O dia em que Deus bebeu demais

Volte-se agora a temas mais interessantes. Falar de um lendário dia em que Deus bebeu demais implica recordar parte do que aqui dissemos quando falámos sobre a antiga Esposa de Deus – as crenças dos Judeus, e posteriormente dos Cristãos, não nasceram num vácuo. Elas são fruto de séculos e séculos de evolução. Assim, quem ler bem e com atenção o texto bíblico poderá apurar que à figura divina são aplicados um conjunto de nomes que lhe vêm de mitos e lendas de tempos anteriores, entre eles a designação El. Algumas dessas histórias até são referenciadas obliquamente no Antigo Testamento, para quem prestar muita atenção, enquanto que outras foram sendo progressivamente esquecidas. A que contamos aqui hoje provém de fontes ugaríticas com cerca de 3200 anos e pertence ao segundo desses dois grupos.

Terá este sido parecido com o dia em que Deus bebeu demais?

Conta-se então que El um dia decidiu dar uma festa. Convidou todos os outros deuses para ela – recorde-se, na altura este ainda era um panteão politeísta – e até lhes deu o direito de decidir que partes da carne queriam para si mesmos. E a história prossegue:

Os deuses comeram e beberam, / Beberam vinho até estarem cheios, / [Beberam] novo vinho até estarem bêbados.

Depois, o deus da Lua fingiu ser um cão e escondeu-se debaixo da mesa do banquete; duas deusas deram-lhe comida, até que o porteiro de El levou a mal toda a situação e lhes pediu que não o fizessem. Mas, depois, El continuou a beber mais e mais, até que teve de ser ajudado a regressar para sua casa, e:

El caiu como o corpo de um falecido, / El tornou-se como aqueles que descem ao submundo.

Para terminar esta pequena história, um deus confrontou-o com a ocorrência e duas deusas foram procurar os ingredientes para uma mistura que pudesse curar quem está bêbado, que incluíam pêlo de cão e fezes (entre outras coisas agora desconhecidas). O que isto tem de notável é que na fonte literária que nos chegou, esta pequena lenda do dia em que Deus bebeu demais é depois seguida por uma cura, supostamente real, para todos aqueles que beberam demais, e que até parece mencionar os mesmos componentes que a própria história. Seria, nesse sentido, a lenda uma espécie de mnemónica para uma cura médica, ou uma mera coincidência de circunstâncias? Não sabemos.

 

Mas… quem perceber menos destas coisas poderá querer fazer uma grande pergunta, i.e. será que é correcto identificar este El com o “nosso” Deus? Partilham, no Antigo Testamento, um mesmo nome, mas será isso suficiente para dizer que ambos até são uma só e a mesma figura?

 

A nós, parece-nos correcto dizer que El é um antecessor de Deus da mesma forma que o Zeus dos Gregos o era de Júpiter dos Romanos. Em várias outras fontes ugaríticas até podem ser encontrados vectores de ligação com o Antigo Testamento, e.g. uma das lendas ainda reconhecíveis até menciona as aventuras de um filho do profeta Daniel (ou Danel, neste original), um tal Aqhat; e todo este episódio pode até lembrar-nos, em linhas gerais, o da (futura) embriaguez de Noé. O caso da Esposa de Deus é flagrante nessa ligação, porque ainda pode ser encontrado na Bíblia dos nossos dias por aqueles que a forem ler com atenção e numa edição séria (mas, infelizmente, a maior parte dos leitores passa-lhe simplesmente por cima). Por isso, sim, esta lenda do dia em que Deus bebeu demais pertencia, anteriormente, à figura a que hoje chamamos “Deus”, mas foi sendo esquecida ao longo dos séculos, até porque tinha uma ligação clara ao panteão politeísta dos Ugaritas, não fazendo qualquer sentido sem a presença de essas outras figuras divinas, que os autores do Antigo Testamento tentaram fazer esquecer o melhor que puderam…

Qual o autor mais antigo do mundo?

