A lenda do Urso de Madrid?

Um pouco mais abaixo pode ser vista uma fotografia do chamado Urso de Madrid. A estátua original está nessa cidade espanhola, mais precisamente na zona da Puerta del Sol, mas a figura também pode ser bem conhecida no nosso próprio país, por exemplo, através da sua presença no brasão do clube de futebol Atlético de Madrid. Existe também em muitos outros lugares, sendo um evidente símbolo da cidade, mas que possível lenda de nuestros hermanos se esconde neste local?

A lenda do Urso de Madrid?

Curiosamente, e ao contrário do que acontece em cidades como Lisboa ou Sertã, não parece existir aqui uma só lenda essencial e muito bem estabelecida, uma que todos os locais conheçam e repitam para explicar a fulano e sicrano este símbolo do Urso de Madrid. Em vez disso, ele parece ter resultado de uma junção repentina de dois símbolos locais, colocados num contexto que até foi sofrendo alterações com o tempo, mas em que eles nunca abandonaram a sua forma original vista na imagem.

O primeiro deles, o próprio animal representado neste Urso de Madrid, poderá ter nascido do facto de, segundo lemos, a cidade ter tido o nome de Ursalia no tempo dos Romanos, supostamente por esses animais terem sido muito frequentes na área (hoje já não o são, para quem repentinamente estiver com essa grande curiosidade). Outra versão diz que este foi um animal caçado por um qualquer monarca espanhol (o que relembra a nossa lenda de Dom Dinis e o Urso). Uma terceira hipótese lá revela que, originalmente, a figura representada não era senão a Ursa Maior… algo que até poderá ter contribuído para uma dúvida, que ainda existe nos nossos dias de hoje, relativa ao género sexual do animal representado neste símbolo!

Já o segundo elemento, a pequena árvore presente junto deste Urso de Madrid, ela parece estar aí representada desde 1222, e supostamente é uma alusão a uma disputa, finalmente resolvida nesse ano, sobre a posse das árvores de fruto na região – fruto de séculos e séculos de revisões legais, ou pela influência de documentos como a Doação de Constantino, já não se sabia bem se elas eram propriedade da Igreja ou da cidade madrilena. Quando o rei da altura julgou em favor dos segundos, este medronheiro* passou então a fazer parte do próprio símbolo da cidade – o antigo urso, que já então os representava, passou desde então a tentar subir à árvore, como que a dizer que estas, bem como os seus deliciosos frutos, pertenciam a essa antiga Ursalia.

 

Este Urso de Madrid não é, portanto, uma figura com uma lenda associada, mas sim uma representação que existe desde inícios do século XIII e que nasceu da confluência de um símbolo da cidade com um momento muito específico da sua história. Ou, pelo menos, sempre assim o lemos e ouvimos dizer, sendo até possível que existam, hoje em dia, outras lendas modernas para tentar dar uma trama contínua a este símbolo!

 

 

*- Alguns dizem que esta árvore dava era morangos, talvez pelo desconhecimento de um facto crucial – os morangueiros são pequenos arbustos, não uma fruta que cresça em grandes árvores!

A verdade do menino nepalês linchado em Portugal

Ainda há dias aqui abordámos um tema em que a influência norte-americana estava bem presente nas palavras de António Tânger Corrêa. Não é de todo um caso único, mas porque nem todas as histórias que vamos contando têm lugar num passado remoto, decidimos aqui contar também uma que é quase dos nossos dias. Foi uma história que tomou lugar em Portugal há cerca de um mês, mas talvez seja mais correcto chamar-lhe um verdadeiro mito, pelas razões que iremos mostrar abaixo.

O menino nepalês supostamente linchado em Portugal

Há cerca de um mês apareceu em vários média portugueses uma notícia sobre uma criança de 9 anos (no 2º ciclo…), de origem nepalesa, que supostamente foi linchada numa escola da zona de Lisboa. Foi, portanto e como a própria palavra indica, atacada brutalmente por cinco colegas, enquanto que um sexto gravava toda a cena, e lhe atiravam frases de conteúdo racista e xenófobo, sem que ninguém fizesse nada. Face ao ocorrido, e mediante a fonte consultada, o tal menino apenas deixou de ir à escola, ou foi mesmo transferido para uma outra, enquanto que um dos agressores apenas foi suspenso por três dias. O que, a ser verdade, seria gravíssimo… e sê-lo-ia se não fossem umas pequenas “inverdades” no relato.

