“Fábulas”, de Higino

Estas Fábulas de Higino são uma obra um pouco difícil de definir, pelo facto de serem bastante inconstante. A obra apresenta 300 tópicos, divididos entre mitos e informações mitológicas (genealogias, listas de personagens que fizeram “algo”, etc), mas nem sempre parece seguir uma ordem óbvia. Muitas vezes, o autor vai seguindo as histórias associadas a uma dada figura, apenas para mais tarde voltar à mesma, e dar elementos adicionais. Muitas vezes contradiz-se, fala de um mito com total certeza, apenas para, umas linhas abaixo e sem qualquer aviso, dar uma versão demasiado diferente. Dificilmente o autor desta obra éo mesmo daquela que ontem aqui falei, mas trata-se, nesse ponto, de uma opinião meramente pessoal.

 

Apesar da desorganização de ideias, há que dar o devido crédito a autor que, como este, preservou tantos mitos, muitos deles tão obscuros que só aqui estão preservados. E é, então, nesse ponto que reside o interesse desta obra, esse calhamaço de mitos e versões, preservados num só local, para todos aqueles que os quiserem ler… desde que tenham em conta que, em muitos casos, a versão mencionada pelo autor pode não estar totalmente correcta, ou pode contrastar com a que este mesmo autor dá noutro lugar lugar da obra.

“Astronómica Poética”, de Higino

A Astronómica Poética, ou Da Astronomia, de Higino, contém as histórias mitológicas de mais de quatro dezenas de constelações e corpos celestes. Claro que existem várias outras obras sobre esse tema, mas esta tem a particularidade do autor apresentar, para cada uma delas, não só o mito mais conhecido, mas também várias versões que suportam outras possibilidades, muitas vezes citando ideias de autores que, para nós, hoje, são nada mais do que nomes. Dada a singularidade de alguns momentos da obra, achei que devia deixar por cá alguns exemplos:

 

Relativamente a Andrómeda, após contar a história, Higino remata com “About her Euripides has written a most excellent play with her name as title”, uma peça que não nos chegou aos dias de hoje.

 

Sobre o mito de Perseu, figura também colocada entre as estrelas, o autor dá-nos alguma informação adicional, menos conhecida: “When sent by Polydectes, son of Magnes, to the Gorgons, he received from Mercury, who is thought to have loved him, talaria and petasus, and, in addition, a helmet which kept its wearer from being seen by an enemy. So the Greeks have called it the helmet of Haides [the Unseen One], though Perseus did not, as some ignorant people interpret it, wear the helmet of Orcus himself, for no educated person could believe that. He is said, too, to have received from Vulcan a knife made of adamant, with which he killed Medusa the Gorgon. The deed itself no one has described”.

 

O mesmo autor também nos reconta um mito a ter lugar em Portugal, relativo à constelação do Ofiúco: “Polyzelus the Rhodian, however, points out that this is Phorbas, who was of great assistance to the Rhodians. The citizens called their island, overrun by a great number of snakes, Ophiussa. In this multitude of beasts was a snake of immense size, which had killed many of them; and when the deserted land began finally to lack men, Phorbas, son of Triopas by Hiscilla, Myrmidon’s daughter, when carried there by a storm, killed all the beasts, as well as that huge snake. Since he was especially favored by Apollo, he was put among the constellations, shown killing the snake for the sake of praise and commemoration. And so the Rhodians, as often as they go with their fleet rather far from their shores, make offerings first for the coming of Phorbas, that such a happening of unexpected valor should befall the citizens as the opportunity for glory which brought Phorbas, unconscious of future praise, to the stars.”

fontes

 

Esta é, então, uma obra simples na sua forma mas complexa no seu conteúdo, pelo facto de recontar diversos mitos e histórias para as quais, infelizmente, não temos qualquer outra fonte, e sobre as quais muito dificilmente poderíamos verificar se estão correctos. Se muitos dos mitos aqui constantes são bem conhecidos, já outros são muito obscuros, mas não deixam de ser igualmente interessantes. Para quem se interessar pelo tema, aqui fica a referência a esta obra!

“Antehomérica”, de Tzetzes

Esta Antehomérica, que agora já está disponível em tradução aqui, é o terceiro (ou, se formos pela ordem cronológica, o primeiro) em que Tzetzes aborda o tema da Guerra de Tróia, falando não só dos eventos que precedem a guerra mas, até, os eventos que acabam por anteceder a Ilíada, contando-nos uma prévia invasão dessa região, o nascimento de Páris, o rapto de Helena (chegando ao ponto de dizer que, nessa altura, Helena tinha 26 anos, e Páris 30), a morte de Protesilau e a famosa fidelidade da esposa deste, bem as várias aventuras (e a morte) de Palamades, o último episódio deste texto, com esse herói a prever a praga que ia depois ser enviada pelo deus Apolo, um dos primeiros eventos a tomar lugar no texto homérico.

 

Claro que, a abordar todos estes temas, Tzetzes opta por uma descrição sumária, mas são pelo menos dois os casos em que o autor deixa entender, de forma muito clara, que a versão que ele está a contar é apenas uma de muitas. Infelizmente, pouco desenvolve em relação a essas outras possibilidades de trama, mas isto permite-nos entender que, como nos seus outros dois textos que já aqui foram tratados, o autor prende-se não tanto com a possibilidade de contar uma história una, uma versão definitiva, dos acontecimentos, mas sim com recontar algo que sabe, que já leu, e que tenta preservar nas suas próprias linhas.

