A lenda de Santos (em Lisboa)

Quem viver em Portugal, mais precisamente na zona de Lisboa, certamente que conhecerá uma antiga freguesia com o nome de Santos, que hoje já está associada à da Estrela. Já se chamou Santos-o-Velho, o que permite subentender uma existência de um outro local, Santos-o-Novo, mas de onde vêm estes incomuns nomes, e que lenda se esconde por detrás deles?

A lenda de Santos

Na imagem acima pode ser uma igreja que ainda hoje tem o nome de Santos-o-Velho. A paróquia em questão tem por oragos São Veríssimo, Santa Máxima e Santa Júlia. Diz então a breve lenda de Santos que estes três irmãos viveram nos inícios do século IV e que durante uma das perseguições de Diocleciano foram mártires naquela que é hoje a cidade de Lisboa. Os seus corpos, depois atirados ao rio Tejo, foram salvos por um barqueiro e levados, eventualmente, para um local que se viria a tornar esta igreja, que na sua forma original parecia ter apenas o nome de “Santos”, pela pluralidade de mártires que aí estavam alojados. No entanto, no século XV o rei D. João II ordenou que essas relíquias fossem levadas para outro local religioso, que então ficou conhecido como Santos-o-Novo. E depois, com o passar dos anos, os dois locais acabaram por se fundir num só, por já não fazer sentido a distinção original. E assim nasceu Santos, tal como é conhecido nos nossos dias de hoje…

Viagem (virtual) à Gruta Corícia

Nos mitos gregos existem um conjunto de cavernas muito significativas. Talvez a mais famosa de todas elas seja aquela em que Polifemo aprisionou Ulisses e os seus companheiros na Odisseia homérica, mas existem muitas outras. Por isso, para quem tiver uma certa curiosidade – mas não quiser ir fazer uma longa viagem somente para ver um antro – hoje iremos a uma delas, a chamada Gruta Corícia, que em outros tempos foi consagrada às ninfas e ao deus Pã.

O que tem esta gruta de especial? Hoje já muito pouco, até porque foram feitas escavações no local em meados do século XX, mas quem for ler as linhas de Pausânias sobre este local poderá aperceber-se de um momento sublime parado no tempo – o autor dizia que a maior parte dos dois espaços  desta caverna podiam ser vistos sem a necessidade de iluminação exterior (entenda-se archotes, tochas, etc.). Na imagem acima, quem decidir rodar a fotografia panorâmica poderá então aperceber-se de que a iluminação do local é completamente natural, propiciada quase somente pelo ângulo do sol, podendo este recinto ser visto, hoje, quase como nos tempos em que os Gregos conduziam rituais neste local. E, nesta Gruta Corícia que hoje aqui visitamos virtualmente, há uma certa magia na forma como essa constância ultrapassa os séculos…

Os Blémias e a divindade chinesa Xingtian

Já cá mostrámos anteriormente uma famosa gravura da Crónica de Nuremberga, em que podem ser vistos um conjunto de espécies que na Antiguidade e na Idade Média se acreditava popularem terras distantes. Até foi sobre elas que Santo Agostinho disse algo de muito fascinante – ele não sabia se existiam mesmo, mas a existirem, se fossem humanas só poderiam ter descendido de Adão e Eva. Recorde-se, nesse sentido, a imagem anterior:

Algumas criaturas antigas

A mais famosa destas figuras é certamente o Ciclope, com um único olho no meio da testa, mas estão aqui igualmente os Ciápodes (também conhecidos como Monópodes, com um único pé gigante, com que criavam a sombra para se defenderem do calor do deserto), um ser bicéfalo e um Cinocéfalo (ou seja, um ser humano com cabeça de cão, de que o São Cristóvão Cinocéfalo dos cristãos ortodoxos é hoje o exemplo mais famoso – uma história que fica para outro dia). Na obra original até existem mais algumas outras criaturas, mas o que nos interessa hoje é precisamente a figura que ainda não nomeámos, a segunda a contar da direita, um representante da espécie dos Blémias. Era, essencialmente, um ser humano sem cabeça, com as características faciais em pleno peito, que um qualquer autor anterior a Heródoto – a nossa primeira fonte completa que atesta a sua existência – dizia ter visto numa terra distante.

 

Isto pode levar-nos a uma questão… será que os viu mesmo, de alguma forma mais inesperada? É muito possível que sim, por estranho que isso nos possa parecer.

Xingtian

Enquanto liamos alguns mitos da China encontrámos uma história antiga associada a uma figura chamada Xingtian, que aparece representada acima num desenho do século XVII. Essencialmente, era uma figura divina que desafiou o deus supremo; este venceu-a facilmente, como não poderia deixar de ser, chegando até ao ponto de lhe cortar a cabeça. Mas, depois, algo de muito inesperado teve lugar – mesmo sem cabeça, utilizando apenas o seu peito como uma nova face, Xingtian continuou o seu combate, tal era o seu espírito guerreiro!

 

A semelhança dos Blémias com a figura deste Xingtian é muito notável, sendo até possível que tenham partilhado uma origem. Será que algum europeu trouxe esta figura da China para a Europa? Será que algum chinês teve contacto com a figura lendária europeia? Não sabemos – a tê-lo feito, seria certamente muito antes da era cristã – mas isto levanta a possibilidade de que possa ter existido uma altura, ou um mito perdido, em que os Blémias até ainda tinham cabeça – como Xingtian, também eles eram guerreiros ferozes. Claro que o caso em favor de toda esta possibilidade é todo muito circunstancial, mas pergunte-se uma coisa – será que conhecem muitas figuras sem cabeça e com a face no peito? E isso pode dizer muito…

Qual a origem e significado de “puta”?

