O estranho mito de Die Glocke

É provável que a maior parte dos leitores nunca tenha ouvido falar de Die Glocke. É Alemão, é uma expressão que pode simplesmente ser traduzida como “o sino”, mas um nome tão simples também oculta um dos mais estranhos mitos do século XX. É, que se admita sem qualquer dificuldade, um mito tão estranho que achámos que o devíamos apresentar aqui para, no mínimo dos mínimos, fazer algum leitor rir um pouco e pensar, por um segundo que seja, “há coisas mesmo malucas”! Vamos a isso?

O mito de Die Glocke

Hoje, algures em terras da Alemanha, pode ser encontrado a estrutura abandonada que apresentamos na fotografia acima. Normalmente isto não teria nada de especial, não seja mesmo o facto de este lugar, agora com contornos de algum mistério, aparecer em algumas fontes literárias menos credíveis como o local em que Die Glocke esteve um dia a ser desenvolvido. “E o que é afinal esse tal sino?”, poderia perguntar-se… ora bem, diz-se que quando Adolf Hitler – e não, ele não tinha sangue judeu – sentiu que estava prestes a perder a Segunda Guerra Mundial, ele ordenou o desenvolvimento célere de diversas tecnologias secretas, as quais pensava que podiam inverter todo o rumo da guerra. Algumas são mais ou menos reais, outras são completamente estranhas, um número menor parece ser pura brincadeira, e entre estas últimas contava-se aquela de que aqui falamos hoje, que não era senão mais que… uma máquina do tempo em forma de sino, que após o desenvolvimento alguns Nazis depressa utilizaram para fugir da guerra (mas só depois de matarem todos os participantes neste projecto)!

 

O tema de hoje poderia ficar por aqui, provavelmente já com uma certa risota à mistura, mas ainda vamos a metade. A guerra terminou em 1945. Anos depois, em 1965, diz-se que caiu uma espécie de “disco voador” nos Estados Unidos da América, mais precisamente em Kecksburg, no estado da Pennsylvania. Tinha a curiosa forma de um sino, e, segundo uma versão da lenda local, saíram do seu interior alguns seres humanos, perguntaram que ano era, voltaram para o seu interior e depois o veículo tornou a desaparecer. Seria o tal Die Glocke dos Nazis…? Será que ele voltará a aparecer um dia destes? Só o tempo o dirá, não é?!

 

Mesmo que queiram acreditar em toda esta estranha história de Die Glocke, da qual não existem quaisquer provas reais, na altura a NASA foi averiguar o que parecia ter caído dos céus e descobriu se trataram de alguns fragmentos de um antigo satélite soviético… o que tira um pouco a piada à história, excepto se quiserem acreditar – como é comum nestas teorias de conspirações – que isso foi só uma forma de encobrir o que aconteceu mesmo no local. Mas, nestes estranhos mitos, nunca se sabe bem as estranhas ligações que a mente humana é capaz de construir… como nesta história de hoje, em que, por si só, as duas partes de um mito teriam muito pouco interesse, mas associadas assim, como foi aqui feito, tornam o tema de Die Glocke se torna muito mais digno de nota… mesmo que escolhamos não acreditar em nada disto, por não existirem quaisquer provas reais da existência real desta suposta máquina do tempo!

A Lenda de Loreley

É difícil falar-se de uma verdadeira lenda de Loreley – ou Lorelei – porque, contrariamente ao que é habitual, neste caso específico sabemos a sua origem. Parte dela foi escrita em 1801, por um tal Clemens Brentano, enquanto que outra parte originou em 1824 por Heinrich Heine. Poderia achar-se, assim, que uma delas, ou ambas, se basearam numa lenda pré-existente, potencialmente oral, mas dado que as duas “versões” são significativamente diferentes, isso parece demonstrar que não existia qualquer lenda na sua origem, mas apenas e somente uma espécie de história muitíssimo geral que ambos os autores utilizaram para os seus próprios propósitos.

