A lenda Kung da origem do sexo

Esta lenda da origem do sexo de hoje provém dos Kung, um povo que vive nos desertos próximos de Angola. É mencionada na obra Nisa: The Life and Words of a Kung Woman, de Marjorie Shostak, que lhes chama mais propriamente “!Kung”, mas apesar do seu tema principal, que tentamos sempre evitar, é uma pequena história cujo charme até pode recordar uma das pinturas de Kolongi Brathwaite, que reproduzimos abaixo.

Fire and Desire, painting by Kolongi Brathwaite

Conta-nos então esta lenda da origem do sexo, que se atribui aos !Kung, que em dada altura existia uma aldeia em que apenas viviam duas mulheres. Em outro lugar existia uma aldeia povoada apenas por dois homens. Um dia, estes últimos encontraram o local em que viviam as primeiras, mas quando tiveram a intenção de as raptar, não as conseguiram encontrar excepto durante a noite. Quiseram fazer amor com elas, cada um com a sua parceira, mas ainda não sabiam como realizar esse acto. Tentaram a boca, as orelhas, os olhos, o nariz, …, mas sempre sem sucesso. Até que as mulheres decidiram educá-los, “a boca serve para comer, as orelhas servem para ouvir, os olhos servem para ver, o nariz serve para respirar”, e assim por diante, até que lhes apresentaram o local da sua vagina. Conhecendo então esse novo local, os homens fizeram amor com elas durante toda a noite e na manhã seguinte partiram, para tentarem ensinar o que tinham aprendido a outras pessoas.

 

O que esta lenda tem de muito especial é o facto de não só apresentar as relações sexuais como algo que já era conhecido do sexo feminino, mas igualmente como algo que foram elas a ensinar aos homens. Hoje, pensa-se talvez demasiado no sexo como algo masculino, desejado maioritariamente por esse sexo, mas esta lenda Kung da origem do sexo inverte esse paradigma, talvez como um pequeno vestígio de tempos matriarcais, numa cultura em que, como apresentado em alguns dos capítulos da obra de Marjorie Shostak, este acto pertence aos dois e é frequentemente desejado por membros de ambos os sexos, que nele conseguem encontrar o seu prazer comum.

Jacaré Bangão, uma lenda angolana

A história ou lenda do Jacaré Bangão não é muito longa, mas parece ter um significado importante para o povo de Angola, que até erigiu uma estátua a este episódio – naturalmente lendário, como a história abaixo muito facilmente provará – na província de Bengo.

A lenda do Jacaré Bangão

Então, quem é o Jacaré Bangão, tão desconhecido em terras de Portugal, mesmo para aqueles que têm ascendência angolana? Conta-se que em outros tempos Angola estava tão repleta de impostos que as pessoas começaram a ficar mais e mais insatisfeitas com toda a situação, ao ponto de um jacaré local ter sentido que também ele os devia pagar. Mas, depois, quando saiu do rio e se dirigiu ao local em que se pagavam os impostos nessa altura, o administrativo que tomava conta dessa tarefa, que até era um cidadão de Portugal, ficou tão intimidado com a presença do animal que fugiu logo do seu posto de trabalho, talvez até para nunca mais voltar.

 

Outras versões da lenda adicionam mais ou menos detalhes a esta trama basilar (uma das versões mais intrigantes que encontrámos refere que este animal era, na verdade, um cidadão angolano transformado pelo poder da magia), mas – e como a estátua acima parece demonstrar – o Jacaré Bangão ficou uma espécie de símbolo da luta angolana contra a gestão dos Portugueses, que se foi prolongando até 1975. Talvez seja até esse facto que melhor explica a representação acima, em que o povo parece levantar e aclamar o animal como um verdadeiro herói da pátria, pelo facto de este ter, de uma forma simbólica e lendária, afastado aquele que era visto como um ocupante colonial que tanto agrilhoava os cidadãos da região com um conjunto de impostos que lhes pareciam cada vez mais infindáveis e intoleráveis. Recordamo-lo hoje para que os seus “feitos” em outros tempos não sejam esquecidos…

A lenda de Kianda

A história de hoje, a que poderíamos até chamar o mito ou lenda de Kianda (ou Quianda, como também muitas vezes vimos escrito) vem de um país africano, mais precisamente de Angola, onde a sua influência está bem atestada até em obras tão famosas como as de Pepetela, de que reproduzimos um título abaixo. Foquemo-nos, portanto, numa breve apresentação da lenda:

O Desejo de Kianda, de Pepetela

Sobre esta Kianda, diz-se então que era uma divindade marinha, muitas vezes semelhante a uma sereia, que vivia por perto da Praia do Bispo, na capital angolana de Luanda. Um dia, enquanto se encontrava na margem das águas, reparou que por perto se encontrava um homem muito triste. Procurando então trazer-lhe alguma alegria, deu-lhe um enorme tesouro.

Num primeiro momento, claro que isso agradou ao homem, mas depois ele começou a reagir de uma forma muito ingrata (os seus actos menos bons parecem variar entre as versões da história), levando a que Kianda lhe retirasse o dom que lhe tinha oferecido. Mas não só. Depois, descontente com o que se tinha passado, esta figura jurou a si mesma que não voltaria a ajudar mais gente ingrata, conduzindo até para a sua destruição todos aqueles que se atravessem a violar o bom carácter inato das suas águas.

 

O que podemos então dizer sobre esta lenda de Kianda? São muitas as mitologias pelo mundo fora que advertem para o poder multifacetado das águas – recorde-se, por exemplo, o caso do Kappa Japonês, mas também o mito grego de Hilas, entre muitos outros – e esta história conduz-nos no mesmo sentido, apresentando uma divindade que, mediante o verdadeiro carácter de quem a conhece, pode ser tanto uma salvadora como uma destruidora. Existiram, naturalmente, rituais destinados a propiciá-la, a torná-la mais simpática para com os pescadores, mas a lição essencial a retirar de toda esta história é bastante simples – devemos saber respeitar as águas, porque elas tanto nos dão coisas muito boas como também nos podem até retirar a nossa própria vida. Fica, por isso, essa grande lição, que serve tanto para Angola como para Portugal, Brasil, ou qualquer outro país deste nosso mundo.