Já viram a Casa da Virgem Maria?

Habitualmente, se um amigo nos viesse contar que a casa da Virgem Maria ainda existe, seria difícil conter o riso. Quer dizer, exceptuando-se a possibilidade de um enormíssimo milagre, como é possível acreditar que uma simples casa, com mais de 2000 anos de idade, tivesse chegado até aos nossos dias? Parece, no mínimo dos mínimos, estranho. Mas, por demasiado estranho que nos possa parecer, foram até mais que duas as casas atribuídas à Virgem que chegaram até aos dias de hoje.

Casa da Virgem Maria em Éfeso

A primeira delas, a Casa da Virgem Maria em Éfeso, foi redescoberta no século XIX com base nas visões que uma freira alemã tinha tido. Esta casa, hoje convertida numa igreja, foi supostamente construída pelo Apóstolo Amado para Maria, e diz-se que foi nela que viveu até à época da sua “morte”. Não há provas reais a favor ou em contrário, pelo que tudo depende de uma pura questão de fé, como é demasiado comum nestas coisas. Sucintamente, e repita-se, uma freira teve visões em que viu esta casa e o ambiente que a rodeava, ela foi localizada com base no conteúdo dessas visões, e passou então a acreditar-se que o local – hoje conhecido pelo nome turco de Panaya Kapulu – foi mesmo onde a mãe de Jesus Cristo viveu os seus últimos anos.

A Santa Casa do Loreto

Esta segunda Casa da Virgem Maria, mais conhecida como a Santa Casa do Loreto, tem uma história ainda mais curiosa. Segundo a lenda, a casa da mãe de Cristo, em que ela viveu até à altura da crucificação do seu filho, manteve-se em terras da Judeia até quase aos finais do século XIII. Depois, para sua protecção dos Infiéis (o que denota uma certa falta de compreensão do papel de Jesus no Corão), em 1291 os Anjos pegaram nela e levaram-na para a Croácia. Porém, visto que a deixaram num local muito inseguro, entre 1294 e 1296 voltaram a transportá-la para outros sítios, até que lá foi estabelecida no seu local actual, e posteriormente coberta por uma espécie de cobertura de mármore, que é o que pode ser visto na imagem acima. Mais uma vez, acreditar-se em tudo isto é uma pura questão de fé e nada mais…

 

Agora, para quem tiver tanta curiosidade sobre estas coisas como nós, o que existe no interior de ambas estas Casas da Virgem Maria? São, hoje em dia, pura e simplesmente pequenas capelas, sem que alguma coisa aí exista que indique qualquer espécie de prova de que José, Maria ou Jesus viveram efectivamente no local. Se tantos outros sítios se gabam de ter fantásticas relíquias de outros tempos – um tema verdadeiramente fascinante, mas que terá de ficar para outro dia – talvez pudessem ser apresentados aqui, por exemplo, um dos martelos de José, a vassoura de Maria, ou mesmo um dos trabalhos de casa do Menino Jesus (não estamos a brincar, essas três relíquias existem mesmo, mas em locais distintos), o que daria mais algum encanto aos dois locais. Na sua completa ausência, apenas podemos acreditar no que nos dizem e aceitar que poderão ter sido duas das casas da Virgem Maria.

 

Finalmente, para quem quiser saber um pouco mais sobre a Santa Casa do Loreto, existe este pequeno vídeo oficial, em Italiano, ao qual poderão querer dar uma olhadela. Mesmo no caso de não compreenderem a língua, pelo menos podem ver como é todo o local, incluindo – como até pode ser visto no thumbnail – o interior da própria casa, o que ajuda a suprir parte da curiosidade.

A lenda de Fernão Rodrigues Pacheco (e Celorico da Beira)

A lenda que aqui trazemos hoje, a de Fernão Rodrigues Pacheco, é uma espécie de companheira de uma que já aqui contámos antes. Nessa altura, comentámos aqui brevemente a lenda de Martim de Freitas, como a de um homem que, falecido o seu senhor Dom Sancho II, se recusou a entregar o seu castelo a outro monarca. Mas, curiosamente, esse caso não foi único, e existiu pelo menos mais um governador que teve uma prudência semelhante – o do castelo de Celorico (hoje a povoação de “Celorico da Beira”), a quem são dedicadas as linhas de hoje.