O significado de puta é bastante conhecido em Portugal – trata-se de uma mulher promiscua, vulgo uma prostituta, alguém que vende relações sexuais por dinheiro. Porém, por mais estranho que isto nos possa parecer, em outros tempos Puta também parece ter sido uma deusa romana que presidia à poda das árvores. Só é mencionada por Arnóbio, no seu Contra as Nações, sendo provável que essa informação tenha vindo de uma famosa obra de Varrão que já não chegou aos nossos dias. Nada mais nos é dito sobre esta figura mitológica, mas – sem qualquer apoio de informação real – alguns autores parecem considerar que as sacerdotisas desta deusa se prostituíam, o que supostamente teria levado ao seu uso pejorativo ao longo dos séculos. Mas têm esses autores razão? 

Qual a origem e significado de puta?

A resposta é um ressonante “não!”, não só pela falta de informação real que apoie essas ideias, mas também pelo próprio contexto da referência na obra de Arnóbio – surge numa sucinta referência a diversas divindades, como Peta (deusa das preces), Patelana e Patela (deusas das coisas reveladas e ainda por revelar) ou Noduterense (deus associado à separação do grão), entre outros. Nada mais nos é dito sobre cada uma dessas figuras divinas dos Romanos, sendo apenas dadas por mero exemplo – o autor continua o seu argumento apontando a estranheza que é ter divindades associadas a todas as coisas – “Osílago, que dá aos ossos a sua solidez, não teria nome [se não existissem ossos]? (…) Existem deuses encarregados de coisas que ainda não foram criadas?”

Em suma, tratando-se Arnóbio de um autor cristão, se a esta deusa fosse associado um culto com contornos sexuais, certamente que isso também seria mencionado na sua obra, até para poder criticar ainda mais o Paganismo – mas nunca o é!

 

Mas então, qual é mesmo a origem e significado da nossa palavra portuguesa “puta”? Um dicionário consultado diz que esta palavra tem “origem controversa”, mas devemos apontar que em Latim até existiam as palavras putus e puta, que podiam significar “puro/pura/puras” (provavelmente num sentido de castidade) ou “homem jovem”. Faria, nesse último contexto, sentido construir o seu feminino como puta, para significar uma “mulher jovem” (ou rapariga, como dizemos em Portugal). Mas será então possível que a palavra latina, com um sentido original de uma mulher jovem e/ou casta, tenha ao longo dos séculos obtido um sentido satírico, até acabar por derivar na significação pejorativa que tem nos dias de hoje? É possível que sim – se não o sabemos com certeza absoluta, podemos é afirmar, sem quaisquer dúvidas, que o seu significado nos nossos dias não provém de qualquer culto, potencialmente sexual, de uma obscura deusa romana, como muitos dizem erradamente!

Os “Protocolos dos Sábios de Sião”

Seguindo o tema de domingo passado, por outro lado existem textos que já há muito que deveriam ter desaparecido, e um deles é conhecido por Protocolos dos Sábios de Sião, ou simplesmente por Protocolos de Sião. Claro que poderá parecer estranho que se advogue também uma censura deliberada de alguns textos, mas quem já conhecer o conteúdo desta pequena obra depressa compreenderá a razão para tal – é talvez o mais abominável de todos os textos anti-semitas que chegaram aos nossos dias, essencialmente dando a entender que existe uma conspiração judaica para controlar todo o mundo, chegando ao ponto de ter inspirado Adolf Hitler para muitas das suas acções.

Capa do original dos Protocolos dos Sábios de Sião, na versão russa

Quem for ler estes Protocolos dos Sábios de Sião – não recomendamos, é uma perda de tempo – poderá notar que se refere a uma conferência que supostamente teve lugar, e onde alguns eminentes judeus discutiram o seu plano maquiavélico para controlar o mundo – e é nesse contexto que o texto é demasiadas vezes utilizado, para justificar perseguições como as da Segunda Guerra Mundial – mas quem for ler o mesmo texto de forma crítica poderá aperceber-se que estes Protocolos dos Sábios de Sião são completamente falsos, e criados na Rússia numa altura em que se perseguiam os judeus, de forma a legitimizar, para o público mais geral, o quão justa essa perseguição era, numa espécie de horrenda bipolaridade, “são eles… ou nós!”

Como sabemos que é tudo falso? Desde conter o uso de expressões que nenhum Judeu utilizaria, até ideias e frases completamente plagiadas de fontes literárias tão famosas como as obras de Montesquieu e Maquiavel, num dado instante chega mesmo a mencionar o deus indiano Vishnu (porque o faria algum crente do Judaísmo?!), entre outras coisas que qualquer pessoa minimamente inteligente não poderá deixar de notar, só não vê essa falsidade quem não o quiser ver.

 

Estes Protocolos de Sião são, assim, uma espécie de fake news, urdida para semear o ódio perante uma dada religião, e só é pena que muitos tenham sido aqueles que no passado não conseguiram ver a verdade por detrás do documento. Há muito que deveria ter sido exposto pela grande falsidade que é, em vez de pela ilusão que foi causando ao longo das décadas…