Faz hoje 10 anos que este espaço começou!

Aparentemente, faz hoje 10 anos desde que este espaço começou. Para comemorar, eu pretendia lançar uma iniciativa única (ficará para o mês que vem, se tudo correr bem) mas, como alternativa, nos próximos sete dias irei aqui apresentar sete pequenos, mas curiosos, mitos.

 

Também, não gosto lá muito de escrever na minha primeira pessoa, como disse várias vezes ao longo desses anos, mas acho que, desta vez, devo voltar a fazê-lo.

 

Há 10 anos, claro que eu não sabia que ainda iria aqui estar após todo este tempo, e se estou, devo-o a todos aqueles que me inspiraram a tal. Devo-o tanto a Cícero, a Ovídio (“Naso magister erat”), a Heraclito, a Dante, a incontáveis outros autores do passado, como àquela jovem que, há muitos anos atrás, me pediu ajuda para um trabalho sobre os Argonautas; a quem fotocopiou páginas e páginas de uma raríssima obra para me possibilitar aceder a dados conteúdos; ao professor que respondeu sempre a todas as minhas questões; a quem me perguntou sobre a influência do Neoplatonismo nas doutrinas do Cristianismo, e a outros tantos que tais. É para todos eles que eu ainda escrevo, mas também – e como escrevi ainda há pouco tempo – para todos aqueles que queiram seguir estas linhas, seja hoje mesmo, ou num qualquer dia futuro.

 

Obrigado. Venham outros 10 anos… ou algo assim.

“Dafnis e Cloé” de Longo, e a primeira flauta de Pã

Dafnis e Cloé é como que um “romance” (as aspas são intencionais, e devidas ao facto de vários especialistas nem sequer saberem bem em que consiste esse género literário) escrito na Antiguidade, por volta do século II d.C. e por um autor que, possivelmente, se chamaria Longo. A história é simples, com dois jovens abandonados pelos pais a serem criados por animais e, já na sua adolescência, a apaixonarem-se, e aprenderem as artes do amor juntos. Como é natural nestas tramas, eles acabam por ficar juntos, mas não sem antes passarem por algumas peripécias.

 

É uma obra muito simples, mas também nos permite constatar algo de curioso na cultura desses primeiros séculos da nossa era: se autores como Séneca, Cícero ou Santo Agostinho se focam num dado tipo de mitos, os mencionados nesta obra prendem-se sempre com um outro tipo de cultura, mais simples e própria dos pastores, em que figuras campestres como Pã, as Ninfas ou Cupido têm um papel mais central, e em que figuras que nos pareceriam tão importantes, como Júpiter, têm um papel mais secundário, sendo muito raramente mencionadas.

 

É nessa sequência que o autor da obra nos conta o mito da primeira flauta de Pã – o deus estava apaixonado por uma mulher, mas esta rejeita-o, e foge dele, morrendo num canavial. Então, o deus constrói essa primeira flauta, a que viria a dar o nome, com as mesmas canas em que a amada morreu, cortando-as de diferentes tamanhos visto que o amor entre eles também era desigual.

 

Este pequeno mito, como o famoso mito de Eco (também contado nesta obra), parece-me mais facilmente atribuível a uma cultura de pastores do que a um estrato social mais elevado, e se alguns instantes da obra até nos remetem a mitos muito mais conhecidos – num dado instante, a maçã que uma das personagens dá a outra é equiparada à que Páris, também ele um pastor, deu a Vénus – o tema pastoral está sempre presente, como o estão as três singulares figuras já acima mencionadas. Seria, portanto, Longo um pastor, ou alguém familiarizado com essa cultura menos conhecida na época? Infelizmente, pouco sabemos sobre o autor, mas parece-me até muito provável que sim.

Onde ficava Tróia?

Hoje fui confrontado com uma questão que achei que não podia ignorar, quando alguém se perguntou “Onde ficava Tróia?”, referindo-se, sem dúvida, à Tróia dos poemas de Homero.

 

De uma forma muito simples, eu poderia, simplesmente, dizer que não sabemos onde ficava a Tróia de que nos fala Homero. Mesmo na Antiguidade, muitos já eram os autores que debatiam esse tema, e se muitos foram aqueles que davam as suas opiniões, parece-me também que não existia nenhuma opinião totalmente convicente, a que todos eles aderissem de uma forma una.

 

Agora, se num século muito mais recente Heinrich Schliemann “descobriu” (as aspas são intencionais) Tróia, essa é uma possível “descoberta” cujo caminho não é simples, e que pode ser explorado na sua obra Troja und seine Ruinen (em Português, algo como “Tróia e as suas ruínas”). Caberá ao leitor, com base no conteúdo da mesma, avaliar se os argumentos de Schliemann são convincentes, ou se apenas serviram para esse autor ver o que queria ver. Se nos poderá parecer, à primeira vista, que essa segunda opção é a mais lógica, ao mesmo tempo também não podemos descurar o facto de, nessa sua obra, o autor tirar várias elações que fazem muito sentido, muito mais sentido do que poderíamos pensar antes de a ler.

 

Serão, então, a Tróia de Schliemann, localizada na turca Hisarlik, e a de Homero, uma só? Essa é uma questão à qual eu dificilmente saberia responder, mas convido todos os interessados no tema a lerem a obra de Schliemann e, com base no que ela lhes disser, formarem as suas próprias conclusões.

A disputa de Corinto

É famosa a disputa de Poseidon e Atena pela cidade de Atenas, mas, aparentemente, essa não foi a única disputa a ter lugar nos mitos da altura. Favorino e Pausânias, por exemplo, mencionam também que Poseidon e Hélio disputaram a cidade de Corinto, e até que Briareu foi o juíz dessa outra grande disputa, acabando por dar parte da cidade a cada um desses dois deuses, com Hélio a ficar com as partes mais elevadas, enquanto que Poseidon ficou com o resto da região.

O “Escudo de Héracles”, de Hesíodo

O Escudo de Héracles é um pequeno texto atribuído a Hesíodo, que fazia certamente parte de uma obra maior (talvez algum catálogo?), mas na sua forma fragmentária actual apresenta-nos, essencialmente, três episódios mitológicos distintos.

 

O primeiro deles, que serve de introdução, fala do nascimento de Héracles e do seu irmão Iolau. Leva-nos, depois, a um momento em que os dois heróis encontram Cicno e Ares. É nesse momento que surge o segundo episódio, em que é descrito o escudo de Herácles, em palavras muito semelhantes às da Ilíada. A esse se sucede o terceiro episódio, em que Héracles luta com Cicno, derrota-o, e é então atacado por Ares, confronto para o qual recebe conselhos de Atena.

 

Este Escudo de Héracles é um texto que, apesar de não ser totalmente original, não deixa de ser pitoresco. Se é um texto de Hesíodo, ou de algum outro autor, é algo que já na Antiguidade se apresentava como controverso, mas seja qual for a sua autoria, permite-nos ter acesso a um pequeno mito de Cicno, filho de Ares (existe várias outras figuras com este nome, devo esclarecer), e sua relação com as figuras de Héracles e de Iolau, cujas aventuras já não estão totalmente representadas nos textos que nos chegaram.