A verdadeira origem do Ovo de Páscoa (e o Coelho de Páscoa)

Se os grandes símbolos desta altura do ano são o Ovo de Páscoa e o respectivo Coelho de Páscoa, porque não contar, de forma breve, a sua história? É ela muito interessante, se tivermos em conta que os coelhos não põem ovos, nem faziam eles parte da celebração judaica da Páscoa, evento que está por detrás da origem da “nossa” celebração cristã. Assim, se o famoso animal não põe ovos, e também não nasce de nenhum (para quem ainda tiver essa dúvida existencial…), é-nos fácil ver que os dois símbolos, hoje muito associados, eram originalmente distintos. Como tal, falemos de cada um a seu tempo.

 

Qual a origem do Coelho de Páscoa?

Sobre a origem do Coelho da Páscoa

Quem já tiver procurado informação sobre a origem do Coelho de Páscoa acabará por encontrar, uma e outra vez, referências a uma antiga deusa pagã, de nome Eostre ou Ostara, cujo símbolo se diz que era este animal. Infelizmente, quem conta essa história raramente informa que quase nada se sabe sobre essa deusa, nem se tem qualquer prova real de que ela estivesse associada a este animal. A ideia só parece surgir na primeira metade do século XIX, quando um dos Irmãos Grimm, na sua outrora-famosa obra sobre Mitologia Alemã, se interrogou sobre o costume aqui em questão, dizendo depois algo como – e estamos a parafrasear – “desconheço a sua origem, é possível que [este animal] tenha sido o animal sagrado de Eostre [i.e. deusa germância da Primavera]”. Depois, com o passar dos anos e em virtude da popularidade desta obra, essa incerteza original foi sofrendo uma metamorfose em “verdadeiro” facto, mas sem qualquer prova real de toda a ideia!

 

Mas então, de onde vem mesmo esta figura? Se o animal sempre foi popular na Europa em virtude da sua grande fecundidade e por ser muito visto na Primavera, a mais antiga referência que lhe encontrámos neste contexto pascal vem de uma tradição germânica, atestada inicialmente na literatura de finais do século XVII*, segundo a qual uma figura mítica inventada na região, a que poderíamos chamar a “Lebre de Páscoa”, trazia ovos às crianças que se tinham portado bem, numa espécie de Pai Natal primaveril. É curioso notar, nesse seguimento, que ninguém dizia que os ovos lhe pertenciam a ela, mas sim e somente que esta entidade era a responsável por distribuí-los, o que não pode deixar de suscitar a questão seguinte…

 

Qual a origem do Ovo de Páscoa?

Sobre a origem do Ovo de Páscoa

É importante deixar claro que os ovos trazidos pela tal “Lebre de Páscoa” não eram completamente normais. Não eram pura e simplesmente ovos, nem eram de chocolate. Nem podiam ser confundidos com ovos normais, pelo facto de, nessa tradição original, serem pintados e decorados pelas pessoas, antes de os oferecerem e/ou esconderem. Não existia qualquer simbologia conhecida por detrás dessas cores, nem qualquer sugestão – pelo menos no século XVII, em que, como já dito, encontrámos a primeira menção  eles neste contexto – das que devessem ser utilizadas para pintar um Ovo de Páscoa. E porquê, podiam perguntar?

 

Porque, nesse tempos, o importante não era que o Ovo de Páscoa tivesse algum significado real, mas sim que eles fossem distinguíveis dos ovos “normais”, naturalmente brancos ou amarelados. Caso contrário, surgia o problema de mandar as crianças ir procurar estas prendas – um costume ainda bastante frequente em países anglófonos – e elas virem para casa com ovos de cobra ou, talvez ainda pior, de um Basilisco

Mas podemos antecipar o que podem estar a pensar. Podem ter lido aqui e ali que esta tradição é muito antiga e vem do local X, em que os ovos eram pintados da cor Y por causa de Z. Quem o diz tende a esquecer-se, talvez por falta de pesquisa, que uma mera correlação não implica causa. Não é por eles existirem pintados numa qualquer cultura antiga que a tradição, mais recente, de os pintar para a Páscoa vem desses tempos – até pelo contrário, se no século XVII não tinham uma cor específica, o facto de também existirem tradições anteriores que relacionavam “ovos + uma cor por razões simbólicas” são completamente independentes!

