Cinco perguntas a… #6- Peter Pringle

Após alguns dias de ausência em virtude dos temporais que têm tido lugar em Portugal, voltamos então hoje com uma nova entrevista de cinco perguntas, desta vez a Peter Pringle, um bom músico que parece ser muito pouco conhecido nos países lusófonos. Deixemos a entrevista falar por si mesma:

 

1. Para os leitores em Portugal e no Brasil que possam estar a descobri-lo pela primeira vez, como se descreveria Peter Pringle e o que faz na vida?

Antes de mais, deixe-me dizer que é uma honra dirigir-me às pessoas de língua portuguesa em todo o mundo, uma vez que já visitei tanto Portugal como o Brasil no passado e adorei o tempo que passei nesses países. Vivi na Índia durante algum tempo na década de 1960 e aproveitei a oportunidade para visitar Goa, que, como os leitores provavelmente sabem, foi uma colónia portuguesa durante vários séculos. Hoje, existe uma mistura única de cultura indiana e portuguesa em Goa, embora faça parte da Índia desde 1961.

As pessoas perguntam-me o que faço atualmente na vida, e normalmente digo que passo o meu tempo a construir instrumentos musicais que não existiam há milénios, e que os uso para me acompanhar a cantar em línguas mortas que ninguém fala ou compreende!

 

2. A sua carreira tomou, ao longo dos anos, vários caminhos muito diferentes. Olhando para trás, o que inspirou essas mudanças e como as entende hoje?

Quando era mais jovem, eu tinha de ganhar a vida. Como cantor e músico, isso significava que tinha de funcionar dentro do sistema tal como este existia na altura. A internet não existia, e teria sido impossível para mim fazer vídeos a cantar em egípcio antigo ou sumério, mesmo que tivesse querido. A indústria musical estava totalmente controlada pelas discográficas, que não estavam inclinadas a apoiar projetos demasiado distantes do mainstream popular.

Quanto ao que faço hoje, o que inspirou a mudança foi o surgimento da internet e de plataformas como o YouTube, que deram aos artistas a capacidade de alcançar diretamente um público “de nicho” a nível mundial.

 

3. No seu trabalho recente com canções antigas e medievais, muitos ouvintes descrevem um impacto emocional profundo — um dos nossos colegas chegou mesmo a chorar com a sua obra “The Death of King Arthur” [visível acima]. Costuma interpretar utilizando instrumentos raros ou de construção própria. O que permitem estas canções e instrumentos juntos expressar agora, algo que sente ser essencial para si?

Se os músicos querem ter um “impacto emocional profundo” nos seus ouvintes, a música deve primeiro ter um impacto emocional profundo nos próprios músicos. Devo acrescentar que cresci com as lendas do Rei Artur e dos Cavaleiros da Távola Redonda, por isso estas histórias são algo com que me identifico há mais de setenta anos.

Sempre me interessei por instrumentos invulgares, antigos e exóticos, mas até agora nunca tinha tido realmente oportunidade de os usar. Como mencionei, vivi algum tempo na Índia, em meados da década de 1960, a estudar um instrumento conhecido como “surbahar” com o falecido virtuoso de sitar Ravi Shankar. Raviji costumava dar aulas a cerca de seis ou sete alunos de cada vez, e muitas vezes tocava uma frase musical no sitar e depois pedia aos alunos que cantassem o que ele acabara de tocar. Um dia chegou a minha vez, e cantei o que ele tinha tocado o melhor que pude. Raviji pareceu impressionado e perguntou-me se podia cantar de novo. Eu cantei novamente. “Deves estudar VOZ!” exclamou. “Vou enviar-te à minha cunhada Lakshmi. Ela vai mostrar-te como desenvolver o instrumento vocal que tens!”

Lakshmi Shankar, que faleceu há vários anos com a venerável idade de 87 anos, era esposa do irmão de Raviji, Rajendra, e uma das melhores cantoras clássicas da Índia. Estudar com ela foi uma honra e também uma grande diversão. Mais tarde, viveu no sul da Califórnia, tal como eu, e continuou a ser amiga e mentora musical. Lakshmi foi a única pessoa com quem estudei voz.

Quanto aos vários instrumentos que toco, há algo muito primal numa corda vibrante. Grande parte da música que ouvimos hoje é produzida eletronicamente, e pelos comentários que recebo sobre o meu trabalho, penso que muitas pessoas acham refrescante ouvir algo diferente.

