Qual o personagem mais velho da Disney?

Começamos este ano de 2023 com uma questão curiosa, a da identidade do personagem mais velho da Disney. Quem será ele? O Rato Mickey? A Minnie? O Pato Donald? Alguma outra criação de Walt Disney  entretanto totalmente esquecida? O grande problema em responder a essa questão é  o facto de ela passar por definir em que consiste uma personagem puramente atribuída à Disney.

Personagem mais velho da Disney

De forma muito simplificada, antes de se focar nos seus agora-famosos desenhos animados, Walt Disney parece ter feito diversos pequenos filmes. Mais tarde, dedicou-se a diversas produções nas quais se misturava imagem real e desenhos animados, como a seguinte, que aqui reproduzimos a título de curiosidade:

Este pequeno desenho animado é de 1925 – tem quase 100 anos (!) – e a sua personagem principal era uma menina chamada Alice, derivada da famosa personagem de Lewis Carroll. Poderá ter sido ela a personagem mais velha da Disney, ou a primeira grande heroína criada por Walt, mas uns poucos anos depois, em 1928, foi produzido o primeiro de todos os desenhos animados da Disney – Oswald the Lucky Rabbit, ou Oswaldo o Coelho Sortudo em Português, se preferirem – com um coelho que parece ter sido quase esquecido ao longo do tempo, para apenas ressurgir há uns poucos anos atrás, num jogo de consolas. No mesmo ano apareceu também o primeiro desenho animado do Mickey, que, dada a enorme fama da sua sequência inicial, merece também ser reproduzido aqui:

Esta segunda sequência poderia dar a entender, muito falsamente, que o personagem mais velho da Disney é mesmo o Rato Mickey, ou talvez aquele tal Oswaldo também criado no mesmo ano, mas… quem prestar atenção às duas sequências animadas que apresentámos acima poderá notar que existe uma personagem significativa comum a ambos. Ela parece ter sido readaptada para este segundo filme, quando originalmente era um urso e depois passou a ser uma espécie de gato, mas… ambas contêm uma figura cujo nome mais conhecido é Peg-Leg Pete. O que, para quem conhecer pouco dos nomes das personagens da Disney na sua versão inglesa, corresponde ao “nosso” João Bafo de Onça!

 

O que quer então isto dizer? Quem é, na verdade, o personagem mais velho da Disney? O tema é bastante discutível, mas se nos quisermos focar exclusivamente em personagens originais e animadas, a mais antiga de aquelas que continuam a ser populares nos nossos dias de agora não é nem o Oswaldo, nem o Mickey (como poderíamos pensar, dada até a sua enorme fama dentro da empresa), mas sim um vilão, o João Bafo de Onça, que apesar de ter sofrido diversas alterações significativas ao longo do tempo, já existia em 1925, três anos antes da criação daquele que é o mais famoso de todos os ratos animados!

A lenda de Tannhauser

Entre as muitas lendas alemãs que são pouco conhecidas em Portugal conta-se a de Tannhauser. Talvez já tenham ouvido falar dela através da ópera de Wagner, autor que se focou bastante em temas alemães – recordem-se os casos de Lohengrin, do Holandês Voador e de Siegfried, entre outros – mas salvo essa grande referência, esta parece ser uma história que está quase esquecida nas culturas lusófonas. Por isso, para terminar este ano de 2022, vale a pena recordá-la em língua portuguesa.

A lenda de Tannhauser

Existiram pelo menos dois Tannhauser na cultura germânica. Um deles foi um poeta medieval, que terá vivido em meados do século XIII, enquanto que o outro foi um cavaleiro de que nos fala esta lenda. Há quem diga que poderão ter sido um mesmo, que o poeta terá escrito tanto sobre uma dada deusa que isso acabou por inspirar a história de hoje, mas confesse-se que não conseguimos encontrar uma cópia traduzida das suas obras. Por isso, antes da própria lenda deste herói, achámos que devia ser feita esta pequena nota. Mas indo então ao que interessa.

