O poema “Alexandra”, de Licofron

Hoje finalmente acabei de ler esta obscura obra, a Alexandra de Licofron. É importante ter em conta que este não é, de todo, um poema ligeiro, algo que se possa ler sem muita dificuldade numa paragem de autocarro, mas sim uma obra da qual se merece ter uma visão geral. De facto, este poema, o único dos supostos trabalhos de Licofron que sobreviveu até aos dias de hoje, é composto por sequências extremamente complexas, tanto do ponto antigosde vista temático como artístico.

 

A obra, que pode ser lida gratuitamente em inglês online, apresenta algumas previsões da profetisa Cassandra de Tróia (também conhecida como Alexandra, talvez por ligação com o seu irmão [Alexandre] Páris), que assentam, na sua maioria, nos regressos dos heróis gregos após o término da guerra. Infelizmente, como sucede em grande parte das previsões, ainda hoje conhecidas, do Oráculo de Delfos, também estas são extremamente crípticas, e referem mitos bastante obscuros, grande parte dos quais nem sequer sobreviveram até aos dias de hoje; é necessário, ainda, ter em conta que mesmo os autores antigos consideravam esta obra como extremamente obscura, difícil de ler e compreender, e portanto trata-se de uma obra apresentada como mera curiosidade, não sendo indicada para a maioria dos leitores, excepto se for lida com comentários de apoio.

“Interpretação de Sonhos”, de Artemídoro de Daldis

Finalmente consegui arranjar uma cópia da Interpretação de Sonhos, ou Oneirocritica, de Artemídoro de Daldis, para a minha colecção pessoal. Trata-se, como o próprio nome indica, de uma obra sobre interpretação de sonhos, mas compreende essencialmente dois pormenores essenciais, que merecem certamente ser analisados.

 

Em termos gerais, esta é uma obra que relata costumes, bem como vários outros elementos da própria cultura grega, de uma forma extremamente jovial. O autor chega, em determinadas alturas, a questionar a própria religião, quando se refere à Titanomaquia como uma simples história, apesar de considerar outros mitos (por exemplo, o de Seleno) como reais e, portanto, dignos de ser considerados na própria arte de interpretação dos sonhos. Desse ponto de vista, esta é uma obra que merece realmente ser lida, para que se possam conhecer melhor vários elementos da cultura grega.

 

Contudo, de um ponto de vista mais filosófico, esta obra é bastante rica, e dá muito que pensar. Ao tentar ensinar a arte de interpretação de sonhos ao seu próprio filho, Artemídoro de Éfeso (ou, segundo ele escreve na própria obra, “de Daldis”) refere que a própria interpretação de sonhos pode ser executada recorrendo-se somente a uma justaposição e associação de ideias, o que acaba por ser uma interessante visão da própria psique humana. Em termos práticos, não é de todo possível compreender o que nos sucede nos sonhos nocturnos, mas uma teoria deste género leva-me a pensar que, mais do que preverem o futuro, os sonhos podem condicionar as nossas acções. O próprio Artemídoro o escreveu, quando disse que os sonhos de quem os sabe interpretar acabam por ser bastante diferentes, mais crípticos, que aqueles dos comuns mortais…

 

Recordo-me, por exemplo, de um caso referido por Artemídoro de Daldis, em que um homem tinha um sonho que parecia prever que a futura esposa se tornaria uma prostituta; infeliz com um tal presságio, e após várias peripécias, esta esposa acabou por falecer sem cumprir esse provável destino. Ao pensar que o conteúdo da profecia já se teria, até certo ponto, cumprido, o homem casou com uma outra mulher, sendo esta que acabaria por realmente se tornar prostituta… pura realidade, ou será que a própria previsão de sonhos, enquanto ciência inexacta, condicionou as acções do próprio homem?

 

Pense-se nisso… se, por uma qualquer via, um homem da época contemporânea soubesse que ia morrer vítima de um acidente de automóvel, é bastante provável que tendesse a tentar evitar os carros; a previsão, como se poderá ver neste caso, condicionaria as próprias acções humanas, e por conseguinte levaria a caminhos que, normalmente, ele até poderia jamais vir a cruzar.

 

Assim… será que os sonhos têm realmente uma capacidade obscura de ajudar a prever o futuro? Fica a questão aberta para debate…

Algumas leis religiosas do Império Romano

Aquando de mais uma pesquisa pela internet, encontrei uma listagem simples de algumas das leis religiosas do Império Romano, a qual pode ser vista aqui. Visto de uma forma geral, esta lista não tem muito interesse para o leitor comum, mas existem algumas entradas que merecem ser analisadas, no contexto deste blog (o texto em Inglês é mantido, de modo a que certos detalhes não sejas perdidos na tradução).

 

Lei de Constantino I, em 317-319 d.C.:

Magicians and such who use their art against the minds of men are guilty and shall be punished; however, to use this art for good, to seek favorable weather during harvest for example, is allowable under the law.

e

Lei possivelmente de Valentiniano I, em 367 d.C.:

Prisoners are to be released from prison to celebrate Easter. The exceptions are those who have committed treason, necromancy, poisoning, magic, adultery, rape, and murder.

Estas são duas leis que denotam uma crença na magia. Apesar desta crença também aparecer em diversas composições literárias (por exemplo, através das figuras de Circe e Medeia), é interessante constatar que até as mais altas patentes do Império Romano acreditavam na sua existência.

 

Lei de Constâncio II, em 356 d.C.:

Constantius declares a curse on those who perform the magic arts and thereby “jeopardize the lives of innocent persons.”

