Jesus no Islão, e a lenda da mulher falecida

Uma imagem de Jesus no Islão

Desde os primeiros séculos da nossa era e os instantes iniciais do Cristianismo que foram surgindo, aqui e ali, lendas apócrifas associadas à figura de Jesus Cristo. Histórias sobre a juventude do filho de Maria, relatos sobre o que ele fez após a ressurreição, toda a espécie de milagres, etc. A lenda de Jesus de hoje provém do Islão e faz parte do terceiro grupo, tendo sido preservada por um autor do século XI chamado Al-Thalabi. Podemos chamar-lhe, com alguma justiça, a lenda de Jesus e a mulher falecida:

 

Conta-nos que um dado dia Jesus se cruzou com um homem que chorava abastadamente em frente a uma campa. Inquietado com uma tal ocorrência, o filho de Maria perguntou-lhe se conhecia aquela mulher, ao que o homem lhe respondeu que era a sua esposa amada, e que daria tudo o possível para a ter de volta.

Então, Jesus trouxe-a de volta ao mundo dos vivos. Os dois casados depressa se sentaram abaixo de uma árvore, a trocarem carícias, até que a mulher fechou os olhos e descansou a cabeça no colo do homem que dizia amar. Pouco depois, quando reabriu as suas pálpebras, viu dois homens a disputarem-na – de um lado o seu pobre marido, e de outro um riquíssimo rei.

Face à disputa, Jesus perguntou a esta mulher a quem ela pertencia. Esta respondeu-lhe que era escrava do rei, que nem nunca tinha visto antes o homem que dizia ser seu marido. E então, Cristo pediu-lhe apenas um favor – “Se assim o é, podes dar-nos de volta o que te demos?” A mulher aceitou, e depressa caiu no mesmo sítio onde estava, falecendo uma segunda vez.

 

Esta breve história, ou lenda, de Jesus e a mulher falecida insta-nos a pensar que mesmo face aos maiores milagres divinos quem não quer acreditar jamais acredita. Se o fizesse, se acreditasse numa qualquer mensagem religiosa, dificilmente descartaria um marido que tanto a parecia amar (e que até era o grande responsável por estar viva), em favor de um homem mais rico. Isso insta-nos a perguntar, de uma forma muito natural, que milagres seriam necessários – seja no Islamismo, ou em qualquer outra religião – para fazer acreditar aquele que ainda não acredita – se nem uma ressurreição é suficiente, que grande milagre o seria? Esta é, possivelmente, uma das grandes questões que esta lenda islâmica de Jesus nos poderá suscitar…

A lenda do Buraque

A lenda do Buraque procura resolver um problema milagroso – quando, nos textos bíblicos ou religiosos, ouvimos que uma determinada personagem foi transportada do local A para o local B muito rapidamente, é fácil descartar essa viagem com um simples “foi milagre”. E quem diz “milagre”, pode sempre substitui-lo pela presença de um qualquer anjo ou figura divina. A lenda do Buraque (ou, no original, الْبُرَاق), apesenta-nos uma alternativa curiosa.

Um Buraque

Segundo a tradição islâmica, numa dada altura da sua vida o profeta Maomé viajou de Meca a Jerusalém – uma viagem de aproximadamente 1400 Km – numa só noite. Segundo algumas versões, essa viagem foi feita com a intervenção de um anjo, mas noutras o arcanjo Gabriel apareceu a Maomé e trouxe-lhe um Buraque, capaz de fazer essa enorme distância muito rapidamente. Depois, se até existem outras menções a esta criatura na literatura islâmica, esta é a sua lenda mais essencial.

 

Mas… e então, o que é um Buraque? Essencialmente é um animal branco, “maior que um burro mas mais pequeno que uma mula” (assim o dizem diversas fontes), com uma cara bonita. As fontes que consultámos nunca referem uma cara com forma humana, mas o animal é sempre representado como na imagem acima, talvez por se supor que uma “cara bonita” equivale a uma que seria considerada atraente pelos seres humanos.

Nesse mesmo contexto, é possível que esta estranha ideia tenha vindo de séculos anteriores, baseando-se em criaturas divinas como o Lamassu da Babilónia:

Lamassu

Jesus no Corão, um breve resumo

A figura de Jesus no Corão islâmico é pouco conhecida na cultura ocidental, pelo que decidimos falar um pouco sobre este curioso tema, sob a forma de um breve resumo. Assim, como é provável que muitos já saibam, o Corão (e a própria religião islâmica) surgiu inicialmente como uma espécie de continuação do Cristianismo, como esta religião era, também ela, uma espécie de continuação do Judaísmo. Por isso, Jesus Cristo (como, acrescente-se, algumas das principais figuras do Antigo Testamento) também aparece nesta fonte literária, mas com algumas divergências face à sua visão cristã. De forma breve, aqui ficam as principais diferenças apresentadas pela figura de Jesus no Corão:

Uma imagem de Jesus no Corão

  • Jesus não é filho de uma entidade divina. É um profeta (como o foi anteriormente Moisés, e como voltará a sê-lo Maomé), e nasceu do ventre virgem de Maria, mas é repetidamente mencionado que Deus/Alá nunca teve nenhum filho;
  • Jesus não foi crucificado. Não é explicado concretamente o que lhe terá acontecido, mas é dito que ele apenas pareceu ter sido crucificado, uma ideia derivada de uma seita gnóstica;
  • A ideia da Trindade é completamente negada (até porque, como já referimos acima, Jesus era um profeta, mas não era filho de Deus/Alá);
  • Se a sequência do nascimento desta criança até começa com o próprio nascimento de Maria, em relação ao primeiro é dito que nasceu numa manjedoura e ao pé de uma palmeira. Pouco depois, Jesus – ainda recém-nascido! – fala miraculosamente, revelando parte da sua missão futura;
  • Enquanto criança criou alguns pássaros de barro e deu-lhes vida. Esse milagre não aparece no Novo Testamento, mas já ocorria, pelo menos, num dos evangelhos (apócrifos) da infância;
  • Para alimentar uma multidão (talvez a mesma para quem multiplicou os pães e peixes nos quatro evangelhos?), Jesus fez com que uma mesa com comida descesse miraculosamente dos céus.

 

Se esta figura de Jesus no Corão tem certamente um fundamento bíblico, também parece ter sido influenciado por algumas ideias apócrifas e gnósticas. Não é, contudo, muito diferente da figura do Cristianismo, salvo a excepção de existir uma recorrente (mas necessária, no contexto islâmico) negação da sua divindade.