O mito chinês de Jingwei

Não fosse o nome desta sua protagonista e o mito de Jingwei facilmente se poderia confundir com uma das muitas metamorfoses de Ovídio. Porém, visto ser quase desconhecido na sociedade ocidental – na China, esta figura até emprestou o seu nome a uma expressão idiomática – devemos contá-lo por aqui.

O mito de Jingwei

Há muito, muito tempo atrás, viveu nas terras da China uma menina chamada Nuwa (o seu nome é partilhado com uma deusa primordial da mesma cultura, mas as duas figuras não devem ser confundidas). Ela gostava muito do mar, das ondas do oceano, e então passava horas e horas na praia, a contemplar a beleza que a circundava. Um dia, decidiu então meter-se nas águas e acabou por morrer afogada. Mas este não foi o fim da sua história – após a morte, ela foi transformada num pássaro que ficou conhecido com o nome de Jingwei, e que para impedir que outros viessem a sofrer o seu destino começou a transportar pedras e pequenos ramos para o mar local, tentando assim enchê-lo de tal forma que mais ninguém alguma vez viesse a falecer nessas águas.

 

Este pode até parecer um mito simples, mas encontrámos duas versões relativas ao porquê de esta Nuwa, a futura Jingwei, se ter colocado naquelas águas que a viram morrer. Na versão mais simples, ela fê-lo somente para aproveitar a frescura do oceano. No entanto, em outra versão a menina foi movida por uma enorme curiosidade relativa ao que existia além do oceano chinês; assim, montou-se num barco e tentou cruzá-lo, mas acabou por encontrar uma enorme tempestade que levou à sua morte. Em qualquer dos casos, esta razão parece ser completamente secundária para toda a história.

 

Para terminar as linhas de hoje, aponte-se que os Chineses têm um provérbio, ou expressão idiomática, que diz algo como “Jingwei tenta encher o mar”. Na nossa cultura ocidental poderia parecer-nos uma espécie de tarefa de Sísifo, interminável e impossível, mas segundo nos foi dito ela é usada com um significado muito distinto do nosso – mais do que se referir à dificuldade da tarefa, tem em conta a enorme paixão deste novo pássaro para tentar cumprir a tarefa a que se dispôs, por muito difícil que ela possa parecer. Não pode deixar de nos relembrar da história, também ela chinesa, do “Idoso Louco que Removeu as Montanhas”, em que com a ajuda dos céus até o maior impossível se pode acabar por realizar. O que importa é não desistir…

O rinoceronte mais famoso do mundo

A ter de se eleger um rinoceronte mais famoso do mundo, essa poderá parecer-nos uma tarefa extremamente fácil. Os brasileiros até têm o seu Cacareco na competição, mas o animal de que falamos hoje é certamente capaz de colocar todos os possíveis outros na sua sombra. É até provável que já o tenham visto antes, num de incontáveis locais que insistem – justamente – em reproduzir a sua figura:

O rinoceronte mais famoso do mundo

Esta gravura de aquele que se tornaria depois o rinoceronte mais famoso do mundo foi desenhada por Albrecht Dürer em 1515, mas depois foi sendo reaproveitada em diversas obras – encontrámo-lo, para a reprodução acima, na Historia Animalium de Conrad Gessner. E quem é ele? Contamos hoje aqui a sua surpreendente história!

 

Se os Romanos da Antiguidade até conheciam animais como o rinoceronte e o elefante, após a queda do Império Romano eles foram sendo esquecidos e tornaram-se bastante incomuns na Europa. Depois, em 1515, Afonso de Albuquerque recebeu um destes animais em terras da Índia e enviou-o para Lisboa. É provável que o caminho marítimo tenha sido infernal tanto para o animal como para os navegadores que o acompanhavam, mas ele lá chegou à capital de Portugal – de onde veio a informação que levou à gravura de Albrecht Dürer e foi recebido pelo rei Dom Manuel I, que até tentou encenar uma batalha deste animal com o elefante que já possuía – segundo Plínio o Velho, os dois animais eram inimigos figadais, esperando-se uma gigantesca batalha entre eles – mas sem qualquer sucesso. Talvez pela desilusão, talvez por mera coincidência, o nosso monarca decidiu então oferecer este seu rinoceronte ao Papa Leão X, mas o barco que o transportava para Roma foi apanhado numa tempestade e o pobre animal veio a afogar-se…

