A lenda de Phaya Naga e as Misteriosas Bolas de Fogo do Rio Mekong

A lenda de hoje, relativa a uma criatura – supostamente mitológica, mas nestes mistérios nunca se pode ter uma certeza absoluta – de nome Phaya Naga, vem-nos do rio Mekong, em particular do segmento que separa a Tailândia do Laos. Não é uma lenda muito complexa, mas merece ser contada aqui pelo facto de ainda ser celebrada anualmente e se referir a um misterioso fenómeno que ainda pode ser visto nos nossos dias.

A lenda de Phaya Naga

Diz-se então que Phaya Naga é uma espécie de “Naga” – uma cobra gigante, que neste caso em particular não tem forma humana, ao contrário do que acontece nas crenças hindus – que se crê que ainda vive neste local, mas que em outros tempos foi responsável pela criação de todo o enorme espaço por onde ainda passa o Mekong. Talvez tenha algumas outras lendas locais associadas, mas a mais significativa que conseguimos encontrar refere-se a um festival que tem por nome Bang Fai Phaya Nak, em que se diz que esta criatura, ou outras suas companheiras, na noite conhecida por Ok Phansa atiram misteriosas bolas de fogo ao ar. Seria interessante dizer-se aqui a data, para quem quiser ir ver esse fenómeno em primeira mão, mas o problema é que Ok Phansa é o nome dado à noite de lua cheia do décimo-primeiro mês lunar, e portanto varia no nosso calendário solar – neste ano de 2025, por exemplo, o festival terá lugar na noite de 13 de Outubro. Visto que não é muito fácil ou rápido viajar para o local, quem quiser ver mais ou menos o que acontece nessa altura pode dar uma olhadela a este vídeo:

 

 

Mas então, porque é que esta criatura, de nome Phaya Naga, produz as suas bolas de fogo apenas e exclusivamente na data referida acima? Segundo a lenda local, ela fá-lo porque, nas crenças budistas locais, esta é a data em que Buda desceu dos céus, onde tinha ido pregar a mensagem à sua mãe, e voltou ao mundo terreno. Aparentemente, é para celebrar esse seu regresso que esta criatura serpentesca adopta este comportamento.

 

 

Agora, uma pessoa ocidental, menos familiarizada com estas histórias, pode querer perguntar… o que são, na verdade, essas tais bolas de fogo. E existem várias teorias para as tentar explicar, mas absolutamente nenhuma certeza, pelo que se prefere, aqui, deixar o grande mistério por detrás da lenda falar por si próprio. Porque, afinal, nem todos os mistérios devem ser desvendados…

A lenda de Suvannamaccha (e o Ramakien)

Quando aqui falámos sobre a lenda de Rama e o Ramayana, não mencionámos, talvez por puro esquecimento, que a história desse herói teve um impacto significativo em diversas culturas do sudeste asiático. Por exemplo, na Tailândia ela inspirou a criação de um épico local, o Ramakien, em cujo cerne da trama é mantido mas são adicionados alguns episódios extra. Aquele que aqui contamos hoje, a que pode ser chamado a famosa lenda de Suvannamaccha, é um deles, digno de nota pela forma como pega em Hanuman (que já cá introduzimos antes) e lhe dá um carácter um pouco diferente de aquele que tinha no original indiano.

A lenda de Suvannamaccha

No Ramayana da Índia, em determinada altura Hanuman e o seu exército de macacos constroem uma ponte de pedras para conseguir invadir a ilha de Lanka. A ideia é concretizada sem dificuldades de maior, mas na versão tailandesa do Ramakien há uma alteração significativa – a construção dessa mesma ponte tem lugar durante o dia, mas ela é como que “desconstruída” durante a noite. E ninguém parecia saber porquê, até que o herói-macaco investigou a situação e descobriu que os peixes locais estavam a fazer isso a mando de Suvannamaccha, uma das filhas do vilão da história, que era uma espécie de sereia, como a imagem acima permite perceber. Depois, o herói lá conseguiu convencê-la a abandonar esse propósito… e é aqui que a história se torna mais estranha, visto que eles se apaixonam e acabam mesmo por ter um filho, Matchanu. Mais tarde, pai e filho até se conhecem no campo de batalha, lutando por lados opostos, mas essa já é uma história para outro dia…

 

O que esta lenda de Suvannamaccha tem de notável é que, para quem ainda não conhecer essa figura, o Hanuman indiano é uma espécie de asceta, nada ligado às paixões do corpo. Se nesta versão da Tailândia ele se apaixona, faz amor e gera um filho, tais aventuras seriam completamente impossíveis no original indiano, obra na qual o seu peito é apenas habitado por um amor infinito por Rama e Sita.

 

Deixando de lado a estranha mudança de comportamentos do herói, talvez o ponto mais interessante deste Ramakien seja, de facto, a forma como pega na trama da aventura original e lhe faz diversas modificações, ora adicionando novos episódios como este de Suvannamaccha, ora dando um certo lampejo adicional a determinados momentos da trama. Nada de extremamente significativo é alterado – estranho seria se, por exemplo, a figura equivalente a Ravana vencesse a guerra – mas demonstra como uma história pode ser metamorfoseada para apresentar novas formas e personagens locais, ao ponto desta mulher-sereia ainda hoje ser bastante famosa em terras da Tailândia.