O Destino em “Da Natureza do Homem”, de Nemésio

Sendo Nemésio de Emesa um autor cristão, poderia supor-se que este seu trabalho estaria repleto de menções ao Cristianismo e às suas ideias, mas isso não é, de todo, verdade. Assim, este é um texto onde o autor parece tentar conciliar a Filosofia mais antiga com as próprias ideias da nova religião.

Começa por falar da homem, da sua criação, da natureza, mas é por volta do capítulo 35 que este trabalho chega a um ponto que me parece importante, e em que o autor começa a falar do Destino e da Providência. Trata, então, esses temas de uma forma sequencial, mas também muitíssimo simples, própria até para aqueles que pouco ou nada percebem de Filosofia.

Nessas suas palavras, o autor mostra os principais problemas da existência do Destino, do livre-arbítrio, e resolve-os sem recorrer a argumentos de uma maior complexidade, sendo, portanto, uma obra de fácil leitura mas, ao mesmo tempo, de grande importância para o estudo da ideia de que os seres humanos pudessem, ou não, ter as suas acções regidas pelos deuses (ou por qualquer outra identidade), mostrando uma crença num Destino parcial – em que, por exemplo, um homem jamais poderia estar destinado a ir navegar, mas que ao fazê-lo poderia, então, acabar por sofrer um naufrágio – que apenas regeria a vida de uma pessoa dadas as circunstâncias que ela própria escolheu por si própria.

Jesus Cristo era casado?

Há cerca de um mês pediram-me que escrevesse sobre a possibilidade de Jesus Cristo ser casado, já que o assunto veio à baila através de notícias como esta. Por isso pergunte-se, Jesus Cristo era casado?

Jesus Cristo era casado?

Deixemos, para começar, de lado a hipótese desse fragmento poder ser uma falsificação. Não é relevante. Para mim, e tendo em conta o contexto literário da época, pouco interessa que esse fragmento, ainda para mais provindo de uma obra desconhecida, apresente Jesus como podendo ter uma esposa, já que o contexto dessa afirmação seria muito mais importante que a própria afirmação. Porquê? Por uma razão muito simples, e que não escapa a qualquer pessoa que conheça minimamente os textos gnósticos – por volta dessa altura ainda existiam todo um conjunto de textos derivados das mais variadas heresias (uso aqui esta palavra sem qualquer carácter pejorativo), que construíam, adaptavam, alteravam, ou omitiam elementos nas histórias bíblicas de forma a enfatizar ou diminuir a preponderância de alguns pontos.

 

Por exemplo, alguns defendiam que Jesus, enquanto filho de Deus, não poderia ter sido crucificado, e então teria sido Simão de Cireno (o homem que levou a cruz, durante algum tempo, nos evangelhos sinópticos) a ser crucificado em seu lugar, enquanto Jesus se ri (o riso de Jesus, nos textos gnósticos, é um tema muito interessante, mas para não me alongar irei apenas dizer que esse riso não se devia à cena a ter lugar, como alguns leitores poderiam supor).

Outros, que consideravam o deus do Antigo Testamento como um impostor, apresentavam a ideia de que a cobra do jardim do Éden tinha sido uma salvadora da Humanidade, já que lhes teria trazido um conhecimento da verdade, de que esse deus não era o criador de tudo o que existia. O famoso Evangelho de Judas apresenta um Jesus conivente com Judas, e esta segunda figura é vista como o mais importante dos apóstolos, por ir sacrificar o corpo de Jesus. Um texto, sem dúvida, de uma heresia em que o corpo terreno era visto como negativo.

Vários evangelhos da infância apresentam Jesus a usar os seus poderes miraculosos em situações do dia-a-dia, como dar vida a animais de barro, ressuscitar amigos que mata (mais ou menos) sem querer, ou acertar o tamanho das pernas de uma peça de mobiliário feita por José. Provavelmente destinavam-se a remediar a curiosidade despertada pelos textos sinópticos, que pouco falavam da infância de Jesus, mas também poderiam ter tido vários outras funções.

Textos muito mais tardios, como o Toledot Yeshu, de origem judaica e destinados a gozar a religião cristã, apresentam Jesus como obtendo os seus poderes mágicos através de um conhecimento do verdadeiro nome de Deus, e até o põem a combater, nos ares e a um estilo de Dragon Ball, contra um heróico Judas. 

