhor dos Anéis, de Tolkien, deverá começar por ler as quatro obras acima, e poderá depois ler O Silmarillion. Existem, em seguida, obras quase enciclopédicas, como The History of Middle-earth (em 12 volumes), só mesmo para quiser compreender melhor toda a questão, e até existem estudos em Português sobre tudo isto, como o Estudo dos mitos e da construção narrativa em J. R. R. Tolkien, publicado no Brasil em 2018. Mas isso fica para outro dia…