A lenda do Ninho do Tigre (Paro Taktsang)

Existem lendas que pelo seu próprio nome não podem deixar de suscitar curiosidade. A de hoje refere um suposto ninho de tigre – Paro Taktsang, no original – e na nossa tradição ocidental a ideia suscita, automaticamente, um bom punhado de questões, quanto mais não seja pelo facto dos tigres não fazerem ninhos. A história por detrás desse nome butanês explica, como é natural

A lenda do Ninho do Tigre (Paro Taktsang)

Hoje, quem for ao mosteiro de Paro Taktsang, que pode ser visto na imagem acima, pode ver que ele não é de fácil acesso. Em outros tempos ainda era mais difícil chegar a este local, e nele existia uma caverna em que vivia uma criatura monstruosa. Um dado dia, uma figura que ficou conhecida no budismo local como Padmasambhava viajou para este local por meio de um tigre voador, e depois de meditar na caverna conseguiu vencer o monstro. Assim, o espaço tornou-se famoso, em particular para práticas meditativas, e no século XVII foi lá construído um mosteiro budista.

 

Toda esta breve história poderia ficar por aqui, não fosse o facto de ainda faltar abordar um elemento completamente fulcral – visto que “tigres voadores” não são propriamente frequentes, de onde veio aquele que deu o nome a este local? Essencialmente, parecem existir duas versões. – Numa delas, essa criatura foi somente conjurada pelos poderes místicos de Padmasambhava, sendo uma espécie de símbolo dos seus poderes místicos. Numa outra, aparentemente menos comum, o animal resultou da transformação de uma sua estudante budista, de nome Yeshe Tsogyal (hoje considerada a mãe do Budismo Tibetano), o que sugere que o herói viajou, simbolicamente, do Tibete para o Butão por via deste animal.

 

O “ninho”, esse, parece ter sido metafórico, já que o viajante, depois de derrotar o monstro que vivia neste local, parece ter utilizado a mesma caverna como uma fonte para o nascimento e propagação das ideias budistas entre os cidadãos locais, como que as fazendo voar em todas as direcções ao longo dos anos.

 

 

Ainda, tendo em conta que este local não é de fácil acesso – presume-se que os leitores não tenham tigres voadores à sua disposição – fica aqui um pequeno vídeo que permite ver como ele é, até por se tratar de um dos mais famosos locais de peregrinação religiosa no Butão.

 

A lenda de Phaya Naga e as Misteriosas Bolas de Fogo do Rio Mekong

A lenda de hoje, relativa a uma criatura – supostamente mitológica, mas nestes mistérios nunca se pode ter uma certeza absoluta – de nome Phaya Naga, vem-nos do rio Mekong, em particular do segmento que separa a Tailândia do Laos. Não é uma lenda muito complexa, mas merece ser contada aqui pelo facto de ainda ser celebrada anualmente e se referir a um misterioso fenómeno que ainda pode ser visto nos nossos dias.

A lenda de Phaya Naga

Diz-se então que Phaya Naga é uma espécie de “Naga” – uma cobra gigante, que neste caso em particular não tem forma humana, ao contrário do que acontece nas crenças hindus – que se crê que ainda vive neste local, mas que em outros tempos foi responsável pela criação de todo o enorme espaço por onde ainda passa o Mekong. Talvez tenha algumas outras lendas locais associadas, mas a mais significativa que conseguimos encontrar refere-se a um festival que tem por nome Bang Fai Phaya Nak, em que se diz que esta criatura, ou outras suas companheiras, na noite conhecida por Ok Phansa atiram misteriosas bolas de fogo ao ar. Seria interessante dizer-se aqui a data, para quem quiser ir ver esse fenómeno em primeira mão, mas o problema é que Ok Phansa é o nome dado à noite de lua cheia do décimo-primeiro mês lunar, e portanto varia no nosso calendário solar – neste ano de 2025, por exemplo, o festival terá lugar na noite de 13 de Outubro. Visto que não é muito fácil ou rápido viajar para o local, quem quiser ver mais ou menos o que acontece nessa altura pode dar uma olhadela a este vídeo:

 

 

Mas então, porque é que esta criatura, de nome Phaya Naga, produz as suas bolas de fogo apenas e exclusivamente na data referida acima? Segundo a lenda local, ela fá-lo porque, nas crenças budistas locais, esta é a data em que Buda desceu dos céus, onde tinha ido pregar a mensagem à sua mãe, e voltou ao mundo terreno. Aparentemente, é para celebrar esse seu regresso que esta criatura serpentesca adopta este comportamento.