Este rinoceronte na Torre de Belém

Mas a história do que foi este rinoceronte mais famoso do mundo ainda não fica por aqui, restando algo que pode ser resumido como mais dois capítulos. O primeiro deles é uma espécie de lenda, que nos diz que o corpo do animal foi recuperado das águas, empalhado e levado para outro local. Não sabemos se voltou para Lisboa, se foi para Roma, se foi guardado num qualquer terceiro lugar, ou se toda essa história não passou de um mero rumor, mas desconhece-se o seu paradeiro nos dias de hoje, se ainda existir.

O que sabemos, isso sim, é que o célebre animal não foi esquecido na sua época. Por exemplo, a Torre de Belém estava então a ser construída (a sua construção só terminou em 1520), e então optou-se por representar este rinoceronte abaixo de uma das guaritas. Ele pode ser visto ali na imagem, onde também é fácil reconhecer o resultado de séculos de influência marítima, cujas ondas maceraram o animal até ao corno quase já não o ser. Mas ele também foi repetido em algumas outras construções da época, e.g. o chamado “Rinoceronte de Alcobaça”, fazendo deste o rinoceronte mais famoso do mundo, também conhecido por “Rinoceronte de Lisboa”, por ter sido essa cidade a sua porta de entrada na Europa.

 

Será que já o conheciam? Será que, na vossa opinião, existe um que até possa ser considerado mais famoso do que este? Fica a pergunta no ar…

A Verdadeira Origem do Multiverso

Hoje em dia parece falar-se muito sobre o conceito de multiverso, mas igualmente pouco sobre a sua origem real. Isso dá, falsamente, a ideia de que todo este conceito é uma invenção moderna, completamente nascida já nos nossos dias. Assim, ele aparece na série animada Family Guy, em filmes como Spider-Man: No Way Home, Doctor Strange in the Multiverse of Madness, em repetidas fanfics, e em muitos locais como uma ideia já bem assente na nossa cultura popular, mas sem que alguma vez pareça ser explicado de onde nasceu. E, assim sendo, decidimos hoje tentar explicar de onde vem toda esta ideia, que parece ser cada vez mais popular nos nossos dias.

A Origem do Multiverso (e o Family Guy)

Na imagem acima pode ser vista uma cena do primeiro episódio da oitava temporada do Family Guy, em que duas das personagens principais viajam através de diversos universos, cada qual com as suas características particulares. Um dos mais intrigantes (e que optámos por mostrar aqui), é um em que todas as personagens são representadas como se vivessem num filme da Disney, em que até cantam músicas e outras coisas que tais. O episódio em questão é de Setembro de 2009, ainda uns anos afastado dos filmes de agora, mas acaba por levantar uma questão – se pudessemos seguir essa corrente de possíveis multiversos até à sua origem, onde iríamos dar? Qual é, pergunte-se, a primeira de todas as fontes para esta ideia que tanto reutilizamos hoje em dia?

 

Hanuman e a Origem dos Multiversos

Essa busca por respostas levou-nos, eventualmente, ao Ramayana. Por toda a Índia, e até por alguns dos países vizinhos, existem diversas versões do épico que divergem das versões, que até são as mais famosas, de Valmiki e de Tulsidas. Seria aqui difícil explicar quais são os elementos comuns e os divergentes em cada uma delas, mas o traço que as une é bem captado numa lenda indiana que é acessória à trama do épico. Relate-se aqui essa lenda, que encontrámos por mero acaso, para que se consiga, depois, compreender melhor todo o conceito de multiverso, bem como da sua respectiva origem.

