O Dia da Pinhata, um feriado esquecido?

Existem temas com que nos vamos deparando por mero acaso, e o Dia da Pinhata é um deles. Encontrámo-lo num livro, entre outros feriados que tiveram lugar em Portugal há já quase um século. Entre outros dias de feriado, como a “Terça-feira Gorda“, a “Páscoa“, o “Dia de Camões” e o “Natal”, lá estava ela, ao dia 7 do mês de Março de 1929, “Dia da Pinhata”, representada pelo que parece ser um peixe, talvez uma sardinha. Mas então, a que se referia este feriado, que parece entretanto ter sido completamente esquecido?

O Dia da Pinhata, um feriado esquecido?

Pelo facto do Carnaval e a Páscoa terem, neste calendário, uma data fixa, pode supor-se que esta celebração poderá ter sido fixa ou variável. Uma busca pelo seu nome quase nada revelou, excepto uma possível associação com um “enterro da sardinha”, que ainda se realiza em Espanha e poderá explicar a iconografia presente no quadro – mas que se realiza logo após o Carnaval. Diversos outros possíveis caminhos de investigação também falharam, até que lá encontrámos uma tradição nacional, hoje quase esquecida, de um tal “baila da pinha”, ou “baile da pinhata”. O nome provém de nessa festividade existir uma espécie de pinha que podia ser aberta, e do interior da qual depois saíriam alguns doces e/ou alguma outra honra, dependendo da localidade em que se realizava. A ideia é suportada por um texto de José Alberto Sardinha,  que diz o seguinte:

Nas aldeias, até aos anos 1960, durante a Quaresma não se realizavam bailes, por respeito à quadra que lembra a morte e paixão de Cristo. Havia, porém, uma excepção: na quarta-feira do meado da Quaresma (terceira semana), após a serração da velha (ou melhor, após a sua representação, visto que a costumeira ganhou foros de dramatização para apresentação pública), realizava-se um baile que tinha por atracção a coroação de um rei e uma rainha, títulos que eram atribuídos ao par que, puxando uma das fitas pendentes de uma pinha colocada no tecto, conseguisse abri-la – e daí o nome de baile da pinhata.

Mas… de onde vem a sardinha? Seria, por exemplo, comum que ela fosse comida nessa festividade, como hoje é tradicional nos Santos Populares? Ou era um símbolo geral da ausência de carne nesse mesmo período quaresmal, sem ter alguma ligação directa com o próprio dia, em si? Ainda não o conseguimos descobrir, mas se alguém tiver alguma ideia mais esclarecedora, agradecemos, verdadeiramente e como sempre, que essa informação seja deixada ali nos comentários…

Cifras ou Papéis de Beale – um mistério por resolver!

Encerramos o ano de 2025 com um artigo dedicado a todos os que apreciam mistérios. Falamos então das Cifras ou Papéis de Beale, com data de finais do século XIX, mas que após um século ainda não foram completamente resolvidas.

Começando pela sua história muito resumida (mais detalhes podem ser lidos na obra The Beale Papers, datada de 1885), conta-se então que em inícios ou meados do século XIX um tal Thomas J. Beale, juntamente com outros companheiros, encontrou uma mina riquíssima no estado americano do Novo México ou da Virgínia. Essas riquezas foram levadas para um local seguro, e o tal senhor criou três cifras relativas a ela – uma primeira, contendo a localização do tesouro; uma segunda, com a descrição do mesmo; e uma terceira, na qual eram descritos os legítimos donos do tesouro.

Depois, diz-se que esse Thomas J. Beale deixou uma misteriosa caixa a um dono de uma estalagem de nome Robert Morriss, dando-lhe diversas instruções, inclusive que só poderia abrir a caixa se ninguém a viesse buscar durante uma década. Só passados quase 20 anos é que a caixa foi aberta, e no seu interior foram encontradas três cifras… que Morriss não conseguiu decifrar, mas que um amigo, anónimo, decifrou apenas parcialmente. Então, descobriu que a segunda dessas três cifras dizia o seguinte:

I have deposited, in the county of Bedford, about four miles from Buford’s, in an excavation or vault, six feet below the surface of the ground, the following articles, belonging jointly to the parties whose names are given in number 3, herewith:

The first deposit consisted of one thousand and fourteen pounds of gold, and three thousand eight hundred and twelve pounds of silver, deposited November, 1819. The second was made December, 1821, and consisted of nineteen hundred and seven pounds of gold, and twelve hundred and eighty-eight pounds of silver; also jewels, obtained in St. Louis in exchange for silver to save transportation, and valued at $13.000.

