O que nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?

É uma questão que parece assolar a mente da humanidade há já vários milénios – o que nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?

Afinal de contas o que nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?!

Como parecerá óbvio à maioria dos leitores, não seremos nós a descortinar esse enome mistério, mas o que pretendíamos apontar aqui é que essa questão, da proverbial escolha entre o ovo e a galinha, é, de facto, tão antiga como as próprias obras literárias que nos foram chegando. Já aparecia nas obras de Aristóteles, mas também em obras latinas como as de Plutarco e de Macróbio, em que normalmente até são expostos diversos argumentos em relação aos dois lados da questão. Um dos autores menos conhecidos que falou sobre esta mesma questão, Censorino, até dá uma possível solução – diz-nos então que as coisas que existem nunca tiveram um princípio e jamais terão um fim. Não era caso único – outros diziam que a primeira galinha não nasceu de um ovo, mas que foi pura e simplesmente criada pelos deuses.

 

Portanto, permanece a questão – quem nasceu primeiro, afinal de contas? Fica, como sempre, o convite para que partilhem as vossas opiniões nos comentários!

Origem da expressão “A verdade no vinho”

A verdade no vinho – ou como diziam os antigos, in vino veritas. Isto quer dizer, essencialmente, que toda a verdade das pessoas podia ser obtida através da influência do vinho.

 

A expressão leva-nos essencialmente à ideia, difícil de refutar, de que as pessoas que já beberam demasiado frequentemente revelam muito mais do que deveriam, chegando até ao ponto de dizer coisas que, mais cedo ou mais tarde, até acabarão por prejudicá-las. Essa é uma dualidade da bebida do famoso deus que bem pode ser apreciada nas mais diversas obras, entre elas a Dionisíaca de Nono.

Mas qual a origem da expressão “A verdade no vinho”? Muitos são os autores da Antiguidade que a repetem, não só em letra como em espírito, sendo bastante provável que se tenha tratado de uma expressão muito popular já desde esses tempos. Bebamos, então, aos encantos trazidos pelo deus, mas sem excessos!

Origem da expressão “Morrer a rir”

A fama desta expressão pode levar-nos a uma questão invulgar – será que já alguém morreu a rir? Que verdade existe por detrás da ideia? Infelizmente, se autores como Homero, no livro 18 da Odisseia, ou Terêncio até usam expressões a ela muito semelhantes, parecem fazê-lo de uma forma que é exclusivamente metafórica, um puro exagero com o objectivo de indicar que alguém se riu bastante.

Nas obras que investigámos parecem ter existido pelo menos duas figuras da Antiguidade que morreram a rir – o pintor Zeuxis, depois de uma velhota lhe ter pedido para ser o modelo por detrás de um retrato de Afrodite, e o filósofo estóico Crísipo, após ver um burro a comer figos (acção que até pontuou com uma piada, “agora dêem-lhe também algum vinho”). Por isso, se até pode existir um caso bem real por detrás de toda a expressão, esta parece ter tido, como ainda hoje, uma essência figurada.

Qual é a origem das fadas?

Se muitas das histórias de fantasia dos nossos dias tomam partido destas figuras, qual é a origem das fadas, suas lendas e mitologia? Quem são elas? Quando ouvimos os seus nomes ficamos, automaticamente, com um conjunto muito específico de características em mente – criaturas pequenas, com asas, mágicas, que vivem nos bosques, etc. Mas de onde vêm essas ideias, como nasceram estas singulares criaturas?

As Fadas de Cottingley e a origem das fadas

Por estranho que nos pareça, as fadas não têm uma origem na literatura da Antiguidade, mas sim algures no espaço temporal que a separou da Idade Média. De facto, de todas as obras gregas e latinas que nos chegaram, apenas o segundo livro das Núpcias de Filologia e Mercúrio parece fazer uma breve referência a elas, quando identifica como longaevi (i.e. com muita idade) os seres que viviam nas florestas, entre os quais se contavam os usuais faunos e ninfas, mas também outros, menos conhecidos, chamados “Fatui, Fatuae, Fantuae e Fanae“. Nada nos é dito especificamente sobre estes últimos, com excepção de que todo esse grupo de criaturas vivia muito tempo – mais que os seres humanos, mas menos que os deuses – e tinha alguns poderes especiais, como o de prever o futuro. Tendo em conta que Marciano Capela foi um autor do século V da nossa era – um dos últimos da grande Roma – o seu silêncio em relação ao tema é muito esclarecedor, sendo possível que se tratassem de criaturas da cultura popular, sobre a qual nenhuma outra obra da época nos informa directamente.

