“João, ou Das Guerras Líbicas”, de Coripo

Coripo é um de aqueles autores que foi ficando perdido no tempo, uma figura do século VI, tardia demais para quem se interessa pela Antiguidade e imemorial para quem estuda a Idade Média. Por isso, se nos chegaram pelo menos dois dos seus livros, a obra João, ou Das Guerras Líbicas merece ser mencionada por cá não pela natureza do seu conteúdo – ele relata-nos as aventuras de João Troglita, um general bizantino do mesmo século – mas porque nos permite notar um momento evolutivo muito específico da Mitologia Grega.

João, ou Das Guerras Líbicas, de Coripo

Ao longo desta sua obra, Coripo vai, ocasionalmente, mencionando algumas figuras e eventos da Mitologia Grega, mas fá-lo sempre de uma forma muitíssimo breve e simples, usando ambas como um termo de comparação muito geral para o que pretende descrever, e.g. “nunca se viu um ajuntamento tão grande de homens desde o tempo em que os Gregos se prepararam para invadir Tróia”. É sempre tudo muito simples, qualquer estudante mediano de Mitologia Grega não teria dificuldade em compreender as ideias que o autor pretendia veicular. Mas depois, surge uma única ideia menos comum:

Dizem que um dia Dis [ou Plutão] organizou um concílio, quando se preparava para organizar uma guerra contra os deuses, e um milhar de monstros vieram das largas estradas do Inferno. A Hidra e a sinistra Mégara correram para lá, e o velho Caronte deixou o seu barco para trás. Tisífone rugiu num frenesim, abanando a sua tocha de pinho, que é poderosa na chama e no peso, e com ela a furiosa Alecto, com as suas cobras retorcidas, e todas as outras formas que aparecem no vasto Averno.

Toda esta estranha ideia não parece corresponder a nenhum mito dos Gregos ou Romanos que nos tenha chegado. Portanto, de onde vem ela? Ou Coripo pura e simplesmente a inventou para o seu poema, ou ele refere-se a algum mito oral do seu próprio tempo. A resposta correcta, entre estas duas, não é clara, já que mitos que envolvam Mégara, Tisífone e Alecto enquanto figuras individuais não abundam (uma excepção já cá foi mencionada, há mais de uma década), mas parecem ter sido mais notáveis nos últimos séculos da Antiguidade Clássica, com este mesmo autor até a atribuir, aqui e ali, algumas características individuais a cada uma delas.

 

Não sabemos, admita-se de forma frontal, de onde veio este mito incompleto mencionado em João, ou Das Guerras Líbicas, mas o que a obra nos permite apreciar, sem qualquer dúvida, é um estágio do desenvolvimento da Mitologia Grega em que ela já não era uma religião, mas um grupo de ideias que alguns autores escolhiam usar para dar aos seus leitores um termo de comparação, e.g. “este combatente é tão feroz como Aquiles”, “nem Hércules, quando atacou Tróia, fez tantos estragos”, etc. São uma espécie de referências mitológicas quase sem alma… o que é curioso, já que na mesma obra o autor até apresenta diversas sequências poeticamente belas, mas nunca as conjuga com os mitos que vai referindo.

 

Em suma, a obra João, ou Das Guerras Líbicas, de Coripo, tem alguns “momentinhos” interessantes para quem se interessa pela Mitologia Grega, mas eles não são, na verdade, suficientes para justificar toda a leitura da obra, ainda para mais quando esta não é uma obra muito fácil de encontrar.

O que foi a Doação de Constantino?

Como muitos outros, a Doação de Constantino é daqueles documentos que tiveram um impacto profundo na história europeia, mas que quase ninguém parece ter lido nos nossos dias. Portanto, hoje decidimos fazê-lo, para também aqui contar parte da sua história e o que ele verdadeiramente contém.

A Doação de Constantino - o que foi ela?!