The above is securely packed in iron pots, with iron covers. The vault is roughly lined with stone, and the vessels rest on solid stone, and are covered with others. Paper number 1 describes the exact locality of the vault, so that no difficulty will be had in finding it.

Visto que este documento menciona os outros dois, que ainda não foram decifrados, faz todo o sentido mostrá-los aqui, na sua forma original:

As Cifras ou Papéis de Beale - um mistério por resolver!

O que quer isto dizer? Com base no suposto deciframento da segunda cifra (que não incluímos aqui), sabemos que cada um destes números se refere à primeira letra de uma palavra num qualquer documento. Imagine-se, por exemplo, que o documento em questão era Os Lusíadas – o número 1 corresponderia à letra “A[s]”, o 2 também à letra “A[rmas]”, o 3 à letra “E”, o 4 a “O[s]”, e assim por diante. A segunda cifra foi resolvida com base na Declaração da Independência Americana – portanto, resolver este mistério passa “somente” por encontrar pelo menos um outro texto, publicado nos EUA antes de 1821, cuja primeira letra das palavras permitam criar um texto conexo e inteligível com os números acima. Qual é ele… ainda ninguém parece saber. Fica, portanto, o convite aos leitores sem nada para fazer que tentem decifrar os dois documentos mostrados acima!

Para todos os outros, ou até para quem tiver mais que fazer da sua vida, uma questão impõe-se – será isto verdade? Será que as Cifras ou Papéis de Beale conduzem, de facto, a um enorme tesouro, que parece estar avaliado em mais de 50 milhões de dólares americanos? Os leitores são convidados a ter a sua própria opinião, mas acreditamos que tudo isto é apenas e somente um grande logro. Pensamo-lo com base num elemento fulcral.

É estranho que a única cifra que foi resolvida se trate da menos importante para encontrar o tesouro, mas da mais importante para aguçar o apetite dos leitores. É demasiado conveniente, mas também um tanto ou quanto irrealista – se os três documentos se destinavam a possuidores da chave para a cifra, eles podiam simplesmente lê-los a todos, não existindo qualquer necessidade de se dizer algo como “os nomes estão na terceira cifra” ou “a primeira descreve a sua localização exacta”. De um ponto de vista literário, essas são palavras destinadas apenas e somente a quem saiba revelar o conteúdo da segunda cifra, mas de nenhuma das restantes… como, de facto, parece ter acontecido!

A grande questão é… onde começa e acaba a verdade e a mentira em todo este caso das Cifras ou Papéis de Beale? Será que Thomas J. Beale, Robert Morriss, ou o suposto “decifrador” anónimo existiram mesmo? Ou, se tudo isto é um mero logro, como supomos, qual seria o grande objectivo do seu perpetrador? Mera publicidade a um determinado local, especialmente tendo em conta que se diz que Robert Morriss tinha sido um estalajeiro? Ou a mera intenção de enganar, de ver quem caía na patranha, dado o gosto intemporal da humanidade por tesouros escondidos?

No fim de contas, talvez o verdadeiro “tesouro de Beale” não esteja escondido sob as pedras do estado americano da Virgínia, mas sim nas histórias que continua a inspirar. Um enigma que atravessa séculos, confundindo criptógrafos, aventureiros e sonhadores – e que, quem sabe, ainda aguarda o olhar certo para ser desvendado. Seja mito, fraude ou mistério genuíno, estas Cifras de Beale lembram-nos de algo essencial: o fascínio humano pelo desconhecido é, em si mesmo, o ouro mais difícil de encontrar.

Em que data nasceu (mesmo) Jesus Cristo?