A lenda de Fernão Rodrigues Pacheco

Conta-se então que este governador, o tal Fernão Rodrigues Pacheco, se recusou a entregar o castelo em questão a Dom Afonso III, como também Martim de Freitas o fez na mesma época. Então, aqueles que pretendiam obter esta fortaleza cercaram-na durante algum tempo, esperando assim a rendição dos locais por pura fome. E esse plano malévolo até parecia estar a funcionar, até que o herói que dá nome a esta história viu, do topo das muralhas, uma águia a transportar uma grande truta nas suas garras. Inesperadamente, como uma qualquer espécie de milagre, o poderoso pássaro deixou cair o peixe no interior do castelo, e isto inspirou um plano inovador – os Portugueses não só cozinharam essa tal truta (sinais da fome da época, certamente), como também fizeram um grande pão com a farinha que tinham, e depois entregaram ambas as comidas ao atacante, dizendo que o local ainda tinha muita comida e, portanto, o cerco teria de durar pelo menos mais alguns meses. Naturalmente que isto desencorajou o atacante, que depois lá levantou o cerco e partiu para outras paragens (talvez para Coimbra?).

 

Claro que esta lenda de Fernão Rodrigues Pacheco não pode deixar de nos relembrar outras lendas do nosso país (lembre-se, por exemplo, aquela que parece ser a mais famosa das lendas da Sertã), mas é particularmente digna de nota pelo facto dos registos a apresentarem, por diversas vezes, como paralela à de Martim de Freitas, como se tratando de dois – potencialmente até de muitos mais… – episódios do século XIII em que diversos governadores mostraram especial fidelidade para com um determinado monarca português, Dom Sancho II. Talvez seja por isso que toda esta história ainda hoje é representada no brasão de Celorico da Beira, como pode ser visto ali em cima, por representar aquele que é provavelmente um dos maiores episódios lendários desta vila.

O que é o Colar de São Cajó?

Um filme português lançado em 2023 tem por nome Pôr do Sol: O Mistério do Colar de São Cajó. É uma comédia nacional, na qual se começa por introduzir os celtiberos e um misterioso “Colar de Nosso Senhor do Coisinho, que depois lá tem o seu nome alterado para o do próprio título do filme. E claro que estes elementos são todos ficcionais, mas onde termina a ficção e começa a realidade em tudo isto? Dado o nome do próprio filme, será que, por exemplo, o tal São Cajó existiu mesmo?

Filme do Colar de São Cajó

Para quem for ver o filme, uma suposta prequela da série da RTP1 Pôr do Sol (que, confesse-se, não fomos ver), poderá facilmente aperceber-se que a sua trama é repetidamente satírica, gozando constantemente com os elementos que estamos demasiado habituados a ver em conteúdos do mesmo género. Por exemplo, em dada altura, prestes a falecer, um determinado cavaleiro diz ao seu companheiro “eu engravidei a tua mulher, já a contar que poderia morrer”. Numa outra, uma determinada personagem chega até a perguntar-se sobre a identidade do santo, ao que lhe é respondido o seguinte – “São Cajó é o santo a quem os outros santos acendem velas. É tão poderoso que quando morreu caíram lágrimas doces do céu.” Em contexto, percebe-se que também a vida dessa suposta figura santa é a mais pura ficção – não só porque ele nunca aparece no próprio filme, mas por essa adaptação de uma história demasiado geral, que pouco destoaria nos episódios da morte dos santos dos primeiros séculos da nossa era, como São Torpes, São Nicolau ou São Vicente.

 

O mesmo se passa com a família Bourbon de Linhaça e tudo o que mais aparece no filme Pôr do Sol: O Mistério do Colar de São Cajó – a mais pura ficção, mas concebida de uma forma a se dar um sentimento de possível verdade. Nem o colar existiu, nem o suposto santo que lhe deu o seu segundo nome, e muito menos aquele “Nosso Senhor do Coisinho” a que vão sendo feitas múltiplas alusões ao longo da trama…

Sobre o mito do Anel de Giges

Aqui fica uma curiosa história contada por diversos autores, entre eles Platão e Cícero, que é normalmente chamada o mito do Anel de Giges. Não é completamente claro se se trata de um “verdadeiro” mito, ou uma história simplesmente inventada por Platão para os seus próprios propósitos, mas dada a sua fama sentimos que devíamos recordá-la por cá, em forma de um breve resumo:

O mito do Anel de Giges

Giges era inicialmente um pastor que vivia na região da Lídia (a actual Turquia). Um dia, na sequência de um grande terramoto que abriu uma fenda para o interior da terra, ele encontrou uma caverna repleta de tesouros, no interior da qual estava um cavalo de bronze, um estranho caixão para um ser gigante, como nunca visto até então. Foi no dedo deste falecido que ele conseguiu encontrar um pequeno anel de ouro que, por pura magia, tinha a capacidade de tornar invisível quem o utilizasse. Depois, com a ajuda deste acessório mágico, o antigo pastor conseguiu seduzir a rainha local, matou o respectivo marido, e tornou-se até o rei de toda a região.

 

Tanto na República como em Os Ofícios, respectivamente da autoria de Platão e de Cícero, este pequeno mito do Anel de Giges tem um objectivo similar, o de demonstrar que os Homens, sejam eles essencialmente bons ou maus, apenas reagem de uma forma correcta por estarem agrilhoados pela lei e pelo medo de punição. Assumindo, como na obra de Cícero, a existência real deste anel, a pessoa que o usasse ganharia um poder quase divino; ao não poder ser descoberta e, portanto, alguma vez penalizada pelos seus actos menos bons, ela poderia fazer o que muito bem entendesse. Se Giges, que antes era um simples pastor, chegou até à posição de rei através de um desrespeito pela lei instituída, pela lei dos homens, quem ousaria defrontá-lo?

 

Este mito do Anel de Giges parece-nos, então, ilustrar uma situação em que é demasiado simples dizer “eu não faria o mesmo”; ainda assim, será que algum possuidor desse anel teria a capacidade moral para fazer o que é mais correcto? A resposta, essa, cabe a cada um dos leitores, mas o debate constante na obra de Platão poderá levar-nos a crer que não, que “o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente”, fazendo nossas as palavras de um famoso autor do século XIX. Se, por intervenção divina, também a cada um de nós fosse revelado um tal poder mágico, é muito provável que não tivéssemos a fibra moral necessária para não o usar, fosse para o bem ou para o mal, já que este nos elevaria bem acima das leis dos homens…

O Sílabo dos Erros de Pio IX

Se ainda há dias aqui falávamos de um outro papa português, hoje decidimos falar de um tema bastante diferente, o chamado Sílabo dos Erros de Pio IX. Outrora bastante famosa, esta é uma carta encíclica desse papa que foi publicada no ano de 1864, e na qual se tentava, de uma forma horizontal, criticar cerca de 80 ideias comuns na época e que iam contra as da própria Igreja. Nessa sequência, se acreditassem em alguma destas coisas – já lá iremos – os leitores iam directamente para o Inferno, supostamente sem hipótese de defesa, julgamento, ou qualquer outra coisa do mesmo género. E a que se referia então esse papa? A breve composição está dividida em diversas categorias, algumas mais fáceis de compreender pelo leitor comum do que outras, mas resumimos algumas delas abaixo, para curiosidade dos possíveis leitores. Assim, nessa sequência, aqui estão algumas das ideias que o Sílabo dos Erros de Pio IX tentava proibir:

O Sílabo dos Erros de Pio IX, capa de uma cópia inglesa

  • Secção I – Panteísmo, Naturalismo e Racionalismo Absoluto – que Deus não existe; que ele não afecta o homem ou o mundo; que somente a razão humana decide o que é bom e mau; que as verdades religiosas podem ser determinadas pela razão humana; que a revelação divina é imperfeita; que a revelação divina é contrária à perfeição do Homem; que as profecias e milagres da Sagrada Escritura são meras ficções, e que a existência de Jesus Cristo é um puro mito.

 

  • Secção II – Racionalismo Moderado – que a Teologia e as ciências filosóficas têm o mesmo valor; que os dogmas da religião cristã podem ser lidos à vista da Ciência; que os filósofos devem seguir a verdade comprovada; que a Igreja não deve interferir com a Filosofia; que os decretos da Igreja impedem o progresso da Ciência; que os ensinamentos da Teologia estão ultrapassados; que a Filosofia não deve ter em conta qualquer revelação sobrenatural.