 

4. Costuma envolver-se com mitos e textos lendários, como “O Hino de Caedmon” [visível acima] ou o “Épico de Gilgamesh“. O que nos ensinam ainda hoje estas histórias antigas — e, talvez, o que lhe ensinam pessoalmente?

Creio que a razão pela qual as pessoas hoje parecem ressoar com as canções e mitos antigos é que essas canções e mitos falam de nós.

 

5. Após uma vida tão longa e variada na música, o que sente ser mais essencial agora — algo que gostaria que as pessoas compreendessem, lembrassem ou levassem consigo?

Ocasionalmente recebo e-mails de jovens músicos que querem saber como fazer o que eu faço. Explico-lhes que não há fórmula. Recordo-me das palavras da falecida Clara Rockmore, uma das pioneiras da música eletrónica e a melhor tocadora de theremin que já existiu. Muitas pessoas queriam tocar o theremin (que é um instrumento extremamente difícil) tão bem como Clara, e queriam conhecer o segredo da sua técnica. Não há segredo. É preciso encontrar o seu próprio caminho, por isso Clara dizia simplesmente: “Primeiro, tenha música na alma. Se tiver isso, encontrará uma forma de fazer.”

Se quer aprender um instrumento tradicional, como o violino ou o piano, existe um percurso estabelecido e muitos professores competentes. Se quer fazer algo não convencional, terá de abrir o seu próprio caminho. Pode até ter de construir os seus próprios instrumentos. Não se vai a uma loja de música e compra uma lira suméria ou uma harpa arqueada egípcia!

Seja verdadeiro consigo mesmo e mantenha os olhos na MÚSICA e não no sucesso.

 

Como é habitual, esperamos que tenham gostado desta viagem pelo mundo musical único de Peter Pringle. Que a sua história inspire cada leitor a explorar novas sonoridades, a valorizar a riqueza dos instrumentos e línguas antigas, e, acima de tudo, a encontrar o seu próprio caminho na música e na vida!

Cinco perguntas a… #5- Christy Marx

Após algum tempo de pausa desta coluna, trazemos hoje aqui uma nova entrevista, desta vez a Christy Marx. Deixaremos as cinco perguntas que lhe foram colocadas falarem por si mesmas:

Entrevista a Christy Marx

1 – Se tivesse de se apresentar a alguém que nunca tivesse ouvido falar de si — digamos, numa tribo remota da Amazónia — como explicaria quem é Christy Marx e o que faz?

 

CM: Eu diria que sou uma contadora de histórias. Todas as culturas entendem o que é uma contadora de histórias. O meu objetivo, enquanto contadora, é criar uma experiência partilhada sobre pessoas e vidas que podem ser diferentes das pessoas e vidas que elas conhecem. Dependendo da cultura, teria de explicar melhor como escrevo histórias, e como essas histórias às vezes são lidas em palavras e outras vezes representadas por outras pessoas.

 

 

2 – A sua página da Wikipédia [em Inglês] diz que é “mais conhecida pelo seu trabalho em várias séries de televisão”, mas não diz nada sobre a sua juventude. O que levou a jovem Christy Marx ao caminho da escrita, e como é que isso evoluiu até aos dias de hoje?

 

CM: Nasci contadora de histórias e encontrei a minha paixão quando descobri as bandas desenhadas em criança. Os comics tornaram-se uma obsessão, e isso levou-me a pensar que a única forma de contar as histórias que queria contar era nesse formato. Ou seja, narrativa visual.

 

Infelizmente, pensei também que isso significava que tinha de ser artista. Apliquei as minhas habilidades artísticas muito rudimentares nessa direção, mas eu era péssima como artista. Não tinha formação nem temperamento, e não sabia o suficiente para perceber o quão má era. Ainda assim, usei essas tentativas para criar dezenas de personagens heroínas, desde super-heroínas a espiãs.

 

Quando tinha 19 anos, mudei-me para Los Angeles. Na minha ingenuidade, cheguei a mostrar os meus desenhos a uma diretora artística de uma agência. Ela fez-me um grande favor: disse-me que eram terríveis. Percebi que tinha razão. Isso libertou-me, porque a vontade de contar histórias continuava a arder em mim, e virei-me para a escrita. Experimentei escrever contos que enviei para revistas de ficção científica e fantasia da época. Não venderam.

