Em busca da lenda do Solar dos Marinhos (e a de Dona Marinha)

De entre as muitas lendas que Teófilo Braga considerava as mais significativas de Portugal encontra-se uma a que ele chamava a do Solar dos Marinhos. Porém, quem procurar na internet uma lenda nacional com esse nome depressa se aperceberá que ela parece não existir. O nome parece, à partida, remeter para uma casa ou localização, mas nada existe sobre um tal local. Quanto muito, encontram-se uma ou duas citações desse mesmo autor português, que fazem breve alusão à lenda em questão, mas que nunca a contam. Assim, quando partimos em busca dela, as (poucas) linhas que esse escritor dedicou à lenda em questão dão-nos uma pista preciosa:

A tradição do Solar dos Marinhos deriva também dessas lendas heráldicas fundadas na crença das fadas terrestres, como a Melusina e a Dama Pé de Cabra, ou do mar como as Sereias (…)

[E mais à frente alude-se ao] conto da Sereia ou Marinha, donde tira sua origem o Solar dos Marinhos (…)

Por aqui se depreende que a lenda em questão tinha elementos fantásticos, mas também que ela adoptava um nome alternativo, o de conto ou lenda da Marinha. E, de facto, o Livro de Linhagens do Conde Dom Pedro, do século XIV, conta a história de uma “Dona Marinha”, que parece corresponder ao muito pouco que sabemos da lenda em questão. Portanto, acreditando que ambas se referem a uma mesma trama – e não temos qualquer prova real em contrário – podemos contar aqui essa outra lenda:

A lenda do Solar dos Marinhos?

Dado dia, um tal Dom Froião andava a cavalgar pela praia quando viu uma “molher marinha” [sic.], de beleza infinita, a dormir junto à costa. Ela tentou fugir, sem nunca conseguir dizer uma palavra que fosse, mais foi levada para casa do cavaleiro. Ele baptizou-a com o nome de Dona Marinha e teve vários filhos dela, entre eles um tal João Froiaz Marinho. Depois, o tempo foi passando… até que um dia, na brincadeira, Dom Froião fingiu atirar um dos seus filhos para o fogo. A mãe, não percebendo tratar-se de uma brincadeira, tentou gritar, e – assim diz a lenda – saltou-lhe pela boca “uma peça de carne”, tornando-lhe possível falar. Face a esses novos acontecimentos, o apaixonado finalmente casou com ela.

Dona Marinha era uma sereia?

Por toda esta lenda se compreende que a palavra “solar” é aqui utilizada no sentido de “origem, princípio”, em vez de se referir a uma localização concreta, tratando-se portanto esta de uma pequena história (supõe-se que ficcional, não é?) que explica como a família dos Marinhos teve a sua origem. Eles adoptaram esse seu apelido devido à chamada “molher marinha” da história, mas… seria mesmo ela uma sereia, como as linhas já citadas acima parecem indicar? Na verdade, a história original refere-se a ela somente por essa designação, e pelo contexto podemos inferir que Dona Marinha era uma mulher que vivia no mar ou veio desse local, mas nada é dito sobre a sua forma física – pelo contrário, pela referência à sua beleza podemos considerar que ela era atraente e, portanto, completamente humana.

 

O que não é tão fácil de compreender é o porquê de ela não conseguir falar, originalmente, mas recuperar esse importante dom depois de cuspir “uma peça de carne”. Claro que toda a história nos transporta para o reino da fantasia, em que as coisas não têm necessariamente de fazer sentido, mas será que se pretendia uma oposição peixe – carne ou mar – terra? Ou será essa apenas uma potencial leitura moderna, cujo original nada pretendia? É apenas uma questão de opinião, visto que a lenda do Solar dos Marinhos, a que também podemos mesmo chamar a lenda de Dona Marinha, tinha apenas a função de explicar a origem lendária dessa família, em que o facto da misteriosa mulher não falar é completamente secundário, recuperando ela essa dom quase apenas para proferir o “sim” do casamento. Mais que isso, poderão ser somente leituras que o original não parecia pretender que se fizessem…

O mito de Savitri e Satyavan

O mito de Savitri e Satyavan vem-nos de terras da Índia, onde é particularmente conhecido devido a uma referência que lhe é feito no Mahabharata, quando Draupadi, a esposa comum dos cinco Pandavas, contempla tudo por que passou e se interroga se é possível alguém alterar o seu próprio destino. Face à questão, é-lhe então contada a história que hoje aqui resumimos:

O mito de Savitri e Satyavan

Savitri era filha única e uma princesa muito, muito bonita (e não o são sempre?), que se apaixonou por um homem do povo. Agora era um mero homem, mas em outros tempos tinha sido o herdeiro de um grande reino, até que o seu pai perdeu tudo o que tinha. Além disso, este Satyavan tinha um triste destino profetizado, que dizia que ele ia morrer numa certa idade. E, mesmo faltando menos de um ano para a morte deste seu amado, a princesa quis amá-lo e casar com ele.