 

 

Agora, uma pessoa ocidental, menos familiarizada com estas histórias, pode querer perguntar… o que são, na verdade, essas tais bolas de fogo. E existem várias teorias para as tentar explicar, mas absolutamente nenhuma certeza, pelo que se prefere, aqui, deixar o grande mistério por detrás da lenda falar por si próprio. Porque, afinal, nem todos os mistérios devem ser desvendados…

O significado da Bhavacakra budista

A Bhavacakra é um daqueles símbolos budistas, em particular da sua forma tibetana, que são muito pouco conhecidos em Portugal. Talvez seja mais correcto é dizer-se que esta religião em si mesma é pouco conhecida em Portugal – relembre-se, por exemplo, o caso da Sapataria A Deusa – e é por essa razão que decidimos escrever estas linhas de hoje, pelo facto do símbolo a que as dedicamos, também conhecido como a “Roda da Vida”, captar de uma forma interessante parte das crenças dessa religião. Ele é representado de diversas formas, umas mais coloridas que outras, mas os seus elementos essenciais parecem manter-se sempre no número de sete, como assinalado abaixo. E é sobre os seus significados que se escrevem estas linhas:

O significado da Bhavacakra budista

1– Ao centro podem ser vistos três animais, que são um porco, uma cobra e uma espécie de pássaro; eles representam, de uma forma metafórica, a ignorância, a raiva e o apego ao mundo físico, como os três “venenos” que se acreditava afastarem as pessoas da mensagem budista.

2– O segundo círculo, aqui com algumas pessoas a caminharem ajoelhadas e outras em pé, cada qual no seu semicírculo, tem representado os resultados do karma; as primeiras são as que praticaram boas acções em vida, enquanto as segundas fizeram o seu contrário.

3– O terceiro círculo, aqui dividido em seis partes, tem uma representação sucinta dos seis mundos em que as pessoas podem renascer. Falar de cada um deles em grande detalhe seria difícil, mas na secção de baixo podem ser vistos os reinos “maus” (o dos animais, dos fantasmas, e o da existência infernal), enquanto na de cima estão os “bons” (o dos deuses, dos semideuses, e o dos humanos).

4– O quarto círculo tem representado as 12 razões simbólicas que afastam as pessoas de uma existência melhor. Seria aqui também difícil explicar o seu significado individual, mas entre elas contam-se o apego aos desejos do corpo, os novos nascimentos e a própria morte.

5– Já fora dos círculos pode ser vista uma figura monstruosa, que uns dizem ser Mara, a tentadora, e outros Yama, deus dos mortos. A sua presença pode ser justificada pelo papel de ambas as figuras em todo este ciclo.

6– No canto superior esquerdo pode ser visto ora a lua (aqui representada com o Coelho Lunar), ora uma estrutura com o mesmo significado – o de um escape a toda esta roda da existência.

7– Finalmente, no canto superior direito pode ser visto o fundador do Budismo, que com uma das suas mãos aponta para a lua, como que a dizer que só pelos seus ensinamentos o escape da roda da existência pode ser atingido.

 

Este símbolo da Bhavacakra é, portanto, um símbolo budista de especial importância no Tibete e em algumas partes da Índia, e ele capta essencialmente um conjunto de crenças dessa religião. Elas são fáceis de reconhecer pelos crentes locais – como o são, por exemplo, entre nós as representações das “Estações da Cruz” – mas para quem desconhece todo o seu contexto, como é o caso da maioria dos Portugueses, nem tanto, e foi mesmo daí que sentimos ser interessante uma sua breve explicação como a acima, pelo menos para quem queira aprender algo de totalmente novo.

Um breve lenda de Amitaba

A lenda de Amitaba conta-se entre muitas outras associadas ao Budismo e que são quase desconhecidas no nosso país. Assim, falar sobre ela implica uma breve introdução ao tema, com algumas informações que poucos parecem conhecer em Portugal. Há já alguns anos contámos aqui os elementos essenciais da história de Buda, ou de Sidarta Gautama, a figura fundadora do Budismo. Contudo, se esse homem foi o fundador de uma famosa religião, também existem muitas outras histórias ligadas a ela. Algumas delas limitam-se a adicionar elementos à história desse fundador – relembre-se, por exemplo, o que se diz sobre a mãe de Buda – enquanto que outras nos relatam as aventuras de várias outras figuras budistas, algo que podemos considerar como uma espécie de santos do Budismo – relembre-se, também a título de exemplo, aquele nosso famoso “Buda Gordo“; ou Bodidharma, o criador do chá. Nesse seguimento, existem quase infinitas lendas que podemos associar aos “santos” dessa religião, cada qual com elementos muito únicos, como a história de hoje nos poderá fazer ver.

A lenda de Amitaba

No seu cerne, Amitaba foi um santo budista como muitos outros, mas o que o distingue de figuras semelhantes é o facto de ele ter sido o criador daquilo que se chama o “Budismo da Terra Pura”. Sobre ele, conta-se então que antes de atingir o seu Nirvana ele prometeu que todos aqueles que o evocassem no futuro, por uma única vez que fosse no decurso das suas vidas, poderiam mais tarde vir a renascer na tal Terra Pura, uma espécie de paraíso terreno em que tudo segue os preceitos da sua religião. Para tal, bastaria apenas e somente dizer uma única e breve frase – 南无阿弥陀佛 em Chinês, 나무아미타불 em Coreano, 南無阿弥陀仏 em Japonês ou नमोऽमिताभाय बुद्धाय em Sânscrito… que é como quem diz “Refugio-me no Buda Amida” ou “Refugio-me em Amitaba”; na versão aprendida por um dos nossos colegas no Japão, a frase pode até ser apenas Namu Amida Butsu. O processo, na sua vertente mais formal e religiosa, pode ser como mostra este vídeo:

Face à simplicidade do processo, fica o convite para que quem tem interesse nestas coisas o tente… e depois, um dia no futuro, nos diga se funcionou ou não!

