A história da Lampreia de Ovos

Esta espécie de história da Lampreia de Ovos merece ser contada pelo facto de estar já quase totalmente perdida. Sim, claro que é comum ver-se este bolo nos supermercados e pastelarias do nosso país, mais frequentemente até na altura do Natal, mas de onde surgiu toda esta singular ideia de representar este estranho peixe numa versão dourada e feita com ovos?

A história da Lampreia de Ovos

Numa página “oficial” sobre doces tradicionais portugueses (que sempre seria mais fiável que um artigo da Wikipedia…), em relação à Lampreia de Portalegre – uma possível antecessora desta nova e mais famosa versão? – é dito que se “desconhece o que terá levado as freiras [de Santa Clara e/ou São Bernardo] a confeccionarem este bolo com uma forma tão pouco habitual e imitando um animal não existente na região de Portalegre.” Por isso, de onde vem a ideia? Procurámos, procurámos, procurámos, e… acabámos por formular duas possíveis teorias que poderão ajudar a explicar uma possível história deste doce.

 

Quem for ao norte de Portugal, mais precisamente à fronteira estabelecida pelo rio Minho, perto de Melgaço poderá encontrar uma localidade espanhola chamada Arbo, que na sua bandeira e brasão até tem uma lampreia dourada, uma sintetização dos peixes e do ouro que, anteriormente, existiam muito na região. A mesma cor dourada do peixe, puramente lendária, também podia ser explicada por se acreditar que na região as feiticeiras – ou as Mouras Encantadas – adoptavam essa forma e, movendo-os pela notória procura pelo vil metal, afogavam os pescadores locais, numa lenda que está atestada em inícios do século XX, mas poderá até ser muito anterior.

Não sabemos se a Lampreia de Ovos original era feita de massa-pão (como a de Portalegre), ou já era também toda de gemas, mas faz algum sentido que esta segunda forma do doce descenda da primeira, não só pela simplificação da receita, como pelo facto de não se parecer, de todo e mesmo nos nossos dias, com o próprio peixe, como se o seu criador nunca tivesse visto o respectivo animal. Por isso, mediante a forma original do doce – que parece desconhecer-se hoje – esta ligação a Melgaço e/ou Arbo poderia ser provada ou negada.

 

Outra opção é que, tratando-se este de um doce raro, tivesse sido feito originalmente com o nome de “lampreia” por esse se tratar de um peixe cujo consumo, na altura e segundo conseguimos apurar, era associado às classes mais altas – novamente, isso ajudaria a explicar a diferença significativa entre o verdadeiro peixe e a forma representada no doce, já que o simbolismo teria mais significado do que a própria representação correcta do animal.

Uma Lampreia de Ovos do século XIX

Esta potencial história da Lampreia de Ovos é, assim, bastante circunstancial, mas há que frisar que a informação que se tem sobre o nascimento e evolução deste doce conventual é muito limitada. Se o animal é característico e famoso no norte do nosso país, não sabemos se ele originalmente já era feito de ovos (o que o poderia ligar a uma origem em Melgaço e Arbo, já sob a forma dourada), ou tinha mesmo a forma do peixe (o que poderia indicar que quem o fez até conhecia o animal, ou pretendia apenas dar esse nome ao seu doce). Assim, talvez esta acabe por ser uma daquelas histórias que se perdeu ao longo do tempo, como a da igualmente natalícia razão por detrás da fava do bolo-rei

“101 Middle Eastern Tales”, de Ulrich Marzolph

101 Middle Eastern Tales, and Their Impact on Western Oral Tradition, de Ulrich Marzolph, é um daqueles livros que normalmente não teria muito lugar nestas páginas, não fosse o facto de se te tratar provavelmente de um dos mais interessantes livros sobre histórias que já passaram pelas nossas mãos.

"101 Middle Eastern Tales", de Ulrich Marzolph

Se este 101 Middle Eastern Tales, de Ulrich Marzolph, se tratasse somente de um livro de histórias orientais, como essa primeira parte do título pode dar a entender (note-se que o subtítulo da obra é Their Impact on Western Oral Tradition), talvez até tivesse um interesse muito limitado, mas o que torna este texto tão interessante e digno de nota é mesmo o facto de ele contar as histórias por detrás de cada um desses 101 relatos, num total de mais de 900 páginas. Para se explicar como funciona, era como se, por exemplo, ao lerem as histórias da Pequena Sereia ou da Cinderela, os relatos das respectivas aventuras fossem depois seguidos por diversas páginas em que são explicadas as diversas versões da história, bem como toda a evolução que levou a que elas fossem conhecidas nos nossos dias na sua forma actual.

