“Onde fores Caio, serei Caia” e o casamento dos romanos

Não são muitas as fontes da Antiguidade que nos recontam os elementos específicos do ritual do casamento romano, mas existem dois que tendem a ser mencionados com alguma frequência:

 

– Era frequente que os noivos, ou somente a noiva, mudassem de nome. As razões para tal prendem-se com uma crença segundo a qual quem soubesse o nome verdadeiro de alguém, ou de algum local, poderia ganhar poder sobre ele através da magia. É por essa razão que, por exemplo, o verdadeiro nome da cidade de Roma, hoje oculto entre tantos outros mistérios, raramente era mencionado. Isto poderá ter contribuído, mesmo que implicitamente, para que ao longo dos séculos e ainda nos nossos dias, tenha existido a tradição da adopção de um novo apelido nessas ocasiões.

 

– Também, sabemos que o ritual incluía a frase que deveria ser repetida pelos noivos. Ele dizia “Onde fores Caia, serei Caio”, ao que ela deveria responder “Onde fores Caio, serei Caia”. Se o ritual original se referia a Caio e Caia ou Gaio e Gaia é incerto, dadas as alterações linguísticas que foram ocorrendo ao longo dos séculos, mas o que sabemos é que os dois nomes tinham um significado simbólico, podendo ter-se tratado de referências a duas figuras históricas conhecidas pela sua fidelidade, de uma referência a Gaia, deusa grega da terra (o que lhe daria um sentido semelhante a “onde tu fores, eu irei contigo”), entre várias outras teorias.

 

Finalmente, aqui fica um pequeno vídeo para rir um pouco. A informação aí presente, relativa a São Valentim, é provavelmente falsa, já que pouco sabemos sobre esse santo do século III. Até poderá ser verdade, mas não temos qualquer fontes que o confirmem.

Documentário “The Replacement Gods”

Este documentário é anunciado como uma comparação das histórias mitológicas e dos comics às histórias bíblicas, e essa é uma ideia que, à primeira vista, até parece interessante. No entanto, o seu conteúdo é de muito fraca qualidade, levando a que seja, pensamos nós, o primeiro conteúdo a cá ser mencionado pela sua notória falta de qualidade.

De um modo geral, este documentário pode ser dividido em duas partes. Na primeira são mostradas algumas das crenças mitológicas e religiosas da Antiguidade e é estabelecido um paralelismo das mesmas com as histórias bíblicas. Isto nada teria de errado, não fosse o facto de os criadores se apoiarem na antiga ideia de que esses paralelismos tinham sido antecipadamente gerados pelo Diabo para fazer com que as pessoas acreditassem menos na mensagem de Jesus Cristo. Como se isso não fosse suficiente, está repleto de erros notórios.

Na segunda parte o documentário socorre-se então de comics americanos e filmes baseados nos mesmos, com a intenção de apoiar a ideia de que todos eles, de uma ou de outra forma, promovem uma satirização da mensagem cristã. Dizem, por exemplo, que o Batman – o herói da história, recorde-se – é um demónio, mas que o Joker/Coringa é representado de forma muito positiva. Dizem que existem ideias demoníacas e mágicas por detrás de alguns criadores de comics, etc. Isto para, no fundo, argumentarem que o grande objectivo dos comics é fazer com que as pessoas descartem a mensagem de Jesus Cristo em favor dos encantos do Diabo. O documentário até termina dizendo algo como “só existe um herói que merece a nossa admiração, o nosso salvador Jesus Cristo”, demostrando bem as intenções dos seus autores.

 

Ainda estão a ler? Mesmo que alguém até queira apoiar essas ideias, por razões que não conseguimos compreender muito bem, existe uma falha absolutamente fatal em toda a sua argumentação, que passa por apresentar toda e qualquer informação de forma descontextualizada. Seria como ler Os Lusíadas em busca de uma única frase positiva sobre os deuses pagãos e depois apresentá-la assim, totalmente descontextualizada, para dizer que Luís de Camões era pagão – absolutamente ridículo!

 

Uma busca pelos seus produtores revelou que também existe um The Replacement Gods 2, mas somente pela visualização do trailer já se compreende que defende a mesmíssima ideia, recorrendo novamente a todo o tipo de informações descontextualizadas. É, por isso, um documentário absurdo, a evitar a todo o custo, sob pena de se perderem alguns minutos da nossa vida com algo que nem diverte, nem é verdadeiramente informativo.

Sobre o filme “Thor: Ragnarok”

Fomos ver o filme “Thor: Ragnarok” há alguns dias atrás e deixamos aqui uma breve referência. Cuidado, contém alguns pequenos “spoilers” relativamente à história do filme!

A mitologia nórdica, contrariamente à grega e latina, tem um final dos tempos há muito anunciado. Já disso cá foi falado há muitos anos (ver aqui), e somente pelo título poderíamos assumir que o filme falaria dessa derradeira aventura. E, de facto, Odin até relata a famosa profecia, mas depois o filme faz muito pouco com ela. Claro que se trata de um filme baseado num comic americano, não é – nem se supõe que queira ser – baseado nos mitos nórdicos, mas se pretendiam usar uma palavra tão emblemática no título, parece-nos que poderiam ter feito muito mais com o tema. O Ragnarok até ocorre, mas fica muito aquém das expectativas, e os heróis acabam por evitar consequências piores, contrariando todas as expectativas de quem conhecer os mitos. Contudo, visto que é, repita-se, baseado nos comics americanos e não nos mitos originais, é um filme relativamente bom, que até dá para rir em alguns momentos.

 

Deixamos um exemplo que apesar de ter pouco peso na trama, nos pareceu invulgar. Quando Thor primeiro chega a Asgard, tem a oportunidade de ver breves instantes de uma peça de teatro, “A tragédia de Loki de Asgard”, uma reimaginação de um evento que, se a memória não nos engana, teve lugar num filme anterior. A sequência não ocupa muito tempo da trama, mas leva-nos à ideia de que existem temas que, pela sua beleza, só podem ser captados no teatro – era a morte de Loki, mas também podia ser uma representação, por exemplo, das desventuras de Édipo ou as façanhas de Aquiles.

 

Em suma? Este filme merece ser visto por quem estiver interessado nos respectivos comics, mas muito pouco tem da mitologia nórdica (o que, dadas as especificidades, não pode ser visto como um defeito).

Alguns inimigos do jogo “Hércules”

Abaixo pode ser encontrado um pequeno vídeo dos principais inimigos do jogo Hércules (baseado no filme da Disney), para Playstation e PC.

 

São mostradas, por ordem em que aparecem no jogo, as batalhas contra o centauro Nesso (que o herói chega a montar como se de um mero cavalo se tratasse!), um minotauro, alguns esqueletos (serão as figuras nascidas dos dentes de um dragão? Não sabemos), os pássaros do lago Estínfalo (que agora vivem em plena cidade), a hidra, Medusa, e o próprio deus Hades.

Curioso é o facto de alguns destes inimigos não terem qualquer papel maior no filme (aparecem apenas no decorrer de uma música), ou mesmo no mito de Hércules. Provavelmente foram adicionados ao jogo somente em virtude da sua fama mitológica.