A lenda da origem do chá

Sobre esta lenda da origem do chá… Historicamente, sabemos que o chá é originário da China, com algumas fontes puramente lendárias a darem-lhe uma origem anterior ao século XXIV a.C. Porém, se se desconhece hoje a sua verdadeira origem, existe uma lenda que a explica, associada a uma mesma figura que é conhecida na Índia como Bodidharma, na China como Damodashi e no Japão como Daruma. Normalmente, ele é um monge budista dos primeiros séculos da nossa era que, entre outras coisas, ficou conhecido como o criador do Kung Fu Shaolin. Recorde-se então este mito de uma forma muito breve, na versão japonesa:

A lenda da origem do chá

Daruma procurava atingir o Nirvana,  mas por diversas razões foi falhando repetidamente nas suas tentativas. Numa delas viveu numa caverna durante nove anos e passou (quase) todo esse tempo em meditação em frente a uma parede vazia. Um esforço tão grande estava prestes a compensar quando, inexplicavelmente, Daruma se deixou adormecer. Irritado com a sua fragilidade tão humana (tentem passar 9 dias sem dormir, quanto mais esse número de anos…), o herói arrancou as suas próprias pálpebras e atirou-as ao chão. Depois, nesse mesmo local apareceu a primeira de todas as plantas de chá, com o efeito de retirar todo o sono a quem a bebesse.

 

Não conseguimos descobrir qual terá sido esta primeira planta de que foi feita o chá, mas pela breve referência no final do mito depreende-se que tenha sido uma com notáveis propriedades soporíferas, que permitia não só a Daruma, como também aos seus companheiros monges, aguentar infindáveis sessões de meditação. Naturalmente que esta não é uma história totalmente verdadeira, até pela presença significativa de um elemento mágico, mas não deixa de cumprir a sua função essencial, a de apresentar a uma audiência de uma determinada cultura a forma como uma das suas mais famosas bebidas foi inventada.

E, para quem até nunca o tiver provado, fica a sugestão de se beber um pouco de chá nipónico com kasutera, que é uma espécie de pão-de-ló japonês baseado numa receita que os Portugueses levaram para o Japão no século XVI.

Três exemplos de mitos orientais em Dragon Ball

Já cá falámos sobre Sun Wukong, a inspiração por detrás do Son Goku da série japonesa de Dragon Ball, mas há alguns dias pediram-nos que contassemos mais alguns mitos japoneses, e portanto decidimos usar essa referência antiga para, durante os próximos sete dias, contar mais algumas histórias provindas do País do Sol Nascente.

Então, voltando ao Rei Macaco, quem for ler a Viagem ao Oeste e decidir comparar essa obra literária com a trama da série japonesa poderá encontrar várias relações notórias entre elas, mas há que deixar claro que a obra de Wu Cheng’en não tem a mesma trama que a série – na verdade, Akira Toriyama apenas se aproveitou do famoso texto oriental para alguns aspectos da sua trama, tal como reutilizou muitos outros mitos orientais. E é sobre isso que escrevemos hoje, a forma como três desses mitos influenciaram o desenvolvimento de Dragon Ball:

Goku e o dragão

Pense-se então no jovem Son Goku, tal como ele surge nos inícios da série. Entre os seus elementos mais notórios contam-se um bastão de comprimento variável e uma cauda de macaco. Se o segundo elemento nos remete facilmente para as próprias origens de Sun Wukong, o “rei dos macacos”, já o primeiro terá sido influenciado pelo Ruyi Jingu Bang, o bastão do herói original, cujas várias dimensões podiam mudar consoante os desejos e necessidades do seu portador. A história desse bastão tem uma essência bastante semelhante na série e no livro original.

 

Depois, o que dizer sobre as chamadas “bolas do dragão”, em número de sete, que concediam desejos a quem as juntasse a todas? Se não encontrámos um mito semelhante na China ou no Japão, os dragões são sinal de poder em ambas as culturas, e alguns mitos chineses indicam que um dragão poderia emprestar a sua força a quem controlasse o seu cristal – é por essa razão que os dragões chineses são frequentemente representados com uma orbe numa das garras, mas presume-se que a história de Dragon Ball não seria muito interessante se os heróis tivessem de procurar uma única bola de cristal para atingirem os seus objectivos.

 

Um terceiro exemplo, a figura de Kame Sennin, conhecida na versão portuguesa como Tartaruga Genial. Poderá ter sido baseada numa figura misteriosa que treinou Sun Wukong, cujo nome nos escapa neste momento, mas quem pensar na sua longevidade e no facto de estar sempre acompanhado por uma tartaruga poderá ser levado ao mito de uma tartaruga chinesa, de nome desconhecido (as referências que vimos chamam-lhe sempre “a tartaruga” ou “tartaruga mística”), que se dizia já ter vivido por mais de 10000 anos e que era um dos Quatro Animais Lendários, juntamente com o dragão Yinglong e o pássaro Fenghuang.