Quando se trata da conversão de Constantino o Grande ao Cristianismo, existem diversas lendas associadas a esse evento. A mais famosa é provavelmente aquela em que o Imperador viu nos céus antes de uma batalha as palavras “In hoc signo vinces“, mas a Doação de Constantino começa por contar uma versão alternativa, muito menos conhecida. Segundo ela, em dada altura da sua vida o filho de Santa Helena começou a sentir uma espécie de lepra no seu corpo e pediu aos sacerdotes da sua religião pagã que o ajudassem. Estranhamente, eles sugeriram que uma piscina no Capitólio fosse enchida com o sangue de crianças inocentes e que o doente tomasse um banho nela. É uma ideia horrenda, mas estranhamente comum na tentativa dos autores cristãos mostrarem o quão abominável era a religião pagã. Porém, neste caso específico, em vez de seguirem esse plano, Constantino teve um sonho nessa noite, em que lhe apareceu Pedro e Paulo – os apóstolos de Cristo – e lhe explicaram como podia curar a sua doença sem necessitar de cometer uma acção assim tão problemática.

O Imperador Constantino lá fez o que lhe pediram nesse sonho, chamou o Papa Silvestre I, e este foi capaz de o curar. E é aqui que o documento se torna mais interessante – como agradecimento por esse acto, o imperador doou a esse papa, aos que lhe seguissem, e a toda a Igreja não só as terras que pertenciam ao Império Romano do Ocidente, mas também todo o poder sobre as principais igrejas que então existiam.

 

É, essencialmente, esse o conteúdo da Doação de Constantino. Na Idade Média, a ideia que contém foi utilizada para argumentar que todo esses locais eram propriedade da Igreja, que os reis e imperadores seculares apenas podiam “alugar” o seu poder através de uma espécie de autorização papal (relembre-se, por exemplo, que Afonso Henriques só pôde criar o seu país depois do papa da altura assim o consentir), até que em meados do século XV Lorenzo Valla foi capaz de provar, com base na linguagem do próprio documento, que era tudo pura e simplesmente uma falsificação, potencialmente escrita por volta dos séculos V-VIII da nossa era. Ou seja, trocando por miúdos, que na verdade a Igreja Católica não tinha qualquer poder sobre o antigo Império Romano do Ocidente. E, face a isso, o documento lá foi perdendo a sua importância, restando hoje apenas como uma falsificação que em outros tempos foi utilizada para justificar o grande poder secular da Igreja…

As Questões de Bartolomeu

As Questões de Bartolomeu contam-se entre muitos textos cristãos do início da nossa era que se foram perdendo ao longo do tempo. Isso aconteceu por terem sido designados como apócrifos, “não oficiais”, ou seja, como textos que se acreditava que não foram inspirados pela verdadeira fé cristã, mas apenas inventados pelos seres humanos, como sabemos que aconteceu com os novelescos Actos de Paulo e Tecla. É difícil saber até que ponto tudo isso será verdade – quer dizer, o que distingue um Evangelho de Mateus de um Evangelho de André? – mas, pelo menos, era assim que se pensava nos tempos da Antiguidade. E então, entre textos atribuídos aos outros apóstolos de Jesus, contava-se este, que até poderá ser o mesmo, ou apenas um segmento fragmentário, de um Evangelho de Bartolomeu.

O suposto autor destas Questões de Bartolomeu

O que têm então estas Questões de Bartolomeu de digno de nota? Existem delas diversas versões, mas naquela a que tivemos acesso, uma versão grega da composição original, este apóstolo encontra-se com Jesus e com os restantes após o episódio da ressurreição e decidem colocar ao Filho de Deus diversas questões. Esse formato de questão/resposta é relativamente comum em textos gnósticos, mas o que este caso tem de notável é a própria natureza das perguntas que aqui são colocadas, que parecem ser muito mais “picantes” do que as apresentadas em outros textos da mesma natureza.

Por exemplo, é perguntado a Jesus o que fez durante os três dias que precederam a ressurreição – e surge um segmento textual em que as próprias forças das trevas testemunham a “Descida aos Infernos” na primeira pessoa; depois, tenta-se saber como é que Maria concebeu Jesus – uma revelação que, segundo o Filho, destruiria todo o mundo; os apóstolos pedem para ver os Infernos e aquele grande opositor da humanidade – e até falam com ele (!); e surge uma pequena discussão sobre os pecados que eram vistos como os mais importantes (provavelmente a sequência menos interessante).

