Yin e yang (☯), origem e significado

Hoje falamos sobre a origem e significado do yin e yang. Há já algumas semanas que cá falámos sobre a criação na Mitologia Chinesa e o mito de Pangu. Nessa altura fizemos uma breve alusão a uma criação do mundo ainda mais famosa que a de esse ente mitológico, e que se esconde por detrás de um símbolo sobejamente conhecido na cultura ocidental pela sua forma, “☯”, mas conhecida no original sob o nome de taijitu, 太极图. O seu significado pode ser interpretado das mais diversas formas, mas a que nos interessa em particular, aqui e hoje, é o modo como ele se liga aos mitos da criação da China. Nesse sentido, podemos apresentar como exemplo aqui um diagrama de Zhu Xi, autor do século XII da nossa era:

Taijitu, yin e yang, sua origem e significado

É fácil dividir este diagrama em cinco sequências representativas da criação. Muito simplificadamente, e como o autor nos informa, a primeira delas, no topo, significa a substância suprema original. A segunda representa a fusão da actividade com a não-actividade. A terceira tem os cinco elementos chineses (fogo, água, terra, madeira e metal). A quarta, a fusão de tudo em masculino e feminino. A quinta tem representada a geração e transformação de tudo o que existe. Agora, filosoficamente este diagrama daria pano para as mais infinitas mangas, mas o que nos interessa, hoje, é a forma como ele representa sinteticamente um processo de criação e evolução.

Preste-se, nesse contexto, alguma atenção adicional ao segundo momento do diagrama. Ele não é mais do que uma versão do taijitu, do nosso famoso símbolo ☯, em que as duas substâncias se começam a misturar, acabando por originar os cinco elementos chineses. O que nos leva, de forma igualmente sintética, à origem e significado do yin e yang. A sua origem advém de diversas correntes filosóficas chinesas, de um momento muito específico do processo de criação e evolução. Já o seu significado pode ser resumido na simples verdade do dualismo – luz/escuridão, positivo/negativo, bem/mal, céus/terra, et al. – mas sem esquecer que ambos os princípios também têm, e devem ter, alguma parte do seu contrário, e.g. que mesmo a luz tem de ter um pouco de escuridão. A isso pode ser chamado, filosoficamente, o derradeiro poder do universo.

 

Em suma, o símbolo de yin e yang tem a sua origem na filosofia chinesa e pode até ser visto como uma representação de um instante muito particular da criação numa das muitas opiniões da Mitologia Chinesa, e que depois se foi cristalizando na nossa cultura ocidental pela simplificação de todo o dualismo que representa.

“Lisboa destruída”, um poema do terramoto de 1755

Entre os episódios mais tristes da história de Portugal conta-se, sem qualquer dúvida, o de Lisboa destruída no terramoto de 1755. O evento marcou a história portuguesa e até a de toda a Europa, com Voltaire a ter escrito um poema sobre a ocorrência e a dar-lhe algum foco (até um pouco jocoso, pensamos nós) no seu Cândido; também suscitou diversos debates filosóficos, nomeadamente em relação ao facto do terramoto ter tomado lugar no dia 1 de Novembro – i.e. Dia de Todos os Santos, domingo, quando muita gente até estava na missa – e as zonas da cidade mais associadas à prostituição terem sido poupadas; e até nos fez perder o túmulo original de Camões. Mas… na verdade, como foi o terramoto de 1755?

Lisboa destruída em 1755

Sabemos, naturalmente, que Voltaire não testemunhou a ocorrência na primeira pessoa. Mas então, quem o fez? Podem ser encontrados, aqui e ali, alguns testemunhos bem reais de toda a ocorrência, mas um dos mais interessantes que já encontrámos foi a obra Lisboa Destruída, um poema em seis cantos da autoria do Padre Teodoro de Almeida. Nos seus versos podem ser encontradas referências bem reais ao que aconteceu na cidade de Lisboa nessa altura. Podemos até dar aqui um pequeno exemplo. Face à enorme destruição da cidade, que a tornou quase irreconhecível, uma das personagens interroga-se então o seguinte:

Perco o tino. Onde estou? Que campo é este?
Tão deserto, e no meio da cidade!
Diz, amigo, pois tu bem conheceste
A Lisboa antes desta novidade.
Mas já sei onde estou. Ainda não leste
Mais funesta mudança na verdade,
Não é campo. São ruas muito estreitas
Mas de todo arrasadas e desfeitas.

Mas como sabemos se os eventos apresentados em Lisboa Destruída foram reais? Se as coisas realmente tomaram lugar como este Padre Teodoro de Almeida as pintou na sua obra? Talvez porque, em determinados momentos da sua obra, o poeta até dá mais informação, que nos parece  muito realista, sobre os eventos que cantava. Por exemplo, mais à frente no poema ele informa-nos da seguinte curiosidade, através de uma anotação aos seus versos, enquanto relata um evento muito semelhante na composição poética:

No dia 10 de Novembro, na Rua Nova da Palma, ouviu o Monsenhor Sampaio os gemidos de Maria Rosa (que assim se chamava esta donzela), e cavando achou-a abraçada a uma imagem de Santo António. Caíra ela de forma que não largou a devota imagem, que ternamente abraçava, e reparou que estendendo a mão debaixo das ruínas podia chegar a umas penduras [i.e. cachos] de uvas, de que se foi valendo naqueles dez dias, com a economia que a prudência ditava, não sabendo se seria – ou quando seria – desenterrada.

