“A espantosa variedade do Mundo”, exposição em Lisboa

Em Lisboa, o Padrão dos Descobrimento tem patente até ao próximo dia 3 de Junho de 2018 uma exposição consagrada ao tema “A espantosa variedade do Mundo”. Mais informação sobre a mesma pode ser lida clicando na imagem abaixo.

O panfleto a ela relativo dá-nos a seguinte introdução:

 

O mundo, natural e social, é uma fonte permanente de espanto, seja pela regularidade da sua ordem, seja pela irrupção do insólito. Estes dois lados vão a par: o insólito rompe a paisagem habitual do mundo e, simultaneamente, confirma-a. Na história cultural da Europa, os “monstros” são a mais notável figura de espanto. Tal como a etimologia revela (do latim monitum que significa advertência), o “monstro” tem a função de chamar a atenção, mostrar. A sua significação não se esgota no insólito da sua forma, valendo igualmente como sinal de algo desconhecido, porventura um acontecimento futuro. A sua fisionomia peculiar resulta de uma profunda alteração operada numa espécie animal ou na combinação de elementos pertencentes a espécies distintas. Enquanto figura de alteridade (o outro enquanto diferente), o “monstro” surge particularmente na literatura de viagens, como em a Odisseia ou nos relatos de viajantes, como Marco Polo, que se aventuraram por terras longínquas, principalmente no Oriente asiático. Os casos emblemáticos, que preencheram o imaginário desde os tempos mais remotos até à Idade Média, são constituídos por indivíduos ou povos fantásticos, que se julgava habitarem as margens do mundo, muito em especial na orla marítima da terra firme. Com a emergência da ciência moderna, no século XVI, e graças ao conhecimento trazido pelos navegadores e exploradores, a ideia de “monstro” vai-se desmistificando, o olhar vira-se para a geração destes seres prodigiosos, indagando se se tratam de meras anomalias ou formas curiosas de uma natureza multifacetada. 

 

Fica a convite para que os leitores visitem esta exposição repleta de Blémias, Ciclopes e outras tantas criaturas, que popularam o mundo desde tempos da Antiguidade quase até aos nossos dias, e que ainda hoje continuam a habitar o nosso imaginário.

A queda de Satanás

Quem procurar na Bíblia mais informações sobre a origem e a queda de Satanás certamente acabará frustrado – quase nenhuma informação aí existe em relação a esse tema. De facto, a história completa da queda de Satanás – também conhecido por Lucifer ou Samael (nome que supostamente significa “veneno de Deus”) – surge de uma forma mais directa somente no Talmude judaico, em que nos é dito que Satanás e os outros anjos foram criados antes dos seres humanos. Mas depois, quando Deus quis criar os seres humanos, alguns dos anjos recusaram-se a aceitar a supremacia dessa nova criação, considerando-se como iguais – ou até superiores! – a Deus e, como tal, foram precipitados do céu pela figura divina e consumidos pelo fogo.

A queda de Satanás

Tenha-se em conta que, como já referido, esta história da queda de Satanás não é bíblica, mas está hoje já tão enraizada na cultura popular que parece ser a principal, quase a única, que se conta sobre toda esta ocorrência. E, de facto, até Leite de Vasconcelos nos preservou uma versão oral nacional de toda a história, com as seguintes linhas, que aqui reproduzimos na sua totalidade:

Quando Deus foi fazer o Inferno ficou Luz-de-Vela na cadeira divina; ao voltar, não lhe queria Luz-de-Vela restituir a cadeira, alegando que o Senhor lha tinha dado. Dizia o Senhor:
— A cadeira é minha, emprestei-ta, não ta dei.
Luz-de-Vela ateimava muito e pôs uma demanda com o Senhor. O Senhor apresentou a Lua, a Água e o Sol como testemunhas de que tinha emprestado, e não dado, a cadeira. A Lua e a Água juraram falso; o Sol jurou a verdade, respondendo ao Senhor:
— O que é dado, é dado; o que é vendido, é vendido; o que é emprestado, é emprestado. Portanto a cadeira é vossa.
Deus então castigou a Lua (que era tão linda como o Sol), tirando-lhe os raios para os dar ao Sol; castigou também a Água, obrigando-a a correr sempre, sem nunca estar queda. Luz-de-Vela era antes disto o maior Anjo do Céu, depois ficou o maior Diabo do Inferno e chama-se Lúcifer.