 

Em todo este contexto era muitíssimo provável que algum heresia que considerasse o casamento como positivo tivesse, em seu poder e para apoiar as suas crenças, algum texto que dissesse que Jesus era casado. Isso não quer, evidentemente, dizer que Jesus tivesse mesmo casado, mas sim que, por alguma razão, uma seita gnóstica, vários séculos após o tempo de Jesus e dos seus apóstolos, considerou útil dizer que Jesus era casado, já que essa seria uma união que servia os seus propósitos individuais. As fontes mais antigas, como os evangelhos sinópticos, o Evangelho dos Hebreus, ou os textos (agora perdidos) de Pápias, nada referiam em relação à possibilidade de Jesus ter casado. Nenhum autor, seja ele pagão ou cristão, confirma ou desmente essa possibilidade, o que demonstra que essa era uma não-questão para a época, e esse é um silêncio muito esclarecedor. Assim, a mais pura verdade é que não temos, nem nunca poderemos ter, informação certa relativa a esse possível casamento, ou ausência dele. Não é por um dado texto, muito mais tardio, dizer que Jesus tinha esposa que isso se torna um facto totalmente real. Essa frase, ainda para mais num fragmento que “provavelmente remonta a uma data entre os séculos VI e IX, mas poderia ter sido escrito até mesmo no século II”, pouco ou nada nos diz.

As viagens de João de Mandeville

As viagens de João de Mandeville não são, obviamente, uma obra da Antiguidade, mas sim um texto que foi produzido, supostamente, por um tal João de Mandeville no século XIV, em que este reconta as suas viagens pelo mundo.

 

A obra que obteve o nome de Viagens de João de Mandeville, em si, é um misto de realidade e de ficção, mas a sua referência neste espaço passa pelo facto de, nesta obra, como em muitas outras da mesma época, ainda existir uma curiosa fusão entre o Paganismo e a religião cristã. Aquando destas suas viagens, o autor passa por diversos sítios, e parece dar a pontos de interesse mitológico (por exemplo, creio que a ilha de Circe é um deles) a mesma relevância que dá a locais de importância religiosa (por exemplo, o túmulo de Cristo), e não deixa de mencionar figuras tão lendárias como a Fénix ou os Pigmeus (os tais que lutavam contra os grous).

 

Isto para mostrar que, mesmo após quase um milénio, a cultura da Antiguidade ainda continuava, pelo menos em parte, viva, e obras como esta, onde se apresentavam as muitas maravilhas das terras distantes, acabaram até por ter uma influência importante na mente de descobridores como Cristóvão Colombo.

A “Biblioteca”, atribuída a Apolodoro

Esta Biblioteca, atribuída a Apolodoro, é um enorme compêndio de Mitologia Grega, talvez um dos mais interessantes e completos que nos chegaram aos nossos dias de hoje. Cobre uma sequência de eventos que vai do nascimento dos deuses da Grécia até à morte de Odisseu, falando, entre esse espaço cronológico, dos mais variados mitos, como a Gigantomaquia, as Argonáuticas, os eventos de Héracles e as várias histórias associadas à cidade de Tebas, entre muitos outros.

Porém, se os primeiros três livros desta Biblioteca ainda nos chegaram de uma forma quase completa, já o quarto (que cobre, essencialmente, os eventos relacionados com a Guerra de Tróia e os que se lhe sucedem) apenas nos chegou sob a forma de um epítome. De uma forma muito simples, eu até poderia dizer que, caso alguém quisesse ler uma única, e só uma, fonte primária sobre mitos gregos, talvez devesse até ser esta a escolhida, já que permite um conhecimento geral muito vasto do tema, apesar de ser, em muitos casos e ainda mais no último livro, um texto pouco profundo.

Não deixa, porém, de ser uma obra introdutória de grande importância, que não merece ser esquecida no estudo desta área.

Um jocoso episódio da “Dionisíaca” de Nono

Quando na Dionisíaca de Nono tem lugar uma enorme cheia (as razões para tal não serão mencionadas aqui), que parece inundar todo o mundo, ocorre o seguinte:

 

Sea-lions now leaped with dripping limbs in the land-lions’ cave among rocks they knew not, and in the depths of a mountain-torrent a stray boar met with a dolphin of the sea. Wild beasts and fishes navigated in common stormy floods that poured from the mountains. The many-footed squid dragged his many coils into the hills, and pounced on the hare. The dripping Tritons at the edge of a secret wood wagged their green forked tails against their flanks, and hid in the mountain vaults where Pan had his habitation, leaving their familiar speckled conchs to sail about with the winds. Nereus on his travels met rock-loving Pan on a submerged hill, the rock-dweller left his sea and changed it for the hill, leaving the waterlogged pan’s-pipes that floated; while he took to the watery cave where Echo had sheltered.

fonte online