A lenda de Loreley

Na história de Clemens Brentano, datada de 1801, esta Loreley era apenas uma mulher que foi traída pelo seu apaixonado e acusada de feitiçaria. Como era comum na época – e já aqui explicámos porque eram essas supostas “bruxas” acusadas – isso deveria levá-la à sua morte, mas o bispo local preferiu apenas condená-la a viver num mosteiro para o resto dos seus dias. Depois, quando se encontrava a ser transportada para esse local, ela passou no local da rocha visível acima e pensou ver, muito à distância, o seu amado a retornar, preparado para a salvar do temível destino. Subiu à rocha para o ver melhor, mas acabou por cair da mesma, tornando-se uma espécie de figura tutelar do local.

 

Agora, na história de Heinrich Heine, esta datada de 1824, Loreley já é uma espécie de sereia local, que, sentada no topo destas rochas, atraía todos os navegadores para a sua destruição. Um dia levou à morte do filho de um nobre local, que se tinha apaixonado por ela, como já tinha acontecido a tantos outros anteriormente. Quando soube o que se tinha passado, esse nobre lá enviou o seu exército para o local, procurando matar o “monstro”, mas esta figura simplesmente se afundou nas águas e foi para o seu palácio secreto… e não mais voltou a ser vista, mas os seus gritos continuam a poder ser ouvidos nas noites de lua cheia, como é comum em histórias como estas.

 

Nunca ouvimos a Loreley na primeira pessoa, convém frisar isso. Porém, é bastante claro que, dado o facto de todo este local estar associado a diversos acidentes aquáticos, alguém decidiu começar a contar uma espécie de história que pudesse ajudar a explicá-los. Contudo, a natureza destas duas primeiras histórias é muito diferente, não tem um verdadeiro tronco comum excepto ao nível do nome da personagem principal (que já era o de um rochedo local…), deixando perceber que mais do que existir uma lenda da Loreley em que se inspiraram, existia era um nome e um conjunto de incidentes que necessitavam de explicação, algo que Brentano e Heine tentaram colmatar à sua maneira. E, por isso, mais do que uma lenda, estas são duas breves histórias de um local que, com o passar do tempo e uma fama crescente, se tornaram uma espécie de pseudo-lenda alemã…

A lenda de Fortunato

A lenda de Fortunato, relatada nas linhas de hoje, teve a sua origem na Alemanha, aparentemente nos primeiros anos do século XVI. Agora, até pode ser encontrada em alguns livros de contos de fadas do centro da Europa, mas originalmente não era uma história para crianças, como um breve resumo da sua trama permitirá perceber.

A lenda de Fortunato

Fortunato era um homem como qualquer outro. Um dia, enquanto passeava numa qualquer floresta do local em que vivia, encontrou a deusa romana Fortuna (ainda hoje famosa pela sua presença numa expressão que ainda utilizamos), que lhe ofereceu um dom – ele podia escolher sabedoria, força, beleza, saúde sem fim, uma longa vida, ou até as maiores riquezas do mundo. Imprudentemente, ele acabou por escolher esta última, e então a deusa deu-lhe uma pequena bolsa que produzia todas as moedas de ouro que ele pudesse vir a querer. Com esta carteira encantada em sua posse, este homem tornou-se muito rico e foi viajando por tudo quanto é sítio, até que um dia se encontrou no Cairo, onde um sultão local lhe mostrou um chapéu mágico, capaz de transportar o seu portador para qualquer local que ele desejasse. Roubando-o para si mesmo, escapou logo do local e voltou para casa, onde ainda teve mais algumas aventuras, acabando eventualmente por falecer.

 

Claro que este não seria um final lá muito interessante para esta lenda de Fortunato, e por isso as coisas ainda não ficam por aqui. Como podem ter reparado ali na imagem, ele teve dois filhos, com os estranhos nomes de “Ampedo” e “Andolosia”. Quando faleceu, deixou a um deles a bolsa e ao outro o chapéu. Incapazes de trabalhar em conjunto, foram sucessivamente levados por diversas dificuldades e acabaram por perder não só tudo aquilo que tinham conquistado, mas também o que poderiam ter vindo a ganhar com ambos os ítens mágicos em sua posse comum. E a deusa Fortuna, essa, num misto de sorriso amarelo e de malícia, acabou até por levar a sua bolsa de volta para o local de onde a trouxe, demonstrando a completa imprudência dos homens na altura da escolha do que querem para as suas próprias vidas.