Apesar desta lei não ser muito clara, comporta um facto bastante curioso – a realização de magia para proíbir essa mesma realização.

 

Lei possivelmente de Valentiniano II, em 388 d.C.:

No public discussions or debates about religion may be held.

Começa a surgir uma relativa distanciação entre o sagrado e o profano,  com a religião a tornar-se algo em que se deve simplesmente acreditar, sem qualquer tipo de questões.

 

Lei possivelmente de Arcádio, em 398 d.C.:

Heretical books are to be destroyed. Those who refuse to surrender such books are to suffer capital punishment on the charge of sorcery.

É com base nesta lei que se perdeu um importante património literário.

 

Lei possivelmente de Teodósio II, em 435 d.C:

Pagan sacrifices are forbidden. Pagan temples and shrines are to be torn down and replaced with the symbol of Christianity: the cross. Anyone who mocks this law faces execution.

É com esta lei que a antiga religião finalmente cai.

 

Além destas, existem muitas outras leis que favorecem o Cristianismo em deterimento das antigas religiões, e que enfraqueceram o modo de vida dos Romanos, o que poderá ter facilitado a queda dessa civilzação.

Resumo da Alegoria da Caverna de Platão

Hoje deixo aqui um resumo da Alegoria da Caverna de Platão, que me foi pedido há alguns dias. Também é conhecida, de uma forma mais simples, como o Mito da Caverna, mas a sua principal referência vem da República de Platão. E então, esta alegoria platónica pode ser sintetizada assim:

Diagrama da Alegoria da Caverna de Platão

Na sua versão mais simples, a alegoria da caverna menciona vários homens, todos eles agrilhoados no interior de uma caverna, na qual nasceram e apenas conseguem ver uma ténue réstia de luz. Um dia, um desses homens liberta-se, escapa para o exterior da caverna e tem conhecimento de todos aqueles mistérios que, anteriormente, se escondiam por detrás de uma simples luz.

Ao voltar ao local onde sempre viveu, este homem conta aos seus antigos companheiros o que viu. Estes, quando confrontados com a recente descoberta, acham que a luz fez o seu amigo ficar louco, e pensam até em matá-lo.

 

Contrariamente ao que sucede em muitos dos mitos já relatados por cá, esta Alegoria da Caverna de Platão é uma história bastante difícil de interpretar, pelo simples facto de ter um quase infinito número de significados, os quais divergem em função do contexto que lhe queiramos dar. No caso da Filosofia, por exemplo, esta alegoria representa aquilo que se espera de um filósofo – a capacidade de se abstrair do mundo terreno e, com uma curiosidade periclitante, tentar interrogar-se sobre os diversos mistérios deste nosso mundo.

 

Esta Alegoria da Caverna platónica é certamente uma na qual o contexto é tão importante como a própria mensagem. É óbvio que a saída da caverna pode ter uma simbologia de escape de uma realidade frequente, e que o conjunto de homens agrilhoado pode simbolizar a sociedade geral, mas a importância geral do contexto é possivelmente a maior característica a ter em conta nesta Alegoria da Caverna. Por isso, aqui fica também um vídeo relativo ao tema, para ajudar nessa reflexão:

Sobre alguns dos trabalhos de Ovídio

Finalmente tive tempo para acabar de ler alguns dos trabalhos de Ovídio, os quais já foram mencionados num post anterior [link perdido antes de 2022], e acho que os mesmos merecem um comentário um pouco mais alargado.

 

Começando por Fasti (também conhecida como Os Fastos), apesar de não ser uma obra muito interessante para uma leitura ocasional, é certamente uma importante fonte de informação sobre o modo de vida dos Romanos, especialmente sobre o calendário dos festivais festejados nessa civilização. Como referido anteriormente, é uma obra que está incompleta, mas não deixa de ser importante.

 

Relativamente a Ars Amatoria e Remedia Amoris (em Português, a Arte de Amar e a Cura para o Amor), são obras que claramente deixam perceber a imortalidade e intemporalidade do Amor, e é curioso descobrir que o conhecimento patente nas mesmas ainda se aplica aos dias de hoje. Quer o leitor pretenda encetar uma nova relação amorosa ou simplesmente terminar uma na qual já está incluído, os conselhos dados por Ovídio são bastante úteis, se bem interpretados e compreendidos. São realmente obras de um carácter quase imortal, com o autor a apresentar os seus argumentos de uma forma que nos dá a sensação que ele realmente nos compreende, com uma familiaridade bastante incomum nas outras obras Clássicas que já li.

 

Quanto a Amores, que relata a paixão do poeta por uma tal Corinna, acaba por ser uma obra também bastante interessante. É impossível saber se esta mulher realmente existiu ou se é simplesmente uma criação do autor, um protótipo da mulher Romana, mas ainda assim ele conseguiu capturar a essência de uma relação entre elementos de sexos opostos, com um clareza que faz inveja a muitos pares modernos. É uma leitura que recomendo vivamente a todos aqueles que tenham umas horas livres.

 

Sobre Heroides (em Português, Epístolas de Heroínas), obra em que o poeta imagina cartas de amor trocadas entre famosos pares de mitologia grega, temos aí a oportunidade de constatar algo bastante curioso, que o sentimento amoroso dos dias de hoje é vivido (pelo menos na ficção…) como o era há muitos séculos atrás.

 

Em relação a Metamorphoses, ainda não a li, pelo que terei de deixar esse comentário para uma data posterior.