A História do Livro de Mórmon

Contar-se a história do Livro de Mórmon já cá estava como que prometido há algum tempo. É o livro sagrado dos Mórmones – ou da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, como parecem ser mais conhecidos em Portugal – mas o que tem especial interesse para as linhas de hoje não é tanto o conteúdo da própria obra, mas uma célebre história que se esconde por detrás dela. Se é um puro mito, uma lenda, ou algo de completamente real é algo que deixamos ao critério dos leitores, depois de conhecerem as linhas deste relato, que parecem ser bastante famosas na América do Norte mas nem tanto em países europeus como o nosso.

Joseph Smith e a história do Livro de Mórmon

Em inícios do século XIX viveu nos Estados Unidos da América um homem de nome Joseph Smith. Contar toda a sua história é uma tarefa complicada e ultrapassa os nossos objectivos de hoje, mas segundo o próprio, quando tinha 17 anos de idade um anjo de nome “Moroni” apareceu-lhe e revelou-lhe que numa colina próxima estavam escondidos antigos textos religiosos gravados em folhas de ouro. Após algumas peripécias, a 22 de Setembro de 1827 foi-lhe permitido que levasse esses textos para casa, mas eles estavam escritos em “Egípcio Reformado”, língua que Smith só conseguiu traduzir com o auxílio de um misterioso processo chamado “Urim e Tumim”. Como tudo isso se processou parece variar mediante as versões, mas o essencial a reter é que o chamado Livro de Mórmon é, supostamente, um texto escrito pelo profeta Mórmon, por volta de 600 anos antes da vinda de Jesus Cristo, e que alguns acreditam que apenas foi trazido para os dias de hoje pela tradução de Joseph Smith.

 

Mas será isto verdade? Terá sido esta, de facto, a origem do Livro de Mórmon? Por um lado, parecem ter existido testemunhas na época que afirmaram terem visto as folhas de ouro, Urim e Tumim, e Joseph Smith a conduzir o seu estranho processo de tradução, que pode ser visto representado na imagem ali em cima. Por outro, quem for ler o texto – supostamente traduzido – com atenção poderá ver que ele contém algumas passagens muito semelhantes a textos conhecidos à data nos EUA e que o antecedem sem margem para dúvidas.

 

Além disso, o reencontro de um texto religioso antigo através de placas de bronze ou ouro não é propriamente uma grande novidade – até já aqui contámos um caso semelhante, o de Acusilau de Argos, que passou por uma experiência semelhante. Existem várias outras em culturas por todo o mundo – relembre-se ainda o estranho caso das Pedras Dropa – e em comum todas essas histórias parecem ter o facto da fonte original já não estar disponível para consulta directa. Isto é particularmente curioso no caso dos crentes deste Livro de Mórmon, porque eles são óptimos a guardar registos – muitos dos manuscritos de Joseph Smith ainda nos chegaram, como atesta este artigo da própria igreja em Inglês – mas neste caso específico, dizem-nos que as tais “placas de ouro” foram entregues novamente ao anjo Moroni ou deixadas numa caverna misteriosa (que, por mero acaso, até já tinha muitos outros textos no seu interior).

 

Por isso, será esta história da origem do Livro de Mórmon verdade, uma lenda, ou puro mito? Os leitores que decidam, em função das provas (simplificadas) que apresentámos aqui.

O mito grego de Penteu

O mito de Penteu é um que nos é hoje particularmente famoso pela forma como foi representado na tragédia euripidiana As Bacantes. Claro que também nos é conhecido através de uma das obras de Ovídio e de fontes mais tardias, mas parece ser pelas linhas do antigo autor grego que a história em questão se foi tornando particularmente conhecida ao longo dos séculos. Portanto, iremos aqui recordá-la nas linhas que se seguem.

O mito de Penteu, da Grécia Antiga

Penteu era um monarca da cidade de Tebas, aquela tal que se dizia ter sete portas. Um dia, foi visitado pelo deus Baco e seu séquito, mas recusou-se a aceitá-lo como uma divindade, proibindo até o seu culto na região. Ofendido com essas acções, o deus deu-lhe vários avisos, que não foram ouvidos, e causou a loucura de algumas da familiares do monarca, que se encontravam entre as Bacantes, antes de o conduzir pelos campos, supostamente para lhe mostrar alguns dos horrendos rituais secretos que elas se encontravam a conduzir. Mas, ao mesmo tempo, o deus do vinho e da vinha induziu uma ilusão nas praticantes do seu ritual – fê-las ver no rei uma espécie de animal selvagem (talvez um javali), que elas depressa trucidaram, despedaçando-o brutalmente e separando-o em vários pedaços de homem. E, depois, fê-las reconhecer a realidade por detrás do horrendo acto que tinham praticado. Face à ocorrência, a divindade de Baco – também conhecido como Dioniso – não mais foi duvidada e os seus ritos foram reinstituídos.