 

Algures em terras da Alemanha ou da Suíça existe um local misterioso que ficou conhecido sob o nome de Venusberg (i.e. “montanha de Vénus”). Conta-se que no interior desse espaço vivia Vénus, a deusa dos Romanos, juntamente com as suas damas de companhia, em prazeres eternos… não se sabe bem quais, mas pelo contexto depreende-se, no mínimo dos mínimos, que passassem pelos prazeres da carne.

Agora, de alguma forma misteriosa o cavaleiro Tannhauser encontrou a entrada para este local e passou algum tempo a viver no reino da deusa. Depois, um dia – talvez após um só ano, talvez após sete – ele arrependeu-se desse tempo vivido em pecado e decidiu procurar a sua redenção. Foi falar com vários padres, mas todos eles lhe disseram que, face ao número enormíssimo de pecados que tinha cometido, ele não podia ser perdoado. Com dificuldade em aceitar a ideia, o herói procurou o Papa Urbano IV (o que permite datar a lenda no século XIII) e pediu-lhe ajuda… mas também esta figura religiosa recusou fazê-lo, face à enormidade dos pecados, tendo dito algo como “tu só poderás ser perdoado no dia em que o meu bordão florescer.” E assim, com a maior das tristezas, o herói decidiu que só tinha um caminho a seguir, que era voltar para Venusberg

Passaram três dias e o bordão de Urbano IV começou miraculosamente a florescer. O papa, incrédulo com a situação, mandou muitos dos seus subalternos procurarem este cavaleiro, para lhe dizerem que ele estava perdoado, mas já não o conseguiram encontrar. E então, o herói ficou a viver em Venusberg para o resto da sua vida, tendo sido incapaz de obter perdão entre os vivos… mas conta-se que quem passa no local ainda hoje consegue ouvir, no interior da terra, o som dos muitos prazeres que a deusa Vénus tem com este seu grande amante…

 

É muito curiosa, esta presença da deusa romana do amor numa lenda medieval, mas recorde-se que não é um caso único. Diana, deusa da caça, aparecia muitas vezes ligada à feitiçaria e as nossas famosas fadas parecem ter evoluído de antigas divindades, sendo provável que muitas outras áreas da crença religiosa medieval tivessem ligações, hoje já quase perdidas, aos antigos deuses. O que esta lenda faz, nesse sentido, é diz que pelo menos uma delas vivia no interior da terra, sendo de alguma forma possível aos mortais acederem ao local e partilharem aqueles encantos de Vénus a que os poetas faziam referência muitos séculos antes.

Ao mesmo tempo, é igualmente notável a forma como esta lenda de Tannhauser termina. Não tem aquele final feliz a que as histórias dos nossos dias já tanto nos habituaram. Será uma crítica à Igreja, essa existência de pecados que nem o suposto representante de Jesus Cristo na terra pode perdoar? Ou essa inferência não era pretendida na versão original? Talvez, em momentos como estes, seja melhor dizer que lendas como esta oferecem muito espaço para debates entre quem as vai lendo.

 

Mas, para terminar, aqui fica a ópera de Wagner que partilha este nome. A sua trama não é bem a da lenda medieval, ela sofreu diversas adaptações, mas esta versão tem legendas em Inglês e poderá servir para quem quiser conhecer uma ópera.

Sobre a série “Revelações Pré-Históricas”

Há alguns dias foi lançada a série Revelações Pré-Históricas, conhecida no seu original inglês como Ancient Apocalypse. É relativamente curta, com um total de apenas oito episódios de mais ou menos 30 minutos cada, mas se à primeira vista se parece assemelhar a uma espécie de cópia de Ancient Aliens – e algumas das menções no próprio programa até parecem brincar com essa possível relação – as duas séries são bastante diferentes, no sentido de que esta não só levanta explicações mais terrenas para muitos dos problemas já apresentados na outra, como em alguns casos até aborda, em favor do espectador, as próprias teorias contrárias às de Graham Hancock, que aqui serve de apresentador para as próprias pesquisas que foi conduzindo.

