O mito de Mirmex, a primeira formiga

O mito de Mirmex conta-se, hoje, entre aqueles que estão quase perdidos. Não fosse o facto de Sérvio o mencionar no seu comentário à Eneida de Virgílio e talvez já nada se soubesse sobre toda esta história, que pelo nome da sua heroína – μύρμηξ significa somente “formiga” em Grego Antigo – só pode ter vindo da Mitologia Grega.

O mito de Mirmex

Numa dada altura do passado a deusa Deméter, também conhecida como Ceres entre os Romanos, andava pelo mundo fora a ensinar as lides da Agricultura a quem a queria ouvir. Não sabemos se isso aconteceu por altura do rapto de Proserpina, na altura em que ela conheceu Baubo, ou um pouco mais tarde, mas a deusa Atena – Minerva entre os Romanos – depressa compreendeu a utilidade dessa nova invenção e, para tornar mais fácil aos Homens o cultivo dos campos, criou o primeiro de todos os arados. Porém, feliz ou infelizmente, fê-lo com uma jovem a seu lado, de nome Mirmex, que depressa roubou a importante invenção e começou a dizer a toda a gente que tinha sido ela, e somente ela, a inventar o arado…

Obviamente que, como sabemos através de mitos como o de Aracne, a deusa não iria permitir toda esta clara afronta, e então transformou a jovem, essa sua antiga amiga, na primeira de todas as formigas. E por essa transformação ela foi igualmente condenada a “cultivar os campos”, e a transportar os seus produtos, com as suas próprias mãos (ou pequenas patinhas, se preferirem).

 

Este mito de Mirmex, a primeira formiga, é muito simples, mas mereceu ser apresentado cá por se tratar de uma história relativamente obscura, que raramente é contada em obras sobre a Mitologia Grega. Desconhece-se hoje como é que Sérvio teve acesso a ela, mas usa-a para comentar um verso do quarto livro da Eneida em que são mencionadas as formigas, sendo então possível que no seu tempo este pequeno mito fosse usado, talvez até para com as crianças, com o objectivo de explicar de onde veio a primeira destas criaturas. Curiosamente, toda esta ideia depois sofre uma espécie de inversão com o mito dos Mirmidões, os guerreiros companheiros de Aquiles, mas isso já é uma história para outro dia…

O Sonho de Senádio e a certeza de uma vida eterna(?)

A história de hoje, deste sonho de um tal Senádio, poderá ter sido completamente real. Pelo menos Santo Agostinho assim o faz crer, quando se refere a ela numa das suas epístolas, relatando tratar-se de algo que aconteceu (mesmo) com um dos devotos cristãos da sua região, um médico que, inicialmente, não acreditava na possibilidade de uma vida eterna fora dos contornos do corpo, mas que na sequência destes eventos mudou de opinião. Portanto, relate-se simplificadamente aquilo que o famoso teólogo cristão nos deixou escrito nas suas linhas:

O Sonho de Senádio

Uma dada noite Senádio foi dormir e teve um sonho em que um anjo lhe apareceu e o levou a passear por uma belíssima cidade, onde também pôde ouvir música muito bonita. Isso teve lugar durante algum tempo. Depois, o médico acordou, colocou todo este sonho de lado na sua cabeça, e pensou tratar-se de nada mais que isso, pura e simplesmente um sonho como tantos outros que já antes tinha tido na sua vida.

Porém, uns dias depois a mesma pessoa teve um outro sonho. Nele, o mesmo anjo de antes tornou a aparecer-lhe e confrontou-o com o conteúdo do que lhe tinha acontecido umas noites antes. “Se tu estavas a dormir, se os teus olhos estavam fechados e os teus ouvidos adormecidos, como podes tu ter visto e ouvido todas aquelas coisas?” E o médico não soube o que lhe responder… mas pôde, ainda assim, compreender que existia mais na existência humana do que a pura fisicalidade, ou seja, que se era possível passar por uma espécie de realidade paralela quando todo o corpo humano estava adormecido, igualmente o seria possível após a morte física deste.