 

Como estes, existem muitos outros exemplos da influência dos mitos e lendas orientais em Dragon Ball. Não seria fácil detalhá-los a todos por aqui, mas fica aqui essa breve referência à sua existência, e se existirem interessados poderemos voltar a este mesmo tema no futuro.

O mito da Medusa

Já cá falámos bastante do famoso mito da Medusa – brincámos com um seu possível encontro com o Rei Midas, tentámos explicar porque ela era mortal (contrariamente às duas irmãs), e unimos a sua morte com o mito de Pégaso e o de Perseu. Até distinguimos entre a sua cabeça decepada e a égide de Atena, mas nunca contámos foi, em específico, o seu próprio mito, que até nos nossos dias de hoje continua a ser muito famoso.

Perseu e a Medusa

Comece-se, então, pela origem mitológica desta figura (sobre a origem da própria criatura, enquanto monstro potencial derivado da cultura hindu, também já cá falámos!) Nas versões mais comuns, ela era uma criatura monstruosa, nascida de Fórcis e Ceto (ambas divindades marinhas) e tinha duas irmãs. Contudo,  numa outra versão, que nos foi tornada famosa pelo poeta Ovídio, Medusa tinha sido originalmente uma jovem (humana) extremamente bela que foi violada pelo deus dos mares num templo de Atena; zangada com esse acto abominável, a deusa puniu a violada (em vez de, estranhamente, o possível violador – mas não sabemos se a relação sexual até foi consensual), dando-lhe a horrenda forma com que aparece nos diversos mitos.

 

Qualquer que tenha sido a origem desta figura, já só temos um famoso mito que relate o resto da sua existência, mas que implica uma alteração significativa do ponto de vista da narrativa, na medida em que é Perseu o herói da história. O futuro marido da sua mãe ordenou a este que lhe trouxesse a cabeça desta espécie de monstro como prenda de casamento. Então, com a ajuda de Atena e de Hermes, o herói encontrou a toca desta figura mitológica e cumpriu a sua tarefa – mas não foi uma tarefa nada fácil!

A morte de Medusa

Diz-nos este mito grego que esta criatura tinha até o poder de transformar em pedra todos aqueles que a olhassem directamente. Como derrotar uma criatura assim? A resposta surgiu com o auxílio dos deuses – Atena emprestou-lhe um escudo, Hades um elmo que tornava o portador invisível, e Hermes uma foice e as famosas sapatilhas aladas, sinónimo de rapidez. Depois, chegando ao local, usou o elmo para se aproximar e fitando a sua opositora só pelo reflexo num escudo, o herói fechou os olhos, virou-se rapidamente e cortou-lhe a cabeça, guardando-a numa espécie de saco. Do sangue que brotou nesse instante nasceu, famosamente, o cavalo Pégaso.

 

Toda esta grande sequência do mito pode ser vista na belíssima imagem acima, que marca a morte de Medusa e o último instante em que aparece em qualquer mito. Ou penúltimo, se quisermos associar à história o momento em que Atena tomou a cabeça decepada para si mesma e a colocou no seu escudo.

 

Mas então, o que podemos dizer de todo este mito da Medusa? É um mito que tem consequências bem visíveis na representação de Atena, como acontece com o de Hércules e o Leão da Nemeia, em que o herói passa a ser representado com a pele do monstro que venceu. O facto de a figura ter o poder de transformar em pedra todos aqueles que olhavam para a sua face, ou o auxílio de vários deuses (por oposição a apenas um, como é frequente), entre outros elementos da história, fazem deste um mito particularmente singular. E é certamente possível que a sua fama ao longo dos séculos tenha provindo disso mesmo, dessa presença de um conjunto de vários elementos invulgares no panorama das histórias da Grécia Antiga – se a história original era assim tão diferente das outras, seria difícil que as pessoas se esquecessem dela, contrastando, por exemplo, com os incontáveis mitos de transformações, como aquelas que nos chegaram em massa num famoso poema de Ovídio.

A origem da expressão “Dia de São Nunca”

Que o Dia de São Nunca [à tarde] significa pura e simplesmente “nunca” não tem muito que se lhe diga e é sobejamente conhecido em Portugal. Porém, a origem de toda a expressão – com ou sem o seu “à tarde”, que parece ter sido uma adição posterior e puramente nacional – é bem menos famosa, razão pela qual achámos que podíamos falar desse tema.

Quando teremos políticos honestos? No Dia de São Nunca...