 

Nos séculos seguintes estas figuras parecem nascer e crescer progressivamente, mas sem que se saiba especificamente o que aconteceu. As suas características específicas vão sendo apresentadas e assimiladas por diversos autores – o facto destas criaturas serem longaevi, de terem uma estatura indefinida mas indisputavelmente mais pequena que a dos humanos, etc – mas sem que alguma vez possamos apontar um momento totalmente preciso para a primeira referência concreta a uma fada composta pelas mesmas características que lhes damos hoje.

 

Quererá isto dizer que as fadas simplesmente apareceram na literatura da Idade Média “porque sim”, sem que saibamos realmente como isso aconteceu? Mais ou menos… existem algumas teorias interessantes sobre o tema. Apenas para dar um breve exemplo, C. S. Lewis, na sua obra The Discarded Image, refere quatro possibilidades para a origem destes seres:

– Elas são uma espécie racional de um terceiro tipo, diferente dos anjos e dos homens;

– Elas são “anjos caídos”, mas pertencentes a um grupo diferente do comandado por Lúcifer;

– Elas são uma classe muito particular de mortos;

– Elas são demónios.

 

Cada uma destas teorias tem muito que se lhe diga, mas todas elas assentam na ideia de que estas criaturas não apareceram, pura e simplesmente, na nossa cultura como brotantes de um vazio. A sua ideia-base, bem como a forma como as suas características se foram desenvolvendo, assenta num conjunto de crenças que até podemos associar a outras figuras anteriores, desde os deuses gregos e romanos até a figuras místicas e eventos mais associadas ao Cristianismo.

 

[Adicionado posteriormente:]

Recentemente, adquirimos um livro intitulado Les Fées du Moyen-Age, da autoria de L. Maury, que acrescenta alguma informação a esse tema, não só relativamente à origem destes seres mas também dos gnomos e os trolls.

As Fadas de Cottingley e a origem das fadas 2

Aparentemente, as fadas podem provir das fatae latinas. Se sabemos que as ideias pagãs, após a ascenção do Cristianismo, sobreviveram mais tempo nas pequenas povoações do campo do que nas grandes cidades, o que parece ter acontecido é que existiu um desenvolvimento paralelo (e pouco documentado) de algumas crenças. Assim, uma crença nas fatae – em termos de Destinos, Moirae, etc. – parece ter-se indo associando a alguns locais rurais específicos, e depois foi evoluindo através de um sincretismo de outras crenças antigas. Por exemplo, a sua magia e conhecimento do futuro poderá vir dos Destinos romanos; as suas danças, das que tinham lugar nos rituais de Baco; a sua longa idade, da dos Sátiros campestres; a sua pureza, da das sacerdotisas; o seu local de habitação, da antiga veneração de árvores, cavernas e cursos de água; etc.

 

O curioso desta possibilidade para a origem das fadas é que permite, aqui e ali, reencontrar vectores de ligação aos mitos da Antiguidade. Quando a Bela Adormecia é destinada, por uma fada malévola, a se picar numa roca de fiar, não se torna fácil ver nessa história uma alusão ao carácter fiandeiro e destinador das três Moiras dos Gregos, agora vistas como malévolas por influência do Cristianismo? Quando um cavaleiro medieval encontra a Senhora do Lago arturiana, não estariam os autores da história a pensar ainda nas Ninfas de outros tempos, que também ajudavam alguns heróis? E as asas destas criaturas, não poderão elas provir das de Eros/Cupido?

 

Face a esta argumentação, parece-nos justo, por fim, ver na origem das fadas uma amálgama de múltiplas crenças pré-cristãs, que ao longo dos séculos se foram cristalizando numa só figura de muitos atributos, tanto salvadora como destruidora (mediante quem a vê), e que parece ir mantendo funções dispersas que o Cristianismo tanto tentou eliminar e/ou sobrescrever com o culto dos santos.