 

Será que é um bom argumento, este que convenceu o médico Senádio? Será que é mesmo uma boa prova da existência de uma vida eterna, focada na alma, depois da morte do nosso corpo? É bastante discutível, por isso deixamos as respostas a coisas como essas para os leitores; ainda assim, é curioso poder constatar que já nessa altura – no século IV da nossa era, relembre-se – os autores cristãos davam um significado importante aos sonhos que se têm durante a noite. Depois, a ideia prolongou-se bastante ao longo do tempo – veja-se, a título de exemplo, o Dream of the Rood ou o “nosso” milagre de Santa Maria de Carquere – mas neste contexto religioso parece ser uma espécie de interacção homem-divino tão antiga como a própria crença cristã. Ela depois foi sendo como que desaconselhada ao longo dos séculos, mas isso já é uma história para outro dia…

A Torre da Bela Vista (e dois segredos do Zoo de Lisboa)

O tema de hoje, a quase-esquecida Torre da Bela Vista, derivou de alguns segredos do Zoo de Lisboa. Iriam propor-se aqui sete segredos sobre o conhecido espaço lisboeta, mas à medida que a escrita foi avançando percebemos que um maior foco na própria torre poderia ter muito mais interesse para os leitores. Assim, contando-se aqui apenas três dos sete segredos que tínhamos pensado apresentar (talvez os restantes fiquem para uma oportunidade futura?), os dois primeiros são, mais que tudo, uma breve introdução para o tema principal, aqui apresentado mais abaixo.

Algumas jaulas do Zoo de Lisboa

Uma pequena ligação ao outro recinto

Quando aqui falámos sobre o anterior recinto do jardim zoológico, numa das imagens mostradas podia ser visto, ao longe, uma jaula. Podem ser vistas mais algumas, desse mesmo tempo antigo, na nova gravura apresentada acima. Nada de especial, pensar-se-ia, mas segundo um antigo administrador existiu apenas um desses espaços para animais que acompanhou a viagem do antigo recinto para o das Laranjeiras – uma pequena jaula das águias. Não foi possível verificar pessoalmente se hoje ainda se mantém por lá, mas ainda a chegámos a ver há alguns anos atrás, em que a sua forma arredondada já destoava bastante no ambiente rectilíneo visível em seu redor.

 

Águias e Ursos no Zoo de Lisboa

A influência de Raúl Lino

Ainda exista, ou não, a jaula anterior, ainda hoje existem outros espaços no Zoo de Lisboa que parecem destoar no ambiente geral. Um dos exemplos mais notáveis talvez seja o do chamado “Castelo das Águias”, visível acima, mais à direita. Colocado num dos cantos do recinto (e muito perto do chamado “Cemitério dos Cães”), sugere uma antiga existência de um recinto defensivo medieval… apenas para se notar, sem dificuldade, que é demasiado pequeno e perfeito para alguma vez ter sido real. Cai a ilusão – é “apenas” um de vários espaços zoológicos criados pelo famoso arquitecto Raul Lino, a quem a Biblioteca de Arte Gulbenkian dedica agora parte de uma exposição virtual (e de onde até foi adaptada a imagem acima), na qual são revelados alguns dos muitos pavilhões da sua autoria – os destinados às Zebras, Girafas, Elefantes, Leões, Hipopótamos / Tigres, Águias / Ursos (i.e. o já mostrado acima), Corvos e Macacos, entre outros.

 

E… a Torre da Bela Vista

Mas, se os espaços acima até são relativamente conhecidos e, em teoria, podem ser vistos por qualquer visitante sem dificuldades de maior, já este terceiro local parece estar quase completamente esquecido, ao ponto de não lhe termos conseguido encontrar qualquer referência directa, ou mesmo uma fotografia, online. Urgia corrigir a situação, e por isso isso importa falar sobre ele de uma forma mais prolongada.

 

Apesar de, hoje, se dizer que o Zoo de Lisboa está colocado na Quinta das Laranjeiras, ao longo do tempo o recinto foi sendo constituído em diversos terrenos diferentes – a famosa Quinta dos Condes de Farrobo, claro está, mas também outros locais, como uma tal “Mata das Águas Boas”. Face a essa incorporação os seus nomes antigos foram depois sendo esquecidos*, mas neste último local terá existido pelo menos um restaurante e a torre aqui em questão, cuja construção terminou em 1965… e a qual, segundo inquirimos no local a uma funcionária do jardim zoológico, “já foi demolida”. Sê-lo-ia triste, a ser verdade, mas felizmente a informadora estava errada – a construção ainda continua presente no mesmo local nos nossos dias de hoje, como mostra a segunda destas imagens (a primeira é de Fernando Emygdio da Silva, em 1965):

A Torre da Bela Vista no Zoo de Lisboa

Mas então, poderiam perguntar, porque é esta Torre da Bela Vista digna de nota…? Originalmente, foi construída no ponto mais alto do recinto do Zoo de Lisboa. Com 12 metros de altura, tem sete arcos abertos no seu topo, no interior dos quais podiam ser vistos azulejos identificativos do panorama aí visível, numa espécie de cápsula do tempo da cidade-capital. E se isto pode parecer interessante, tanto para quem quiser ver a forma como a cidade foi evoluindo, como para quem gostar de tirar algumas fotografias panorâmicas… como se explica todo o esquecimento de um local como este, supostamente tão instagramável para os nossos dias? Até podemos tentar explicá-lo, mas fazê-lo exige um mínimo de conhecimentos da topografia do espaço zoológico actual.