Se, por um lado, a maior parte das histórias presentes na obra não são assim tão conhecidas como as que referimos acima – de entre as presentes neste texto, é provável que a mais famosa até seja a dos 40 Ladrões – é de notar que algumas delas até são conhecidas da cultura popular portuguesa. Se já as conhecíamos – ver, por exemplo, a história dos três idosos – nunca sequer pensámos que elas tivessem um protótipo oriental, ou que fossem um elo numa cadeia que já se prolonga há séculos, como no caso daquela história que justifica a cara feia do Linguado.

 

Em suma, 101 Middle Eastern Tales, de Ulrich Marzolph, é uma obra não só interessante pela forma sintética como conta mais de uma centena de histórias, mas pelo que também traz ao tema de um ponto de vista mais académico, unindo nas mesmas páginas múltiplas informações relativas a cada uma delas. É um pouco dispendiosa, admita-se que sim, mas é muitíssimo interessante para aqueles que gostem de histórias europeias, e por isso até queiram perceber melhor de onde vêm elas.

Resumos da Ilíada de Homero na Antiguidade

A intenção de procurar e ler resumos da Ilíada de Homero é provavelmente quase tão antiga como a fixação por escrito da tradição oral das próprias obras homéricas. Por isso, pelas mais diversas razões, ao longo dos séculos tanto os Gregos como os Romanos foram criando diversas versões sintéticas das duas obras atribuídas a esse antigo poeta, numa tradição continuada que foi chegando aos nossos dias em obras simplificadoras e adaptadas como as de Frederico Lourenço. Assim, o que apresentamos aqui hoje e em seguida são dois desses resumos deste poema épico, um deles de autoria grega e outro provindo do tempo dos Romanos, ambos em tradução para o Português dos nossos dias, e de uma forma tão simples que nem precisam de um PDF para os ler.

Homero e os resumos da Ilíada

O primeiro destes dois resumos da Ilíada (nome que tem por significado algo como “A Canção de Ílion*”), vem da Antologia Grega. Associa a cada um dos livros dessa obra uma letra grega (ideia, e divisão em 24, que parece vir do tempo de Pisístrato, com uma consequência estranhamente curiosa**), mas, ao mesmo tempo, também nos reconta, de uma forma curiosa e muito breve, o conteúdo dos seus livros, da seguinte forma:

1- As rezas de Crises, a praga, e a zanga dos reis.

2- O sonho, o concílio, e [o catálogo dos] navios.

3- O combate dos dois maridos de Helena.

4- O concílio dos deuses, a quebra dos juramentos, o início da luta.

5- O filho de Tideu [i.e. Diomedes] fere Citereia [i.e. Afrodite] e Ares.

6- A conversa entre Heitor e Andrómaca.

7- Ájax luta contra Heitor.

8- O concílio dos deuses, a vitória dos Troianos, a vangloriação de Heitor.

9- A embaixada a Aquiles.

10- Homens de ambos os lados do conflicto vão em missão de reconhecimento.

11- Os homens de Heitor ferem os Gregos mais importantes.

12- A muralha dos Aqueus cai pelas mãos dos Troianos.

13- Poseidon dá, secretamente, a vitória aos Gregos.

14- Hera engana Zeus através do amor e do sono.

15- Zeus zanga-se com Poseidon e Hera.

16- [A lança de] Heitor mata Pátroclo.

17- Gregos e Troianos lutam em redor do corpo.

18- Tétis leva a Aquiles armas feitas por Hefesto.

19- Aquiles abandona a sua cólera e junta-se ao combate.

20- Luta entre os deuses, que traz vitória aos Gregos.

21- Aquiles derrota os Troianos perto do rio, através da sua força individual.

22- Aquiles mata Heitor depois de o perseguir por três vezes em redor da muralha.

23- Aquiles celebra jogos com os Gregos [i.e. os jogos funerais de Pátroclo].

24- Aquiles aceita presentes e dá a Príamo o corpo do [respectivo] filho.