 

Conta-se que nos últimos dias da sua vida Rama deixou cair um anel ao chão. Foi incapaz de o encontrar, e então pediu ao seu fiel companheiro Hanuman, o deus-macaco, que o fosse procurar. Nessa busca, esta figura, ainda hoje muito popular nas terras da Índia, desceu ao submundo e encontrou um dos seus monarcas. Quando lhe explicou o que andava a fazer por esses estranhos locais, Yama mostrou-se estupefacto, mas decidiu ajudar nessa procura pelo anel. Então, pediu a um dos seus servos que trouxesse um enorme prato onde estavam infindáveis anéis que tinham caído para o submundo. Todos eles eram muito parecidos, quase iguais. Hanuman não sabia o que fazer, não sabia qual deles era o do seu amado Rama, e então perguntou ao rei dos mortos qual era o correcto, aquele que procuravam. Este monarca, igualmente desesperado, disse-lhe: “Rama veio muitas vezes a este mundo. Em cada uma das suas vidas, pouco antes de morrer deixou cair um anel. Todos eles lhe pertencem.”

 

O que esta lenda tem de muito especial é o facto de possibilitar a existência de um mundo em que não existe apenas um Ramayama, uma versão oficial de toda a história do épico, mas em que muitas versões tiveram lugar e em que todas elas podem ser apresentadas como igualmente válidas, por muito estranhas que até nos possam parecer – existem, por exemplo, algumas em que Ravana até é o herói da história, outras em que Sita não é rejeitada por Rama no final, e assim por diante, numa infinidade de possíveis narrativas em que as semelhanças e as divergências são sempre mais que muitas e bastante difíceis de traçar… e não é caso único – numa outra versão do poema épico, quando Sita deseja seguir Rama para a floresta, uma das razões que ela dá em favor da sua decisão é “já foram escritos tantos outros Ramayanas, conheces algum em que Sita não acompanhe Rama?!”, e o herói acaba por dar-se por convencido face a esse invulgar argumento.

 

Mas, deixando de lado essas antigas lendas, podemos agora voltar ao tema da origem do multiverso. Parece ter sido, originalmente, um conceito asiático, derivado do Budismo e do Hinduísmo, em que se acredita numa infinidade de existências que nos precederam e incontáveis outras que se nos seguirão. Por essa perspectiva, cada um de nós viveu 300000 vezes e viverá 300000 mais, numa espécie de bailado eterno em que tudo aquilo que existe passa de existência em existência sem cessar. Poderá, nesse seguimento, existir um universo com um Porco Aranha, outro com uma Mulher Aranha, um terceiro em que Peter Parker é órfão, um quarto em que ele vive com o Batman, e assim por diante…

 

Em suma, qual é mesmo a origem do conceito de multiverso? Seguindo os fundamentos de todo o conceito até ao nosso passado cultural mundial, é bastante provável que toda esta ideia tenha originado no Budismo ou no Hinduísmo, religiões em que ainda hoje se acredita numa infinidade de existências, que começaram com um de muitos inícios do universo e terminarão, um dia mais tarde, com uma das suas quase-infinitas extinções. De todo esse conceito é um excelente exemplo a lenda indiana que reproduzimos acima, em que o deus Hanuman é confrontado com o mistério das repetidas existências humanas e se mostra tão estupefacto como nós em virtude da existência, passada e futura, de tantos homens a que ele também poderia chamar Rama.

“A Montanha Pariu um Rato”, origem e significado

A expressão de que aqui falamos hoje, A Montanha Pariu um Rato, é uma de aquelas que se mantém muito utilizada nos nossos dias de hoje, mas que parece ter tomado um significado muito críptico. Sim, as pessoas vão-na usando, aqui e ali, e ela até surge com alguma relativa frequência no discurso político, mas já muito pouco se parece pensar na origem e no verdadeiro significado de toda a expressão. Como tal, e quase por mera coincidência – já lá iremos – decidimos investigar de onde vinha a expressão.

A Montanha Pariu um Rato... e o Rato Mickey?!

Há alguns dias tivemos uma espécie de debate interno sobre um poema medieval espanhol, o Libro de Buen Amor. Em si mesma, essa obra terá de ficar para outro dia, mas entre as histórias alegóricas que contém conta-se, de uma forma muito breve, a de uma montanha que pariu um rato. Aí, é uma história atribuída a Ysopet, ou seja, ao nosso Esopo, mas é curioso constatar que não aparece em nenhuma compilação de fábulas esópicas da Antiguidade. Estaria por isso Juan Ruiz, o autor do tal livro espanhol, enganado? Na dúvida, partimos então em busca da origem de toda expressão.