 

Fui uma “late bloomer”: só a meio dos meus vinte anos é que consegui finalmente entrar no meio. Estar em Los Angeles revelou-se o melhor lugar para começar como escritora. Conheci Roy Thomas, que comprou as minhas primeiras histórias de banda desenhada (Conan e Red Sonja). Fiz amizades no meio dos comics que me ajudaram a ligar-me à animação, e foi o meu amor pela BD que me deu a primeira oportunidade de escrever para animação — Quarteto Fantástico, e depois Homem-Aranha.

 

Diria que o meu percurso como escritora foi errático e extraordinariamente afortunado. Tive oportunidades raras que soube agarrar, e isso levou-me a uma carreira para toda a vida.

 

 

3 – Ao longo da sua carreira, criou histórias que moldaram a vida de muitas pessoas. Na sua perspetiva, o que faz uma história ser excelente — e que falhas comuns nota nas narrativas atuais?

 

CM: Uma grande história tem de criar uma experiência partilhada com a pessoa que a lê, ouve ou vê. A habilidade do escritor dita a eficácia com que essa experiência é transmitida.

 

No coração de qualquer boa história tem de existir uma ou mais personagens de quem o leitor se importe. E por personagem pode entender-se qualquer coisa com que o leitor consiga relacionar-se — humano, alienígena, mitológico, animal, até um objeto antropomorfizado — desde que haja essa ligação.

 

Além disso, uma boa história exige algum tipo de conflito, seja físico, emocional, mental, espiritual ou psicológico para a(s) personagem(ns).

 

Finalmente, deve ter um princípio, um meio e um fim com uma resolução satisfatória. Isso não significa que tenha de ser em ordem cronológica, apenas que comece em algum ponto, que algo aconteça, e que termine de forma resolvida.

 

Pode soar simplista, mas não precisa de ser mais complicado do que isto. O que se complica é a forma como se executa.

 

Existem contadores de histórias há milhares de anos, alguns bons, outros maus. Continuam a existir hoje excelentes histórias, como sempre existiram desde que o ser humano conta histórias.

 

Quando uma história falha hoje, falha pelas mesmas razões que levaram ao fracasso de qualquer história noutro tempo — por quebrar algum dos elementos que referi acima. Por não criar uma personagem de quem alguém se importe. Por não ter um conflito interessante ou significativo que mova a personagem. Por não oferecer uma resolução satisfatória. Ou simplesmente por não saber transmitir a história.

 

 

4 – Imagine uma escavação arqueológica daqui a 4.000 anos encontrar uma das suas obras. Qual gostaria que fosse — a sua própria “Ilíada” — e porquê?

 

CM: Essa é difícil, mas neste momento escolheria a minha série de banda desenhada Sisterhood of Steel. Foi totalmente uma criação minha (e é uma obra que me pertence). Adoro o mundo e as personagens que criei, com destaque para figuras femininas fortes.

 

Espero vir a escrever um ou dois romances no futuro, e talvez a minha resposta mude se eu conseguir concretizar isso.

 

 

5 – A vida de cada pessoa começa com uma primeira história. Qual é a primeira história de que se lembra — e qual escolheria para ser a primeira história de outra pessoa?

 

CM: Agora estamos a falar da infância. Houve de facto uma história que adorei e que me marcou quando criança. Era The Color Kittens, publicada na coleção Little Golden Books. Tratava de três gatinhos que aprendiam a misturar cores e tinha sequências de fantasia muito coloridas. Sempre adorei gatos (tenho cinco atualmente), sempre fui atraída por cores vivas, e adoro fantasia. Essa história tinha tudo!

 

Em relação a uma história para crianças de hoje, sugeriria a minha série de animação Jem and the Holograms [*]. As personagens, os visuais e a música continuam a cativar as crianças. São histórias fundamentalmente boas, com mensagens subjacentes benéficas sobre amor, confiança, amizade e fazer o que é certo. No mundo conturbado de hoje, as crianças precisam de mensagens positivas e esperançosas — e Jem oferece isso mesmo.

 

 

 

Esperamos que tenham gostado desta pequena entrevista. Para nós foi fascinante – Christy Marx é não só uma autora acessível e muito generosa, mas também alguém cujo conhecimento — expresso em livros como Writing for Animation, Comics, and Games — é valioso para todos os que se interessam pela escrita em animação, banda desenhada e jogos.