 

É esta, então, toda a lenda alemã de Fortunato? Nem por isso, mas o problema é que parecem existir diversas versões de todas estas aventuras, em que apenas alguns momentos chave se vão mantendo. Não existe, pelo menos pelo que foi possível apurar, qualquer versão em que toda a história termine bem, em que os dons providenciados pela Fortuna – ou o tal chapéu mágico – tenham trazido completa felicidade a quem os possuiu. E, portanto, talvez mais que tudo, seja essa a lição a reter de toda esta história – que as pessoas, e o uso que fazem daquilo que vão conquistando, são mais importantes do que toda a magia do mundo. Que vos parece…?

Chernobog e Belobog na Mitologia Eslava

Chernobog e Belobog contam-se entre aquelas muitas figuras divinas de determinados povos que foram sendo esquecidas ao longo dos séculos. Foram, como muitas outras, vítimas da cristianização dos vários povos europeus, talvez como o nosso Larouco, mas nem por isso deixam de ter ainda uma pequena história para contar. Como tal, fazemos da sua (pequena) história tema para a publicação de hoje.

Chernobog e Belobog na Mitologia Eslava

Comece-se por voltar atrás no tempo algumas décadas. O filme Fantasia, da Disney, chegou aos cinemas em 1940, mas se o considerarmos como um filme animado para crianças não podemos senão estranhar uma sequência particularmente assustadora, que dado o contexto merece aqui ser recordada (caso não seja óbvio, não é uma sequência muito indicada para crianças):

O ser monstruoso e diabólico apresentado nesta sequência é considerado “Chernabog” no filme, como pode ser confirmado pr outras fontes, mas quem quiser procurar por esse nome específico na internet quase nada encontrará sobre ele. Isto porque essa designação tem um pequeno erro, é derivada de um verdadeiro nome de uma antiga divindade eslava de nome Chernobog. Como sempre, seria muito interessante contar aqui alguns mitos e lendas que o envolvam, mas eles estão quase totalmente perdidos, salvo uma pequena informação que nos chegou do século XII – segundo esta, alguns Eslavos veneravam dois deuses, um bom e um mau, respectivamente responsáveis por tudo o que é bom ou mau no mundo. Ao segundo deles era chamado Chernobog – que é como quem diz, “o deus negro” – e se as linhas não preservaram o nome do seu bondoso companheiro até ao século XVI, ele ficou conhecido como Belobog, i.e. “o deus branco”. Nada mais sabemos sobre estes dois deuses na sua forma original, pré-século XII, e pelo facto das linhas dessa altura nos dizerem que o deus mau já era então conhecido pelo nome de Diabo é provável que ele já estivesse quase esquecido enquanto figura religiosa.

 

Portanto, a ideia por detrás de Chernobog e Belobog parece ser curiosa, peca por agora sabermos pouco sobre cada um deles, mas… não era nova. Quase na mesma altura, o Bogomilismo pregava a ideia da existência de dois deuses, um da matéria e outro do espírito, e o Catarismo tinha ideias semelhantes (para quem nada percebe desses temas, eram ambos uma espécie de seitas cristãs). Já muitos séculos antes, o Zoroastrianismo também pregava a existência de dois deuses, irmãos e completamente contrários. Mas de onde terá nascido toda esta grande ideia é algo que o tempo parece ter feito esquecer há muito…

A lenda de Tannhauser

Entre as muitas lendas alemãs que são pouco conhecidas em Portugal conta-se a de Tannhauser. Talvez já tenham ouvido falar dela através da ópera de Wagner, autor que se focou bastante em temas alemães – recordem-se os casos de Lohengrin, do Holandês Voador e de Siegfried, entre outros – mas salvo essa grande referência, esta parece ser uma história que está quase esquecida nas culturas lusófonas. Por isso, para terminar este ano de 2022, vale a pena recordá-la em língua portuguesa.

