A lenda de Matsya

Matsya é mais um dos famosos avatares de Vishnu, de que já cá falámos de um modo muito geral anteriormente. E é, como a imagem abaixo permite constatar, uma espécie de peixe, cuja história podemos aqui tentar recordar hoje. Ela é importante por se tratar, vulgarmente, da primeira de todas as encarnações do deus, ou pelo menos a primeira de entre o seu cânone mais conhecido, aquele tal que já cá apresentámos antes. Portanto, vamos à sua lenda?

A lenda de Matsya

É dito que um dado dia o deus Brahma, uma das três grandes divindades hindus, adormeceu e deixou escapar os seus quatro livros do conhecimento – Rigveda, Yajurveda, Samaveda e Atharvaveda (colectivamente, são chamados os Vedas). Um qualquer demónio, cuja identidade parece variar mediante a versão, viu-os e fugiu com eles, engolindo-os para dificultar a sua recuperação.

Então, Vishnu tomou esta forma de um peixe muito pequenino e veio ao nosso mundo. Encontrando-se com o rei Manu à beira de um rio, pediu-lhe protecção face às espécies aquáticas maiores, o que o monarca lhe concedeu, guardando-o num pequeno pote com água. Mas este peixe foi crescendo muito rapidamente e o rei foi-o mudando de local para local, até que não encontrou outro remédio senão colocá-lo no mar. Nessa altura, e como agradecimento, este agora-gigantesco peixe falou com o seu ajudador e avisou-o de um grande dilúvio que se aproximava e que iria destruir todo o mundo. Como tal, pediu-lhe que juntasse a sua família, todos os animais, espécies de plantas, etc, algo a que o monarca não pôde senão obedecer, sendo assim salvo de uma completa destruição.

A uma primeira vista essa outra aventura poderá parecer secundária, mas ela tem uma razão de ser – o demónio que roubou os quatro Vedas tinha-se escondido, mas face à subida das águas foi forçado a abandonar o seu esconderijo. Quando o fez, Matsya encontrou-o e atacou-o, esventrando este seu opositor e conseguindo recuperar os tais livros do conhecimento, que depois devolveu ao legítimo dono.

 

À partida, esta lenda de Matsya até pode parecer uma história muito simples, mas esconde uma verdade que dá bastante que pensar – nas tais lendas dos 10 avatares de Vishnu parece existir uma espécie de evolução nas formas que vão sendo adoptadas pelo deus. Aqui e em primeiro lugar ele é um peixe, depois vem a tornar-se uma tartaruga e um javali, em quarto adopta uma forma que é um híbrido de animal e de ser humano, e assim por diante… mas seria esta ideia deliberada, já nas versões mais antigas de toda a história, ou é apenas uma releitura muito condicionada pelos nossos dias de hoje? É uma de aquelas perguntas cuja resposta final terá mesmo de ficar para os leitores…

 

Mas uma última curiosidade, sobre toda esta lenda de hoje. Na imagem ali em cima Matsya pode ser visto a transportar quatro crianças de cores diferentes. A que se refere a estranha representação? É, aparentemente, uma convenção da lenda, já que nesta sequência mitológica é dito que os quatro Vedas, que aqui foram levados por um demónio, estavam na altura a adoptar a forma de crianças pequeninas. Não é fácil compreender-se o porquê dessa metamorfose, mas uma das melhores respostas que encontrámos diz que essa forma se deve à juventude que o mundo ainda tinha no tempo em que esta aventura tomou lugar…

O mito de Bhasmasura

A história de Bhasmasura merece aqui ser contada, talvez mais que tudo, pelo facto de exemplificar aquele carácter quase humano, para nós inesperadamente falível, dos deuses do Hinduísmo, que já cá apontámos quando falámos da lenda de Kurma e o Oceano de Leite, que é muito famosa na Índia. Talvez este outro mito, a que dedicamos as linhas de hoje, não o seja tão popular, mas tem um elemento tão inesperado quanto particularmente belo, como iremos mostrar mais à frente.

Bhasmasura e Mohini

Conta-se que Bhasmasura era um grande devoto do deus Shiva, procurando agradar-lhe com a realização constante de inúmeras meditações e de inumeráveis bons actos. Então, um dia o deus decidiu compensá-lo com a oferta de um desejo. O devoto, contente com a inesperada proposta, pediu para obter a capacidade de destruir, transformando em cinzas, todos aqueles a quem tocasse na cabeça, o que lhe foi rapidamente concedido.