 

 

 

*- Não encontrámos provas de que esta série tenha passado em Portugal numa forma completa, mas deu na televisão no Brasil, onde era conhecida por “Jem e as Hologramas“.

Cinco perguntas a… #4- “Heaven’s Gate”

O nome Heaven’s Gate não é muito conhecido nas culturas de língua portuguesa, mas merece ser apresentado por cá em virtude de um conjunto de coincidências.

Há uns meses, em busca de livros culturalmente significativos, deparámo-nos com uma versão online de um de título How and When “Heaven’s Gate” (The Door to the Physical Kingdom Level Above Human) May Be Entered. Ele aparece sempre associado a um grupo religioso do mesmo nome, mas a existência da obra suscitou-nos uma grande questão – se, por definição, possíveis cultos – designação que intérpretes externos ao grupo utilizam aqui – tendem a existir num clima de enorme secretismo, a abertura desta religião a qualquer leitor intrigou-nos ao ponto de lermos o seu livro. Ele contém uma colecção de materiais produzidos pelo grupo até ao ano de 1997, que vão desde a história de como “Ti” e “Do”, os seus fundadores, se conheceram, até relatos na primeira pessoa de alguns dos seus crentes, passando por apresentações das suas crenças, etc. Agora, se aparentemente esta religião cessou a sua actividade em 1997 – até a sua apresentação na Wikipedia em Português usa o passado para a definir, “foi” – o seu site continua activo à presente data. Não existe qualquer verdadeiro proselitismo no mesmo, apresentando-se ele precisamente como estava no ano de 1997. E então, visto que diversas das suas páginas apresentam o seu contacto, decidimos contactá-los. Pretendíamos saber se o grupo mantinha quaisquer actividades, compreender no que eles acreditam na primeira pessoa, sem “falsos rumores”, e então decidimos colocar-lhes cinco questões, que foram gentis o suficiente para nos tentar responder:

O logotipo do grupo Heaven's Gate - utilizado aqui com permissão exclusiva para este artigo!

(Imagem utilizada com autorização, exclusivamente para este artigo)

1- Para os leitores que não estejam familiarizados com o Heaven’s Gate, podem explicar, em termos simples, os vossos ensinamentos centrais?

Existe um nível real e físico acima do humano neste planeta. Chamamos-lhe o “Próximo Nível” para simplificar. Ele existe em todo o universo e contém indivíduos reais e físicos, com corpos reais, que viajam em naves reais e físicas. Criaram a Terra e toda a vida nela. O “Próximo Nível” forneceu todo o conhecimento e tecnologia que este planeta utilizou para sobreviver e progredir. Mantêm vários planetas-jardim para colheita no “Próximo Nível.”

 

2- O Heaven’s Gate, como apresentado nos capítulos do vosso livro online, parece combinar elementos da escatologia cristã com ideias sobre vida extraterrestre. Como é que estas duas crenças aparentemente distintas se juntaram para moldar a vossa visão do mundo?

‘A informação do “Próximo Nível” é única e independente. Não tem qualquer ligação às religiões humanas. Aquele que veio do “Próximo Nível” há 2000 anos (conhecido como Jesus) forneceu novas informações para este planeta. Infelizmente, já não tem qualquer semelhança com os ensinamentos de Jesus actualmente. Ti e Do desceram a este planeta nos anos 1970 para actualizar esse testamento para o planeta, mas também foram rejeitados.’ [uma citação do livro]

 

3- Nos países de língua portuguesa, o Heaven’s Gate não é muito conhecido. Como gostariam que os ensinamentos ou o legado do grupo fossem entendidos por quem os encontra pela primeira vez?

Podem ver os vídeos e ler o livro que este grupo deixou para a humanidade. O livro, na sua versão física, pode ser actualmente adquirido pelo preço de $70*, já com portes de envio (ou $30 nos EUA).

 

4- Muitas tradições mitológicas e religiosas em todo o mundo apresentam viagens a outro reino ou transformações da alma. Vêem paralelos entre essas histórias universais e os ensinamentos do Heaven’s Gate?

Não. Não seguimos nem acompanhamos mitos.

 

5- No mundo de hoje, com tantas pessoas à procura de significado em tempos de incerteza, que lições ou mensagens do Heaven’s Gate acreditam ser mais relevantes para quem está num caminho espiritual?

Estudem as informações do “Próximo Nível.” É a única coisa importante para a humanidade.

