O mito de Yama

O mito de Yama, de que falamos aqui hoje, é digno de nota por se referir a uma figura originalmente da Índia (e do Hinduísmo), mas que por via do Budismo depois foi transportada para vários outros locais, nomeadamente a China e o Japão, sofrendo algumas alterações ao longo dessa transmissão. Podemos tentar explicar o seu papel (quase) comum na mitologia indiana, chinesa e japonsa de uma forma muito sucinta.

O mito de Yama

Originalmente, a figura que ficou conhecida como Yama já estava associada ao reino dos mortos, com pelo menos uma tradição a dizer que ele tinha sido o primeiros dos mortais a falecer, conhecendo por isso já bem o reino que viria a administrar. Depois, o seu papel vai evoluindo – na China e no Budismo, sob o nome de Yanluo Wang, ele parece tornar-se mais uma figura que definia e controlava as reencarnações, decidindo o que acontecia a cada pessoa após a sua morte, não só em termos de potenciais castigos, mas também definindo sob que forma as pessoas iriam reencarnar. E é nesse papel que o encontramos no Nihon Ryoiki, uma compilação japonesa de milagres budistas do século IX da nossa era.

 

Referimo-nos concretamente a essa fonte literária porque a presença de Yama – mais conhecido no Japão como Emma-O – na mesma é estável, repetida e apresenta sempre o mesmo papel – quando alguém morre é transportado para um enorme e belíssimo palácio, em que os bons actos feitos em vida são contrastados com as realizações menos boas. Por exemplo, numa determinada história dessa fonte literária, é apresentado um homem que fez muitos bons actos na sua vida, mas que também venerou “os deuses chineses” (por oposição a seguir os preceitos budistas, supõe-se). Assim, quando o falecido chega ao tribunal de Yama, surgem versões antropomórficas dos dois grupos de actos, que se debatem pela sua salvação ou condenação; às tantas, o juíz considera que o caso era muto difícil de julgar, optando então por absolver o réu dado este ter praticado mais bons actos do que negativos, e ele até foi trazido de volta à vida, emendando depois o seu comportamento anterior (i.e. passou então a seguir todas as ideias do Budismo).

 

O mito de Yama é, portanto, o de um juíz imparcial, quase humano nas suas forças e fraquezas, que procura com a sua justiça recompensar – ou punir – os actos que as pessoas realizaram nas suas vidas. Face a figuras ocidentais, como o Minos grego ou o Deus cristão, talvez a sua grande fraqueza seja mesmo o seu notável carácter humano, visto que depende de testemunhos – mais do que uma qualquer espécie de poderes místicos – para formular as suas decisões. Talvez até já se tenha enganado, culpando um justo por um pecador, ou deixando o segundo escapar? Não encontrámos qualquer fonte directa em que isso tenha acontecido, contrariamente ao que aconteceu em mitos como os dos Gregos (e.g. recorde-se, por exemplo, a forma como Sísifo enganou os deuses dos mortos), mas é provável que até exista alguma história que siga essas linhas – recorde-se, por exemplo, que no Dragon Ball Z os falecidos  se cruzaram repetidamente com esta figura, que nem sempre soube como julgar muito bem as suas acções em vida…

A lenda da Vitória Régia

A lenda da Vitória Régia é provavelmente uma das mais famosas do folclore e mitologia do Brasil, mas ao mesmo tempo quase nada se conhece sobre ela em Portugal. Assim, convém começar por explicar que ela é uma espécie de planta aquática, que aos Portugueses pode ser descrita mais ou menos como um nenúfar gigante e mais resistente. É conhecida sob diversos nomes diferentes em Terras de Vera Cruz, sendo até um símbolo da Amazónia, mas o nome que lhe damos aqui tem, aparentemente, origem em uma homenagem inglesa à Rainha Vitória, particularmente clara no seu nome científico, i.e. victoria amazonica.