 

Mas, no meio de estes episódios das Questões de Bartolomeu vai-se ficando sempre com a ideia de que o seu autor sabia ou conhecia mais do que aquilo que nos vai comunicando. A inquirição sobre a concepção de Jesus é o perfeito exemplo disso mesmo – quando Maria se prepara para revelar mais do que podia, começam a sair línguas de fogo da sua boca, prestes a destruir todo o mundo. Jesus ordena-lhe imediatamente que pare, que não conte nada mais, mas de onde terá surgido uma ideia como essa? Se a, hoje pouco conhecida, Descida aos Infernos nos é conhecida do Evangelho de Nicodemos, terá existido um texto em que a mãe de Jesus também contava aquilo que aqui se vê impossibilitada de revelar? É provável que sim, mas as provas existentes impedem-nos de o concluir com absolutas certezas.

 

Ainda assim, estas Questões de Bartolomeu são importantes, por nos preservarem um conjunto de ideias e questões católicas cujas respostas foram sendo esquecidas – ou alteradas – ao longo dos séculos, mas que nesses outros tempos dos inícios do Cristianismo até tinham respostas significativas à altura. Em muitos casos eram respostas que hoje até nos poderiam chocar, mas que então tinham a capacidade de responder a muitas questões bíblicas que continuam a ser perguntadas hoje em dia. E talvez seja essa a grande beleza de textos como estes, essa possibilidade de conseguir responder a questões que em muitos casos o leitor até poderia ainda nem saber que tinha. Por isso, apesar de pequeno nas suas formas actuais, esta não deixou de ser uma obra aqui digna de nota.

A História Secreta dos Nefilins

Há já algumas semanas, quando aqui falámos sobre uma estranha paternidade associada a Caim e Abel, fizemos uma referência à história dos Nefilins. Depois uma leitora, a Andreza, disse que até queria saber mais sobre esse tema, mas tivemos de a informar que supostamente essa trama estava perdida. Porém, dizê-lo assim não foi, de facto, completamente correcto… é muito mais certo afirmar que a sua história está perdida nas fontes ditas bíblicas, mas ainda nos chegou através de obras apócrifas como o Primeiro Livro de Enoque, em que este relato está contido numa (primeira) sequência, hoje conhecida por Livro dos Vigilantes. E é, portanto, esse o tema que aqui apresentamos hoje, contando as desventuras destas misteriosas figuras tal como elas nos são reportadas numa fonte literária que se poderá, ou não, ter baseado em tradições orais aludidas no texto bíblico.

Os Elohim e a História dos Nefilim

Comece-se por algum contexto. Como se sabe do Livro do Genesis, Deus criou Adão e Eva (a história de Lilith é mais tardia). Depois, eles foram expulsos do Paraíso e tiveram vários filhos e filhas, de que já cá falámos antes. Nesse seguimento, surge então uma misteriosa frase que ainda pode ser encontrada no Antigo Testamento (6:4):

Naquela época, e também algum tempo depois, havia Nefilins na terra, quando os filhos de Deus possuíram as filhas dos homens e elas lhes deram filhos.

Agora, claro que esta é uma frase muitíssimo obscura, mas sucintamente os “filhos de Deus” são os Elohim (já voltaremos ao significado!), enquanto que os filhos destes com as mulheres humanas são chamados Nefilins. Pegando depois em fontes apócrifas, toda esta história se torna um pouco mais clara. Podemos resumi-la a três tempos:

 

Primeiro, quando Adão e Eva começaram a ter os seus vários descendentes, alguns deles foram, como não poderia deixar de ser, do sexo feminino. Impressionados pela beleza dessas jovens, alguns dos anjos do céu – se assim podem ser traduzidos os Elohim… – desceram à terra e envolveram-se sexualmente com algumas delas. Em troca, ou talvez para as impressionar, estes deram-lhes conhecimentos proibidos (o que não destoaria num episódio de Ancient Aliens), como as artes mágicas, a forma de trabalhar alguns metais, a previsão do futuro pelas estrelas, a criação de imagens supostamente divinas, etc.

 

Depois, dessas relações sexuais entre o que se supõe terem sido anjos e mulheres humanas, nasceu uma classe de seres que ficaram conhecidos como Nefilins. Não se sabe ao certo em que consistiam, mas indirectamente pode inferir-se que se tratavam de Gigantes, uma espécie de seres humanos de grande estatura. E isto pouco ou nada teria de errado, não fosse o facto de eles se mostrarem muitíssimo desumanos, não respeitando as criações divinas, ao ponto de matarem animais só pelo prazer de o fazer, ou de se devorarem uns aos outros, entre outros actos completamente bárbaros.