 

Será isto verdade? Será este um dos muitos eventos que tomaram lugar em Lisboa após o sismo de 1755, como tantos outros apresentados brevemente nesta mesma obra? Não temos razões reais para duvidar da informação, seja de este ou de outros episódios mencionados na obra, cujos nomes e circunstâncias dos envolvidos o autor nos faculta. Mesmo que não os tenha testemunhado totalmente ou a todos na primeira pessoa, pelo menos parece ter tido informação digna de crédito em sua posse, até porque são raríssimos os poemas que afirmam as suas fontes (reais) de uma forma tão directa e palpável.

 

Mas o que dizer deste poema Lisboa Destruída, em termos literários? Se a sua trama condutora é muito básica (e pouco interessante), há que afirmar que ela só parece servir de ligeiro pano de fundo para a apresentação consecutiva dos mais diversos episódios que foram tomando lugar aquando do desastre de 1 de Novembro de 1755 e dos dias que se seguiram. Não é, de todo, um poema belo, mas é um que oscila repetidamente entre dois grandes polos, o da destruição da cidade de Lisboa e o da esperança humana presente em todos os infortúnios. Quando se lêem momentos em que várias pessoas, aparentemente desconhecidas umas das outras, partilham pão e os breves restos de um pouco de compota que encontraram, como não relembrar essa grande capacidade humana para, em conjunto, lutar contra as muitas adversidades da vida, seja num terramoto de outros tempos ou numa pandemia dos nossos dias?

“The Neverending Story”, de Michael Ende

The Neverending Story, de Michael Ende, é provavelmente conhecida em Portugal e no Brasil por uma série de três filmes que saíram nos cinemas há já alguns anos. Conhecidos entre nós como A História Interminável ou A História sem Fim, tratam da aventura fantástica de um rapaz, Bastian Balthazar Bux, que se vê envolvido numa história que o prende entre a realidade deste mundo e a fantasia de um outro. Não iremos falar muito da história dos próprios filmes – recordamos apenas o trailer do primeiro abaixo – mas a grande questão é, como se comparam eles com o livro?

Essencialmente, o primeiro filme de The Neverending Story baseia-se na primeira metade do livro, terminando mais ou menos com o momento em que Bastian conhece a Imperatriz Menina. A trama de ambos é significativamente a mesma, salvo um excepção crucial – no livro, a segunda das personagens encontra o escritor da obra, numa sequência muito interessante em que é explicado o porquê da obra, e o filme, terem o título que têm. É provável que a sequência tenha sido cortada por motivos de tempo, mas ao mesmo tempo daria um elemento muito único ao filme.

The Neverending Story 2

O segundo filme de The Neverending Story baseia-se – mas apenas muito vagamente – na segunda parte da obra, em que Bastian ganha o poder de pedir os desejos que quiser. Se no filme, por influência de uma vilã, esse poder o vai fazendo esquecer a realidade, já no livro esse esquecimento progressivo é apenas um efeito secundário da utilização do AURYN, o pendente que o herói possui. E se, nesse sentido, a trama adaptada para o filme é previsível e tem muito pouco de inovadora, já no livro são suscitadas repetidamente um conjunto de questões filosóficas que advêm de Bastian tentar fazer o bem com os seus desejos, mas de uma forma que nem sempre resulta da melhor maneira, como quando ele dá a um herói caído em desgraça um poderoso e novo opositor com que pelejar.

 

No geral, parece-nos que o livro The Neverending Story é superior aos dois filmes (recorde-se, o terceiro já apresenta uma trama tão original quanto desapontante), mas podemos deixar uma sugestão aos leitores, que passa por lerem o livro antes de reverem os dois filmes (que provavelmente até já conhecerão da sua infância?), de forma a poderem apreciar como a história foi adaptada. Foi o que fizémos para a escrita destas linhas.

A lenda da costureira (ou costureirinha)

A lenda da costureira, costureirinha ou Maria Costureira, é uma pequena história comum em muitos locais de Portugal, mas que tem sempre alguns vectores comuns. Na verdade, ainda hoje são muitos os que atestam que ela não é sequer uma lenda, mas sim uma história bem real, que tomou lugar com eles ou com alguém que conheciam pessoalmente – ainda há meses uma idosa de 85 anos contava que tendo vivido em Manique (no concelho de Cascais), numa pequena e velha casa que hoje até já foi demolida, costumava ouvir uma costureira a praticar a sua arte (por vezes ela até deixava cair a tesoura!), noite após noite, no andar de cima – o que se torna particularmente intrigante se tivermos em conta que a casa só tinha um único piso.