Aproximando-se o Natal, decidimos que (finalmente) devíamos falar sobre a data em que Jesus Cristo nasceu. Já se sabe que não foi a 25 de Dezembro, uma data convencionada por causa da Saturnália dos Romanos antes de 353 d.C., mas então… em que data foi? Ou, se não for possível apurar um dia específico, em que ano do nosso calendário actual teve lugar esse evento crucial da história do Cristianismo?

Olhando para os quatro evangelhos sinópticos, Lucas associa a essa data o chamado “Censo de Quirino” (Lucas 2:1-2), que teve lugar por volta do ano 6 ou 7 d.C., conforme atestado por Flávio Josefo. Mas, ao mesmo tempo, Mateus diz que Jesus nasceu no tempo do Rei Herodes (Mateus 2:1) – que faleceu em 4 a.C. – e que esse monarca até mandou matar todas as crianças para tentar impedir a vinda do Messias. As duas datas não podem ser cumulativamente verdade, mas visto que Josefo atesta o primeiro evento, mas nenhuma fonte da época relata as alegadas mortes causadas por Herodes (que parecem ser teologicamente simbólicas), faz algum sentido concluir que o primeiro autor esteja mais correcto que o segundo. Por isso, somente com base nestes dados, Jesus Cristo terá nascido por volta dos anos 6 ou 7 d.C. Mas será que se consegue ter uma precisão maior, ao nível de um ano específico, de um mês, ou até um dia?

De acordo com Lucas (2:6-7), quando os pais de Jesus procuravam lugar onde ficar, todos os lugares que encontravam estavam cheios. Isto, certamente que em virtude dos tais censos, mas não parece existir qualquer referência a chuva ou outras intempéries, o que seria comum no Inverno. A presença posterior de pastores na cena, parece indicar uma época quente do ano, e o facto dos Reis Magos terem seguido uma estrela também sugere um céu descoberto. Por isso, associando esses pontos, podemos pensar que Jesus Cristo terá nascido na Primavera ou Verão do ano 6 d.C., em que essas condições seriam mais prováveis – ou seja, entre os dias 20 de Março e 23 de Setembro.

Agora, Clemente de Alexandria, na sua Stromata (inícios do século III), diz que Jesus Cristo nasceu no 28º ano do reinado de César Augusto (c. 2-3 d.C.), e dá como datas correntes no seu tempo as de 6 e 10 de Janeiro, 19-20 de Abril, e 20 de Maio. Se as associarmos à informação acima, podemos então crer que este filho de Maria, adoptado por José, terá nascido na noite de 19 para 20 de Abril, ou a 20 de Maio. Infelizmente, o autor não nos diz o verdadeiro fundamento por detrás dessas datas, mas a de 25 de Dezembro aparece pela primeira vez em Hipólito de Roma (c. 204 d.C.), não nos parecendo credível.

Querem estes nossos argumentos dizer que Jesus Cristo nasceu, sem quaisquer dúvidas, a 19-20 de Abril ou a 20 de Maio do ano 6 d.C.? Ou que nasceu em Belém, na Judeia, como aqui dissemos há já alguns anos? Claro que não! O que é apresentado aqui é, única e exclusivamente, uma interpretação nossa derivada do texto bíblico, e de algumas fontes literárias dos primeiros séculos da nossa era. Por definição, uma opinião é discutível, até porque a outras pessoas Mateus poderá parecer mais fidedigno que Lucas. A grande verdade é que, conforme atestado por Clemente de Alexandria, mesmo nos primeiros séculos da nossa era já existiam grandes dúvidas sobre a data de nascimento de Cristo, levando a diversas opiniões. A nossa é só mais uma, e neste Natal os leitores são convidados a pensar em que medida concordam – ou não – com os argumentos apresentados aqui, numa espécie de prenda antecipada.

No fim de contas, talvez nunca saibamos o dia exacto em que Jesus nasceu – se foi em Abril, em Maio, ou em pleno Inverno. O que sabemos é que aquele nascimento, anónimo e improvável, transformou para sempre a história humana. O essencial talvez não esteja em descobrir quando tudo começou, mas em compreender por que esse nascimento continua, dois milénios depois, a inspirar fé, arte, compaixão e debate. A dúvida histórica permanece, mas o impacto espiritual é inegável.