Nunca se interrogaram sobre a identidade do autor mais antigo do mundo? Claro que não sabemos quem foi a primeira pessoa a escrever uma letra ou uma frase, ou sequer quem terá sido a primeira pessoa a deixar por escrito uma composição de índole puramente literária, mas de entre aqueles nomes de que ainda há registo nos nossos dias, qual terá sido o autor mais antigo do mundo?

Escrita cuneiforme - talvez pelo autor mais antigo do mundo?

Na verdade… foi uma autora, do sexo feminino – hoje conhecida apenas pelo nome de Enheduanna, ela terá vivido há cerca de 4300 anos atrás e foi sacerdotisa da deusa Inana. Naturalmente que a padroeira divina tem um papel principal em grande parte das linhas que esta sua seguidora compôs, mas também nos chegaram alguns hinos para os outros deuses. E é até entre esse segundo grupo, o dos hinos, que nos chegou uma frase verdadeiramente digna de nota – depois de escrever o seu nome, a autora acrescenta umas palavras que nos podem ser traduzidas por algo como “meu monarca, [aqui] algo foi criado que ninguém criou antes.”

São certamente intrigantes, essas palavras… A que se referia Enheduanna? Estaria ela a referir-se à composição dos próprios hinos, que então atribuía a si mesma e à sua imaginação pessoal, ou a fazer alusão ao facto de ter sido, potencialmente, a primeira a preservá-los numa forma escrita? Já não sabemos – quarenta e três séculos é muito tempo, como poderão imaginar – mas quando essas mesmas palavras são agora lidas, nestes nossos dias de hoje, podemos ver nelas um sentido completamente novo – para nós, o que ela criou, e que até nunca tinha sido criado antes, é a oportunidade de sabermos o seu nome!

 

Assim, o autor mais antigo do mundo é, na verdade, uma mulher. Enheduanna viveu há uma (metafórica) eternidade atrás, ao ponto de muitos dos mitos que conhecia já terem sido esquecidos (uma excepção pode ser vista na história de Lugalbanda), mas pela mera menção do seu nome entre alguns textos de um contexto religioso acabou, de certa forma, por se tornar tão imortal como as muitas figuras que cantava nos seus hinos.

O mito de Inana / Ishtar e Dumuzid / Tamuz

Entre os enredos mais famosos dos primórdios da história mundial conta-se o mito de Inana / Ishtar, que une esta deusa ao pastor Dumuzid / Tamuz. Iremos contá-lo abaixo, mas convém explicar, desde já, que nos referimos inicialmente a essas duas figuras principais desta forma, com nomes duplos, porque apesar dos intervenientes terem pelo menos quatro milhares de anos e as suas histórias essenciais se terem mantido ao longo do tempo, os seus nomes mudaram de cultura para cultura na mitologia e religiões do Próximo Oriente, retendo o seu espírito essencial; porém, para evitar uma constante e enfadonha repetição, iremos chamar-lhes apenas Inana e Dumuzid (os seus nomes mais antigos), mas deixe-se claro que as mesmíssimas aventuras também se aplicam ao par constituído pelos nomes, mais tardios, de Ishtar e Tamuz.

Inana, Ishtar, Eresquigal, ou outra deusa do mesmo período

Conta-se então que a deusa Inana quis casar e dois homens disputaram-na, o agricultor Enkimdu (não confundir com o famoso Enkidu, o companheiro de Gilgamesh), e o pastor Dumuzid. Este segundo conquistou-a com ajuda divina, e chegaram-nos até poemas bastante eróticos sobre a forma como o par amoroso se introduziu mutuamente às artes do amor e do sexo. De entre as referências mais curiosas presentes nos mesmos, o amante diz que já não tem tempo para se dedicar às relações sexuais “mais de 50 vezes por noite”, até porque agora era rei e também tinha de gerir o seu reino.