Um resumo da Ilíada na Tabula Capitolina

Agora, este segundo resumo da Ilíada vem da chamada Tabula Capitolina, e encontra-se inserido num conjunto de imagens relativas ao Ciclo Troiano e à Guerra de Tróia. Assinalado a verde na imagem acima (retirada de um livro do século XIX), até para que consigam entender o contexto em que surge todo o relato, ele diz-nos então o seguinte:

Os Aqueus fazem uma muralha e um fosso em redor dos navios. Quando ambos os lados estão armados e preparados para o combate, os Troianos seguem os Aqueus até à muralha e nessa noite acampam perto dos navios. Os chefes dos Aqueus decidem, depois de terem deliberado, enviar alguém a Aquiles. Agamémnon dá-lhe muitos presentes e Briseis. Aqueles que são enviados para ele, Ulisses e Fénix, e além deles Ájax, dão a Aquiles a mensagem de Agamémnon, mas ele não aceita os presentes, nem a reconciliação, ou mesmo ajudá-los.

Ao ouvirem isto, os chefes enviam como espiões Ulisses e Diomedes. Eles, depois de encontrarem Dolon, que tinha sido enviado como espião por Heitor, aprendem através dele a formação daqueles que guardam o acampamento, matam-no e a Reso (dos Trácios), e a muitos outros juntamente com eles. Capturando as éguas de Reso, levam-nas para os navios. Quando o dia vem, eles juntam-se à batalha, em que os chefes que foram feridos – Agamémnon, Diomedes, Ulisses, Macaão e Eurípilo – se retiram para os navios.

Pátroclo, enviado por Aquiles, pergunta a Néstor novidades sobre a batalha. Heitor, depois de destruir as portas para o exército, aproxima-se da muralha dos Gregos e junta-se à batalha próximo dos navios. Quando a batalha se tornou mais perigosa, Aquiles, depois de ouvir por Pátroclo as novidades, e de este lhe pedir para o enviar para perto dos navios, quando viu o barco de Protesiau, enviou Pátroclo com os Mirmidões, dando-lhe os seus cavalos e armando-o com a sua própria armadura. Quando o viram todos os Troianos fugiram imediatamente.

Durante este ataque Pátroclo matou muitos outros, em particular Sarpédon, filho de Zeus, mas segue os outros até à muralha [troiana]. Heitor, tendo esperado por ele, mata-o e obtém a posse da armadura. Enquanto a batalha em redor do corpo continua, Antíloco anuncia a Aquiles [… esta sequência não está legível, mas é anunciada a morte de Pátroclo…] Tétis vai a Hefesto e pede-lhe uma armadura completa. Ele faz uma para ela. Os Aqueus transportam o corpo de Pátroclo para os navios.

Depois da armadura ter sido trazida por Tétis, Agamémnon dá Briseis a Aquiles. Este, depois de perseguir Asteropeu até ao [rio] Escamandro, mata-o. Aquiles, depois de escapar ao perigo no rio, luta contra Heitor em combate individual, mata-o, tira-lhe a armadura e, depois de ligar o seu corpo à biga, arrasta-o pelos campos até ao navio. Depois de sepultar Pátroclo, conduz em sua honra alguns concursos entre os chefes. E Príamo, indo aos navios, resgata Heitor de Aquiles. Depois de Príamo voltar à cidade os Troianos sepultam o herói e preparam o seu túmulo.

 

Se estes são, como até nem poderia deixar de ser, dois exemplos de resumos da Ilíada com um carácter muito redutor da obra original e do combate entre Gregos e Troianos, permitem-nos constatar quais eram, pelo menos para os escritores das respectivas linhas, os episódios mais significativos de toda a obra da Grécia Antiga. Não são, como é evidente, resumos perfeitos dos poemas homéricos, mas deixam-nos aceder, de uma forma muito sucinta, ao que vai tomando lugar ao longo da obra, para benefício tanto dos leitores de outros tempos, como para aqueles que queiram ter acesso a um resumo do poema épico nos nossos dias de hoje.

 

*- Ílion é outro dos nomes dados a essa antiga cidade de Tróia.