O mistério de George Psalmanazar

Falar de George Psalmanazar é falar de um dos mais curiosos logros da história mundial, que nunca foi completamente resolvido. Ele poderia ter ficado para a história como só mais uma pessoa que fingiu ser o que não era, mas no decurso desse seu caminho também produziu uma obra tão fascinante que sentimos que a deveríamos apresentar nestas linhas.

A história misteriosa de George Psalmanazar

Essencialmente, George Psalmanazar foi um nativo francês que por volta do ano de 1700 se fez passar pelo primeiro nativo de Taiwan a visitar a Europa. Seria um caso como muitos outros (e.g. a Princesa Caraboo, que até foi ajudada por um marinheiro português), não fosse o facto de em 1704 ter produzido um livro sobre o tema, que ainda está acessível online hoje, e tem por título An Historical and Geographical Description of Formosa. Ou seja, trocando por miúdos, este senhor escreveu uma obra sobre a antiga Formosa sem nunca ter visitado a ilha. E, caso não vos pareça algo difícil de fazer, o livro em questão não só inclui diversas imagens de supostas tradições e locais nessa ilha, como até apresentou um abecedário dessa linguagem (que é falso), e diversas traduções feitas para essa sua língua (igualmente falsa). É hoje uma obra fascinante, porque apresenta toda uma criação de um mundo ficcional que, a nosso ver, só será replicado vários séculos mais tarde com J. R. R. Tolkien.

 

 

Se algumas pessoas até duvidavam da veracidade da história deste senhor (como, séculos antes, também tinha sido feito a Marco Polo), e de muitas das coisas que escreveu nessa obra, não parece ter existido um momento em que ele foi completamente desmascarado. Em alternativa, mais tarde ele admitiu que era tudo uma impostura, e publicou vários livros sobre outros temas, demonstrando que era , de facto, uma pessoa verdadeiramente culta. E, quando faleceu em 1763, o trabalho da sua vida culminou num último livro, de título Memoirs of ****, Commonly Known by the Name of George Psalmanazar; a Reputed Native of Formosa, onde conta a sua verdadeira história… mas sem nunca revelar ao leitor o seu verdadeiro nome, sendo ainda hoje conhecido por aquele que o tornou conhecido na sociedade inglesa do século XVIII.

 

 

É esse, de facto, o verdadeiro mistério da vida de George Psalmanazar. Ele arrependeu-se da sua enorme mentira, e até acabou por nos revelar quase toda a verdade por detrás da mesma, mas ainda assim não conseguiu dar o derradeiro passo e revelar tudo sobre a sua identidade. Sabendo-se tudo o mais, talvez tenha sentido que esse elemento, um mero nome, já não era tão importante como as coisas por que foi passando ao longo da sua vida. O remanescente tornou-se secundário, um símbolo de que por vezes a mensagem importa muito mais do que quem a transmite.

 

No fim, George Psalmanazar tornou-se ele próprio uma lenda – um mito moderno, nascido não de deuses ou heróis, mas da imaginação humana e da vontade de acreditar. A sua Formosa nunca existiu – o que nos pode relembrar as aventuras de João de Mandeville ou do Barão Munchausen – mas talvez tenha sido mais verdadeira do que muitas terras reais: um reflexo do poder das histórias em moldar o mundo.

O mito da Atlântida – a da Antiguidade e a Futurista

Após muito ouvir falar sobre o mito da Atlântida, decidi aprofundar um pouco mais esse mito, já que tem a sua origem na literatura grega da Antiguidade.

Será esta a Atlântida?