 

Até aqui a história é relativamente simples, quase contínua entre fontes, mas depois torna-se mais difícil de seguir, já que nos foi chegando em momentos fragmentários. Sabemos, por exemplo, que num dado instante Inana desce ao reino dos mortos, por razões difíceis de compreender (terá sido para conhecer o sabor da morte, como dizem alguns?), onde se vai despindo progressivamente em cada um dos sete portões, numa possível metáfora para o facto de que nada podemos levar para esse nosso pós-vida. Nesse reino, a deusa encontra a irmã mais velha (Eresquigal), falece, mas é posteriormente trazida de volta à vida, com uma condição – ela tinha de encontrar alguém que aceitasse falecer no seu lugar. E acaba por escolher… não quem conseguiu trazê-la de volta à vida, nem os seus próprios filhos, nem qualquer outro ser humano deste mundo, mas o próprio Dumuzid, potencialmente porque este não sofreu o suficiente pela morte de uma mulher que dizia amar.

 

Sabendo do seu destino através de sonhos proféticos, sabendo o que o aguardava, Dumuzid até tenta escapar, recorrendo a vários subterfúgios humanos e divinos, mas lá acaba por ser capturado e levado para o mundo dos mortos. Não voltaria nunca mais, não fosse o facto da sua própria irmã, Gestinanna, se ter oferecido para ocupar o seu lugar durante metade do ano, permitindo ao falecido regressar ao reino dos deuses-vivos e aos braços da amada Inana. O mito não nos preserva o registo de qualquer zanga real entre eles, apesar de ela ter sacrificado alguém que dizia amar em favor do seu próprio bem-estar, nem nos diz se depois ainda continuaram a ter as suas relações sexuais as tais 50 vezes por noite…

Inana e Tamuz

Posto assim, todo este mito poderá parecer relativamente simples, mas há que frisar que esta trama, tal como a apresentamos aqui, só pôde ser reconstruída recuperando momentos muito fragmentários de diversos textos completamente distintos. Por exemplo, nas linhas que nos chegaram é muito difícil compreender o que aconteceu entre o seu casamento e o instante em que a deusa desce ao mundo dos mortos, tal como não é clara a razão específica pela qual escolheu o seu amado para ocupar o seu lugar no submundo, entre muitas outras questões sem resposta.

A Porta de Ishtar

Contudo, toda esta história ainda não fica por aqui. A influência do culto a esta deusa e ao seu amado prolongou-se por muitos séculos, podendo ser vista no tempo dos Gregos e dos Romanos em mitos como o de Adónis. Gilgamesh rejeita-a e goza-a, apontando no seu poema épico o mau destino das paixões anteriores da deusa. O décimo mês hebraico tem o nome de Tamuz, e o facto do seu culto ter sido celebrado por mulheres que choravam a morte desse deus-pastor ainda persiste na nossa Bíblia (i.e. Ezequiel 8:14). A famosa Porta ou Portão de Ishtar, visível na imagem acima, poderá até ter sido uma representação simbólica do espaço cruzado pela deusa para descer ao submundo.

Este mito é, portanto, um dos mais famosos da história da humanidade, apesar de ser – hoje – já muito pouco conhecido. Para isso contribuiu, sem qualquer dúvida, o facto de não nos ter chegado de uma forma contínua, mas sim através de diversos escritos sem início ou fim, em que se torna muito difícil compreender a totalidade dos eventos. Aqui tentámos sintetizá-los brevemente, recorrendo às diversas fontes literárias que nos chegaram, mas não foi tarefa fácil, ficando esta espécie de conto dos dois amados parcialmente incompleta até que se possa encontrar mais informação sobre ambos…

O mito de Pazuzu

O estranho mito de Pazuzu é um de aqueles que deve aqui ser apresentado com uma pequena história mais pessoal. Quando, há já alguns meses atrás, aqui falámos sobre Anneliese Michel, uma leitora apontou o curioso que era o facto de essa jovem ter estado possuída por “figuras históricas demonizadas, ou as mais elevadas hierarquias do mundo inferior”. Efectivamente, a mesma ideia é reaproveitada em incontáveis trabalhos de ficção, mas uma excepção muitíssimo curiosa pode ser vista na novela e filme O Exorcista. Por estranho que até possa parecer, aí é esta figura – e não uma qualquer outra figura muito mais conhecida nos nossos dias – o grande responsável pelo possessão da menina Regan MacNeil! Mas… quem é ele, na verdade?