**- Uma curiosidade, como sabemos que um Homero foi o autor de ambos os poemas épicos? Segundo o comentador Apião, do primeiro século da nossa era, podemos ter a certeza disso porque as duas primeiras letras da Ilíada, na palavra μῆνιν, significavam o número 48 em Grego (o número total de cantos de ambos), numa espécie de criptograma homérico que atestava que tinha sido ele a escrever ambas. Porém, mesma na Antiguidade esta ideia não era levada muito a sério, e só nos chegou porque foi citada numa das epístolas de Séneca quase na brincadeira…

O que é o Livro da Noa?

Vieram perguntar-nos o que é o chamado Livro da Noa. De uma forma muito essencial, podemos resumi-lo como um manuscrito medieval português, produzido no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, que conta, de uma forma breve, o que foi acontecendo ao longo dos anos, entre inícios do século IV e meados do século XV. Ele apresenta muitas especificidades curiosas, mas talvez a mais digna de nota seja o facto de estar escrito em Latim e em Português; não é uma obra bilingue, deixe-se claro, mas sim uma em que algumas das entradas estão numa língua e outras estão em outra, por razões agora desconhecidas.

O Livro da Noa

Por exemplo, na imagem acima pode ser vista a primeira sequência do texto do Livro da Noa que está em Português, e que nos diz então o seguinte:

El-Rei Dom Afonso, o primeiro filho do Conde Dom Henrique e da Rainha Dona Tareija [i.e. Teresa], porque em Espanha não podia achar casamento que não fossem tanto suas parentes chegadas que não podia casar com elas sem dispensação do Pontífice, houve a casar com Dona Mafalda, filho do Conde Dom Marrique de Lara [?] e Senhor de Molina, irmão do Conde Dom Nuno, o que livrou os filhos de algo do peito em Burgos.

Aqui, o parágrafo anterior está em Latim, o seguinte continua nessa mesma língua, mas esta sequência está em Português. Porquê? Será por se referir ao casamento do primeiro rei e, por isso, se tratar de um momento importante? Até podia ser que sim, mas depois passam-se várias páginas e surgem depois momentos como os seguintes, também eles em Português, que nos permitem abandonar essa possibilidade:

Era de mil trezentos e sessenta e quatro anos, quatro dias andados do mês de Julho, foi morto João Afonso em Lisboa, por justiça que El-Rei Dom Afonso [IV], filho do muito Nobre Rei Dom Dinis mandou fazer nele.

(…)

Na era de mil trezentos e setenta e um ano, catorze dias andados do mês de Maio, foi eclipse do Sol e foi tornado o Sol tão sumido que não parecia senão como uma Lua nova, muito pequena de si, e foi acrescentando em si, tornando-se em seu estado, e em crescença dele tornava-se de muitas cores, por tal guissa que o dia foi muito escuro e tirado de sua claridade. Isto foi à hora do meio-dia, e esteve assim o Sol neste embargo uma hora e meia do dia.

(…)

Na era de mil e trezentos e setenta e um ano foi tão mau ano por todo o Portugal que andou o alqueire do trigo a vinte e um soldos, e o alqueire do milho a treze soldos, e o centeio a dezasseis pela medida coimbrã. (…) E bem foi minguado o ano de todos os outros frutos por que a gente se havia de manter. Neste ano morreram muitas gentes de fome, quanto nunca os homens viram morrer por esta razão, nem viram nem ouviram dizer homens novos antes (…)

(…)

Era de mil e quatrocentos e trinta e dois anos (…) choveu sangue na cidade de Coimbra, e muitas gentes deram disto fé, especialmente o autor desta memória, que o viu.

Podíamos dar aqui muitos outros exemplos de trechos desta Livro da Noa, mas decidimos parar com este último, não só pelo facto do seu autor se identificar na primeira pessoa, permitindo saber que alguns dos eventos reportados foram testemunhados na primeira pessoa, como por nos permitir datar a sua autoria para meados do século XV, sendo certamente possível que o autor já não dominasse bem o Latim, limitando-se portanto a copiar, para as sequências mais antigas, informação que encontrou em outros lugares. Ao mesmo tempo, os fragmentos acima permitem perceber mais ou menos o espírito de toda a obra – ela conta-nos, conforme já foi dito anteriormente, o que foi tendo lugar ao longo do tempo, não só em termos de alguns eventos políticos, mas também em termos de milagres e ocorrências menos comuns. Feito então este resumo do famoso manuscrito nacional, quem ainda quiser saber mais sobre toda a obra poderá vê-la, de forma gratuita e na primeira pessoa, no site da Torre do Tombo.