 

Em suma, a origem destas duas tradições pascais

Em outros tempos podiam ser vistos nos campos, em tempo da Primavera, muitos coelhos e lebres. Isto levou a um mito popular – assim lhe chamou Georg Franck von Franckenau no século XVII, aquando da que parece ser a primeira referência literária a este costume – que dizia que a Lebre de Páscoa estava a trazer prendas para os mais novos que foram bem comportados. Da Alemanha este costume passou para o Reino Unido e para os Estados Unidos, de onde se disseminou pelo mundo fora, mas já numa forma adaptada, o que é comprovável pelo facto da tradição que celebramos não ser a original, mas sim uma versão muito adaptada já de uma versão secundária, e.g. em Portugal não temos a figura da lebre, o Coelho de Páscoa é um mero símbolo sem qualquer história associada, a tradição de pintar os ovos não existia por cá até há muito poucos anos, e para nós eles são meros doces, quase sempre de chocolate. E assim se explicam estes dois costumes que hoje existem em países lusófonos…

 

Livro 'De Ovis Paschalibus', fonte de muita desta informação

*- Para quem tiver essa curiosidade de a ir pesquisar e ler, a obra em questão é Disputatione Ordinaria Disquirens de Ovis Paschalibus. Está, naturalmente, em Latim do século XVII.

A lenda das Pedras Dropa da China

Falar das Pedras Dropa da China implica, talvez antes de mais, contar uma pequena história com já alguns anos. Nessa altura fomos almoçar a um restaurante chinês em Lisboa e vimos, dentro de uma pequena montra de vidro e juntamente com algumas garrafas de álcool, duas estranhas “coisas” circulares. Tentámos saber o que eram, mas os funcionários chineses do restaurante tinham alguma dificuldade em conseguir explicá-lo, ficando apenas a ideia de que era algo “munto misterioso“. Infelizmente, não conseguimos lá voltar na altura, para investigar melhor o tema, e quando lá tentámos ir mais recentemente o restaurante estava encerrado, mas pelo que parece ter sido um completo acidente uma fotografia online do recinto ainda mostra, de uma forma muito vaga, o que vimos no local.

As Pedras Dropa da China

Investigando depois o tema, ficámos com a ideia de que se poderiam tratar de reproduções estilizadas das também-chamadas “Pedras de Dropa”, originárias da China. E, nesse sentido, achámos que aqui poderíamos contar a sua estranha história, em que os limites da verdade e da ficção se intersectam múltiplas vezes.

 

Diz-se que estas Pedras Dropa foram primeiro encontradas por um tal Chi Pu Tei numas cavernas nas montanhas chinesas de Bayan Har, por volta do ano de 1938, juntamente com diversos esqueletos de pequena estatura. Ele não terá pensado nada de muito especial destas suas descobertas. Então, o tempo foi passando e por volta de 1962 um tal Tsum Um Nui descobriu, por completo acidente, que em algumas dessas pedras podiam ser lidas, com o auxílio de uma lupa, alguns caracters. Não deve ter sido nada fácil, mas ele lá conseguiu decifrá-los e relatou que continham uma história muito incomum, de uns seres diminutos – os tais Dropa que deram o nome a estas pedras – que tinham vindo do espaço, se despenharam na Terra, primeiro foram caçados pelos locais, depois lá estabeleceram boas relações com eles, e finalmente acabaram por decidir ficar a viver no local, já que não tinham qualquer forma de voltar para o seu planeta-natal.

 

Agora, se a uma primeira vista toda esta história das Pedras Dropa até poderá parecer muito intrigante para algumas pessoas, quem tiver mais curiosidade sobre toda a história e for investigar o caso acabará por se deparar consecutivamente com mais e mais dificuldades, desde o facto de (alegadamente) estas pedras estarem a ser escondidas pelo governo da China, até ao facto de não existem provas reais da existência de qualquer um dos grandes intervenientes na narrativa, passado até pela ridícula ideia de que um dos relatos da descoberta – relembre-se, ela é supostamente datada de 1938 – a precede em mais de uma década. Outras versões acrescentam que um turista engenheiro lhes tirou fotografias alguns anos mais tarde (a vista acima, por exemplo), ou que cientistas russos notaram que elas emitiam um som quando eram giradas – tudo muito interessante, claro, não fosse o facto de nada disso poder ser testado nos dias de hoje, relembrando aquela conveniente Carta de Mar Saba.