 

As diversas versões desta história parecem distinguir-se pelos vários avisos que Penteu recebeu face à divindade de Baco, como o de um viajante que viu os companheiros tornarem-se golfinhos. Poderiam adicionar-se muitos mais episódios a esse aviso, mas a mensagem geral é muito clara – o monarca até poderia ter recebido todos os avisos deste mundo e sempre se recusaria a ouvi-los. É por isso que acaba por ser punido, por essa sua incapacidade de aceitar, no seu coração, a nova divindade.

É uma ideia interessante, porque este Baco / Dioniso / Zagreu é um dos poucos deuses da Grécia Antiga que não nasceram como completamente divinos, mas como que foram conquistando esse lugar no Monte Olimpo ao longo das suas aventuras. Existem outros casos (o de Hércules é provavelmente o mais famoso), que abrem a possibilidade de ter existido um tempo em que este deus, como alguns outros, ainda não fazia parte do panteão grego; lembre-se, por exemplo, o seu “papel” nos Poemas Homéricos, bem como outras provas que parecem indicar essa realidade, e depressa se poderá compreender o cepticismo de Penteu, e de outras figuras, face à introdução de novos deuses entre aqueles em que os locais acreditavam antes…

Friar Rush, um diabo tornado homem

Friar Rush é o nome inglês de uma personagem ficcional que nos é conhecida desde pelo menos os finais do século XV. Originalmente Broder Rusche nos países germânicos (entre outros nomes possíveis), esta é uma curiosa história que merece ser recordada por cá, dado estar quase esquecida mas não deixar de ser invulgar.

Capa da história de Friar Rush

Recontando então brevemente a história deste Friar Rush, ele era um diabo que reencarnou num corpo humano e se fez introduzir num mosteiro da época. No seu interior causou depois muitos problemas – talvez o mais curioso seja o de originar a morte de um cozinheiro num caldeirão de água a ferver – até que lá foi descoberto e expulso do local. As aventuras que depois se seguem parecem variar de versão para versão, mas na que lemos, a ilustrada acima, depois Rush vai viver com um agricultor (cujas infidelidades da esposa acaba por revelar), e finalmente acaba por possuir a filha de um poderoso homem; é exorcisado e expulso mais uma vez, para – aparentemente – não mais tornar a ser visto.

 

Em suma, a narrativa de Friar Rush, para quem ainda desejar lê-la, é muito curiosa pela forma como joga com o tema de fazer do seu (anti-)herói uma personagem demoníaca mas cujos actos nem sempre podem ser lidos ou interpretados como puramente maus. Ele não é uma personagem malvada, que só comete erros e faz males, mas uma que também acaba por realizar diversos actos menos negativos que podem, até certo ponto, confundir o leitor, como quando ele revela as diversas infidelidades da esposa de um agricultor. Se, por um lado, ele não é um demónio bondoso (como o apresentando em algumas histórias do México), também não é puramente mau (como o famoso interveniente da história de Fausto), parecendo que a história foi até criada para jogar com esses dois pólos de expectativas. Porém, como no conto, bem mais recente, de Roberto o Diabo, a ideia por detrás de toda esta história parece ter sido um pouco mal aproveitada, já que também permitiria um conjunto de aventuras adicionais que, infelizmente, as obras da época raramente tendem a aproveitar…

As Questões de Bartolomeu

As Questões de Bartolomeu contam-se entre muitos textos cristãos do início da nossa era que se foram perdendo ao longo do tempo. Isso aconteceu por terem sido designados como apócrifos, “não oficiais”, ou seja, como textos que se acreditava que não foram inspirados pela verdadeira fé cristã, mas apenas inventados pelos seres humanos, como sabemos que aconteceu com os novelescos Actos de Paulo e Tecla. É difícil saber até que ponto tudo isso será verdade – quer dizer, o que distingue um Evangelho de Mateus de um Evangelho de André? – mas, pelo menos, era assim que se pensava nos tempos da Antiguidade. E então, entre textos atribuídos aos outros apóstolos de Jesus, contava-se este, que até poderá ser o mesmo, ou apenas um segmento fragmentário, de um Evangelho de Bartolomeu.

O suposto autor destas Questões de Bartolomeu

O que têm então estas Questões de Bartolomeu de digno de nota? Existem delas diversas versões, mas naquela a que tivemos acesso, uma versão grega da composição original, este apóstolo encontra-se com Jesus e com os restantes após o episódio da ressurreição e decidem colocar ao Filho de Deus diversas questões. Esse formato de questão/resposta é relativamente comum em textos gnósticos, mas o que este caso tem de notável é a própria natureza das perguntas que aqui são colocadas, que parecem ser muito mais “picantes” do que as apresentadas em outros textos da mesma natureza.