Porém, depois, por uma qualquer razão que até parece variar mediante a versão da história, este homem quis então tocar na cabeça de Shiva. Talvez quisesse apenas testar o seu poder recém adquirido, talvez quisesse conhecer os limites do poder dos deuses, talvez estivesse apaixonado pela esposa de Shiva, … mas a verdade é que, qualquer que tenha sido a razão por detrás do seu acto, desejou fazê-lo! Assustado com a possível destruição (?), o deus que este homem tanto tinha admirado procurou então a companhia de Vishnu e pediu-lhe ajuda. Assim, para auxiliar o seu companheiro, este último deus converteu-se em Mohini (um avatar feminino de que já cá falámos antes) e de alguma forma seduziu Bhasmasura – na que parece ser a versão mais famosa do episódio, eles até dançam juntos – levando-o a colocar a mão na própria cabeça, conduzindo-o assim à sua inevitável destruição.

 

É, admita-se, uma história relativamente simples, fácil de resumir, mas nem por isso menos bonita. Nela, talvez o momento mais digno de nota seja até o desse curioso confronto de Vishnu, sob a forma de Mohini, com Bhasmasura, como pode ser visto neste belíssimo vídeo provindo de terras da Índia, e que até resume toda a história de hoje.

Bastante bonito, não é?

A lenda do Oceano de Leite

A lenda do Oceano de Leite não é simples. Tanto não o é que, apesar de já cá termos aludido a ela antes por diversas vezes (ver, por exemplo, o artigo sobre os avatares de Vishnu), só uma pesquisa intensiva tornou possível chegar-se à versão mais completa de toda esta história… o que nos pareceu importante, já que é muitíssimo conhecida na Índia, onde até chega a aparecer representada na pedra em diversos templos, mas em terras europeias não se pode dizer que seja famosa. Assim, iremos aqui contá-la através dos seus três momentos principais, para que potenciais leitores possam conhecer melhor este episódio que no original toma o nome de Samudra Manthana (समुद्रमन्थन).

Airavata, elefante de Indra

Os deuses perdem a imortalidade

Um dia, quando Indra, rei dos céus, passeava com o seu elefante Airavata (visto na imagem acima com as suas várias cabeças), encontrou um sábio. Este ofereceu-lhe uma flor com grande valor simbólico, colocando-a perto da face do elefante. As várias versões divergem no que aconteceu a seguir – nomeadamente, se o animal o fez de propósito, ou se por mero acidente, quando procurava afastar uma abelha – mas todas elas concordam que este elefante atirou a flor ao chão, ofendendo grandemente o sábio que a tinha oferecido. Este, incrédulo com o que viu passar-se à sua frente, e talvez até numa grande fúria, amaldiçoou todos os deuses – ou Devas, se preferirem o título original – condenado-os a perder todos os seus poderes, entre eles o da imortalidade. Assim, face a esta ocorrência, os deuses foram perdendo muitas das suas batalhas com os seus opositores, os Asuras, até que decidiram que não tinham nenhuma outra alternativa senão propor algo completamente inesperado.

O Batimento do Oceano de Leite

O Batimento do Oceano de Leite

Para não perderem os seus poderes, os deuses decidiram então juntar-se com esses seus opositores, os Asuras, para recuperarem o que tinham perdido, prometendo-lhes como recompensa uma imortalidade que estes nunca tinham tido até então. Pegaram na enorme cobra Shesha das mil cabeças, aproximaram-se do monte Madara e usaram esse réptil primordial para bater um oceano de leite que existia nessa altura, cada grupo de um lado diferente, como mostra a imagem acima… mas, quando o monte se começou a afundar, o deus Vishnu tomou a forma de Kurma, a tartaruga, e serviu de apoio a essa espécie de “poste”, para que os dois grupos conseguissem continuar o seu trabalho.

Um outro episódio que teve lugar durante o processo, e que parece ser de alguma importância, é o facto de de Shesha, provavelmente descontente com o que estavam a fazer com o seu corpo, ter começado a vomitar veneno sem fim. Para impedir que este envenenasse tudo o que existe, um deus – alguns dizem que foi Vishnu, outros que foi Shiva – tomou todo esse veneno na sua boca; não morreu, como é óbvio, mas guardou-o durante tanto tempo na garganta que acabou por adoptar a cor azul, cor desse veneno,

Mas particularmente importante é o que foi acontecendo durante este batimento do oceano ou mar de leite. À medida que Devas e Asuras foram realizando o estranho processo, este estranho curso de leite foi atirando cá para fora muitas coisas. Descrevê-las a todas ultrapassa o carácter introdutório das linhas de hoje, mas podemos resumi-lo dizendo que além da Amrita, o tal licor da imortalidade que ambos os grupos tanto queriam obter, daí surgiram igualmente vários deuses e deusas, criaturas inimagináveis e tesouros incríveis.