 

O curioso em tudo isto é que apesar de ainda disponibilizarem parte dos materiais que foram criados antes do ano de 1997, não só não existiu a criação de novos conteúdos, como também não parece existir qualquer intenção de convencer a adesão de novos membros, limitando-se eles a uma tarefa que nos descreveram com as seguintes palavras: “Writers have a tendency to draw from false rumors and internet silliness to construct their stories and we have to correct this misinformation.

 

Perguntar se o Heaven’s Gate ainda existe leva-nos então a uma resposta curiosamente ambígua: “sim” e “não.” Embora ainda existam dois crentes dispostos a esclarecer questões históricas sobre as suas crenças, não há qualquer intenção de recrutar novos membros. Parte dos materiais originais permanecem disponíveis para quem quiser conhecê-los, seja através do livro ou dos vídeos, mas não houve a criação de novos conteúdos desde 1997, ano em que – para usar a terminologia do grupo – o seu fundador, Do, e a maioria dos crentes alcançaram o “Próximo Nível.” Essa posição é reiterada na descrição do canal no Vimeo, que enfatiza que os conteúdos aí foram colocados “for those who wish to learn about the group’s beliefs” e “The posting of this video does not indicate there is another group to join as there is none.” Em suma, poucos crentes permanecem, mas o grupo religioso, enquanto entidade ativa, já não busca quaisquer novos aderentes.

 

*- Actualmente, o processo para compra do livro físico passa por enviar 70 dólares americanos – 30 nos EUA – para o endereço abaixo, juntamente com uma referência à morada para onde ele deve ser enviado:

Telah
P.O. Box 25098
Scottsdale, AZ
85255
USA

Cinco perguntas a… #3- um Pai Natal de Centro Comercial!

Se estamos na altura do Natal, achámos que seria apropriado tentar entrevistar o Pai Natal, aquela figura com origem no São Nicolau da Antiguidade. Nesse sentido, seria muito fácil criar uma versão fictícia de um possível diálogo entre nós, como já tantas outras pessoas fizeram antes, mas em alternativa a isso queríamos era fazer algo muito mais real. Queríamos falar com alguém que nos pudesse contar como é a experiência de um Pai Natal dos nossos dias, de uma daquelas figuras parcialmente anónimas que por esta altura podemos ver aqui e ali. Elas são de carne e osso, e então decidimos que queríamos entrevistar uma delas. O que se seguiu foi um processo quase maçónico, repleto de múltiplos secretismos que não podemos divulgar aqui, mas lá conseguimos encontrar um representante da classe disposto a responder-nos a cinco perguntas, sob completa anonimidade (a imagem abaixo é meramente ilustrativa). Sentámo-nos num café e as seguintes perguntas e respostas tiveram lugar:

Entrevista a um Pai Natal de Centro Comercial

1- Como é que uma pessoa se torna um Pai Natal de Centro Comercial?

Ser Pai Natal de um Centro Comercial não é algo que se decida de um dia para o outro, sabia? Normalmente, começa com um recrutamento feito pelo próprio centro comercial ou por empresas especializadas em eventos natalícios. Eles procuram pessoas com uma certa personalidade – amistosas, pacientes e que saibam lidar bem com crianças e adultos.
Depois disso, há um treino. Pode parecer simples, mas ser Pai Natal exige dedicação! Ensina-se a postura, como falar de uma forma amistosa, e até como lidar com perguntas mais difíceis, como “Por que é que há tantos Pais Natais no shopping?” ou “Pai Natal, o que aconteceu com o meu presente no ano passado?” É preciso muita criatividade!
Outro ponto essencial é a caracterização: uma boa barba, um fato impecável e aquele “oh oh oh” que tem de vir do coração. Alguns de nós até investem em barbas reais para dar mais autenticidade! Normalmente, é uma mistura de amor ao Natal e uma vontade de espalhar alegria que leva alguém a abraçar este papel mágico.

 

2- Trata-se, portanto, de um papel sazonal. O que fazem no resto do ano?

Exactamente, é um papel sazonal, mas isso não significa que ficamos a descansar na Lapónia durante o ano! No resto do tempo, muitos de nós têm outras profissões ou ocupações. Alguns são actores, animadores ou educadores que utilizam as suas habilidades para trabalhar em eventos, festas e até espetáculos. Outros têm trabalhos completamente diferentes — desde escritórios, até profissões de âmbito muito mais técnico, veterinários, etc.!