Pelo outro lado da questão, se quiserem procurar possíveis verdades por detrás de tudo isto, até existe na China uma vila em que os habitantes nascem sempre anões, o que se poderia tentar lidar a esta estranha lenda, não fosse o facto, muito profundamente irónico, dos dois locais se encontraram quase nos extremos opostos do mesmo país.

Um disco Bi chinês

Então, de onde vem toda esta lenda? É provável que tenha nascido como uma mera história de ficção, derivada dos chamados discos bi (), que até são relativamente comuns na China, e de que pode ser visto um exemplo acima. Em alguns casos eles parecem ter mais de 5000 anos, mas raramente têm texto legível, apresentando quase sempre representações dos céus (com estrelas e tudo!) e que tendem a ser encontradas em contextos funerários. Agora, se isso até bate certo com os elementos da lenda, e poderia fomentar a ideia de que esta tradição nasceu dos tais extraterrestres Dropa, depressa é levantado um problema que invalida essa potencial teoria – segundo as diversas versões, o tal Chi Pu Tei encontrou um número de Pedras Dropa que, mediante a fonte consultada, parece ascender a mais de 700-1000 elementos. Onde foi isso tudo guardado, ou – em alternativa – se até existia mesmo algum texto lá, porque é que ele nunca foi transcrito, existindo apenas numa suposta tradução? Ademais, se esse texto – o recontado acima – estava numa das pedras, o que diziam as restantes 699?

 

Face a problemas como estes, entre muitos outros, torna-se claro que estas Pedras Dropa da China são uma pura lenda e nada mais, como aquela intrigante história nipónica dos Documentos Takenouchi, com que esta até partilha alguns vectores basilares. A ser verdade, esta história dos serezinhos que vieram do espaço e se estabeleceram numas montanhas da China seria importantíssima, mas não deixa de ser muitíssimo curioso que todo o relato esteja pejado de elementos comprovadamente falsos e dos quais não existe absolutamente nenhuma prova real – de facto, se Chi Pu Tei e Tsum Um Nui existiram, deveriam existir artigos científicos com os seus nomes, até porque se diz que este segundo foi ridicularizado pelos colegas (que, naturalmente, não teriam qualquer problema em vir a público e contar a sua história), mas… nada (!), o que diz mesmo infinitas coisas sobre a potencial veracidade de toda esta lenda…

“Shi’ur Qomah”, o livro que mediu Deus

Shi’ur Qomah, que é como quem diz “Dimensões do Corpo” (em Hebraico), é provavelmente um dos livros mais estranhos que já se nos cruzaram o caminho. Infelizmente já só existe numa forma fragmentária, parcialmente corrompida, não sendo sequer possível determinar com maiores certezas a data da sua composição original, mas nem por isso deixa de ser uma obra cuja ideia poderá causar um certo fascínio nos dias de hoje.

Um deus que poderá não ser o de Shi'ur Qomah

Essencialmente, Shi’ur Qomah é um livro que, através de uma revelação do anjo Metatron (figura pouco conhecida na cultura portuguesa, mas comum na tradição judaica e muçulmana, como já cá dissemos anteriormente), nos preserva as medidas do corpo de Deus. Claro que também tem alguns outros conteúdos místicos, aqui menos importantes, mas o verdadeiramente curioso na obra é essa tentativa de medida do corpo divino, traçando-o como se fosse o simples corpo de um homem, mas em ponto muito grande, e nomeando cada uma das suas partes. Assim, o Deus judaico, tal como apresentado neste trabalho que é de fins da Antiguidade ou da Idade Média (Maimonides conhecia-o no século XII), é quase um mero homem, descritível nas suas partes, sendo-nos possível saber, por exemplo, que diversas partes do seu corpo estavam inscritas com letras hebraicas; que tinha mesmo barba (como até tende a ser representado na tradição cristã); e que a distância entre os seus dois olhos é de 300000 parasangs*, permitindo-nos perceber a sua estatura quase inimaginável!