O mito da Atlântida de Platão e da Antiguidade

A primeira menção (e certamente a que mais importa explorar) à existência desta civilização é feita em dois diálogos de Platão – Timeu e Crítias. No primeiro, a referência inicial é feita na sequência de um relato sobre o passado da civilização de Atenas, e é dada uma data para todo episódio – aproximidamente 9600 a.C. . É ainda dito que esta civilização se localizava no Oceano Atlântico, “em frente (…) aos Pilares de Héracles” e que apresentava uma extensão maior que “a Líbia e a Ásia juntas”. Após ter conquistado vários outros locais, tentou atacar Atenas mas foi derrotada (gostaria certamente de aprofundar mais esta parte, mas o autor não dá mais informações). Depois, e na sequência de “violentos terramotos e cheias”, a ilha “desapareceu nas profundezas do mar”, razão pela qual essa parte do mar era “impenetrável”, “devido à lama no caminho, causada pelo afundamento da ilha”.

Importa mencionar que todo esse relato nos é feito através da voz, não de Platão ou de Sócrates, mas de uma outra personagem (um sacerdote egípcio), e mesmo esse não é um relato na primeira pessoa, mas uma história que Solon (um interlocutores originais) contou a Crítias, que por sua vez a contou a outro Crítias, seu neto. Este último admite recordar-se de “quase tudo” após passar uma noite a relembrar os vários detalhes, os quais tinha ouvido na sua juventude, e Sócrates considera todo o relato como “facto, e não ficção”.

 

Partes desta mesma história são depois recontadas por Crítias no diálogo com o mesmo nome, mas também lhe são adicionados alguns novos elementos, nomeadamente em relação ao nascimento e desenvolvimento da ilha. É-nos contado como Poseidon dividiu a ilha principal em dez partes, deixando cada uma delas para cada um dos filhos que teve com a mortal Cleito, sendo o mais velho (a quem foi dado o nome de Atlas, provindo daí o nome do Oceano Atlântico) o rei dessa civilização e os outros (Eumelus/Gadeirus, Ampheres, Evaemon, Mneseus, Autochthon, Elasippus, Mestor, Azaes e Diaprepes) príncipes de cada uma das pequenas ilhas. É-nos falado de toda a riqueza das ilhas, da forma como era extraído o Oricalco (“mais precioso que tudo excepto ouro”, e de que eram feitos muitos dos elementos arquitectónicos desta civilização), da abundância de madeira, fruta e de animais (em especial elefantes). É-nos ainda relatada a forma como a ilha se desenvolveu e toda a sumptuosidade que a populava, com extensas descrições das diversas áreas e dos modos de vida.

Tudo isto até que, um dia, a herança divina no coração dos homens se começou a perder; os habitantes, apesar de parecerem “gloriosos e abençoados”, começaram a ficar “cheios de avareza e poder injusto”. Em busca de uma solução, Zeus reuniu-se com os outros deuses e… nada. Pode até parecer estranho, para quem não estiver habituado à leitura de textos antigos, mas no exacto momento em que Zeus se ia pronunciar sobre tudo isto a trama termina de uma forma demasiado inesperada. De facto, o texto a que hoje temos acesso termina no exacto ponto em que nos é referido que “[Zeus] disse o seguinte …”.

 

Pois bem, a meu ver é esta ausência de um final em Crítias que – e apesar de se saber do destino final da ilha através da sinopse patente em Timeu – gerou todo o mistério que nos chegou até aos dias de hoje. Tal como sucede em Perceval, le Conte du Graal, de Chrétien de Troyes (uma das primeiras histórias sobre o Santo Graal, também ela inacabada), neste caso não é dado um seguimento real a um importante mistério, o que deu lugar às mais diversas interpretações e conjecturas, como é tão frequente quando o género humano se confronta com um desconhecido.

 

Seria, por exemplo, toda a história da Atlântida nada mais que uma metáfora para ilustrar um ponto, como sucede noutros diálogos do mesmo autor? Não sabemos. Seria esta civilização composta por um aglomerado de ilhas? Em Crítias somos levados a pensar que sim, mas então porque procuram as pessoas um continente único? E de onde vem toda a sugestão de que esta civilização era surpreendentemente evoluída? Nada nos dois textos nos dá a entender isso. Os momentos finais de Crítias levam-nos até a pensar numa civilização imperfeita, repleta de defeitos humanos e reais, mais do que com um carácter (quase divino, parece-me) que hoje lhe é dado.