 

Feita então esta explicação inicial, provavelmente até quase só para os leitores que estão em Portugal, conte-se agora esta lenda:

Lenda da Vitória Régia

Diz-se que em outros tempos alguns índios nativos do Brasil veneravam a lua, dando-lhe o nome de Jaci, e lhe associavam muitas histórias, grande parte delas hoje já completamente perdidas. Assim sendo, entre as muitas pessoas das suas tribos contava-se uma belíssima jovem chamada Naiá, que acreditava fielmente em tudo aquilo que tinha ouvido nas muitas histórias locais sobre Jaci. As diversas versões desta aventura divergem um pouco no que se passou a seguir, mas sabemos é que Naiá acabou por se apaixonar pelo astro que quase todas as noites via no céu. Depois, um dia, enquanto passeava na margem do Rio Amazonas, viu Jaci reflectido nas águas e a bela divindade pareceu-lhe maior e mais próxima do que nunca. Desejando então tocar-lhe, ou mesmo dar-lhe um pequeno beijo na face, aproximou-se, tentou aproximar-se mais e mais…

A lenda da Vitória Régia, parte 2

… e acabou por cair às águas! Debateu-se por alguns momentos, mas não sabia nadar, não conseguia de todo fazê-lo. Morreu afogada. Contudo, Jaci teve piedade desta Naiá, a sua grande devota de já tantos anos, e então transformou-a numa planta aquática, de forma redonda e que, segundo nos diz toda a história, floresce apenas nas mais belas noites de lua cheia, como que para continuar a homenagear, de uma forma eterna, a divindade que tanto tinha amado em vida.

 

Assim, a lenda da Vitória Régia explica como é que estas plantas, para nós em Portugal um pouco estranhas, nasceram. Não é uma história mesmo verdadeira, como é óbvio, mas recorda-nos as muitas transformações das Metamorfoses de Ovídio, procurando explicar um mundo parcialmente desconhecido através de um conjunto de ideias e sentimentos que, de certa forma, são até comuns a toda a humanidade. É uma história brasileira, mas poderia igualmente ser de um qualquer outro lugar em que existam plantas aquáticas, e em que algum dia alguém se interrogou sobre a sua origem…

“Mitos Ibéricos da Antiguidade em L’Atlàntida de Jacint Verdaguer”

Mitos Ibéricos da Antiguidade em L'Atlàntida de Jacint Verdaguer

Pediram-nos que publicitássemos este evento (virtual) por cá, Mitos Ibéricos da Antiguidade em L’Atlàntida de Jacint Verdaguer. Tomará lugar no dia 26 do presente mês, por volta das 18:30h. Será composto por duas partes, uma em Português, sobre os Mitos Gregos e Romanos associados à Península Ibérica, e uma em Catalão, que terá por tema a forma como esses mesmos mitos entram na Atlântida de Jacint Verdaguer, uma obra de que já cá falámos anteriormente.

Caso alguém queira participar neste evento online, deverá inscrever-se pelo endereço de e-mail presente no canto superior direito do cartaz.

A origem da Medusa?

Se existem muitas criaturas estranhas na Mitologia Grega, é igualmente verdade que poucas são tão famosas como a Medusa. Já cá falámos dela diversas vezes, e até contámos o seu mito grego, mas uma pergunta poderá persistir – qual a origem da Medusa? Como é que se passou acreditar numa criatura que é tão única no panorama dos mitos gregos e latinos?

A origem da Medusa, a Naga?

A solução para essa difícil questão da origem da Medusa poderá passar por um confronto com os mitos da Índia e do Oriente, em que criaturas muito semelhantes, chamadas Nagas ou Najas, populam os mais diversos mitos. Elas viviam debaixo da terra, guardavam tesouros e – certamente o mais importante para esta publicação de hoje – adoptavam várias formas físicas. Se muitas vezes eram meras serpentes, tal como as conhecemos dos jardins zoológicos, podiam igualmente adoptar uma forma antropomórfica, com rabo serpentino, cabelos feitos de serpentes e tronco feminino (presume-se que este último elemento seja para melhor seduzirem o sexo masculino). Curiosamente, não parecem ter existido “Najos”, formas masculinas da mesma criatura…