O segredo da Sapataria A Deusa

Para este dia de hoje decidimos que também tínhamos mesmo que falar da Sapataria A Deusa, na cidade de Lisboa. Isto porque, se era uma das lojas históricas da cidade – fundada em 1951, ou seja, com já mais de 70 anos, e agora propriedade de José Fiandeiro – recebemos esta quarta feira a triste notícia de que ela ia encerrar definitivamente, vítima de uma ordem de despejo, para vir a dar lugar a mais um dos milhares e milhares de espaços quase exclusivos para turistas que já existem na capital portuguesa. É triste, indubitavelmente triste, que aquela que é provavelmente a mais antiga cidade de Portugal se esteja a tornar numa espécie de Disneyland só para visitantes estrangeiros, mas – deixando de lado essas inquietantes notas – o nome da loja, bem como a respectiva explicação por detrás dele, não pôde deixar de nos suscitar uma dúvida de curiosidade.

A imagem que dá nome à Sapataria A Deusa

A Sapataria A Deusa tem, segundo a sua informação no portal Lojas com História, como “ex-libris um baixo-relevo em verde de uma deusa hindu”. Ele pode ser visto acima (as fotografias são do mesmo portal!), tanto no seu contexto original, que aqui pensámos em tentar ajudar a preservar, como em maior pormenor. Porém, a nossa questão – uma que curiosamente, muitos jornais ignoraram por completo – prende-se com esta representação, que aparenta ser de origem hindu. Se ela tem representada, de facto, uma “deusa hindu”, qual é ela? Ou, de um modo até mais geral, se esta é uma representação de uma qualquer cena mitológica, qual será?

 

Relativamente a todo este tema da Sapataria A Deusa, fomos então inquirir – estes temas hindus, como já cá vimos anteriormente no caso de Ganesha, são pouco conhecidos em Portugal – e descobrimos que, curiosamente…. havia muitas opiniões, mas uma única certeza – que, por enorme ironia, não se trata de uma deusa hindu (já que essas são quase sempre representadas com mais de dois braços!), mas de algo um pouco diferente. Aqui ficam algumas opiniões:

  • Uma disse-nos que esta é uma Salabhanjika, uma representação de uma mulher ao pé ou debaixo de uma árvore.
  • Outra, que se trata de uma Gopika, uma devota de Krishna, reencarnação do deus Vishnu, que honra essa sua divindade através da dança.
  • Uma terceira sugeriu que, em alternativa, esta representação é budista, com base nas orelhas e no corte de cabelo das duas crianças que estão do lado esquerdo (ver a representação do Buda que incluímos quando cá contámos a sua história).
  • Uma quarta lançou a ideia de que esta até poderá ser uma intersecção de arte hindu com a budista, originária do norte da Índia.
  • Ainda outra disse tratar-se de Sita, esposa de Rama, no período de exílio que passou com os seus dois filhos na floresta (após ter sido abandonada pelo herói).

 

Ninguém parecia conseguir concluir nada sobre esta representação patente na Sapataria A Deusa, até que um leitor do site Reddit, de nome “_uggh”, nos enviou uma pista preciosíssima, cujo verdadeiro valor pode ser visto abaixo:

A mesma representação que está na Sapataria a Deusa

É extremamente fácil ver a semelhança desta imagem com a anterior, a que está na loja – e, de facto, elas até são quase iguais, salvo pequeninas diferenças! Então, o que representam ambas? Como este selo do Nepal indica no seu lado direito, a cena representada aqui é, na verdade, o nascimento de Buda! A figura feminina, em grande plano, não é nenhuma deusa, mas sim a rainha que deu à luz o fundador do Budismo, a que parece ser dado o nome de Maia (entre outros), e que deu à luz este seu filho agarrada a uma árvore cuja tradição diz ser a shorea robusta. Nesse sentido, as duas “crianças” na parte traseira são, aparentemente, dois seres celestiais – ou devas, no contexto original – que a ungiram antes desse nascimento!

 

Muito interessante, até porque é certamente uma das poucas representações budistas deste episódio em terras de Portugal, mas é também igualmente curioso que em mais de meio século ninguém pareça ter conseguido apurar tudo isto, que esta não era uma deusa hindu mas uma figura feminina significativa da história do Budismo – ou, se por acaso até alguém o fez, pelo menos parece que nenhum jornal nacional se importou em saber melhor quem era esta suposta “deusa” que habitava numa loja lisboeta e cuja Câmara Municipal falhou em proteger, em prejuízo dos que ali trabalharam… e assim se perdem as verdadeiras histórias e se criam as lendas, que pelo desconhecimento tornaram a Rainha Maia da Sapataria A Deusa numa vaga “deusa hindu”…