 

3- Mas então, enquanto Pai Natal, certamente que recebe muitos pedidos de crianças e jovens. Qual foi o mais bonito e o mais triste até hoje?

É verdade, recebo todo o tipo de pedidos, e cada um deles carrega um pedacinho da alma de quem o faz. Alguns fazem rir, outros tocam profundamente o coração deste velho barbudo. Vou partilhar dois momentos que nunca esquecerei.

O pedido mais bonito veio de uma menina, talvez com uns sete ou oito anos. Ela sentou-se no meu colo, olhou-me nos olhos e disse:
“Pai Natal, este ano não quero brinquedos. Só quero que o meu irmão volte a andar para que possamos brincar juntos no parque.”
O irmão tinha sofrido um acidente, e ela, em vez de pensar em si mesma, só queria vê-lo feliz outra vez. A pureza daquele desejo encheu-me o coração e, confesso, tive de engolir as lágrimas para não estragar a magia do momento.

 

Já o pedido mais triste foi de um rapazinho de uns 10 anos. Ele disse baixinho:
“Pai Natal, podes trazer o meu pai de volta para o Natal? A minha mãe diz que ele está muito longe, mas eu acho que tu consegues.”
Percebi rapidamente que o pai tinha falecido, mas o menino ainda não entendia bem o que isso significava. Foi um daqueles momentos em que o meu coração pesou como uma bigorna. Tudo o que pude fazer foi dar-lhe um grande abraço, dizer que o amor do pai dele nunca o deixaria e que ele era muito corajoso por fazer um pedido tão importante.

Estes momentos mostram-nos que o papel do Pai Natal vai muito além de distribuir sorrisos e presentes. É estar lá para ouvir, confortar e espalhar um pouco de esperança, mesmo nas situações mais difíceis.

 

4- Essas respostas mostram um pouco de um Natal que não é a dos presentes físicos e do consumismo hoje tão habitual, mas do nascimento de Jesus Cristo. Em termos mais religiosos, como é que essa face do Natal tem impacto no papel da figura que representa?

Essa é uma pergunta profunda e muito importante! O Natal, no seu sentido mais puro, celebra o amor, a esperança e a renovação que vêm com o nascimento de Jesus Cristo. Como Pai Natal, apesar de muitas vezes estar associado aos presentes e ao consumismo, tento sempre refletir esses valores mais espirituais e universais no meu papel.

Sabe, muitas crianças e até adultos vêm falar comigo não apenas de brinquedos, mas de coisas que têm a ver com a união da família, com a paz, e até com as suas preocupações mais pessoais. Esses momentos trazem-nos de volta à essência do Natal — a ideia de dar sem esperar nada em troca, de olhar para o outro com compaixão e de acreditar em algo maior, seja Deus, seja o amor ao próximo.

A figura do Pai Natal, apesar de moderna, carrega raízes que vêm de São Nicolau, um santo conhecido pela sua generosidade e pelo cuidado com os mais necessitados. Penso muito nisso quando estou no meu “trono”, com crianças e famílias à minha volta. Procuro ser não apenas uma figura de alegria, mas também de conforto e inspiração, transmitindo os valores que o Natal nos ensina: bondade, perdão, solidariedade.

Muitas vezes, quando me perguntam por que razão celebramos o Natal, aproveito para lembrar, de forma simples e acessível, que é o aniversário de Jesus, aquele que nos trouxe o maior presente de todos: o amor incondicional. Não é algo que digo com sermões ou discursos longos, mas com gestos, palavras de carinho e atenção. No fundo, o Pai Natal pode ser uma ponte entre o que é material e o que é espiritual, ajudando as pessoas a lembrarem-se do que realmente importa. Oh oh oh! Que bela reflexão!

 

5- “Bela reflexão”, é verdade! Mas então… para terminar, poderia contar-nos três mitos ou lendas associados ao Natal que tenha ouvido no decurso do seu papel?

Claro que sim! Ao longo dos anos como Pai Natal, ouvi tantas histórias que poderia escrever um livro! Mas vou escolher três lendas que acho particularmente bonitas e que refletem o espírito do Natal de formas diferentes.