 

Ela não aparece nas fábulas de Esopo, ou pelo menos não naquelas que chegaram aos nossos dias, mas a expressão já era usada na Arte Poética de Horácio e surge – aí já como uma pequena história – entre as fábulas de Fedro, no primeiro século da nossa era. Podemos até relembrar o que diz o autor, dado se tratar de uma história muito curta:

Uma montanha estava prestes a dar à luz e gemia de uma forma horrível. Esses barulhos geraram grande expectativa nas áreas em redor, mas no final ela acabou por dar apenas à luz um rato. [Moral:] Esta fábula foi escrita para todos aqueles que após proferirem muitas ameças, não fazem nada de especial.

 

É uma história muitíssimo simples, talvez até gerada por um qualquer antigo mito da deusa Gaia, a proverbial Terra, mas é particularmente importante notar que esta história que ainda hoje nos faz dizer que a montanha pariu um rato já vinha com uma moral associada, o que não acontecia nas fábulas originalmente atribuídas a Esopo. Era de outro autor, mas pela sua forma foi ficando, ao longo dos séculos, atribuída a quem mais popularizou esse mesmo género literário.

 

E então, para terminar, se já falámos da origem da expressão, qual é o verdadeiro significado por detrás de se dizer que a montanha pariu um rato? A resposta é muito simples, como até já pôde ser visto na moral acima – significa que muitas vezes as pessoas dão a entender que irão fazer algo de muito impressionante, prometem demasiado, mas depois os seus actos não são nada de especial!

Já alguma vez viram uma Truta com Pêlo?

A Truta com Pêlo é um daqueles peixes que muito raramente se consegue encontrar nas peixarias do nosso país. De facto, nem alguma vez conseguimos encontrar um exemplar desta raríssima espécie em nenhuma peixaria pelo mundo fora, mas em alternativa encontrámos algo de muito interessante num museu, que até aqui merece ser reproduzido com uma fotografia que foi tirada nessa altura:

Quem já viu uma Truta com Pêlo?!

Supostamente, esta truta com pêlo foi capturada em Lake Superior, numa fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá, e ao longo do tempo foi-se tornando tão famosa que diversas reproduções foram feitas e podem ser encontradas um pouco por todo o mundo. A forma mais famosa da sua lenda revela que este raríssimo peixe apenas pode ser encontrado nas águas mais frígidas, onde ele desenvolveu esta sua curiosa característica para protecção contra o frio, mas uma versão alternativa diz que toda a espécie foi criada quando bastantes garrafas de um qualquer tónico capilar caíram num rio próximo.

Até existem versões de toda esta história da Truta com Pêlo, como a da Lodsilungur da Islândia, que atribuiu a sua criação aos pecados dos homens… e, em comum, essas diversas lendas parecem ter o facto de, em muitos casos, até explicarem o porquê de ela ser tão rara – por exemplo, na versão mais curiosa que encontrámos, diz-se que muitas outras trutas até têm pêlo, mas quando são retiradas das frígidas águas de onde são originárias, perdem-no quase completamente.

 

Mas será isto verdade? Será que a Truta com Pêlo é mesmo um animal real, que com muita dificuldade poderá voltar a ser capturado num qualquer curso de água deste nosso mundo, e talvez até vendido numa qualquer peixaria do nosso bairro?

Bem, em toda a verdade merece ser admitido que não conseguimos encontrar nenhuma prova indisputável da sua existência real. Encontrámos, isso sim, foi todo um conjunto de puras lendas e relatos locais, em alguns casos com já cerca de 300 anos, que já no século XX parecem ter levado à criação de uma primeira espécie como a mostrada acima, em que o pêlo de um coelho foi colocado numa truta “normal”, gerando aquela estranha representação que depois contribuiu ainda mais para a popularização de toda uma antiga história pelo mundo fora. E é apenas isso que podem ver ali em cima, na imagem – uma pura fantasia trazida ao mundo como que para legitimizar o que até então se pensava ser nada mais que uma pura lenda.