Por exemplo, é perguntado a Jesus o que fez durante os três dias que precederam a ressurreição – e surge um segmento textual em que as próprias forças das trevas testemunham a “Descida aos Infernos” na primeira pessoa; depois, tenta-se saber como é que Maria concebeu Jesus – uma revelação que, segundo o Filho, destruiria todo o mundo; os apóstolos pedem para ver os Infernos e aquele grande opositor da humanidade – e até falam com ele (!); e surge uma pequena discussão sobre os pecados que eram vistos como os mais importantes (provavelmente a sequência menos interessante).

 

Mas, no meio de estes episódios das Questões de Bartolomeu vai-se ficando sempre com a ideia de que o seu autor sabia ou conhecia mais do que aquilo que nos vai comunicando. A inquirição sobre a concepção de Jesus é o perfeito exemplo disso mesmo – quando Maria se prepara para revelar mais do que podia, começam a sair línguas de fogo da sua boca, prestes a destruir todo o mundo. Jesus ordena-lhe imediatamente que pare, que não conte nada mais, mas de onde terá surgido uma ideia como essa? Se a, hoje pouco conhecida, Descida aos Infernos nos é conhecida do Evangelho de Nicodemos, terá existido um texto em que a mãe de Jesus também contava aquilo que aqui se vê impossibilitada de revelar? É provável que sim, mas as provas existentes impedem-nos de o concluir com absolutas certezas.

 

Ainda assim, estas Questões de Bartolomeu são importantes, por nos preservarem um conjunto de ideias e questões católicas cujas respostas foram sendo esquecidas – ou alteradas – ao longo dos séculos, mas que nesses outros tempos dos inícios do Cristianismo até tinham respostas significativas à altura. Em muitos casos eram respostas que hoje até nos poderiam chocar, mas que então tinham a capacidade de responder a muitas questões bíblicas que continuam a ser perguntadas hoje em dia. E talvez seja essa a grande beleza de textos como estes, essa possibilidade de conseguir responder a questões que em muitos casos o leitor até poderia ainda nem saber que tinha. Por isso, apesar de pequeno nas suas formas actuais, esta não deixou de ser uma obra aqui digna de nota.

Maria Pacheca, uma transexual do século XVI

Visto que os temas da transexualidade andam hoje em dia muito na baila, decidemos falar de Maria Pacheca, provavelmente um dos mais famosos casos de Portugal. Pelo contexto, podemos depreender que o caso dela se passou em meados do século XVI, mas parece que tudo o que nos chegou sobre esta figura é o relatado por Amato Lusitano, médico que nasceu e faleceu nesse mesmo século. Recordamos aqui as breves linhas sobre o caso, tal como aparecem em Amato Lusitano e as problemáticas sexuais, de Isilda Teixeira Rodrigues:

A igreja da Esgueira, onde viveu esta Maria Pacheca

Em Portugal, na freguesia da Esgueira, a nove léguas de Coimbra, cidade ilustre, havia uma rapariga, fidalga, cujo nome, se não me engano era Maria Pacheca. Chegada à idade em que as mulheres costumam ter pela primeira vez a menstruação, em vez desta, principiou a aparecer-lhe e a desenvolver-se um pénis que até esse tempo estivera interiormente oculto. Desta forma transitou de mulher ao sexo masculino, vestiu fato de homem e foi baptizada, com o nome de Manuel. Foi à Índia, tornou-se famoso e rico, e, ao voltar à pátria, casou. Ignoro, porém, se teve descendência. Todavia estamos cônscios de que ficou sempre imberbe.

 

Pouco ou nada mais se parece hoje saber sobre esta Maria Pacheca – ou Manuel Pacheco, se assim o preferirem – mas o que o relato tem de mais notável é provavelmente o facto de referir, aqui e ali, um construto sexual relativamente simples e que continua a fazer sentido até aos nossos dias de hoje – se tem pénis é homem, tal como se tende a considerar como homens aqueles que têm barba. Isso leva a um certo feiticismo corporal, que também se mantém nos dias de hoje, e a casos como os de Santa Vilgeforte, de que cá falámos anteriormente, e em que pela presença de um (suposto) vestido uma representação de Jesus Cristo passou a ser vista como apenas podendo pertencer ao sexo feminino.

 

Mas a história desta Maria Pacheca não fica por aqui. Como Isilda Teixeira Rodrigues dá a pensar no seu artigo, se tudo isto foi real – e não temos provas reais que o neguem, já que Amato Lusitano parece ter considerado o caso credível – é provável que a mulher que se tornou Manuel Pacheco tenha vivido alguns tempos bastante confusos após a sua transformação. Poderá ter sido isso que levou à sua ida para o além-mar, em busca de novas aventuras e de novas pessoas, porque nas terras em que sempre viveu teria alguma dificuldade em seguir a sua vida como antes, numa outra espécie de tradição que, até certo ponto, também ainda se mantém muito nos nossos dias de hoje. Terá, um dia, tido filhos da pessoa com quem veio a casar…? É um daqueles muitos segredos da História que, provavelmente, nunca se conseguirão desvendar…