 

A presença comum de criaturas como estas nos mitos orientais podem explicar a presença da forma invulgar e incomum da Medusa nos mitos ocidentais, mas será que existe uma ligação real entre estas duas criaturas mitológicas, ou se trata tudo de uma mera coincidência? Tudo indicaria o segundo caminho, até que encontrámos um mito indiano de uma jovem chamada Sulocana. Segundo a sua história, enquanto ela fazia amor com o marido num altar viu um horrendo espírito da natureza a olhar para eles; gozando com essa figura, fazendo contrastar a fealdade de aquele que a via com a sua própria beleza natural, foi então vítima de uma maldição, passando a envenenar, mortalmente, todos aqueles para quem olhava. E só um mortal sobreviveu a ela…

Perseu e a Medusa

Não é claro que Sulocana também tenha sofrido uma transformação física, potencialmente até na forma de uma Naja, mas as semelhanças com um dos mitos que envolve esta figura mitológica grega é notável, com um espírito da natureza a tomar aqui o lugar do deus dos mares. Considerar o mito que bem conhecemos nesta sequência explicaria o porquê de, no caso de Perseu e da Medusa, o herói ter de olhar para um escudo – ele não pretendia evitar olhar para o monstro, mas sim que este, ao acordar do seu sono, não olhasse directamente para ele; o poder de transformar em pedra não se devia à fealdade da criatura mitológica, como pensamos demasiadas vezes, mas ao poder mortal do seu olhar directo.

Ao mesmo tempo, recorde-se que se as Górgones têm um corpo repleto de serpentes, essa sua forma serpentina não tem qualquer significado ou função real no mito. Mesmo quando a figura mitológica é representada com asas, o que acontece em muitos vasos, também elas não têm qualquer presença na própria trama, denotando um certo afastamento, difícil de explicar, entre a trama mitológica e a iconográfica, como se a razão por detrás de toda a representação se tivesse perdido ao longo dos séculos.

 

Face a tudo isto, é provável que a origem da Medusa nos deva remeter para os mitos da Índia, ou do Oriente na sua forma mais geral, tendo resultado de uma confluência antiga entre diversas histórias originalmente distintas – pelo menos uma que servia para dar uma forma horrendo à criatura, e uma segunda em que entrava a grande capacidade mortal de um olhar amaldiçoado. Não conseguimos provar com exatidão quando é que essa associação teve lugar – talvez até através de trocas comerciais e culturais muito anteriores à nossa era – mas não temos razões reais para duvidar que possa ter acontecido…

O mito de Inana / Ishtar e Dumuzid / Tamuz

Entre os enredos mais famosos dos primórdios da história mundial conta-se o mito de Inana / Ishtar, que une esta deusa ao pastor Dumuzid / Tamuz. Iremos contá-lo abaixo, mas convém explicar, desde já, que nos referimos inicialmente a essas duas figuras principais desta forma, com nomes duplos, porque apesar dos intervenientes terem pelo menos quatro milhares de anos e as suas histórias essenciais se terem mantido ao longo do tempo, os seus nomes mudaram de cultura para cultura na mitologia e religiões do Próximo Oriente, retendo o seu espírito essencial; porém, para evitar uma constante e enfadonha repetição, iremos chamar-lhes apenas Inana e Dumuzid (os seus nomes mais antigos), mas deixe-se claro que as mesmíssimas aventuras também se aplicam ao par constituído pelos nomes, mais tardios, de Ishtar e Tamuz.

Inana, Ishtar, Eresquigal, ou outra deusa do mesmo período

Conta-se então que a deusa Inana quis casar e dois homens disputaram-na, o agricultor Enkimdu (não confundir com o famoso Enkidu, o companheiro de Gilgamesh), e o pastor Dumuzid. Este segundo conquistou-a com ajuda divina, e chegaram-nos até poemas bastante eróticos sobre a forma como o par amoroso se introduziu mutuamente às artes do amor e do sexo. De entre as referências mais curiosas presentes nos mesmos, o amante diz que já não tem tempo para se dedicar às relações sexuais “mais de 50 vezes por noite”, até porque agora era rei e também tinha de gerir o seu reino.