 

Esta lenda vem da Europa de Leste, especialmente da Ucrânia. Diz-se que uma família muito pobre limpou a casa inteira antes do Natal, mas, infelizmente, não tinha como decorar a árvore. Durante a noite, enquanto dormiam, as aranhas que viviam na casa desceram e cobriram a árvore com as suas teias. Na manhã de Natal, quando o sol nasceu, os raios transformaram as teias em fios dourados e prateados, como se fossem ornamentos mágicos. É por isso que, em algumas culturas, as pessoas colocam ornamentos de aranha ou teias brilhantes nas árvores, como símbolo de sorte e de bênçãos inesperadas. [Esta mesma lenda já aqui foi contada antes.]

 

Uma história menos conhecida mas muito tocante vem de um aldeão que tinha perdido tudo num incêndio pouco antes do Natal. Sem família e sem nada para comemorar, ele sentou-se ao lado da sua lareira fria e rezou. Durante a noite, diz-se que um viajante misterioso chegou e deixou uma pequena pilha de lenha à porta. Quando o aldeão acordou e acendeu a lareira, encontrou, entre as chamas, uma pequena caixa de madeira. Dentro estava uma mensagem: “O calor do teu coração iluminará o mundo.” Inspirado por isso, ele passou o resto da vida ajudando os necessitados, tornando-se uma lenda local de bondade natalícia.

 

Este é um mito que mistura a tradição cristã com a imaginação popular. Conta-se que, na noite do nascimento de Jesus, o burro que acompanhava Maria ficou tão comovido com o evento que começou a cantarolar suavemente para embalar o Menino. É por isso que, em algumas culturas, se diz que os burros têm uma ligação especial com o Natal. Além disso, há uma crença de que a cruz nas costas de muitos burros é uma bênção divina por terem levado Maria e o Menino em segurança. [Já aqui contamos outra lenda sobre este mesmo burro.]

 

Estas lendas mostram como o Natal está envolto em magia, simbolismo e fé. E, enquanto Pai Natal, adoro ouvir as versões locais ou pessoais que as pessoas trazem. Afinal, as histórias são o que tornam o Natal ainda mais especial! Oh oh oh!

 

Muito obrigado, “Pai Natal”, pelo tempo disponibilizado para estas cinco perguntas! Sentimos que foi muito interessante, esta possível entrevista com um Pai Natal de Centro Comercial, e esperamos que os leitores também tenham gostado dela. Ainda não iremos “desaparecer” até ao fim do ano, deixe-se claro, mas ainda assim queríamos aproveitar esta oportunidade singular para desejar já um Bom Natal a todos aqueles que nos vão lendo ao longo do tempo! 🙂

Cinco perguntas a… #2- “Comic Tropes”

Depois de entrevistarmos uma lutadora de luta livre americana, este mês entrevistamos o Chris, criador do canal do Youtube Comic Tropes, que se foca essencialmente em comics norte-americanos, com alguns episódios ocasionais ligados a histórias de banda desenhada de outros locais. O que tem ele para nos dizer? Deixemos a entrevista falar por si; ela foi conduzida em Inglês, mas é apresentada aqui em tradução portuguesa para benefício dos leitores:

Entrevista com Comic Tropes

1- Um dos nossos membros é fã do teu canal no YouTube, Comic Tropes. O que mais o cativou foi a forma como tentas apresentar os comics a uma audiência que nem sempre está totalmente familiarizada com eles. O que te levou a criar o teu canal?

Decidi criar o meu canal no YouTube, Comic Tropes, quando fui despedido de um emprego e sabia que provavelmente teria algum tempo livre até ao próximo. Gosto de estar ocupado, por isso pensei no que me daria mais prazer falar, e a resposta foi fácil: comics. Sempre foi o meu meio artístico favorito e sabia que nunca me faltariam ideias para tópicos. E, 8 anos depois, ainda não me faltam!

 

2- Um aspeto curioso dos teus vídeos é que alguns começam de forma muito semelhante – “Oh, hi! You caught me [a fazer algo]”. Alguns desses são claramente fictícios, outros estão ligados à tua vida real. Como surgiu essa ideia, como evoluiu ao longo do tempo, e há alguma sequência inicial que pensaste em usar, mas que, no final, nunca foi filmada ou foi filmada mas nunca usada?