 

Então, num terceiro momento, os anjos que permaneceram nos céus aperceberam-se do que se estava a passar e, falando com Deus a esse propósito, decidiram que tinham mesmo de intervir – os anjos que desceram dos céus foram punidos pelos seus actos e foi decretado que esta raça dos Nefilins tinha de desaparecer completamente. Com vista a esse segundo objectivo, a figura divina decidiu causar um enorme dilúvio, poupando apenas uma única família que lhe parecia especialmente digna – e esse é um episódio já muito mais famoso entre nós, o conhecido sob o nome da Arca de Noé!

Arca de Noé e os Nefilim

 

O que esta história, tal como apresentada no Primeiro Livro de Enoque, tem de muito especial é que, como em vários outros textos apócrifos, nos permite compreender melhor alguns dos eventos da Bíblia. Por exemplo, torna mais fácil compreender-se o porquê da necessidade do famoso Dilúvio, mas também a forma como diversos conhecimentos “secretos” chegaram à humanidade. Cumulativamente, tornam até possível a ligação a mitos e lendas muito anteriores – o chamado Livro dos Gigantes, que hoje está quase totalmente perdido, parecia contar algumas das aventuras dos Nefilins, entre os quais pode ser reconhecido o famoso nome de Gilgamesh. Infelizmente, a obra em questão já só nos chegou em pequenos fragmentos, o que apenas nos permite saber que um dos intervenientes era esse herói sumério; e que a antiga obra continha pelo menos um episódio em que estes seres tinham sonhos proféticos de uma enorme cheia que, nessa sua altura, estava ainda por vir.

Um texto fragmentário sobre os Nefilim

 

É um pouco triste que já não possamos conhecer as suas aventuras de uma forma mais directa, mas é bastante possível que essa antiga obra contivesse também uma explicação do porquê de pelo menos um Nefilim parecer ter sobrevivido ao dilúvio universal – é o caso de Golias, o tal gigante que foi facilmente derrotado por David, na ainda-famosa história bíblica que os une.

 

Mas… terá sido tudo isto verdade? Será que toda esta história já era conhecida por quem escreveu, originalmente, a passagem no Livro do Genesis 6:4? Ou, pelo contrário, é apenas uma história tão apócrifa como a de São Pedro e o cão falante? É impossível sabê-lo, porque o Primeiro Livro de Enoque contém diversos níveis de composição (o mais recente até já dos primeiros séculos da nossa era), enquanto que o Livro dos Gigantes está demasiado incompleto para nos dar informações de maior. Se sabemos, através da obra Sobre os Gigantes, de Filo de Alexandria, que uma história semelhante a esta existia nos primeiros séculos da nossa era, não nos é agora possível compreender a sua verdadeira origem, i.e. se aquele versículo bíblico foi escrito com base neste relato, ou se este apenas apareceu posteriormente e para explicar o sentido (perdido?) do misterioso momento presente no Antigo Testamento.

 

Em qualquer dos casos, este Primeiro Livro de Enoque é também notável por uma outra referência que contém – parece ser a mais antiga obra que refere o título de “Filho do Homem”, uma espécie de misterioso messias profetizado para o futuro, que os Cristãos virão depois a identificar com a figura de Jesus Cristo. O que nos leva, novamente, ao problema do parágrafo anterior – será que este título já existia nos tempos mais remotos, ou foi apenas adicionado à obra num período mais recente? E, tal como antes, não nos é possível saber quase nada sobre isso…