Uma apresentação da série Revelações Pré-Históricas

Então, quais são estas Revelações Pré-Históricas? Em cada um dos oito episódios o apresentador foca-se num local pelo mundo fora que, na sua opinião, ainda nos esconde alguns segredos preciosos. À medida que a série avança, vai lançando a ideia de que existe um traço horizontal entre esses mistérios; em outras séries talvez se apresentasse constantemente a ideia de que os extraterrestres são os culpados, mas aqui é defendida uma teoria que diz que há cerca de 12000 anos atrás – mais século, menos século – o nosso planeta sofreu uma enorme catástrofe natural e os sobreviventes da época sentiram a necessidade de nos deixar um aviso para este nosso futuro. O conteúdo desse aviso ficará reservado para quem for ver a série, até porque tudo se parece compor apenas no último episódio.

 

Mas, visto este ainda ser um espaço sobre Mitologia, e acrescentando-se a informação de que não fomos pagos para fazer qualquer publicidade, onde entra esse tema nestas Revelações Pré-Históricas? Essencialmente, o apresentador vai demonstrando a existência de mitos, apresentados sob a forma de sequências animadas, em civilizações distantes, e cujas tramas nos preservam ideias muito idênticas. Fala-se do dilúvio universal, de Oannes e Quetzalcoatl, até mesmo da Atlântida, para demonstrar a ideia de que todas essas diversas culturas parecem ter sido afectadas por uma catástrofe natural e reagiram de formas diferentes aos problemas que esta lhes levantou. Não é fácil discernir até que ponto o seu autor terá razão – caso contrário, estas não seriam apenas teorias, mas verdadeiras certezas incontestadas… – mas tudo isto parece fazer algum sentido e permite, no mínimo dos mínimos, conseguir-se explicar o porquê da existência de ideias tão semelhantes em culturas totalmente diferentes.

Vale, portanto, a pena ver esta série das Revelações Pré-Históricas? Ela parece ser apropriada não só para quem tem interesse em mistérios históricos, mas igualmente para quem gosta de viajar. Cada um dos episódios vai sendo mostrado com belíssimas imagens panorâmicas dos locais que o apresentador vai visitando, mas também foi construída com base numa trama condutora, fazendo com que o tema de cada episódio seja em parte prosseguido no seguinte, em vez de eles se focarem em temas completamente distintos, como acontece em muitas outras séries do mesmo género. Acredite-se, ou não, nas teorias que aqui vão sendo apresentadas, pelo menos no decurso da série vão-se aprendendo algumas coisas novas e conhecendo novos locais, com pelo menos um deles, na Turquia, a ser aqui apresentado sem que alguma vez tenha sido filmado antes…

O curioso filme “Winds of Change”

Hoje falamos de um filme curioso, Winds of Change, com que nos deparámos há algumas semanas. Ele também é conhecido por vários outros nomes, nomeadamente Metamorphoses e Orpheus of the Stars, naturalmente referindo-se ao facto de conter histórias adaptadas das Metamorfoses de Ovídio, mas este acaba por ser um daqueles casos em que o próprio filme tem tanta ou  mais história que a sua própria trama.

Winds of Change ou Metamorphoses

Na sua forma original, que aparentemente tinha o título de Metamorphoses, este filme distribuído pela Sanrio – a tal empresa mais famosa por Hello Kitty – foi lançado em 1978 como uma espécie de animação musical, na tradição de Fantasia da Disney. Não tinha uma trama contínua, mas sim cinco histórias não relacionadas umas com as outras que, no seu geral, foram retiradas da famosa obra de Ovídio – os mitos de Perseu e a Medusa; Acteon; uma história aparentemente inventada, em que as personagens principais nem têm nome; Orfeu e Eurídice; e Faetonte. Toda a ideia até é interessante, mas quem tiver ido ver esse filme deparou-se com alguns problemas, nomeadamente a ausência de qualquer diálogo (o que tornava difícil perceber as histórias), a reutilização constante das personagens principais (o que dava a falsa ideia de que eram sempre as mesmas); e o facto das músicas não captarem o espírito do que se ia passando no ecrã.

 

Para corrigir estes problemas, uma nova versão do filme foi produzida, aparentemente com o título Winds of Change no Ocidente e Orpheus of the Stars no Japão. À versão original foram cortadas algumas cenas, foi adicionado um narrador, este passou a tentar explicar que existia uma reutilização das personagens mas em papéis diferentes, e as músicas – originalmente muito mais interessantes – foram alteradas para serem condizentes com o que podia ser visto no ecrã.