 

Quem vai ao Jardim Zoológico de Lisboa como simples visitante raramente tem a oportunidade de o ver na sua forma completa. Pode explorar, quanto muito, um mapa que parece ter mais a norte os recintos dos linces ibéricos e dos ursos… mas se apanhar o teleférico, depois consegue explorar o local ainda um pouco mais, chegando a uma área, de passagem potencialmente impedida (mas em que anteriormente existia um enorme recinto dos lobos ibéricos), na qual a sua viagem aérea inverte o sentido, como mostra parte de um vídeo com já alguns anos:

 

Como podem ver, no momento antes do teleférico inverter o seu sentido a norte existe do lado esquerdo um espaço quase informal com alguns animais. Teoricamente, ao seguir-se em linha recta o caminho de terra batida visível à direita do local poderia chegar-se à Torre da Bela Vista, como mostra este pequeno mapa, que assinala a esverdeado o ponto de viragem da atracção e a vermelho a própria torre de que aqui falamos hoje:

Mapa do norte do Jardim Zoológico de Lisboa

Agora, o grande problema é… como transportar potenciais visitantes entre esses dois locais, sem que eles tenham acesso aos diversos espaços privados que se encontram pelo caminho? Seria, como é natural, hoje bastante difícil fazê-lo, sendo provavelmente essa a principal razão pela qual esta Torre da Bela Vista não é agora visitável. Por contraste com o momento em que foi construída, em 1962 – como informa O Comércio de Guimarães (número 6307) – este local arborizado era “o grande refúgio da população, onde aos domingos, desde manhã cedo, milhares de visitantes vêm acolher-se às suas sombras para à noite deixarem o jardim”, ou seja, nessa altura o espaço era, no mínimo, semi-público e estava acessível à população em geral.

 

A existir uma potencial alternativa de visita a esta Torre de Bela Vista para os nossos dias – uma entrada pela estrada do lado esquerdo, igualmente visível no mapa – ela teria de incluir a passagem de potenciais visitantes num outro espaço privado, o de um hospital… e então, por maior que possa vir a ser o interesse da torre, ela encontra-se agora inacessível aos comuns mortais. Se tentámos pedir aos serviços do Zoo de Lisboa uma fotografia actual do espaço, ou a confirmação da existência actual dos azulejos do seu interior, à presente data ainda não foi possível obter essa informação… e então, este espaço lá se vai mantendo, visível apenas ao longe, sem se ter a oportunidade de o visitar ao perto, e sem se conseguir subir os seus degraus até às sete janelas. Talvez os antigos azulejos já nem existam, mas pelo menos aí ter-se-ia acesso a mais um local panorâmico onde ver na primeira pessoa os encantos da cidade de Lisboa…

 

 

*- Ainda existe uma “Travessa das Águas Boas” encostada ao recinto do Zoo, que termina mais ou menos na zona do recinto das girafas. Parece ser um dos poucos vestígios do nome original, e provavelmente a mata prolongava-se pelo jardim acima, passando pela zona dos leões e ultrapassando mesmo a própria torre, outrora colocada no “Alto da Mata [das Águas Boas]”.

O significado das Portas dos Sonhos

Um dos momentos mais crípticos da Eneida de Virgílio ocorre no final do sexto livro, onde são apresentadas duas portas dos sonhos. Recordando os respectivos versos, na tradução brasileira de Manuel Odorico Mendes, aqui ligeiramente adaptada para ser mais fácil de ler pelo leitor comum:

As duas portas dos sonhos, e o seu significado

Do Sono há dois portões: saída, contam,
O de corno facilita às veras sombras;
Do que é de alvo marfim, terso e nitente,
Mandam falsas visões à luz os manes.

Na sua essência, isto quer dizer que no reino dos falecidos, de que então Eneias ia escapar, existem duas portas relacionadas com os sonhos. Uma delas é feita de corno, que é de onde vêm os sonhos ditos “verdadeiros”, enquanto que a outra, do mais belo marfim, é a fonte dos sonhos “falsos”. Esta é uma distinção muito antiga, que já vinha – pelo menos – desde os tempos de Aristóteles, e que até é mencionada por Artemídoro, mas qual é, na realidade, o verdadeiro significado da Portas dos Sonhos? Poderíamos aqui deixar extensas teorias sobre todo o tema, mas é preferível resumi-lo com o breve comentário que Sérvio fez a essa passagem do épico:

Neste ponto o autor segue Homero, mas com uma pequena diferença, pois Homero diz que os sonhos saem pelas duas portas, enquanto que aqui Virgílio indica que os verdadeiros sonhos passam através da porta de corno. O sentido poético é claro: ele quer dizer que tudo o que disse é falso. Porém, a fisiologia tem isto a dizer: a porta de corno representa os olhos, que são da cor do corno e mais duros do que as outras partes do corpo; eles não sentem o frio, como Cícero diz nos seus livros sobre a natureza dos deuses. A porta de marfim, por outro lado, representa a boca e os dentes. E sabemos que o que dizemos pode ser falso, mas o que vemos é verdadeiro. Por isso, Eneias é enviado pela porta de marfim. Há outro sentido: sabemos que o sono é representado por um chifre. E aqueles que escrevem sobre sonhos [- como Artemídoro! -] dizem que o que se vê nos sonhos tem efeito de acordo com a fortuna e as possibilidades da pessoa. E estas coisas estão próximas ao corno, daí a porta de corno ser vista como verdadeira. Já aquelas coisas que estão acima da fortuna e que têm muita pompa e circunstância são falsas, daí a porta de marfim ser vista como falsa, como se fosse uma porta mais ornamentada.

 

Em suma, esta espécie de metáfora revela-nos o significado da Portas dos Sonhos como uma distinção entre a verdade e a falsidade. Talvez tenha sido, como estas linhas parecem indicar, uma forma de Virgílio indicar que toda a história de Eneias era mera ilusão, uma fantasia conveniente dos seres humanos? Parece que sim, mas convidamos os leitores, como sempre, a formarem as suas próprias conclusões sobre todo este tema…

“Don Juan”, a expressão e a lenda

Hoje em dia, quando falamos de um Don Juan, referimo-nos quase exclusivamente a um homem conhecido pela sua capacidade de seduzir o sexo feminino. Contudo, parecem já ser muito poucos aqueles que ainda sabem a verdadeira origem da expressão, ou a razão pela qual esta tal figura ficou associada às artes da sedução. E então, face a esse esquecimento progressivo, tão comum em muitas outras expressões que ainda hoje utilizamos, decidimos fazer desta figura e da sua história o tema de hoje:

A lenda de Don Juan

Se existiu um verdadeiro Don Juan, uma qualquer pessoa real que inspirou toda esta lenda, não conseguimos descobrir a sua identidade. Assim, a mais antiga referência a esta figura ficcional é numa peça de teatro espanhola de inícios do século XVII, El burlador de Sevilla y Convidado de Piedra, em que o anti-herói é representado como um homem que, recorrendo a diversas espécies de logros, consegue seduzir toda e qualquer mulher. As técnicas que usa são potencialmente ilícitas nos dias de hoje, é provável que até levassem quem as tente realizar para a cadeia, mas a fama popular desta figura não fica apenas por aqui, esta é apenas metade da história que o tornou conhecido.

Continuando então, entre as muitas figuras que este Don Juan seduziu conta-se uma tal “Ana”. Quando esta gritou por ajuda, o pai dela, um tal “Dom Gonçalo”, defendeu a filha e a respectiva honra, mas acabou por morrer em combate contra o anti-herói. Algum tempo depois, este último, ao ver a estátua do falecido num cemitério, jocosamente convida-a para jantar – e o fantasma aceita, vai jantar com o mesmo homem que lhe matou o corpo, antes de o convidar de volta para um segundo jantar, esse a ter lugar na sua “casa”, o cemitério. Don Juan, procurando não mostrar qualquer espécie de medo, aceita esse convite, vai jantar fora e são-lhe servidas coisas completamente horrendas, que ele acaba por comer… mas depois, o próprio fantasma de Dom Gonçalo pega nele e leva-o consigo para o reino dos mortos, com outras versões a chegarem ao ponto de afirmar que o “herói” da peça foi levado directamente para o próprio Inferno, sem nunca se arrepender das suas acções pecaminosas.

 

Face a este resumo, o que esta espécie de lenda tem de notável é que permite compreender a origem da expressão relativa a um Don Juan como um sedutor nato, mas também deixa muito bem claro que não só ele seduz pela ilegalidade (e.g. seria como prometer um emprego a alguém em troca de sexo e depois não lhe conceder o prometido), como também foi merecidamente punido por essas suas acções no final da história. E esses são elementos importantes, porque tornam possível ao leitor perceber que a sedução oferecida pela personagem nada tem de positivo, mas é, isso sim, algo de profundamente negativo, que com naturalidade não deve ser seguido por mais ninguém. A ainda existirem figuras como estas nos nossos dias de hoje – e elas são relativamente comuns em reality shows – elas só merecem mesmo é estar na prisão…!