Porque é que os Egípcios construíram pirâmides?

A Pirâmide de Unas

Hoje fizeram-nos uma pergunta que não podemos deixar de considerar fascinante – porque é que os Egípcios construíram pirâmides? Já todos ouvimos falar das pirâmides como túmulos, como portais para outras dimensões, como naves espaciais escondidas, entre outras tantas ideias muitíssimo estranhas, mas porquê pirâmides? Porque não cubos, ou simples buracos no chão, ou enormes templos, ou até qualquer outra forma geométrica?

 

Existem várias teorias, mas uma das possibilidades mais interessantes para ser abordada neste espaço poderá ter a ver com um mito da criação egípcia. Segundo ele, originalmente só existiam águas sem fim… até que um dia, por razões hoje desconhecidas, surgiu um monte no meio da água, como se da barriga de uma mulher grávida se tratasse. Desse monte foi dado à luz um enorme ovo. Finalmente, desse ovo primordial nasceram os primeiros deuses.

 

A forma das pirâmides, enquanto elevação pouco natural na superfície da terra, poderá remeter-nos de volta para esse mito inicial da criação. O faraó morreu, é sepultado num local que relembra essa gravidez inicial da terra, e depois nasceria dela, de forma sobrenatural, entre os próprios deuses, numa espécie de repetição teatral do mito da criação.

 

Será esta a resposta correcta e verdadeira a porque é que os Egípcios construíram pirâmides? Não sabemos, nem é possível que se venha a ter qualquer certeza sobre o tema, mas de um ponto de vista da intersecção entre mito e ritual esta é uma razão suficientemente interessante para ser mencionada por cá.

Quem foi a deusa Ammit, e qual o seu contexto?

Falar sobre a Ammit implica, talvez até antes de mais, introduzir todo o seu contexto original, sob pena de os leitores terem dificuldade em compreender o seu verdadeiro papel. Começando então por aí, quem olhar atentamente para imagens em que estão representados alguns mitos do Antigo Egipto poderá encontrar, aqui e ali, elementos muito curiosos. As estranhas formas dos deuses na imagem abaixo dificilmente surpreenderão quem conhece um mínimo da Mitologia Egípcia, mas o que dizer da estranha e animalesca criatura visível bem no canto direito da imagem? É dela que aqui falamos hoje!

A deusa Ammit, um ser misterioso...

Segundo acreditavam os habitantes do Antigo Egipto numa dada altura da sua história, quando alguém morria a sua essência, algo que poderíamos definir como a sua “alma”, passava para outro mundo. Nesse mundo tomavam lugar vários eventos, entre os quais eram julgados os actos da pessoa quando ainda estava viva. E é isso que pode ser visto na imagem acima – essa “alma”, representada no lado esquerdo da balança sob a forma de um coração estilizado, é pesada por Anúbis, deus dos mortos, e o seu peso deveria ser inferior ao de uma pena (representada no lado direito, um símbolo de justiça). Do lado direito, o deus Tote/Thoth anota o resultado dessa pesagem das almas.

Mas a acompanhar toda esta cena mitológica pode, por vezes, ser vista uma terceira figura, como pode ser visto quando aqui falámos da confissão negativa dos egípcios. É uma criatura com cabeça de crocodilo e quatro patas, as frontais de um felino e as traseiras de um hipopótamo. É um ser animalesco, contrariamente aos deuses antropomórficos que tanto caracterizavam o Antigo Egipto, mas… de quem se trata?

Outra versão da deusa Ammit, esta em Cavaleiro da Lua

Segundo conseguimos apurar há já alguns anos, esta é uma criatura divina – não é correcto defini-la como uma deusa – conhecida como Ammit, cujo grande papel era o de destruir definitivamente quem não passasse no teste da balança, sofrendo então uma espécie de segunda morte.

E de onde vem essa sua estranha forma, para quem tiver essa curiosidade? O facto do seu corpo ser composto por elementos de um crocodilo, um felino (provavelmente um leão), e um hipopótamo faz-nos considerar o que terão todos esses animais em comum – são animais carnívoros, todos eles muito perigosos, que vivem em terras do Egipto. É, por isso, possível que se tratassem de símbolos de perigo, da morte, que se eram evitados em separado ainda maior temor não poderiam deixar de causar numa forma conjunta, sob a forma de Ammit.

 

O que mais pode ser dito sobre esta pesagem das almas no Antigo Egipto, e em particular sobre a figura de Ammit, que hoje em dia até já nos é famosa pela sua presença em séries como Cavaleiro da Lua? A existência desta criatura divina e a punição que reservava aos pecadores assustava, quase certamente, os crentes da altura da mesma forma como as punições do Inferno assustam os crentes cristãos dos nossos dias. Pouco mais se sabe sobre a sua origem e os seus possíveis actos nos tempos mais antigos, mas quem não se assustaria na presença de uma criatura tão monstruosa como esta?!

O que está escrito nas paredes das Pirâmides do Egipto?

Texto numa pirâmide

Na imagem acima pode ser visto um fragmento da parede de uma Pirâmide do Egipto. Na parte inferior está um bela representação do submundo, com dois deuses a serem transportados na barca em que era feita essa derradeira viagem, segundo os mitos do Egipto. E claro que é uma representação bastante bonita, mas os mais interessados poderão igualmente aperceber-se de que existe aí bastante texto sob a forma de hieróglifos – e, como nós, poderão até ter a curiosidade de se perguntar o que aí está escrito, que palavras acompanham estes desenhos…

 

Como exemplo, decidimos explorar as Pirâmides de Saqqara (ou “Sacara”) através de uma obra que nos foi oferecida recentemente, The Pyramid Texts, de Samuel A. B. Mercer. Através dos seus vários volumes, o autor não só traduz estes textos como tece vários comentários e possíveis interpretações dos mesmos. E então, o que dizem esses textos, neste exemplo em particular?