 

Mas, sendo assim, será que vale a pena localizar e ler este Shi’ur Qomah? Dificilmente – a obra não é de fácil acesso, não existe traduzida para língua portuguesa, e é provável que o seu tema só tenha interesse para um número muitíssimo limitado de leitores, até porque, mesmo no contexto das crenças judaicas, em dada altura esta foi considerada uma leitura completamente herética, que por essa notável antropomorfização divina era muito contrária à grande maioria dos ensinamentos religiosos do mesmo povo. É aqui digna de menção a título de pura curiosidade, sim, mas pouco mais que isso…

 

 

 

*- Um parasang é uma antiga medida iraniana de distância. O seu comprimento variava, mas pelo que pudemos descobrir era mais ou menos 5-6 Kms. Portanto, se a distância entre os olhos divinos era de 300000 parasangs, isso equivale mais ou menos a 1500000-1800000 Kms, fazendo dele uma figura aproximadamente 24193548387 vezes maior (!) que um ser humano de hoje!

A Batalha de Guadalete e o destino do Rei Rodrigo

Falar sobre a Batalha de Guadalete é, primeiro que tudo, admitir que a visão da História que todos recebemos em tempos de escola é muito incompleta. Pelo menos para quem viver em Portugal, para os períodos mais antigos ela representa a Península Ibérica como um local de passagem de diversos povos antigos, sem que se saiba muito bem quem fez o quê e quando, salvo excepções como a das lendas de Viriato, tão reaproveitadas mais tarde na cultura portuguesa. Por essa razão, alguns instantes da história ibérica estão envoltos num misto de história e lenda, sendo difícil reconhecer onde verdadeiramente termina um e começa o outro… e a história de hoje é precisamente sobre isso, sobre como um mesmo evento, supostamente histórico, pode fomentar lendas muito diferentes em países distintos.

O Rei Rodrigo e a Batalha de Guadalete

Nessa sequência, em Espanha a Batalha de Guadalete é, de um modo muito geral, a de um último monarca e cristão visigodo, que ficou conhecido apenas por Rei Rodrigo e que foi derrotado pelos Muçulmanos aquando da sua invasão inicial da Península Ibérica, no ano de 711. Diz-se ainda que o rei desapareceu em combate, sendo possível que tenha fugido da batalha sem ter sido morto, para um local incerto…

Porém, na versão portuguesa da lenda da Batalha de Guadalete, são acrescentados alguns elementos muito curiosos. Segundo ela, o tal Rei Rodrigo sobreviveu a essa batalha e depois fugiu por mar para uma localização incerta (alguns autores referem uma ilha que ficou conhecida por “Antilha”), juntamente com os muitos bispos que existiam nos seus domínios. Depois, ao longo dos séculos, foram sendo adicionados muitos novos elementos a toda a história – em particular, que esse monarca, os seus bispos e a respectiva corte ainda estavam vivos numa ilha mágica coberta por nevoeiro.

 

O que tem tudo isto de especial, de digno de nota, para ter inspirado a escrita das linhas de hoje? Existem, na realidade, um conjunto de lendas nacionais que podem ser ligadas à deste desaparecimento do Rei Rodrigo e dos seus Cristãos. Por exemplo, na famosa lenda de Dom Fuas Roupinho e da Nazaré, algumas versões dizem que a imagem de Nossa Senhora posteriormente encontrada por esse herói do tempo de Afonso Henriques foi deixada em Portugal,em inícios do século VIII, por um monge que também fugiu com o famoso monarca aqui em questão.

Mas… provavelmente a mais famosa e notável das lendas nacionais associadas a este Rei Rodrigo diz que a ilha em que ele agora vive é a mesma em que o nosso Dom Sebastião se esconde, aquela tal Ilha Encoberta de que nos falava o Sebastianismo e que hoje já está quase esquecida. Assim, quando o nosso rei voltasse para salvar Portugal, iria fazê-lo acompanhado por esse seu companheiro real e pelos bispos outrora desaparecidos, para instituir um novo reino cristão mundial, de que falam muitas lendas nacionais hoje completamente esquecidas, mas que até podem ser vistas em profecias do século XVI, e seguintes, que ainda nos chegaram em pequenos registos de diversos arquivos nacionais, como a que pode ser lida carregando na imagem abaixo.