Até há cerca de um século existiam em Portugal – como certamente em outros países – um conjunto de eventos que se regiam pelos dias dos santos. Havia bailaricos, havia um conjunto de tradições específicas para cada santo, sendo então comum que se referissem esses dias pela figura santa que tinham associados. A prática foi-se perdendo ao longo dos anos, mas ainda prevalece em algumas aldeias do norte de Portugal, e mesmo nas grandes cidades é comum associar-se, por exemplo, o Dia de São Martinho a uma celebração com castanhas e água-pé. E nesse contexto dizer-se “Dia de São Martinho” ou 11 de Novembro era precisamente o mesmo, tal como dizer “Dia de Nossa Senhora de Fátima” equivaleria a dizer-se 13 de Maio, e assim por diante.

 

Até aqui tudo bem, mas estas situações poderão gerar um problema para o leitor comum – qual é o Dia de Santo Agostinho? Ou o dia de Santo Atanásio? Ou de São Nemo? Ou mesmo esse tal estranho Dia de São Nunca, qual ou quando é? Pelas mesmas razões, será que alguém sabe qual é o dia associado a Santa Hermínia, a São Tasquízio, ao Venerável Asdrúbal ou a tantas outras figuras religiosas menos conhecidas? Naturalmente que não (!), e terá sido este problema que gerou um conjunto de figuras, falsamente santas, sem uma existência real ou um dia específico associado – veja-se, por exemplo, o São Nunca, São Nemo e o São Pisco, ou mesmo o São Glinglin francês (entre muitos outros que nos escapam neste momento)… alguns até dizem que eles, todos eles, poderão estar escondidos por detrás do “Dia de Todos os Santos”, mas é uma opinião muito pouco comum*.

 

Nesse sentido, quando alguém se refere ao “Dia de São Nunca”, ou a outro similar, está, com base na cultura dos séculos passados, a urgir-nos a consultar um calendário em busca do dia associado a esse santo. E obviamente que não existe, nunca poderemos encontrá-lo, sendo esse próprio nome do falso santo uma alusão natural a essa impossibilidade.

 

 

*- Curiosamente, numa obra literária de inícios do século XX, Folclore da Figueira da Foz, está preservada uma pequena história popular em que é dada a ideia de que este santo está mesmo contemplado entre os que são celebrados no “Dia de Todos os Santos”. Sucintamente, um homem tinha uma dívida e prometeu saldá-la no Dia de São Nunca. Posteriormente, o emprestador foi exigi-lo no dia associado à celebração de todos os santos, justificando-se com as palavras “como é de todos, lá está também o seu S. Nunca”. O devedor, incrédulo com o argumento, pagou logo a dívida!

O mito de Zagreu, o primeiro Dioniso (ou Zagreus)

Na Mitologia Grega existem algumas histórias bastante estranhas, entre as quais se conta o mito de Zagreu (ou Zagreus, como alguns preferem chamá-lo). Não é uma trama muito conhecida – na verdade, só nos parece ser contada de uma forma completa no épico de Nono de Panópolis, por volta do século V da nossa era – pelo que achámos que a poderíamos recordar:

Uma cabeça, será a de Zagreu ou Zagreus?

Numa das suas muitas aventuras sexuais, Zeus tomou a forma de uma serpente e envolveu-se com Perséfone. Então tornada grávida, a jovem deu à luz uma criança que viria a ser conhecida como Zagreu. Um dia, quando esta estava a brincar, foi capturado pelos Titãs, que o partiram em mil pedaços antes de o devorarem quase completamente – sobrou apenas o seu coração, que os deuses levaram para o Olimpo.

 

O mito poderia ficar por aqui, mas neste caso específico até tem uma espécie de continuação muitíssimo inesperada. Os deuses gregos não eram omnipotentes (como a morte de Sarpédon na Ilíada bem nos mostra), mas tinham muitos recursos ao seu dispor. Então, o pai Zeus – e deixe-se claro que esta figura não era filho de Hades, como alguns parecem pensar – decidiu reduzir a pó o coração de Zagreu, colocou-o numa bebida e deu-a a beber a Sémele, que ficou grávida. O filho de ambos viria a ser o famoso Dioniso (já cá fizemos uma breve alusão a esse mito), deus do vinho e da vinha, que na verdade era uma reencarnação do falecido Zagreu, conhecido entre alguns autores como o “primeiro Dioniso”. Por isso, esse mesmo deus teve um só pai mas duas mães distintas – ele ainda era o filho falecido de Perséfone e Zeus, mas também se torna uma figura completamente nova, nascida do ventre de Sémele pela influência divina do mesmo monarca dos deuses do Olimpo.

 

O que quer isto dizer? Em suma, que Zagreu e Dioniso são quase um só deus, duas figuras que acabaram por partilhar um mesmo corpo (aquele que nos ficou conhecido sob o nome do deus do vinho), naquele que pode ser considerado um dos eventos mais estranhos dos mitos da Grécia Antiga.