 

Bem… muitas, muitas coisas. De um modo muito geral podem ser resumidos como textos de carácter religioso, mas existem neles sequências mitológicas (que, infelizmente, nunca nos parecem contar nenhuma história de forma completa e contínua…), breves rituais, poemas, referências históricas, elementos cosmológicos, entre outras coisas. Nesse contexto, as imagens como aquela partilhada acima parecem representar uma sequência igualmente presente no texto. Não temos forma de averiguar se isso acontece sempre, mas pelo menos conseguimos ver que acontece em alguns exemplos particulares. Acima, por exemplo, faria todo o sentido que o texto relate parte de uma viagem celestial, em que dois deuses – possivelmente Rá (veja-se o sol e a serpente) e Quenúbis (ou Quenum, com cabeça de carneiro) – tinham um papel principal.

 

De um modo geral, faz sentido que textos como estes estivessem gravados nas pirâmides. Tratando-se de enormes túmulos, a representação de – por exemplo – viagens no submundo, ou das muitas belezas que existiam após esta vida, apresenta-se como contextualmente digna, tal como nos nossos dias são por vezes colocados versos da Bíblia, ou crucifixos, nos túmulos dos falecidos. Quem quiser saber mais pode sempre consultar os diversos livros, ou projectos online, que hoje existem relativos a este tema…

Porque se diz que os faraós do Egipto eram deuses na terra?

Pirâmide de Unas

Uma ideia que nos é muito passada em tempos de escola é que os faraós do Egipto eram vistos como deuses na terra. É uma ideia que está tão enraizada na cultura popular que até se torna difícil compreender de onde ela vem, até porque são poucos os textos escritos em papiros que nos chegaram dessa altura. Porém, quem consultar os textos nas paredes da pirâmides (e a esse tema voltaremos daqui a uns poucos dias) poderá compreender facilmente a origem dessa ideia. Nesse sentido, vejam-se aqui três sequências presentes na Pirâmide de Unas:

 

Se [o faraó] Unas for enfeitiçado, [o deus] Atum será enfeitiçado,
Se Unas for oposto, Atum será oposto,
Se Unas for atacado, Atum será atacado,
Se Unas for parado no seu caminho, Atum será parado.
Unas é Hórus, Unas veio depois do seu pai,
Unas veio depois de Osíris. [Sequência 310]

Levantem a vossa cabeça, ó deuses que estão no céu!
Unas veio, para que o possam ver,
Tendo-se tornado um grande deus. [Sequência 252]

Levem Unas com vocês,
Para que possa comer do que vocês comem,
Para que possa beber do que vocês bebem,
Para que possa viver do que vocês vivem,
(…)
Para que possa navegar no que vocês navegam. [Sequência 143]

O que é muito notório, nestas três sequências, é uma relação íntima entre as figuras divinas e o Faraó Unas, quase como se estivessem, todos eles, em pé de igualdade. Esta visão do ser humano a par dos deuses contrasta bastante, por exemplo, com a visão grega, em que por muito que um herói lute só pode converter-se numa figura divina após a morte, como é bem conhecido do caso de Hércules. No entanto, como estas linhas provam a visão egípcia era muito diferente – o faraó, pela sua importância cultural, já era visto como um deus terreno, uma espécie de novo Hórus, algo que atestam os textos hieroglíficos nas paredes de muitas pirâmides.

Infelizmente, estes textos não nos explicam é o limite dessa ideia – será que os habitantes do Egipto nessa altura consideravam o seu monarca mesmo como um deus, semelhante a Atum ou Hórus, ou reconheciam nele um carácter parcialmente humano, já que este, contrariamente aos deuses dos seus mitos, tinha de um dia morrer para este mundo? Mesmo que ambos fossem vistos como deuses, será que a reverência dedicada ao faraó e aquela prestada a figuras como Rá eram somente uma e a mesma? Isso já é mais difícil de se saber, visto que os poucos textos que nos chegaram raramente parecem falar desse aspecto cultural de uma forma imparcial.

A História de Sinué

Um exemplo de óstraco com fragmento da história

A História de Sinué é um texto egípcio com cerca de 3800 anos, que nos chegou em fragmentos como aqueles representados na imagem acima. Conta-nos, sob a forma de algo que poderíamos descrever como um brevíssimo poema épico (tem apenas cerca de 311 versos na versão a que tivemos acesso), alguns fragmentos da vida adulta do homem que lhe deu o título.

 

A história começa contando como Sinué, assustado com a notícia da morte do monarca dos seus dias, fugiu do Egipto e passou vários anos a servir um outro rei. E serviu-o bem, sem qualquer dúvida. Foi tendo vários filhos, venceu opositores muito fortes, mas nunca deixou de querer voltar à terra que o viu nascer. E quando, já velho, acabou por fazê-lo, foi até muito bem recebido de volta.

 

Esta História de Sinué é, como pode ser visto pelo breve resumo acima, uma que tem uma trama bastante simples. Não contém nada de muito implausível, não apresenta qualquer episódio estritamente mitológico, sendo até possível que se tenha tratado de uma história completamente real, cuja grande popularidade conseguiu fazer chegar até aos nossos dias. Agora, cabe apenas a cada um de nós decidir se iremos lê-la, ou não…