Casaram. Foram felizes até ao falecimento de Satyavan. Depois, quando ele morreu, Savitri não cremou o corpo do marido, como era hábito. Em vez disso, quando viu Yama, o deus da morte, a aproximar-se no seu touro, decidiu segui-lo. E seguiu-o durante dias, e dias, e dias, até que a divindade lá lhe perguntou o que ela queria. Ela pediu o marido de volta, ao que o deus lhe ofereceu três pedidos, deixando claro que ela podia pedir tudo o que quisesse – menos ter o marido de volta.

Então, Savitri pediu que o pai de Satyavan recuperasse o seu reino – e isso foi concedido. Depois, pediu que o seu próprio pai tivesse um herdeiro do sexo masculino – e isso foi concedido. Finalmente, pediu para ser a mãe dos filhos do homem que amava… e o deus, um tanto ou quanto estupefacto, lá se apercebeu de um “pequeno” problema, da impossibilidade que seria cumprir esse pedido sem trazer o falecido de volta. E, assim, a divindade teve de o trazer de volta ao mundo dos vivos. Depois os dois amados viveram felizes muitos mais anos…

 

Este mito de Savitri e Satyavan é uma história sobre a possibilidade de se alterar o destino, como a introdução dada por Draupadi torna mais que evidente. Claro que não é uma opção muito realista para a maior parte dos mortais (se alguém souber onde encontrar Yama que nos informe…), mas não deixa de ser uma bela história de terras asiáticas.

Casa do Preto – qual a origem do nome?

Em Sintra pode ainda hoje ser encontrada uma famosa pastelaria com o nome Casa do Preto. Mas qual a origem do nome, a sua história? Se ele foi o do espaço comercial desde a sua abertura, há já 90 anos atrás, e o recinto se manteve sempre famoso em virtude das suas queijadas*, de onde terá vindo um nome que poderá parecer tão incomum nos dias de agora? Porque se chama casa do preto?

A origem do nome da Casa do Preto

Essencialmente, a Casa do Preto sintrense obteve o seu nome de uma pequena estátua de madeira que até há uns poucos anos podia ser vista quase em frente da sua porta principal. Ela era retirada do local durante a noite e quando o espaço estava encerrado – não fosse o proverbial diabo tecê-las… – mas salvo essa ausência temporária, era o grande símbolo, uma espécie de mascote avant la lettre, de todo o local, representando uma espécie de rapaz de entregas de outros tempos. E ele era efectivamente preto, não se tratando de qualquer espécie de racismo.

Assim se explica a origem deste seu nome (o de Sintra, em vez de Cintra, já cá falámos antes), mas permanece uma pequeno mistério, o da origem da estátua. Fomos ouvindo essencialmente duas grandes histórias, que em comum nos dizem que ela precede a abertura da Casa do Preto, mas enquanto algumas opiniões nos dizem que ela foi adquirida numa casa de móveis, tendo originado de parte incerta, já outras repetem que ela foi criada pelas próprias mãos de um dos familiares do proprietário. A segunda destas opiniões parece-nos mais acertada que a primeira, já que permite explicar o porquê de não existirem muitas outras estátuas semelhantes pelo país fora.

 

Então, e hoje, que é feito desta Casa do Preto? Lá continua ela, no sítio do costume, localizada quase às portas da vila de Sintra, na Estrada de Chão de Meninos, mas a famosa estátua desapareceu do seu local original há alguns hoje. Dessa “mascote” original resta agora uma representação numa parede e as queijadas que em outras alturas eram colocadas, simbolicamente, no tabuleiro transportado pelo “preto”.

 

 

*- Isto pode levantar uma questão – quais são as melhores queijadas de Sintra? As da loja aqui em questão, as da Sapa, as do Gregório, ou as da Piriquita? Há já alguns anos tentámos descobri-lo, provando uma de cada loja, mas pareceram-nos muito semelhantes, sem que se consiga afirmar definitivamente que as do local X são melhores que as dos restantes – aceitam-se opiniões, podem deixá-las nos comentários se assim o desejarem. Contudo, este espaço tem um grande vantagem face aos outros, que é o facto de ter um parque de estacionamento gratuito para os seus clientes mesmo ao lado, o que dá muito jeito a quem vem de longe para comprar estes bolos…

A lenda do Pajem ou Cavaleiro Henrique

Contar a lenda do Pajem ou Cavaleiro Henrique implica, antes de tudo o resto, explicar um potencial problema que a envolve. Se foram muitas as figuras nacionais e estrangeiras envolvidas na conquista de Lisboa por Afonso Henriques, de que Martim Moniz será provavelmente a mais famosa nos nossos dias, algumas delas estão hoje envolvidas em algum mistério, numa espécie de espaço misterioso entre a pura lenda e a história factual. Entre elas conta-se o caso de um homem que ficou conhecido sob o nome de “Henrique”, que veio de Bona (na Alemanha), e que poderá ter sido um cavaleiro ou um pajem… Teófilo Braga dá-lhe o nome de “Pajem Henrique” na breve referência que lhe fez em O Povo Portuguez nos seus Costumes, Crenças e Tradições, mas na verdade pouco sabemos sobre os seus feitos. Portanto, conte-se aqui a parte lendária da sua história.