A lenda de Tannhauser

Existiram pelo menos dois Tannhauser na cultura germânica. Um deles foi um poeta medieval, que terá vivido em meados do século XIII, enquanto que o outro foi um cavaleiro de que nos fala esta lenda. Há quem diga que poderão ter sido um mesmo, que o poeta terá escrito tanto sobre uma dada deusa que isso acabou por inspirar a história de hoje, mas confesse-se que não conseguimos encontrar uma cópia traduzida das suas obras. Por isso, antes da própria lenda deste herói, achámos que devia ser feita esta pequena nota. Mas indo então ao que interessa.

 

Algures em terras da Alemanha ou da Suíça existe um local misterioso que ficou conhecido sob o nome de Venusberg (i.e. “montanha de Vénus”). Conta-se que no interior desse espaço vivia Vénus, a deusa dos Romanos, juntamente com as suas damas de companhia, em prazeres eternos… não se sabe bem quais, mas pelo contexto depreende-se, no mínimo dos mínimos, que passassem pelos prazeres da carne.

Agora, de alguma forma misteriosa o cavaleiro Tannhauser encontrou a entrada para este local e passou algum tempo a viver no reino da deusa. Depois, um dia – talvez após um só ano, talvez após sete – ele arrependeu-se desse tempo vivido em pecado e decidiu procurar a sua redenção. Foi falar com vários padres, mas todos eles lhe disseram que, face ao número enormíssimo de pecados que tinha cometido, ele não podia ser perdoado. Com dificuldade em aceitar a ideia, o herói procurou o Papa Urbano IV (o que permite datar a lenda no século XIII) e pediu-lhe ajuda… mas também esta figura religiosa recusou fazê-lo, face à enormidade dos pecados, tendo dito algo como “tu só poderás ser perdoado no dia em que o meu bordão florescer.” E assim, com a maior das tristezas, o herói decidiu que só tinha um caminho a seguir, que era voltar para Venusberg

Passaram três dias e o bordão de Urbano IV começou miraculosamente a florescer. O papa, incrédulo com a situação, mandou muitos dos seus subalternos procurarem este cavaleiro, para lhe dizerem que ele estava perdoado, mas já não o conseguiram encontrar. E então, o herói ficou a viver em Venusberg para o resto da sua vida, tendo sido incapaz de obter perdão entre os vivos… mas conta-se que quem passa no local ainda hoje consegue ouvir, no interior da terra, o som dos muitos prazeres que a deusa Vénus tem com este seu grande amante…

 

É muito curiosa, esta presença da deusa romana do amor numa lenda medieval, mas recorde-se que não é um caso único. Diana, deusa da caça, aparecia muitas vezes ligada à feitiçaria e as nossas famosas fadas parecem ter evoluído de antigas divindades, sendo provável que muitas outras áreas da crença religiosa medieval tivessem ligações, hoje já quase perdidas, aos antigos deuses. O que esta lenda faz, nesse sentido, é diz que pelo menos uma delas vivia no interior da terra, sendo de alguma forma possível aos mortais acederem ao local e partilharem aqueles encantos de Vénus a que os poetas faziam referência muitos séculos antes.

Ao mesmo tempo, é igualmente notável a forma como esta lenda de Tannhauser termina. Não tem aquele final feliz a que as histórias dos nossos dias já tanto nos habituaram. Será uma crítica à Igreja, essa existência de pecados que nem o suposto representante de Jesus Cristo na terra pode perdoar? Ou essa inferência não era pretendida na versão original? Talvez, em momentos como estes, seja melhor dizer que lendas como esta oferecem muito espaço para debates entre quem as vai lendo.

 

Mas, para terminar, aqui fica a ópera de Wagner que partilha este nome. A sua trama não é bem a da lenda medieval, ela sofreu diversas adaptações, mas esta versão tem legendas em Inglês e poderá servir para quem quiser conhecer uma ópera.