 

Esta breve adaptação da história original da queda de Satanás parece ser bastante antiga – pense-se no aqui-estranho nome de “Luz-de-Vela”, talvez uma versão corrompida do nome em outra história, ou mesmo em Latim – mas preserva o cerne de toda a trama, fazendo dessa personagem principal uma figura que se recusou a aceitar o poder divino e se insurgiu contra o Criador. Isto demonstra a contínua popularidade de um relato que já tem centenas, quase milhares, de anos…

Uma espécie de “Vingadores” da Idade Média

No texto medieval Culhwch and Olwen juntam-se ao herói um conjunto de figuras dignas de nota. Assim, Culhwch recebe a ajuda do famoso Rei Artur, mas também dos seguintes heróis, todos eles muito menos conhecidos:

 

  • Gwrhyr, capaz de falar com pássaros e animais, bem como transformar-se nos mesmos.
  • Mewn, com o poder de tornar invisíveis todos os companheiros.
  • Morvran, que não era atacado pelos adversários devido à sua fealdade.
  • Sandde Bryd, que não era atacado pelos adversários devido à sua beleza.
  • Sgilti Yscawndroed, com a capacidade de correr sobre os ramos das árvores e sobre a relva sem os pisar.
  • Drem, senhor de umas capacidades visuais incríveis.
  • Gwadyn Ossol, para quem a maior montanha era pouco mais do que uma planície.
  • Sol, que aguentava ficar o dia inteiro num só pé.
  • Gwadyn Odyeith, lançava fagulhas dos pés.
  • Gwevyl, que conseguia cobrir-se totalmente com os lábios quando estava triste.
  • Ychdryt Varyvdraws, com uma barba extensível.
  • Yskyrdaw e Yseudydd, rápidos como o pensamento.
  • Klust, que mesmo enterrado conseguia ouvir uma formiga a sair da sua toca a mais de 80 Km de distância.
  • Gwiawn, conseguia remover um grão de areia do olho de uma mosca com um só golpe.
  • Ol, com o dom de conseguir seguir o rasto de porcos que tinham desaparecido sete anos antes de ter nascido.

 

Por muito curiosos que todos estes invulgares poderes nos possam parecer, a associação de diversos heróis, cada um deles com capacidades especiais pouco comuns, não é uma novidade dos nossos dias. Já na Antiguidade Jasão tinha nos seus Argonautas um conjunto de figuras dispostas a seguirem-no na sua difícil aventura, e ideias como essas continuariam a repetir-se ao longo dos séculos, através de exemplos famosos como os Cavaleiros da Távola Redonda. Mas será que conhecem outros exemplos como os agora mostrados em Vingadores: Guerra do Infinito?

“Decameron”, de Giovanni Boccaccio

Cena do Decameron, de Giovanni Boccaccio

O Decameron (ou Decamerão) é certamente a obra mais famosa de Giovanni Boccaccio. A sua trama é relativamente simples – com a intenção de escapar a uma praga (qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência), 10 pessoas reúnem-se durante duas semanas e partilham uma centena de histórias. Porém, é mesmo dessas histórias secundárias que surge o verdadeiro charme do texto, na medida que nos preservam um conjunto de informações que, de outras formas, não teríamos nos nossos dias. Muitas das histórias deste Decameron são adaptadas do Oriente e da Antiguidade (por exemplo, uma delas provém de Xenofonte de Éfeso), outras de possíveis tradições orais, mas se as referências mitológicas são quase inexistentes ainda é aqui notável uma influência basilar da forma de obras como Noites Áticas, de Aulo Gélio.

 

Para quem estiver curioso sobre o Decameron, esta famosa obra do Renascimento Italiano, mas não quiser lê-la por completo, um brevíssimo resumo das histórias aí contidas pode ser encontrado aqui.

O que pensa a religião do conceito de evolução?

Aqui pode ser lido um pequeno artigo em inglês sobre o que diversos grupos religiosos pensam sobre o conceito de evolução; se alguém que pertença a outros grupos religiosos ler estas linhas, por favor deixem-nos também as vossas próprias opiniões sobre o tema.

 

Ainda hoje, muitas pessoas tendem a pensar que só pela referência a “Adão e Eva” os Cristãos já negam completamente a ideia de qualquer possibilidade de evolução, mas, curiosamente, já nos tempos de Filo de Alexandria e Santo Agostinho essa história era vista com alguns contornos metafóricos. O segundo destes autores até admite, de uma forma indirecta, uma potencial crença naquilo que viria a ser conhecido como “evolução”, quando, referindo-se aos Blémias (uma espécie de figuras humanas sem cabeça e com a cara no peito), escreveu “assumindo que se tratam de humanos [i.e. por oposição a animais], descendem certamente de Adão”.