O “Romance de Tróia”, de Benoît de Sainte-Maure

O que se pode dizer sobre este Romance de Tróia, de Benoît de Sainte-Maure? É talvez um dos mais importantes poemas da Idade Média, abordando a matière de Troie e que muita influência acabará por ter em obras posteriores. Como o autor não se cansa de referir no decurso da obra, esta foi escrita baseando-se nos relatos de Díctis e de Dares, mas também tem a influência de pelo menos mais uma fonte.

 

Quem conhecer os relatos de Díctis e Dares bem saberá o quanto se afastam dos relatos de Homero, mas essa não é a única alteração feita a toda a trama. Este texto de Benoît de Sainte-Maure está repleto de alterações à trama mais conhecida, a de Homero, muitas vezes em situações e momentos de uma extrema importância. Se continua a ser Aquiles a figura que mata Heitor, vários outros episódios mudam de ordem ou sofrem alterações bastante significativas, com o filho de Aquiles a matar Pentesileia, Mémnon a surgir muito mais cedo no campo de batalha (mas como uma figura menor), Páris a sofrer uma morte muito diferente, e assim por diante.

 

Além dessas alterações, o autor também adicionou diversos episódios à trama, alguns de cariz amoroso – Jasão e Medeia (nos momentos introdutórios), Páris e Helena, Troilo e Briseida, Aquiles e Políxena, e, até certo ponto, Heitor e Pentesileia – outros para dar uma maior ênfase ao combate (a obra tem mais de 15 secções de combate, intervaladas com períodos de tréguas para enterrar os mortos), e ainda vários de fartas descrições de personagens ou locais.

 

De uma forma geral, mais do que uma adaptação da Ilíada, da Odisseia, ou até dos vários textos em que o autor admite basear-se, este é um texto em que Benoît de Sainte-Maure parece ter pegado em personagens e situações da Guerra de Tróia e, de uma forma que nem sempre é a mais correcta ou fiel, feito delas algo um pouco diferente da sua função nos textos originais, gerando algumas situações de conflicto que, ou não existiam nas versões anteriores, ou estavam um pouco mais ocultas. Isto é muito visível, por exemplo, no caso de Aquiles e Políxena, com o surgimento de toda um jogo amoroso/psicológico e político que daria a mão de Políxena a Aquiles, mas que também deveria levar ao final da guerra; quando isso não vem a acontecer, é nessa sequência que o herói acaba por morrer, mas em que Políxena também parece estar quase totalmente livre de culpas, acabando, contudo, ainda assim por ser sacrificada no túmulo do herói.

 

Outro aspecto curioso é o facto da obra juntar nas suas linhas elementos da Antiguidade com figuras e situações cristãs. Em pelo menos um momento, o autor faz alusões à História Natural de Plínio; muitas vezes, na sua narração menciona os (aqui poucos) deuses envolvidos na trama, mas da boca das personagens não deixam de sair referências a Deus; figuras como Júlio César confrontam-se com Salomão, e a descrição de diversas estátuas e locais, a que já aludi acima, tende a juntar elementos antigos a referências e símbolos muito medievais, mais conhecidos e usados em obras como o Romance da Rosa.

 

Em suma, mais que um texto de e sobre Tróia, esta é uma obra que parece pegar nos elementos que estavam disponiveis para o seu autor e tenta uma reinvenção das personagens e situações, levando-as a um novo público que, agora, esperava não só um resquício da Antiguidade, mas uma adaptação das histórias que já existiam ao seu tempo e lugar, ao seu gosto. E é precisamente isso que Benoît de Sainte-Maure aqui tenta trazer de volta, um poema que preserva alguns dos elementos originais, mas que também tem muita matéria nova para ser explorada, fundindo a matéria que Homero mais popularizou com a forma em voga na altura em que este seu reinventor viveu. Não deixa de ser um livro interessante, mas também não é para todos…

“Homérica”, de Tzetzes

Esta Homérica é outro daqueles textos que até há poucos dias não existia traduzido, mas que pode, agora, ser encontrado em tradução inglesa, e de forma totalmente gratuita, neste endereço.

 

Em relação a ele, posso dizer que, como o próprio nome facilmente dá a entender, este é um texto em que Tzetzes resume a trama de um dos poemas homéricos, a Ilíada. De uma forma geral, o resumo é consistente com o texto atribuído a Homero, divergindo em dois pontos essenciais, com a cólera de Aquiles a ser atribuída também a um episódio com Palamedes (um elemento que, supostamente, Homero teria omitido para não criticar os Aqueus), e o episódio em que Príamo pede o retorno do corpo de Heitor a receber um tratamento mais prolongado e, pelo menos a meu ver, mais interessante, em que algumas figuras troianas também insistem nesse pedido. Se mais nenhuma razão existisse, pelo menos esse segundo ponto já justifica a leitura da obra, nessa sua apresentação de uma outra versão de um famoso episódio da Ilíada.