 

Até aqui a história é relativamente simples, quase contínua entre fontes, mas depois torna-se mais difícil de seguir, já que nos foi chegando em momentos fragmentários. Sabemos, por exemplo, que num dado instante Inana desce ao reino dos mortos, por razões difíceis de compreender (terá sido para conhecer o sabor da morte, como dizem alguns?), onde se vai despindo progressivamente em cada um dos sete portões, numa possível metáfora para o facto de que nada podemos levar para esse nosso pós-vida. Nesse reino, a deusa encontra a irmã mais velha (Eresquigal), falece, mas é posteriormente trazida de volta à vida, com uma condição – ela tinha de encontrar alguém que aceitasse falecer no seu lugar. E acaba por escolher… não quem conseguiu trazê-la de volta à vida, nem os seus próprios filhos, nem qualquer outro ser humano deste mundo, mas o próprio Dumuzid, potencialmente porque este não sofreu o suficiente pela morte de uma mulher que dizia amar.

 

Sabendo do seu destino através de sonhos proféticos, sabendo o que o aguardava, Dumuzid até tenta escapar, recorrendo a vários subterfúgios humanos e divinos, mas lá acaba por ser capturado e levado para o mundo dos mortos. Não voltaria nunca mais, não fosse o facto da sua própria irmã, Gestinanna, se ter oferecido para ocupar o seu lugar durante metade do ano, permitindo ao falecido regressar ao reino dos deuses-vivos e aos braços da amada Inana. O mito não nos preserva o registo de qualquer zanga real entre eles, apesar de ela ter sacrificado alguém que dizia amar em favor do seu próprio bem-estar, nem nos diz se depois ainda continuaram a ter as suas relações sexuais as tais 50 vezes por noite…

Inana e Tamuz

Posto assim, todo este mito poderá parecer relativamente simples, mas há que frisar que esta trama, tal como a apresentamos aqui, só pôde ser reconstruída recuperando momentos muito fragmentários de diversos textos completamente distintos. Por exemplo, nas linhas que nos chegaram é muito difícil compreender o que aconteceu entre o seu casamento e o instante em que a deusa desce ao mundo dos mortos, tal como não é clara a razão específica pela qual escolheu o seu amado para ocupar o seu lugar no submundo, entre muitas outras questões sem resposta.

A Porta de Ishtar

Contudo, toda esta história ainda não fica por aqui. A influência do culto a esta deusa e ao seu amado prolongou-se por muitos séculos, podendo ser vista no tempo dos Gregos e dos Romanos em mitos como o de Adónis. Gilgamesh rejeita-a e goza-a, apontando no seu poema épico o mau destino das paixões anteriores da deusa. O décimo mês hebraico tem o nome de Tamuz, e o facto do seu culto ter sido celebrado por mulheres que choravam a morte desse deus-pastor ainda persiste na nossa Bíblia (i.e. Ezequiel 8:14). A famosa Porta ou Portão de Ishtar, visível na imagem acima, poderá até ter sido uma representação simbólica do espaço cruzado pela deusa para descer ao submundo.

Este mito é, portanto, um dos mais famosos da história da humanidade, apesar de ser – hoje – já muito pouco conhecido. Para isso contribuiu, sem qualquer dúvida, o facto de não nos ter chegado de uma forma contínua, mas sim através de diversos escritos sem início ou fim, em que se torna muito difícil compreender a totalidade dos eventos. Aqui tentámos sintetizá-los brevemente, recorrendo às diversas fontes literárias que nos chegaram, mas não foi tarefa fácil, ficando esta espécie de conto dos dois amados parcialmente incompleta até que se possa encontrar mais informação sobre ambos…