Mohini, avatar feminino de Vishnu

Como os deuses obtiveram a Amrita

À medida que os deuses e estes seus opositores foram batendo o oceano de leite, a Amrita, esse licor da imortalidade, saltou cá para fora e foi rapidamente apanhado pelos Asuras. Porém, e apesar da sua anterior promessa, os Devas não queriam que estes seus inimigos se tornassem imortais, sob pena de virem a causar infindáveis problemas (recorde-se, por exemplo, o caso de Raktabija). Então, o deus Vishnu tomou a forma da belíssima Mohini – um avatar feminino (o conceito já foi explicado aqui), que não é contado entre os seus dez principais – e seduziu aqueles que tinham em sua posse o famoso licor, obtendo-o e partilhando-o somente com os deuses, que assim recuperaram todos os seus poderes e a sua anterior imortalidade!

 

Mais sobre esta lenda

Não encontrámos qualquer lenda que relate o que depois aconteceu a este oceano ou mar de leite. É, por razões um tanto ou quanto óbvias, provável que se tenha transformado numa espécie de queijo primordial, mas ele parece desaparecer dos relatos mitológicos após esta curiosa ocorrência aqui narrada hoje. Os deuses, como já referido, obtiveram tudo aquilo que tinham perdido, e a sua guerra eterna contra os Asuras – normalmente traduzidos como “demónios” na cultura ocidental – continuou como até então, apesar do breve interregno de hostilidades.

 

Esta é, sem qualquer dúvida, uma importante e famosa lenda que diz muito sobre as crenças do Hinduísmo e os curiosos limites dos seus deuses. Um elemento importante a reter é o facto de um sábio poder obter um estatuto tão poderoso que até consegue rivalizar com os próprios deuses, conseguindo amaldiçoá-los – o caso relatado aqui não é único, existindo muitas outras lendas em que outros seres humanos e figuras semidivinas, enaltecidos por práticas meditativas, causaram muitos problemas até aos seres divinos (ver, por exemplo, a lenda de Narasimha). Outro exemplo poderá ser o dos Devas nem sempre terem um carácter completamente honesto, não estando acima de acções como mentir e iludir para atingirem a obtenção dos seus objectivos – e, na verdade, em outras histórias chegam até a matar para o conseguirem, como evidenciam muitas outras histórias da Índia.

O segredo da Sapataria A Deusa

Para este dia de hoje decidimos que também tínhamos mesmo que falar da Sapataria A Deusa, na cidade de Lisboa. Isto porque, se era uma das lojas históricas da cidade – fundada em 1951, ou seja, com já mais de 70 anos, e agora propriedade de José Fiandeiro – recebemos esta quarta feira a triste notícia de que ela ia encerrar definitivamente, vítima de uma ordem de despejo, para vir a dar lugar a mais um dos milhares e milhares de espaços quase exclusivos para turistas que já existem na capital portuguesa. É triste, indubitavelmente triste, que aquela que é provavelmente a mais antiga cidade de Portugal se esteja a tornar numa espécie de Disneyland só para visitantes estrangeiros, mas – deixando de lado essas inquietantes notas – o nome da loja, bem como a respectiva explicação por detrás dele, não pôde deixar de nos suscitar uma dúvida de curiosidade.

A imagem que dá nome à Sapataria A Deusa

A Sapataria A Deusa tem, segundo a sua informação no portal Lojas com História, como “ex-libris um baixo-relevo em verde de uma deusa hindu”. Ele pode ser visto acima (as fotografias são do mesmo portal!), tanto no seu contexto original, que aqui pensámos em tentar ajudar a preservar, como em maior pormenor. Porém, a nossa questão – uma que curiosamente, muitos jornais ignoraram por completo – prende-se com esta representação, que aparenta ser de origem hindu. Se ela tem representada, de facto, uma “deusa hindu”, qual é ela? Ou, de um modo até mais geral, se esta é uma representação de uma qualquer cena mitológica, qual será?

 

Relativamente a todo este tema da Sapataria A Deusa, fomos então inquirir – estes temas hindus, como já cá vimos anteriormente no caso de Ganesha, são pouco conhecidos em Portugal – e descobrimos que, curiosamente…. havia muitas opiniões, mas uma única certeza – que, por enorme ironia, não se trata de uma deusa hindu (já que essas são quase sempre representadas com mais de dois braços!), mas de algo um pouco diferente. Aqui ficam algumas opiniões:

  • Uma disse-nos que esta é uma Salabhanjika, uma representação de uma mulher ao pé ou debaixo de uma árvore.
  • Outra, que se trata de uma Gopika, uma devota de Krishna, reencarnação do deus Vishnu, que honra essa sua divindade através da dança.
  • Uma terceira sugeriu que, em alternativa, esta representação é budista, com base nas orelhas e no corte de cabelo das duas crianças que estão do lado esquerdo (ver a representação do Buda que incluímos quando cá contámos a sua história).
  • Uma quarta lançou a ideia de que esta até poderá ser uma intersecção de arte hindu com a budista, originária do norte da Índia.
  • Ainda outra disse tratar-se de Sita, esposa de Rama, no período de exílio que passou com os seus dois filhos na floresta (após ter sido abandonada pelo herói).