A lenda da costureira

Mas abrandemos um pouco. O que diz esta lenda da costureira, costureirinha ou Maria Costureira? Essencialmente, é uma história em que uma costureira falece deixando uma promessa por pagar. Em algumas versões ela prometeu um novo manto para uma imagem de Nossa Senhora na igreja local (como no caso que nos foi contado pessoalmente), noutras propôs-se a doar a sua máquina de costura se fosse curada de uma doença (e curou-se, mas depois não cumpriu a promessa), e há até quem a associe a um vestido de noiva, feito à mão pela própria, que acabou por nunca ser utilizado.

Em qualquer dos casos, esta lenda da costureira, costureirinha ou Maria Costureira tende a terminar quase sempre da mesma forma – como na versão que ouvimos, alguém decidiu que já era altura de resolver toda a situação e pagou a promessa em falta a esta alma penada. Assim, ela partiu finalmente para o além, podendo receber o seu merecido descanso eterno… e também, como nos foi dito pessoalmente, deixando finalmente descansar quem vivia nessa casa!

 

Será verdade? Será que quem nos contou esta história estava a recordar um evento real que tomou mesmo lugar na casa em que um dia viveu? É-nos difícil ter a certeza, mas dada a prevalência de toda esta lenda em território nacional, é mais provável que tenha ouvido este relato em tempos de meninice, tenha – por mera sugestão psicológica – começado a interpretar os barulhos que ouvia como se tratando dos da história, acabando por confundir o que se estava a passar com as próprias circunstâncias de que tinha ouvido falar. “Mais provável”, sim, mas não totalmente certo…

 

[Adicionado posteriormente:]

Aparentemente, lendas como esta são até conhecidas por todo o mundo. Na imagem abaixo pode ser vista uma gravura da obra People from the Other World, de Henry S. Olcott e datada de 1875, em que é reportado que um grupo de crianças nos EUA não só a ouviu, como também a viu surgir fisicamente no quarto em que dormiam com os seus próprios olhos. Visto que a obra de Olcott é sobre o Espiritismo, e que momentos como estes são usados para provar a possibilidade “real” de aparições físicas dos espíritos dos falecidos, é certamente possível que toda a história tenha originado com o nascimento do Espiritismo, mas que depois o seu contexto original se tenha perdido ao longo dos anos.

Lenda da Costureira, parte 2

O mito de Caronte

O mito de Caronte é o de uma figura muito singular da Mitologia Grega. Filho de Nyx, a Noite personificada, este Caronte era uma espécie de barqueiro infernal, e o grande deus responsável por transportar quem falecia para o estranho mundo do pós-vida, localizado além do rio Estige. Nesse sentido, as pessoas falecidas até eram tipicamente sepultadas ou queimadas com um óbulo na boca, para que no mundo dos mortos tivessem essa importância monetária necessária para pagar o transporte.

O mito de Caronte

“Para que queria Caronte esse dinheiro?”, podiam perguntar alguns leitores. Na verdade, até é uma questão relativamente frequente. Não há um registo real do que ele fazia com os óbulos que os falecidos lhe iam entregando, até porque enquanto figura divina nada lhe faltaria em termos de posses materiais, mas é provável que se tratasse de um costume meramente simbólico – tal como os barqueiros no mundo dos vivos pediam uma moeda, ou uma espécie de gorjeta, pelos seus serviços, supunha-se que também este derradeiro navegador o fizesse.

 

Feita esta breve introdução à figura de Caronte, pergunte-se – são muito os mitos em que ele entra, enquanto figura mitológica? Existem, aqui e ali, algumas referências mais directas a esta figura. No mito de Sísifo, por exemplo, esse anti-herói volta para trás, e regressa até à vida, após não ter o óbulo necessário para pagar esta espécie de portagem. Hércules ameaçou-o com os seus punhos, quando ia a caminho para capturar o monstruoso Cérbero. Cruz-se com Psique. Surge como personagem em diversas das obras de Luciano da Samósata. E outras coisas que tais, mas normalmente limita-se a fazer o seu trabalho, sem ter uma grande influência real na trama de algum mito em específico. Por exemplo, desconhece-se que alguma vez tenha tido filhos, ou que se tenha apaixonado por uma das muitas mulheres cujos espectros foram levados no seu barco…

 

Ainda assim, se Caronte nunca teve um papel principal nos muitos mitos que nos chegaram, a sua tarefa única parece ter ficado fixada na cultura popular. Dante – a personagem, não o próprio poeta – cruza-se com ele nos inícios da Divina Comédia, e obras muito mais recentes, como A House-Boat on the Styx (de John Kendrick Bangs, autor americano de finais do século XIX), também o reutilizam como personagem. Aparece em vários filmes, quase sempre no seu famoso papel. Se não foi, em outros tempos, uma figura principal na Mitologia Grega ou nas muitas histórias dos Romanos, há que frisar que também não está de todo esquecida nos dias de hoje…