Os mitos de Leviatã, Behemoth e Ziz

Os mitos de Leviatã, Behemoth e Ziz transportam-nos para o universo da estranha mitologia da Bíblia, para aquelas páginas que podemos encontrar no chamado “Antigo Testamento”. Porém, desenganem-se aqueles que esperam que aí possam encontrar uma trama completamente bem definida, que una as três criaturas como se de Pokémons de outros tempos se tratassem. Em vez disso, estas três criaturas têm passados complicados e presentes um tanto ou quanto estranhos, já que foram sendo unidas ao longo dos séculos através de informações que nem sempre são muito fiáveis ou claras. Por isso, apresente-se a história do grupo, antes de apresentar cada um deles individualmente.

Os mitos de Leviatã, Behemoth e Ziz

No Antigo Testamento existem um conjunto de momentos que só podem ser compreendidos correctamente tendo-se em conta que as suas páginas não nasceram num vazio. Quem as escreveu tinha às proverbiais costas um conjunto de informações que, hoje, apenas nos chegaram de uma forma muito escondida, como o curioso caso da esposa de Deus. Assim, entre todas essas histórias que já fomos perdendo ao longo dos séculos, contam-se as origens de Leviatã, Behemoth e Ziz. Segundo alguns estas criaturas vêm dali, segundo outros vêm de acolá, mas o que sabemos, sem qualquer dúvida, é que quem as colocou nas páginas do texto sabia mais sobre cada uma delas do que aquilo que nos deixou por escrito. Elas têm uma origem extra-bíblica, que depois se foi perdendo ao longo do tempo. Por isso, o que sabemos agora sobre estas criaturas vem ou do texto bíblico, ou de informações que posteriormente nos foram comunicadas por outros autores, mas que não temos uma forma real de saber se correspondiam aos seus originais.

 

Pense-se então no primeiro dos três casos, o de Ziz. Ele é uma criatura mencionada de uma forma super breve no Antigo Testamento (nos Salmos, para quem tiver essa curiosidade), aparentemente como se tratando de uma espécie de pássaro, mas tradições posteriores adicionam que, na verdade, ele era o rei de todos os pássaros e até o maior de todos eles. Terá sido o Pássaro Anzu, famoso dos tempos da Babilónia? É possível que sim, mas nada mais sabemos sobre ele, nessa sua encarnação judaica original.

Depois, sobre o Leviatã – ou Leviathan, se preferirem – é-nos contado bastante mais, em particular nos Salmos e no Livro de Jó, onde é descrito, fazendo dele o maior de todos os peixes que ocupavam o oceano. Isso levou, progressivamente, a que viesse a ser identificado com a baleia, um monstro marinho, uma serpente marinha, ou como uma espécie de rei de todos os peixes. É num sentido metafórico que esta criatura acabou por dar o seu nome a uma (famosa) obra de Thomas Hobbes.

No mesmo seguimento, o Behemoth, apresentado no Livro de Jó, era então o maior de todos os animais terrestres, que ficou identificado como o hipopótamo, e que se encontrava envolvido num gigantesco e eterno combate com a criatura de que falámos no parágrafo anterior. O que torna esse combate especialmente interessante e digno de nota é o facto de ele ter um final anunciado – próximo do final dos tempos, dizia-se que eles se matariam mutuamente, e que depois o Messias judaico e os seus eleitos os comeriam num banquete enorme (para quem tiver essa curiosidade, nunca é explicado como conseguiriam cozinhar duas criaturas tão grandes).

Os mitos de Leviatã, Behemoth e Ziz na cultura islâmica

Histórias como essas foram-se progressivamente fundindo e evoluindo ao longo do tempo, gerando depois muitas outras informações sobre estas três criaturas – hoje, até aparecem em diversos jogos de computador! – e até casos como os da imagem acima, provinda da cultura islâmica, em que então se acreditava que o mundo estava apoiado nas costas de um anjo, por sua vez apoiado nas costas de uma espécie de touro, já este apoiado num enorme peixe. Será esta uma evolução da tríade que apresentámos acima? É até possível que sim, mas é uma ideia tão curiosa que sentimos que não podíamos deixar de também a apresentar por cá hoje, antes de terminarmos as linhas com que apresentámos brevemente estas criaturas…