 

Ninguém parecia conseguir concluir nada sobre esta representação patente na Sapataria A Deusa, até que um leitor do site Reddit, de nome “_uggh”, nos enviou uma pista preciosíssima, cujo verdadeiro valor pode ser visto abaixo:

A mesma representação que está na Sapataria a Deusa

É extremamente fácil ver a semelhança desta imagem com a anterior, a que está na loja – e, de facto, elas até são quase iguais, salvo pequeninas diferenças! Então, o que representam ambas? Como este selo do Nepal indica no seu lado direito, a cena representada aqui é, na verdade, o nascimento de Buda! A figura feminina, em grande plano, não é nenhuma deusa, mas sim a rainha que deu à luz o fundador do Budismo, a que parece ser dado o nome de Maia (entre outros), e que deu à luz este seu filho agarrada a uma árvore cuja tradição diz ser a shorea robusta. Nesse sentido, as duas “crianças” na parte traseira são, aparentemente, dois seres celestiais – ou devas, no contexto original – que a ungiram antes desse nascimento!

 

Muito interessante, até porque é certamente uma das poucas representações budistas deste episódio em terras de Portugal, mas é também igualmente curioso que em mais de meio século ninguém pareça ter conseguido apurar tudo isto, que esta não era uma deusa hindu mas uma figura feminina significativa da história do Budismo – ou, se por acaso até alguém o fez, pelo menos parece que nenhum jornal nacional se importou em saber melhor quem era esta suposta “deusa” que habitava numa loja lisboeta e cuja Câmara Municipal falhou em proteger, em prejuízo dos que ali trabalharam… e assim se perdem as verdadeiras histórias e se criam as lendas, que pelo desconhecimento tornaram a Rainha Maia da Sapataria A Deusa numa vaga “deusa hindu”…

“Ramcharitmanas”, de Tulsidas

O épico Ramcharitmanas, ou Ramacaritamanasa, escrito por Tulsidas no século XVI da nossa era, merece ser apresentado por cá devido ao contexto em que foi produzido. Se, aquando do tempo de vida deste autor o Ramayana se mantinha como uma obra muito popular, potenciais leitores deparavam-se frequentemente com uma grande dificuldade, o facto de esse poema épico estar em Sânscrito, uma língua que cada vez menos conseguiam ler. Por analogia, se é difícil ler um pequeno poema no “Português” antigo (um exemplo de João Soares de Paiva pode ser visto aqui, para quem o quiser tentar), imaginem-se a tentar ler centenas e centenas de páginas numa língua como essa – seria uma tarefa tudo menos fácil, não é? Assim sendo, face ao problema Tulsidas decidiu fazer uma espécie de tradução do original para Hindi.

As personagens de "Ramcharitmanas", de Tulsidas

Nesse seguimento, se as histórias do Ramayana e de Ramcharitmanas são muito parecidas (e quem ainda não conhecer bastará reler esta publicação anterior), não são bem iguais. Daí a expressão que usámos acima, esta trata-se apenas de uma “espécie de tradução”, na medida em que os eventos principais da obra original são mantidos, mas Tulsidas também os adaptou com as novas gerações em vista. Sabe-se que na altura alguns (novos) leitores gostaram do resultado, os mais tradicionalistas não tanto, mas o importante e inegável é que esta obra possibilitou o acesso a um texto de grande importância cultural a que, de outra forma, uma parte dos leitores não teria acesso.

 

Mas então, Ramcharitmanas merece ser lido nos nossos dias de hoje? Segundo sabemos é, ainda hoje, um dos textos mais populares da Índia, e certamente que o é de uma forma justa, por respeitar o espírito do original, enquanto o tornou também mais acessível ao público. Mas são, frise-se bem isso, duas obras significativamente diferentes, iguais e diferentes mediante quem os lê. Por isso, se houvesse tempo para tal – não são obras propriamente pequenas… – o melhor seria mesmo ler primeiro a obra de Valmiki e somente depois esta, como fizemos, para que se possam compreender as suas diferenças e a forma como a mais recente interage com a sua predecessora, em muitos casos até adaptando parte da teologia oriental nela subjacente. Mas, a ter de se escolher somente uma destas duas*, caso o leitor consiga aceder a ambas a opção pela antiga faz mais sentido, dado o seu valor cultural, literário e religioso.

 

 

*- Tradicionalmente, diz-se que o deus Hanuman escreveu também uma versão de toda esta história de Rama numa rocha, mas depois destruiu-a para ela não colocar na sombra a de Valmiki. A acreditar-se nessa pequena lenda, sem qualquer dúvida que o tratamento que o deus deu a esta história seria preferível face a qualquer outra…