O mito de Pazuzu em filme

Essencialmente, Pazuzu era uma figura mitológica da Babilónia. Não conseguimos encontrar qualquer referência puramente literária a ele, mas algumas das suas imagens e estátuas que nos chegaram têm algum texto inscrito. Nele, é referido que esta estranha figura, com corpo quase humano mas asas e cara ameaçadora, era filho do deus Hanpa (ou Hanbi, o deus do mal e igualmente pai do famoso Humbaba) e deus dos ventos, que causava a doença aos Homens através das suas correntes de ar previsivelmente nefastas – só quem nunca se constipou desconhece então o enorme poder deste deus!

É, na verdade, somente isto que nos dias de hoje ainda se sabe sobre a figura de Pazuzu. Nenhuma fonte que conseguimos encontrar nos parece contar mais que isto. E, nesse contexto, é então particularmente curioso que tenha sido ele o eleito para assombrar Regan MacNeil em O Exorcista, mais do que alguma figura sobejamente conhecida nos nossos dias, como tantos outros filmes e séries insistem em nos repetir. Por isso, deixamos uma ideia completamente nova – porque não criar um filme em que uma das personagens é assombrada pelo espírito de Homero, de Afonso Henriques ou até de Brites de Almeida, a famosa Padeira de Aljubarrota? Sempre seria mais original do que o constante recurso aos espíritos de Nero, Hitler e outras figuras que tais…

A morte de Gilgamesh

O Épico (ou Epopeia) de Gilgamesh é, como já cá foi contado antes, um dos mais antigos textos ficcionais contínuos que chegaram aos nossos dias. Falar disso pouco ou nada aqui traria de novo, mas quem já o tiver lido certamente que se deparou com um problema incomum na literatura dos nossos dias – a trama sequencial termina no 11º capítulo/livro, em que Gilgamesh perde, em favor de uma serpente, o seu possível acesso ao dom da imortalidade. Se isso nos faz subentender que o herói teria, um dia, de vir mesmo a morrer, como ele tanto temia, a mesma fonte já nada nos diz sobre o que viria a acontecer numa antiga continuação de toda a história.

A morte de Gilgamesh

Caso encerrado, como seria de supor? Não tanto – existem outros textos de terras da Suméria, com cerca de 4000 anos, que hoje são conhecidos sob o nome de A Morte de Gilgamesh. São muito fragmentários, mas permitem-nos saber que pelo menos três episódios ainda tomavam lugar após o término da trama do famoso épico:

 

  • Existia um momento em que o herói era levado a contemplar a sua própria mortalidade. Parafraseando uma sequência que sempre nos pareceu particularmente bela:

Deve ter-te sido dito que a morte é a essência de ser humano. Deve ter-te sido dito que isto seria o resultado de cortarem o teu cordão umbilical. O mais negro dia dos seres humanos agora aguarda por ti. O local solitário agora aguarda por ti. A imparável torrente agora aguarda por ti. A batalha inevitável agora aguarda por ti. A batalha desigual agora aguarda por ti. O conflito de que não podes escapar agora aguarda por ti. Mas não deves ir para o submundo com o coração zangado (…)

 

  • Como é natural, o grande herói acaba depois por morrer. A sua morte era, aparentemente, tratada com relação aos feitos passados, numa espécie de fórmula repetida – “Aquele que fez X agora caiu e não mais se irá levantar”.

 

  • O herói era tornado um juiz entre os mortos, talvez pela eminência que tinha tido entre os vivos, lembrando até algumas figuras da Grécia Antiga.

 

Claro que esta informação é muito limitada, mas é também particularmente significativa se tivermos em conta que a mortalidade do próprio herói é um dos temas centrais do épico. Ele – como o próprio leitor – está condenado a morrer, por muitos e grandes que sejam os feitos que atingiu. Esta sequência adicional parece insistir nessa ideia – a morte é inevitável, sim, mas nem por isso deve ser temida. E, por essa ideia contemplativa, a história de Gilgamesh, e da sua eventual morte, continua tão actual hoje como no dia em que primeiro foi posta por escrito…