Como saber qual é a verdadeira?

A história de hoje começa com um convite pouco vulgar. Imaginem que chegam a casa e, em detrimento de lá encontrarem a vossa cara-metade, encontram duas pessoas iguais a ela. Como saber qual é a verdadeira? Claro que a ideia não é nova, ela já aparecia em romances de cavalaria da Idade Média e ainda hoje aparece em centenas de séries televisivas, mas qual é a melhor forma de saber distinguir a pessoa verdadeira de aquela que, por uma qualquer razão menos explícita, lhe copiou a forma física?

Como saber qual é a verdadeira?

Uma lenda provinda do Japão levanta esta mesma questão. Um dia, um homem, cujo nome já há muito foi esquecido, voltou a casa depois de um dia de trabalho e encontrou por lá duas cópias da sua esposa. Ele, conhecendo bem a cultura em que se inseria, depressa se apercebeu que uma delas tinha de ser uma kitsune, uma raposa mágica que copiou a forma da mulher que ele amava, mas como descobrir qual das duas era a verdadeira? Foi tentando uma e outra opção, mas durante semanas não conseguiu descobrir a resposta que procurava. Até que um dia, feliz ou infelizmente, notou que uma delas comia com as mãos em vez de utilizar pauzinhos. Face a essa divergência, e sabendo que a esposa era uma mulher muito educada (i.e. que jamais comeria com as mãos), atacou essa figura e viu-a transformar-se muito rapidamente numa raposa – e o animal fugiu do local, para nunca mais ser visto!

 

A resposta encontrada por este japonês anónimo faz um certo sentido, assemelhando-se até a diversas soluções encontradas nas muitas séries de televisão dos nossos dias, mas voltando à questão inicial, se isto vos acontecesse como é que saberiam distinguir a pessoa verdadeira da falsa? Aceitamos opiniões e sugestões para a resolução do famoso problema…

“Apuleio transformado em asno”, de Juan de la Cueva (1587)

Apuleio transformado em asno, de Juan de la Cueva (1587)

Hoje pensávamos cá trazer, finalmente, a tradução do Comentário à Eneida de Sérvio [que posteriormente lá foi publicado!], mas por diversas razões isso terá de ficar para outra altura. Em alternativa, aqui fica algo mais inesperado – há algum tempo foi-nos pedida uma tradução da obra vulgarmente conhecida como O Burro de Ouro, mas esse texto já existe em língua portuguesa, tanto de Portugal (da autoria de Delfim Leão) como do Brasil (da autoria de Ruth Guimarães).

Porém, essa mesma obra teve uma influência significativa na cultura literária ocidental. Entre os textos e poemas inspirados por ela conta-se Apuleio Convertido en Asno, da autoria do castelhano Juan de la Cueva (1587). Decidimos então traduzir esse poema para língua portuguesa, e o resultado pode agora ser encontrado aqui.

Origem da expressão “banho-maria”

Quem gosta de culinária certamente que já ouviu a expressão banho-maria. O dicionário português da Priberam define-a essencialmente como um “Líquido quente em que se mete um recipiente que contém aquilo que se quer aquecer”, como pode ser visto na imagem abaixo. Mas, afinal de contas, de onde vem esta estranha expressão?

Banho-maria

A “Maria” a que se refere o processo é uma personagem histórica conhecida como “Maria, a Judia”, uma alquimista do primeiro século da nossa era e que, supostamente, o teria inventado, numa altura em que este banho-maria ainda era conhecido como κηροτακίς, i.e. kerotakis. Se ela parece ter sido extensamente citada em texto de conteúdo alquémico, hoje pouco mais sabemos sobre essa figura, ou os seus ensinamentos, com a excepção do que está preservado num breve extracto conhecido como Diálogo de Maria e Aros sobre o Magistério de Hermes.

Faz hoje 15 anos que este espaço começou…

Bolo de Aniversário

E lá vai mais um ano. Será que, quando começámos este espaço todo esse tempo atrás, pensavamos que iríamos continuar a escrever estas linhas tanto tempo depois? Dificilmente, pelo que convém escrever umas linhas mais pessoais sobre tudo isto.

 

Há umas semanas atrás, enquanto eu falava com um famoso professor de Harvard, ele disse-me que admirava o nosso trabalho, por tentarmos trazer ao público geral um tipo de conteúdos a que, normalmente, não teriam acesso. Respondi-lhe que não consideramos que façamos nada de especial, porque o nosso objectivo é, acima de tudo, precisamente esse, o de trazer o conhecimento ás pessoas. Não há qualquer interesse, para nós, em fomentar aquela ideia – infelizmente tão comum em quem estuda temas como estes! – de um homem sábio, de longas barbas, fechado numa torre de mármore e a considerar-se melhor que toda a humanidade. Isso seria uma perda de tempo, de conhecimento, como aqueles que papagueiam que aprenderam Acádico, Copta, Grego, Latim e outras tantas línguas só para, sem nunca deixarem de olhar para o seu próprio umbigo, se dizerem muito bons.

 

Não é por isso que escrevemos, mas para fazer sorrir aquela mulher que mostra curiosidade em saber o mito do Colar de Harmonia, ou aquele desconhecido que quer descortinar o significado de uma expressão latina, ou aquele jovem que quer recomendações de livros, entre outras tantas pessoas com quem nos fomos cruzando. Fazêmo-lo porque a partilha é o acto mais natural do conhecimento – o que não é partilhado morre connosco, como dizia Séneca nas suas Epístolas Morais.

Nesse contexto, queremos agradecer a quem, ao longo dos anos, foi seguindo e segue este espaço. Apesar de nem sempre ser fácil, é para elas que vamos escrevendo, e que continuaremos a escrever, de uma forma completamente gratuita, enquanto isso nos for possível. Obrigado!