 

Em suma, seria esta uma história verdadeira? Em Timeu, Sócrates dá-nos a entender que sim, mas até que ponto podemos acreditar nele, quando a nossa tarefa é a de julgar correctamente uma questão deste âmbito? Creio que sem termos acesso ao final de Crítias (e mesmo com as informações de Timeu, já que estas não são totalmente conclusivas) nada podemos concluir. Conjecturar sobre a existência da Atlântida de Platão é quase o mesmo que ler os fragmentos de Satyricon e tentar recriar toda a trama… Assim, vejo-me obrigado a concluir que tal como sucede com o Santo Graal de Chrétien de Troyes, também este local poderá ser uma invenção (ou, quem sabe, uma reinvenção) de Platão. Isto porque não temos, para além deste autor, acesso a qualquer outra fonte que nos confirme a veracidade dos eventos. Ainda assim, devo dizer que a creditação da história da Atlântida a “um sacerdote egípcio” me recorda de um artifício mais frequente após a idade média – para atestar a veracidade de um texto, eram então dadas fontes de um passado distante, que já não sobrevivem mas a que o novo autor/tradutor teve, de algum modo, acesso. Curiosamente, esse artifício era vulgarmente utilizado para dar um maior crédito a textos falsos…

 

 

P.S.- Sobre todo este tema existe, no mundo anglófono, uma expressão atribuída a Aristóteles que diz algo como “Plato alone made Atlantis rise out of the sea, and then he submerged it again”. Apesar de se tratar de uma sugestão muito interessante, não foi possível encontrar essa expressão específica em nenhum trabalho do filósofo grego, sendo, por isso, muito provavelmente uma citação falsa!

 

E… a Atlântida futurista?

O artigo acima foi escrito há mais de 15 anos, e ele não falava de um aspecto curioso do mito da Atlântida que é muito popular nos nossos dias – o de uma civilização futurista, com tecnologia muito superior à nossa, incluindo carros voadores e outras coisas que tais. Platão, e os outros autores da Antiguidade, nunca nos dizem nada disso, portanto… de onde vem toda essa ideia?

Essencialmente, e para quem tiver essa curiosidade, a ideia advém de dois autores distintos já nos séculos XIX e XX da nossa era. O primeiro deles, Ignatius L. Donnelly, publicou em 1882 um livro de título Atlantis: The Antediluvian World, em que apresenta uma Atlântida que tenta tornar histórica, e que o autor construiu, essencialmente, como uma base para explicar diversas coincidências entre as antigas sociedades americanas e europeias. Ele usa argumentos como “a letra A entre os Fenícios e os Maias é muito parecida, e isso indica uma fonte comum, um continente perdido entre ambos”, o que não é completamente verdade, já que se poderá tratar – tanto aqui, como em muitos outros casos apresentados no livro – de mera coincidência. Esta primeira obra popularizou, na imaginação popular, a ideia de que teria existido ali um continente com as capacidades culturais e científicas necessárias para popular outras regiões com sucesso.

 

Algumas décadas mais tarde, o médium Edgar Cayce falou do mesmo continente e da sua civilização em muitas das suas previsões. Encontrá-las a todas seria difícil, não fosse o facto de Edgar Evans Cayce – o filho do anterior – as ter compilado num livro de título Edgar Cayce on Atlantis. É aí que esse continente parece aparecer, pela primeira vez, como uma Atlântida futurista, destruída não por algum poder divino da Antiguidade, ou pelas águas do mar, mas pelo grande perigo gerado pela sua própria tecnologia.

Terá sido verdade? Será que uma Atlântida futurista existiu mesmo? A resposta parece ser dada pelo próprio Edgar Evans Cayce na obra em questão – se ele compilou as leituras do pai em torno deste tema, ele mostra, ocasionalmente, um certo cepticismo relativo à ideia, parecendo esperar que a Ciência, no futuro, confirmasse ou desprovasse esta antiga existência, nomeadamente através de uma biblioteca secreta, profetizada pelo pai, que supostamente existe nas redondezas da Esfinge do Egipto. Portanto, basta dizer que até à presente data, nunca foi encontrada qualquer prova real e incontestada de um continente perdido e com uma tecnologia perdida superior à nossa.