Profecia do regresso do rei

Contudo, não sabemos onde acaba a verdade e começa a pura lenda em tudo isto. Será que a Batalha de Guadalete teve mesmo lugar? Será que o Rei Rodrigo existiu? Será que morreu em batalha, ou desapareceu para parte incerta? Será que foi acompanhado por outros Cristãos nessa possível viagem? Não sabemos, de todo, nem nos é possível sabê-lo com base nas provas que ainda temos neste momento. É tudo um misto de lenda e realidade, sem que se saiba, efectivamente, os contornos de cada um desses dois pólos.

 

Mas… uma última curiosidade sobre todo este tema. No Algarve existe um bolo chamado “Dom Rodrigo”, que se apresenta hoje como uma espécie de fios de ovos cobertos por uma folha de prata colorida e disposta numa forma que pode fazer relembrar uma ilha. Se o nome do bolo, originalmente, não se devia a este monarca, mas sim a outro Rodrigo do século XVIII, será esta sua nova forma, que foi sendo adoptada ao longo dos anos mas não era a original, uma alusão velada à lenda da tal Ilha Encoberta, com suas areias douradas, do Sebastianismo e deste outrora-famoso monarca ibérico, que igualmente se pensava que lá vivia? Não conseguimos, neste momento, ainda responder a essa questão, mas não deixa de ser intrigante pensar nessa grande possibilidade…

O mito de Nero e o sapo

O mito de Nero e o sapo, de que aqui falamos hoje, não provém de tempos da Antiguidade, mas sim de um conjunto de mitos e lendas do Cristianismo Medieval que foram sendo associadas a este imperador romano para tentar mostrar, falsamente, o quão malvado ele – e, de um modo mais geral, também os seguidores do Paganismo – tinha sido.

O mito de Nero e o sapo

Conta-se então que num dado momento da sua vida Nero quis saber como tinha sido viver no interior da barriga da sua mãe. Assim, pediu aos seus seguidores que a matassem e a esventrassem, para ele poder ver o que havia dentro da barriga feminina em que ele próprio um dia habitou, mas ninguém aceitou fazê-lo, provavelmente em virtude de toda essa abominação que lhes estava a ser pedida.

Então, Nero teve uma ideia alternativa. Visto que costumava ouvir tantas mulheres a dizerem o quão difícil era passar por uma gravidez, também ele quis engravidar. Estonteados, os sábios da sua corte disseram-lhe que isso não era possível, que alguém que nasceu homem nunca poderia conceber, que essa era uma das maiores loucuras deste mundo, mas o imperador, zangado, disse-lhes que ou o engravidavam, ou pagariam a rejeição desse pedido com a morte. Temendo então pela sua própria vida, estes sábios fizeram uma poção mágica que colocou um sapo dentro da barriga deste homem, mas também permitiu ao animal desenvolver-se no seu interior.

Dias, semanas, meses, foram passando até que Nero começou a sentir imensas dores. Primeiro ainda tentou suportá-las, mas depois pediu aos seus sábios que o livrassem de um tal tormento. Eles fizeram-no, com recurso a uma nova poção mágica, que lhe permitiu expelir o animal pela boca. Incrédulo, o imperador perguntou o porquê do feto que ele tinha tido dentro de si ser tão feio, ao que os sábios lhe responderam, com a maior naturalidade do mundo, que isso se deveu ao facto da gravidez não ter sido levada até ao seu final devido. Infelizmente, este mito não nos conta o que o recém-pai sentiu ao ver a criatura, mas ela foi – diz esta historieta – levada para outro quarto e muito bem criada.

 

Esta história de Nero e o sapo é, como não poderia deixar de ser, um puro mito de génese medieval e nada mais. Pretende mostrar este imperador de Roma, mais conhecido por (supostamente) ter perseguido os Cristãos, como uma figura medonha, completamente louca e até muito estúpida, que chega ao ponto de acreditar que pode conceber vida dentro de si. Mas, também curiosamente, não é caso único, nem o primeiro da cultura ocidental – por exemplo, algumas versões do mito de Tirésias dizem que ele, sob a sua forma temporariamente feminina, engravidou e deu à luz uma filha; e nunca é demais recordar o nascimento da deusa Atena, em que Zeus foi tanto pai como mãe. Estranhas histórias de outros tempos…