 

  • Secção III – Indiferentismo, Latitudinarismo – que qualquer Homem pode seguir a religião que lhe parecer mais correcta; que a salvação eterna pode ser encontrada em qualquer religião; que quem não está na religião de Cristo pode, no mínimo, ter esperança de salvação eterna; que o Protestantismo não é senão uma outra forma da religião cristã.

 

  • Secção IV – Socialismo, Comunismo, Sociedades Secretas, … – ideias criticadas no seu geral.

 

  • Secção V – Erros relativos à Igreja e seus direitos – que a Igreja não é verdadeira e perfeita; que o poder eclesiástico deve estar subjugado ao poder civil; que a Igreja não tem o poder de se auto-definir como a única religião verdadeira; que os pontífices cometeram erros e tomaram para si poderes puramente seculares; que a Igreja não deve usar a força ou ter poderes temporais; que a Igreja não tem o direito de obter e possuir propriedades; que as figuras da igreja não devem ter interesses temporais; que os bispos nada podem publicar sem permissão dos governos; que os favores temporais dados aos papas são nulos; que os poderes da Igreja vêm das leis civis; que os tribunais eclesiásticos devem ser abolidos; que os clérigos não devem ter serviço militar; que o ensinamento de Teologia apenas é da competência da Igreja; que a ideia do papa como uma espécie de monarca nasceu na Idade Média; que nada impede a mudança do poder do papa para outra cidade ou bispo; que a definição de um concílio não admite discussão; que podem ser estabelecidas outras Igrejas que não estejam sob o poder do papa; que os pontífices foram responsáveis pela separação das igrejas.

 

  • Secção VI – Erros sobre a sociedade civil e sua relação com a Igreja – que o poder do Estado não tem limites; que os ensinamentos da Igreja Católica não são bons para a sociedade; que os governos têm poder sobre assuntos religiosos; que a lei civil vale mais que a lei da Igreja; que a autoridade civil pode interferir nas concordatas da Igreja; que a autoridade civil pode interferir nos ritos da Igreja; que o Estado pode interferir no que é ensinado nos seminários; que as escolas para as crianças devem estar apartadas do poder da Igreja; que os Católicos podem aprovar um método de ensino que não seja religioso; que os poderes civis podem impedir os religiosos de comunicar com o papa; que as autoridades laicas podem definir os bispos para cada local; que um governo laico também pode remover os bispos de um dado local; que os governos podem definir os limites de idade nas igrejas ou as condições de acesso aos mosteiros; que os governos têm poder sobre as ordens religiosas; que os reis e príncipes não estão sujeitos ao poder da Igreja; que a Igreja e o Estado devem estar separados.

 

  • Secção VII – Erros relativos à ética natural e cristã – que as leis morais não precisam de aprovação divina; (várias referências mais ligadas ao Direito…)

 

  • Secção VIII – Erros relativos aos casamentos cristãos – que o casamento não deve ser um sacramento; que o sacramento é acessório e separado do contrato de casamento; que o casamento não pode ser dissolvido; que a Igreja não pode impedir casamentos; que Bonifácio VIII foi o primeiro a definir que os votos de castidade terminam um casamento; que as causas matrimoniais pertencem aos tribunais civis.

 

  • Secção IX – Erros relativos ao poder civil do soberano pontífice – que o poder temporal e o poder espiritual poderão não ser compatíveis; que a abolição do poder temporal na Igreja levaria à prosperidade da mesma.

 

  • Secção X – Erros relativos ao Liberalismo Moderno – que a Religião Católica não deve ser a única do Estado; que as pessoas podem venerar como bem entenderem; que é falso que esse direito levaria à corrupção das morais e mentes das pessoas; que o pontífice pode e deve reconciliar-se com a sociedade filosófica do seu tempo.

Olhando para trás mais de um século depois, este Sílabo dos Erros de Pio IX teve certamente alguma importância significativa na sociedade da sua época, mas refere igualmente um conjunto de ideias de carácter filosófico que ainda hoje têm algumas repercussões na nossa. Se a intenção, de um ponto de vista da própria Igreja, até era “boa”, é muito provável que tenham sido devido a documentos como este que se veio a acreditar, cada vez mais, na existência de uma grande incompatibilidade entre Ciência e Fé, quando a segunda é quase apenas da competência pessoal, enquanto que a primeira está mais ligada à própria sociedade… e, por isso, a breve apresentação desta obra basta-nos, para o dia de hoje!