Ao contrário de muitas figuras que vão sendo mencionadas por cá, José de Moraleda y Montero existiu mesmo. E sabemos que ele existiu não só pelas fontes históricas, mas porque ele próprio nos deixou escritos diversos diários sobre as explorações que conduziu na América do Sul. Essas informações são indiscutíveis, historicamente credíveis, e não são elas que motivam o tema de hoje. Em vez disso, estas linhas são é dedicadas a uma lenda – porque se desconhecem os limites da sua verdade – que se tornou famosa no Chile do século XIX, por via do chamado “Julgamento dos Bruxos de Chiloé”.

O Julgamento dos Bruxos de Chiloé e José de Moraleda y Montero
Sobre esse tal Julgamento dos Bruxos de Chiloé, bastará aqui dizer que um conjunto significativo de pessoas que eram consideradas “bruxas” na cultura popular chilena foram julgadas em finais do século XX. Elas eram vistas como parte de uma seita secreta chamada “La Recta Provincia” (ou “La Mayoria“), mas não parece ter sido a própria magia que as levou a tribunal, e sim outras maldades – como assassínio, rapto, etc. – que perpetravam além de se envolverem nas tais artes mágicas, naquele que terá sido um dos últimos julgamentos relacionados com a magia (na Europa, para quem estiver com essa curiosidade, o caso de Cecília Faragó parece ter sido o último de relevo).
Indo agora à parte que nos interessa. Na sequência desse julgamento pelo menos uma das testemunhas – não temos o caso na sua forma completa – mencionou a forma como a bruxaria chegou ao Chile e como a tal La Recta Provincia foi fundada. Segundo essa pessoa, quando José de Moraleda y Montero chegou a uma determinada ilha do Chile, ele quis levar algumas pessoas para o continente, mas ninguém queria ir. Então, esperando impressionar os locais, envolveu-se num concurso de magia contra uma figura local, uma senhora com o nome de Chillpila, que acabou por o derrotar. Em troca, José de Moraleda y Montero entregou aos locais um livro de magia europeu, que depois foi – segundo se dizia – foi passado de mão em mão até essa altura do julgamento.
Que livro era esse? Nas informações que nos chegaram é mencionado um livro encadernado em pele, e são dados alguns breves elementos que parecem indicar que se tratava, de facto, de um livro provindo da Europa de então, mas o seu título nunca é mencionado, nem é claro o que lhe aconteceu no decurso do processo. Se ainda existe hoje, parece estar em parte incerta, e não conseguimos descobrir o que lhe aconteceu, o que seria interessante para averiguar o seu suposto conteúdo. Terá sido, por exemplo, uma versão antiga do Livro de São Cipriano, ou algo completamente distinto? Não sabemos, nem temos forma de o saber.
Mas toda esta história ainda não fica por aqui. Conforme já foi mencionado, José de Moraleda y Montero deixou-nos escritas diversas obras. Em nenhuma delas menciona aquele suposto confronto com Chillpila, mas, muito curiosamente, diz que os habitantes da ilha de Chiloé o consideravam o mais poderoso mago que já tinha existido entre eles, apoiando a ideia de que algumas suas acções na região possam, de facto, ter levado à criação de uma seita religiosa local. Talvez assim se compreenda a influência que acções, mesmo que pequenas, podem ter entre diferentes culturas. E talvez se perceba também como o fascínio pelo desconhecido – e o poder que se atribui ao saber vindo de fora – pode dar origem a mitos duradouros. Entre a história e a lenda, Moraleda permanece, assim, como uma figura que atravessa os séculos: um homem real que, por via da imaginação popular, se transformou em feiticeiro eterno no Chile e na ilha de Chiloé.