A queda de Satanás, os Elohim e os Nefilim

Mas, como o tema de hoje já vai longo, aborde-se um último ponto – afinal de contas, o que é mesmo um Elohim e um Nefilim? O grande problema em traduzir o verdadeiro significado dessas palavras é que ele se foi alterando ao longo do tempo. Se, inicialmente, a primeira destas palavras era usada com o sentido de “deuses” (tema a que já cá fizemos alusão quando falámos sobre a esposa de Deus), já no texto bíblico ela surge como se se tratasse de uma palavra singular, uma espécie de “deuses-que-são-apenas-um”, em alguns casos traduzida de forma demasiado simples como “anjos”. Em relação à segunda palavra, não parece ter uma tradução directa indisputável, mas pelo que parece ser mera tradição tende a ser traduzida como “gigantes” ou “[seres] caídos”. O que poderá levantar ainda mais uma questão – terá a história original alguma ligação com a da queda de Satanás, com que partilha algumas semelhanças óbvias, ou será que se referem a duas quedas angélicas diferentes? Mais uma vez, não sabemos, nem parece ser possível descobri-lo com base nas provas que ainda existem neste momento…

 

Em suma, os Nefilins são uns seres muito misteriosos a que o texto bíblico faz alusão, mas sobre os quais apenas podemos saber, de uma forma mais concreta, que nasceram de relações sexuais de algumas mulheres humanas com o(s) igualmente misterioso(s) Elohim. Se até existem histórias, aparentemente apócrifas, que expandem esta narrativa muitíssimo críptica, não nos é possível saber que forma as duas classes de seres tinham originalmente, com obras como o Primeiro Livro de Enoque ou o Livro dos Gigantes a nos preservarem um possível complemento para o obscuro relato contido no Antigo Testamento.

“Genealogias”, de Acusilau de Argos

As Genealogias, de Acusilau de Argos, foram escritas por volta do século VI a.C. Se nos tivessem chegado de uma forma mais completa, talvez tivesse sido interessante comparar a forma como contrastavam com teogonias como as de Hesíodo ou de Antífanes, até para que pudessemos compreender melhor a diversidade de crenças dos Gregos nos séculos mais antigos. Mas, visto que já não nos chegaram excepto em breves fragmentos – um total de pouco mais de quatro dezenas, na edição que consultámos – o que nos é permitido saber sobre elas?

As Genealogias de Acusilau de Argos

Muito curiosamente, a Suda refere a origem da informação que este autor usou na sua obra – supostamente o pai dele encontrou algumas placas de bronze no quintal, com histórias de outros tempos, que depois o filho, este nosso Acusilau, traduziu e/ou adaptou para os seus tempos. O caso não é único – recorde-se o exemplo de Joseph Smith Jr. e a fundação do Mormonismo, com contornos semelhantes – e até parece ter sido de alguma frequência na Antiguidade, com Platão a obter parte do seu conhecimento das paredes dos templos do Egipto, Evémero a contar uma história que dizia ter lido numa coluna muito antiga, etc.

 

E que informação era essa? Os poucos fragmentos que nos chegaram permitem compreender que a sua era uma obra de natureza genealógica, o que parecerá óbvio em virtude do seu nome. Assim, através desses mesmos fragmentos das Genealogias de Acusilau de Argos podemos não só reconhecer algumas paternidades divergentes daquelas que tendemos a associar a alguns mitos, mas também perceber que, aqui e ali, ele também conhecia algumas histórias que eram pelo menos um pouco diferentes das que conhecemos hoje. Para dar alguns exemplos ilustrativos, ele dizia que:

  • Eros era filho da Noite e do Éter (em vez de ter por mãe Afrodite).
  • Quem guardava as Maçãs das Hespérides eram as Hárpias (em vez das versões que aparecem no mito de Hércules).
  • O Touro de Creta era aquele que transportou Europa para a ilha (a maior parte das versões dizem que quem a transportou foi Zeus transformado).
  • Acteon ficou louco por ter querido amar Sémele (nas outras versões ele viu Artémis nua a tomar banho).
  • Os Homens antes da cheia de Deucalião vivam 1000 anos.
  • Afrodite apenas fingiu apoiar os Troianos durante a famosa Guerra de Tróia.
  • Que Ceneu só morreu porque, em virtude de se ter tornado invulnerável, começou então a considerar-se um deus.
  • Etc…

 

Também parecem ter existido neste trabalho muitos mitos semelhantes aos “nossos”, às formas das diversas histórias que ainda conhecemos nos dias de hoje, mas face ao seu carácter fragmentário é mais difícil reconhecer onde começam e acabam essas semelhanças. Não iremos tentar fazê-lo, como é óbvio, mas fica aqui a menção a mais uma obra da Antiguidade que parece ter sido de alguma importância significativa no seu tempo.