Os homens que comiam tudo… mas TUDO mesmo!

Uma das sequências do Cronógrafo de 354 apresenta-nos uma pequena crónica da cidade de Roma. Poderia parecer-nos natural a referência a diversos prodígios que foram tendo lugar ao longo dos séculos – como o caso de uma porca que, no reinado de Lúcio Vero, deu à luz um elefante – mas tais factos até se tornam credíveis face a dois relatos de homens que comiam bastante, como veremos.

 

O primeiro deles surgiu no reinado de Nero. Alexandrino de nacionalidade, este Harpocras comeu uma porca selvagem, uma galinha viva (com penas), 100 ovos, 100 pinhas, vidros partidos, uma vassoura, quatro guardanapos, uma leitoa, um conjunto de feno, entre outras coisas e… ainda ficou com fome!

Um segundo homem, tão singular como o primeiro, surgiu no reinado de Alexandre Severo. De nacionalidade italiana mas de nome desconhecido, comeu uma caixa, alfaces, uma caixa de sardinhas (presume-se que vazia), 10 sardinhas, 70 melancias, uma vassoura, quatro guardanapos, quatro pães grandes, uma (outra) caixa, um cardo com espinhos, além de beber bastante, e… ainda parecia ter fome!

 

Qual seria a história destes dois desconhecidos, a que o texto chama “polífagos”? Seria mesmo isto verdade, ou uma qualquer piada cujo verdadeiro sentido se perdeu com o tempo?

“Gesta Danorum”, de Saxo Grammaticus

A Gesta Danorum, ou se preferirmos numa versão mais aportuguesada (que nos soa um pouco estranha), os Feitos dos Danos, de Saxão Gramático, é uma crónica que junta mitos, lendas e história verdadeira ao longo dos seus 16 livros. Escrita por volta do século XII, é talvez uma das mais importantes fontes para a história dos países nórdicos.

 

Um dos aspectos mais cativantes da obra é o facto de conter discursos poéticos, supostamente baseados no que as personagens realmente terão dito nessas alturas, e que segundo o autor já eram “recitados de memória por aqueles que conheciam os antigos feitos”.

 

Outro elemento curioso é a forma, por vezes até um pouco confusa, como o autor aborda os feitos e as identidades de figuras mitológicas. Num dado momento até diz que eles são somente seres humanos que pelos seus feitos acabaram por ser vistos como deuses, mas mais à frente, sem qualquer tipo de justificação, atribui-lhes características e eventos que só seriam possíveis tratando-se eles de divindades. É provável que a grande dificuldade tenha passado pelo facto de reter esses eventos na trama sem se recorrer a elementos mais místicos.

 

Um terceiro aspecto digno de nota é que esta é a principal fonte para a história de Amleth, o príncipe da Dinamarca que deu lugar à tragédia Hamlet de Shakespeare.

 

Se esta até não é, provavelmente, uma obra que dê muito prazer a um leitor comum, é de uma importância histórica inegável, pelo menos para aqueles que tenham interesse na história e mitos dos países nórdicos.

Histórias do Zodíaco #9 – o Sagitário

Se muitos são os símbolos do zodíaco cujas histórias se encontram envoltas em alguma neblina, o mesmo não se passa com o caso do Sagitário, em relação ao qual todos os autores consultados parecem concordar numa mesma figura e versão da história.

 

O Sagitário tratava-se então de Quíron, um centauro que foi tutor de diversos heróis, entre eles Aquiles, Héracles e Pátroclo, só para referir alguns dos mais famosos. Vários anos mais tarde e no decurso dos seus famosos trabalhos, Héracles feriu acidentalmente Quíron com uma das suas flechas, as mesmas que tinham sido banhadas no sangue venenoso da Hidra de Lerna. Isto causou uma dor imensa ao seu antigo professor, mas visto que este era imortal, a sua dor também jamais cessaria. Para impedir que isso tivesse lugar, Quíron pediu então aos deuses que lhe retirassem o dom da imortalidade, algo a que estes acederam. Depois, foi colocado entre as estrelas, onde ainda hoje pode ser visto, juntamente com uma flecha; se esta se tratava da mesma que o feriu, ou uma das que ele próprio possuia, não se sabe.

Qual o significado do nome do Coliseu de Roma?

Pergunte-se, qual o significado do nome do Coliseu de Roma? Na verdade, o Coliseu é provavelmente o mais famoso de todos os monumentos da cidade de Roma, mas o seu nome original era simplesmente o de Anfiteatro Flaviano. Portanto, de onde vem, e qual o significado, por detrás do nome pelo qual o conhecemos hoje?

Significado do nome do Coliseu

Bem, diz a história que em Roma existia uma enorme estátua de Nero, a que era dado o nome de Colosso. Foi depois convertida numa representação do deus Sol, antes de ser relocalizada para um local mais próximo do recinto em que tomavam lugar as lutas de gladiadores. Esta foi desaparecendo com o tempo, sendo uma das suas últimas menções no Cronógrafo de 354 – aquando da referência ás 14 regiões de Roma, perto do Templo da Paz é referida a existência de um “colossum altum pedes CII s. habet in capite radia numero VII singula pedum XXII s.“, ou seja, de uma estátua com 102 pés de altura, na cabeça da qual estavam colocados sete raios com 22 pés de comprimento. É desconhecido o que depois aconteceu com essa estrutura, mas hoje só dela resta uma desinteressante parte da base, que ainda pode ser vista por perto do próprio Anfiteatro Flaviano, sem que já nada nos remeta para a sua beleza original. Mas depois, face ao desaparecimento do Colosso, o famoso nome foi sendo associado ao monumento próximo, que passou a ser conhecido como Coliseu…

“A History of the Corruptions of Christianity”, de Joseph Priestley

Esta é uma obra interessante, na medida que os seus capítulos sucessivos vão apresentado as crenças religiosas e a estrutura social dos inícios do Cristianismo, para depois demonstrar como essas mesmas ideias foram evoluindo ao longo dos séculos, de alguma forma “corrompendo” a sua pureza e intenção original. Se o seu autor nem sempre é muito sistemático ou imparcial na forma como aborda o tema, ele divide essas alterações em três grandes períodos e traça, de uma forma relativamente simples, o que foi acontecendo e com que bases tomou lugar. É, portanto, uma obra que ao longo das suas 350 páginas pode servir de introdução à história teológica e social do Cristianismo, desde os seus inícios até à Reforma Protestante no século XVI.