Martim Moniz, companheiro deste Pajem ou Cavaleiro Henrique

Este Henrique, qualquer que tenha sido a sua posição original no conflito, morreu em combate aquando da conquista de Lisboa. Posteriormente, quando as relíquias de São Vicente foram trazidas para a cidade, ele foi sepultado na Igreja de São Vicente de Fora. E é nesse momento que a sua lenda começa, por lhe serem atribuídos três milagres. No primeiro deles, curou dois surdos-mudos que guardavam a sua campa, tendo-lhes aparecido com vestes de peregrino e uma palmeira (um elemento importante, por razões que já veremos), afiançando assim a sua condição de mártir no reino dos céus. No segundo, quando um dos seus pajens faleceu, esta figura apareceu nos sonhos do pároco local e pediu-lhe repetidamente que enterrasse o falecido a seu lado. Já o terceiro milagre, o mais importante de todos eles, merece um comentário maior.

 

Neste contexto, quem for à Igreja de São Vicente de Fora poderá aí encontrar um ossário deste herói, em que está gravado o seguinte texto, com algumas abreviaturas que aqui expandimos:

OSSOS DO CAVALEIRO HENRIQUE ALEMÃO, QUE MORREU AJUDANDO A TOMAR ESTA CIDADE AOS MOUROS, EM CUJA SEPULTURA NASCEU UMA PALMA, QUE DE UM CACHO DA PALMA SE VALIAM MUITOS ENFERMOS E SARAVAM. O CACHO ESTÁ NO SANTUÁRIO DESTE MOSTEIRO.

Se o texto não é totalmente claro para os nossos dias, ele essencialmente dá a entender que nasceu uma palmeira onde estava o túmulo deste cavaleiro e que as suas folhas tinham propriedades miraculosas, curando aqueles que delas se faziam valer. Presume-se que a árvore em questão já não exista, até porque passou quase um milénio, mas a sua influência ainda pode ser vista na capital portuguesa – segundo alguns, a lisboeta “Rua da Palma” deve o seu nome seja ao facto de aí ter existido uma palmeira, que descendia desta, seja por aí acamparem aqueles que vinham prestar devoção à figura falecida no cerco de Lisboa.

 

Agora, conforme já referido acima é difícil saber onde termina a história real e começa a ficção nesta lenda do Pajem ou Cavaleiro Henrique, mas a sua figura está claramente ligada a uma palmeira que então existia na cidade. Não é caso único – relembre-se, por exemplo, a palmeira de Cascais – mas tanto o facto do mártir aparecer aos devotos com essa planta, como lhe serem associadas curas por meio da mesma, dá a perceber que esse elemento da trama era muito antigo, já do século XII. Mas qual era a relação entre ambos? Porquê uma palmeira, em detrimento de uma qualquer outra planta? Será apenas porque nasceu uma próxima da sepultura, sem que isso tenha alguma coisa de miraculoso, ou porque ela já existia no local e depois foi associada ao herói? As fontes que consultámos nada dizem sobre isso… apenas afirmam esta sua ligação à palmeira, cujo significado original se parece ter perdido ao longo dos séculos – pelo menos uma fonte diz que ela era tão procurada que acabou por ser progressivamente destruída, visto que cada visitante tentava levar uma parte da planta para si. Assim, resta apenas a memória do que nos dizem ter acontecido em outros tempos…

“Nanso Satomi Hakkenden”, novela japonesa

Nanso Satomi Hakkenden é provavelmente uma das mais famosas novelas japonesas, escrita no século XIX por Kyokutei Bakin e baseando-se de forma muitíssimo vaga em algumas figuras histórias que viveram no século XV. Porém, se parece ser bastante conhecida nesse seu país natal – ainda há dias uma japonesa nos dizia que se lembrava de ter lido uma versão adaptada desta obra na sua juventude – já no Ocidente quase que só é conhecida através de séries anime e manga, como Shin Hakkenden ou Hakkenden: Eight Dogs of the East (a primeira é significativamente baseada no original, a segunda tem uma infinidade de adaptações). Isto poderá dever-se ao facto de ela não existir publicada numa tradução completa, em virtude da extensão dos seus 106 livros em 98 volumes. Assim, é até difícil resumi-la aqui por completo, mas podemos apresentá-la como uma obra que pode ser dividida em três grandes momentos:

"Nanso Satomi Hakkenden", uma novela japonesa

Nanso Satomi Hakkenden começa com a história da Princesa Fuse, cuja família (Satomi) foi amaldiçoada em função de alguns actos menos bons. Então, num tempo de enormes batalhas o pai desta jovem disse, no que parece ter sido mera ironia, que até aceitaria casar a sua filha com o cão de família, Yatsufusa, se este lhe trouxesse a cabeça do seu grande inimigo. O animal acabou por fazê-lo… E passou a ser muito bem tratado em virtude dessa acção, mas o pai da Princesa Fuse não queria, na verdade, cumprir a sua promessa. É a filha que insiste na necessidade de esta ser cumprida, de se realizar esse “casamento”, e então vai viver com Yatsufusa para uma caverna na floresta. Porém, como a jovem – então com menos de 18 anos – queria preservar a sua virgindade, afastava sempre o cão de possíveis motivos menos honestos para com ela, dedicando-se a constantes preces e cópias de textos budistas, enquanto o pobre animal a alimentava a nozes que recolhia na floresta. Até que um dia se apercebeu que estava grávida; não era uma gravidez normal, originada numa relação sexual, mas sim uma “mística”, proporcionada pelo amor que Yatsufusa lhe tinha durante o tempo de todas aquelas preces que ela realizava. Enfim, pouco depois ambos são mortos (o cão para obterem a sua esposa, e esta segunda por mero acidente), mas no momento do seu falecimento a Princesa Fuse deixa cair o seu rosário e dele são retiradas, por magia, oito contas com o nome de oito virtudes chinesas, que desaparecem misteriosamente.

 

Isto leva-nos ao segundo momento da obra. Anos mais tarde, oito jovens com o caracter para “cão” no seu nome são encontrados (犬, daí o nome original da obra, 南總里見八), todos eles com uma estranha marca no seu corpo e uma conta com o nome de uma virtude confucionista – cortesia, humanidade, justiça, lealdade, obediência, piedade, sabedoria e sinceridade. Essa parece ser a parte central de toda a obra, a forma como essas oito personagens se vão conhecendo, reencontrando, e têm cada um as suas aventuras individuais.

Já a terceira parte da obra, que os leitores com quem falámos consideram a menos interessante (será por isso que foi quase omitida na edição resumida a que tivemos acesso?), conta como estes oito heróis se envolveram numa guerra, lutando pela família Satomi, e depois abandonaram as suas vidas seculares. O texto termina com alguma informação sobre o autor e as suas fontes, sendo até famosa a informação de que Kyokutei Bakin, depois de 28 anos a trabalhar neste texto, já estava cego, tendo apenas recitado o final da história para que este pudesse ser escrito por uma nora.

 

Agora, se a história de Nanso Satomi Hakkenden tem muitos momentos característicos de novelas – ou romances, se preferirem, no sentido ocidental da palavra – o mais notável é a forma como também inspirou muitas outras obras japonesas ficcionais. Terá sido provavelmente daqui que veio a ideia das sete bolas de cristal do Dragon Ball; mas também da espada Murasame (hoje presente em muitos jogos orientais), que nesta obra tem apenas um pequeno poder místico; e até toda a ideia de vários heróis se juntarem para participarem numa grande aventura comum. É uma obra que tem momentos bem humanos (como quando uma mulher tenta enganar um dos oito “cães”, acusando-o de um roubo falso), mas também alguns da mais pura fantasia, como quando Yatsufusa é amamentado por um tanuki, ou um dos heróis defronta um gato demoníaco (relembre-se que na cultura nipónica considera-se que estes animais, tal como a kitsune, têm poderes mágicos e de transformação).

 

Dadas todas estas considerações, o que mais podemos dizer sobre Nanso Satomi Hakkenden? Se provavelmente até é uma obra interessante para aqueles que gostam de histórias como a do Senhor dos Anéis, o grande problema é que, dada a sua extensão, não existe em qualquer tradução inglesa, francesa, portuguesa, etc. Até pode ser encontrado, aqui e ali, um ou outro capítulo já em tradução, mas isso impede que se consiga apreciar a obra na sua totalidade, o que acaba por ser importante, na medida em que mesmo o público original parece pensar que alguns momentos, como a história da Princesa Fuse e de Yatsufusa, estão muito melhor conseguidos do que outros (como a terceira parte da aventura). No nosso caso só conseguimos lê-la e entendê-la melhor pela simpatia de Sonobe Souan e através de uma versão resumida que apareceu na publicação The East entre 1994 e 1995.