Sempre tentei fazer o meu programa evoluir para que nunca fosse completamente previsível ou estagnado. Quando comecei, fazia muitas brincadeiras tontas, como comer comidas estranhas enquanto lia comics. Mais tarde, evoluí para uma análise mais histórica ou artística e quis cativar o público rapidamente com um toque de humor. Muitos desses inícios que mencionaste foram inspirados na forma como as sitcoms e programas de variedades [americanos] dos anos 70 e 80 mostravam uma personagem ou ator a ser interrompido a fazer algo mundano, e eles olhavam e sorriam para a câmara. Adorava especialmente o programa Yacht Rock [nota: tanto quanto foi possível apurar, nunca foi exibido na televisão em Portugal ou no Brasil], que parodiava isso, e tentei fazer uma homenagem a esse estilo. Hoje em dia tento fazer algo diferente, mas apenas quando tenho uma boa ideia.

 

3- A ideia de “isto inicialmente parecia uma boa ideia, mas no final não funcionou” parece ser um elemento comum em muitos comics. Já falaste de alguns desses no passado – em vídeos como “Stan Lee’s Worst Ideas“, “Is Doctor Hormone the Strangest Superhero Ever?” ou “The Time Aquaman Comics Went Too Far” – mas certamente existem muitos mais que merecem ser falados. Podes indicar-nos três outras ideias de comics que encaixem nesse molde, e três ideias que te pareceram absolutamente loucas, mas que acabaram por ser surpreendentes?

A história dos comics está cheia de ideias loucas que funcionam bem. A energia excêntrica e exagerada de “Do a Powerbomb!” de Daniel Warren Johnson surpreende o leitor com o coração e as histórias credíveis no núcleo da narrativa. O contraste surpreendente da arte adorável e animada de Trish Forstner em “Stray Dogs” combina com a história de Tony Fleecs sobre um serial killer e os cães que tentam resolver o crime, limitados pela sua memória de curto prazo. Um terceiro grande exemplo de uma ideia selvagem que funciona bem é o manga “Bakuman“, escrito por Tsugumi Ohba e desenhado por Takeshi Obata. Não parece muito interessante ver dois adolescentes fictícios decidirem que querem ser criadores de manga, mas é uma bela história de pessoas a descobrirem quem são e quem querem ser, e a trabalhar arduamente para alcançar os seus sonhos. Muitas das ideias que não funcionam são criadas por razões puramente financeiras, em vez de criativas. Super-heróis da era dourada, como “Dynamite Thor“, “The Puppeteer” e “Dart & Ace“, foram todos criados sem uma motivação clara para o herói ou elencos de apoio interessantes. Apresentavam equipas criativas rotativas, por isso não havia consistência. Nenhum deles durou muito tempo.

 

4- Como sabes, o foco principal do nosso site é a Mitologia, e há alguns comics americanos relacionados com este tema, como “The Trojan War” da Marvel. Na tua opinião, quais são os melhores, e os menos bons, comics relacionados com mitos e lendas antigas e medievais?

Há imensos comics sobre mitologia ou histórias pouco conhecidas que contam histórias fantásticas. “Age of Bronze” de Eric Shanower é uma visão maravilhosa da Guerra de Troia. “The Ring of the Nibelung” de P. Craig Russell é belo e intricado. Robert Crumb, famoso pelos comics underground, tem uma abordagem selvagem do Livro do Génesis. E “Wonder Woman Historia: The Amazons“, da escritora Kelly Sue DeConnick e vários outros artistas, é uma visão incrível de como remixar a mitologia grega para se encaixar na mitologia moderna dos super-heróis.

 

5- Na sua famosa obra “Seduction of the Innocent“, Fredric Wertham argumentou que Batman e Robin eram um casal de homossexuais, enquanto documentários estranhos como “The Replacement Gods” falam de uma ligação demoníaca por trás dos comics americanos. Além destes, quais são os mitos mais loucos que já ouviste relacionados com comics?
Acho que o maior mito sobre comics é que são só para crianças. Comics são apenas um meio de contar histórias e são muito versáteis. Acredito que há histórias de comics para entreter e educar qualquer pessoa. E quase todos os países têm uma história e cultura única em relação aos comics. Fora da América do Norte, há uma história profunda como a bande dessinée [francesa], historietas, manga, e muito mais. Mais recentemente, países como a Coreia do Sul estão a inovar com novas formas de ler comics digitalmente, como os Webtoons. Cada cultura tem uma história de contar histórias sequenciais.

 

Muito obrigado ao Chris e ao canal Comic Tropes por esta breve entrevista!