 

Para a escrita destas linhas fomos ver ambos os filmes, um depois do outro, e o cerne da sua trama é essencialmente o mesmo. Tem algumas cenas bastantes bonitas, como o momento em que Faetonte perde o controlo dos cavalos solares de Hélio, mas em determinados momentos esta até parece ter sido uma criação composta pelos restos de dois filmes diferentes, com heróis muito infantilizados, mas algumas criaturas mitológicas e deuses a serem apresentadas como monstros assustadores. A ideia pode confundir um pouco a audiência, mesmo em Winds of Change, porque se fica um pouco com a ideia de que os seus criadores não sabiam bem a quem queriam destinar o seu filme.

 

Vale então a pena ver Winds of Change, Metamorphoses, Orpheus of the Stars, ou como queiramos chamar às diversas versões deste filme? Não. O filme merece aqui ser mencionado pela sua tentativa de adaptar as histórias de Ovídio para os nossos dias, numa altura em que isso ainda não era muito comum no audiovisual, mas fora isso este já não é um filme que poderá agradar bastante às audiências de hoje em dia.

O mito do Mogwai (e os Gremlins)

Na cultura ocidental o nome do Mogwai é particularmente famoso do filme Gremlins, de 1984, em que é o de uma criatura bastante fofinha que pode ser vista, já com má cara, na imagem abaixo. Porém, o que muito menos leitores provavelmente saberão é que a ideia por detrás desta singela criatura vem dos mitos e lendas da China, com o próprio filme a adaptar parte dos mitos originais.

O mito do Mogwai (e os Gremlins)

No vídeo abaixo, por exemplo, pode ser vista uma sequência inicial do filme Gremlins, em que uma das personagens se depara com um mogwai (魔鬼) numa loja. Ficamos sem saber bem porque razão ele lá estava, visto que o proprietário nem parece muito interessado em vendê-lo, mas ele lá é vendido e ao novo dono da criaturinha são dadas três regras basilares – o “bicho”, que depois adoptará o nome de “Gizmo”, não deveria ser exposto ao sol, não deveria entrar em contacto com a água, nem deveria ser alimentado após a meia-noite. Essas regras até podem levantar todo um conjunto de grandes questões filosóficas, mas, na verdade, provêm de uma adaptação de alguns elementos da criatura chinesa original.

Essencialmente, este Mogwai não devia ser exposto à luz porque apesar da sua forma toda bonitinha, é uma criatura demoníaca, uma das muitas do séquito de Mara (que já conhecemos da história de Sidarta Gautama), e por isso fazia muitas maldades. Depois, não devia comer após a meia noite porque isso lhe dava força e pujança reprodutiva – o que leva ao último elemento, já que no mito original era a altura das chuvas que causava o seu período reprodutivo. E porquê as chuvas? Simplesmente porque podem ser interpretadas, metaforicamente, como as antecessoras de um bom período de colheitas, onde irá existir muita comida (o que, novamente, nos leva ao ponto anterior). Mas, curiosamente, não encontrámos qualquer história em que este monstrinho se transforme em outras criaturas*, sendo essa parte da história uma mera adaptação para a história do próprio filme.

 

Agora, poderíamos ainda tentar contar aqui alguma história associada ao próprio Mogwai , uma provinda da China, que o afastasse do nosso filme Gremlins, mas muito infelizmente não conseguimos encontrar nenhuma. Isto porque as histórias sobre a própria criatura chinesa se parecem ter esquecido progressivamente ao longo dos séculos – como, por exemplo, as de Zigu, que já poucos chineses parecem conhecer – sendo ela hoje quase somente um dos (muitos) sinónimos para aquele conceito que na cultura ocidental chamaríamos pura e simplesmente “demónio”.

 

 

*- O que são, então, os tais “Gremlins”? Talvez regressemos a esse tópico um outro dia, mas por agora podemos resumi-los como criaturas mitológicas europeias que nasceram no século XX e a quem se atribui a função geral de causar danos em equipamentos electrónicos, e.g. se o vosso telemóvel deixou de funcionar sem razão aparente, foram eles!