 

Primeiro, a instituição que trouxe o caso a público recusou-se a colaborar com a justiça (porque seria…?), mas depois lá veio dizer que, afinal de contas, a criança não era do Nepal (o que conveio, porque segundo se apurou não haviam crianças nepalesas com a idade reportada na escola em questão). E o tal linchamento, também vieram dizer que não foi a palavra correcta, que não foi bem assim. O tal vídeo, mediante a versão consultada, ou ia ser colocado nas redes sociais, ou foi efectivamente colocado no Whatsapp, ou até o tinha sido mas subsequentemente foi removido. A escola não sabia de nada, nem nenhum aluno tinha sido suspenso nas condições relatadas. Só faltaria sugerir-se que os atacantes eram brancos nascidos em Portugal, de classe média-alta, e portavam suásticas… mas, em termos mais reais e fazendo nossas as palavras de David Pontes, do Jornal Público, não se pode “garantir sequer que a agressão a uma criança nepalesa tenha acontecido”. Mas então, o que aconteceu mesmo em tudo isto? Há uma pista muitíssimo importante num comunicado escrito que a associação fez na altura:

Apelamos ao respeito pela privacidade da família e outras partes envolvidas, e em particular das vítimas do episódio sucedido.

Consideramos ser da maior importância uma maior sensibilização da sociedade portuguesa e um debate responsável e construtivo na opinião pública sobre estes fenómenos de violência, discriminação, racismo, xenofobia, alertando para a sua existência. É urgente, enquanto sociedade, trabalharmos juntos no combate a manifestações e comportamentos desta natureza, e na identificação de situações de risco. O nosso foco estará, sempre, no acompanhamento a pessoas migrantes em situação de vulnerabilidade e exclusão social, e estaremos empenhados na prevenção e na desconstrução de narrativas que incitam à violência dirigida a pessoas imigrantes, entre outros grupos estigmatizados.

 

Lendo-se bem o segundo parágrafo, onde apresentam alongadamente a sua missão (por contraste com a brevíssima referência ao caso), o que toda esta ideia tem de especial é tratar-se de uma estratégia muito comum em associações do género em outros países, e que normalmente indica um meio-caminho para a admissão de que o reportado é maioritariamente falso – como se pôde ver pelo que depois se veio a saber, pelo excesso de detalhes e seu carácter misteriosamente mutável, e pela adição repetida de pontos chocantes – mas foi colocado a público para publicitar a própria associação e as causas que ela defende. E a verdade é que esta associação era quase desconhecida, tinha pouca importância online, mas ao fazer passar aquela notícia sofreu uma explosão de pesquisas sobre ela, como pode ser visto na imagem ali em cima. E depois, quem vai ao site ou às respectivas redes sociais é imediatamente confrontado com a ideia de doar directa ou indirectamente para eles… muito curioso!

 

Trafulhices de uma associação

Talvez estranhando toda esta situação, numa das redes sociais uma “Paula” decidiu confrontá-los com um comunicado do Ministério da Educação, Ciência e Inovação, onde é dito que a versão que lhes foi passada pela tal associação apresentava “detalhes e contornos distintos face à informação divulgada a um órgão de comunicação social” e “não há qualquer indício de ter ocorrido um ‘linchamento’ na escola da Amadora indicada pela associação” (o sublinhado no comunicado é dela). Ou seja, afinal de contas tudo aquilo não era bem como nos tinha sido dito a todos, o que é mesmo muito curioso… porque pode suscitar uma inferência digna de nota – na realidade, só inventaria um caso com contornos falsos uma associação que conhecesse em primeira mão tão poucos casos de xenofobia em escolas portuguesas, que não tinha na altura nenhum presente para referir a um jornalista!

 

Agora, se lerem bem a mensagem da associação apresentada acima, verão que é utilizada uma palavra pouco comum na língua portuguesa, “evidências”, que vem do inglês evidence, “provas”. Isso denota que quem escreveu aquelas linhas tem uma certa cultura anglófona, em que, repita-se, mais uma vez e em especial na cultura americana, este tipo de casos são muito comuns para alavancar a importância de associações defensoras em casos de racismo. Mas, talvez pela inexperiência no uso desta estratégia, menos comum em terras de Portugal, saiu-lhes um pouco o tiro pela culatra…

 

Na verdade, a ideia por detrás de tudo isto, e conforme já muito bem relatado no livro Hate Crime Hoax, de Wilfred Reilly*, passa por trazer a público um caso muitíssimo chocante, seja ele verdade ou não, e depois encavalitar no mesmo a missão da associação, minimizando-o posteriormente enquanto ainda se o utiliza para motivos de auto-promoção. E, se fossem obrigados a dar uma resposta à Senhora Paula – que não são… – eles diriam, como é comum nos EUA, que aquele caso afinal até não foi bem como disseram que tinha sido, mas que até poderia ter sido, e que existem muitos outros que o são mesmo, e até existem vários que são muitíssimo piores que aquele (mas sem nunca dar quaisquer detalhes, fazendo sempre soar o problema muito maior do que é)! O que agora sabemos, porém, é que não existe nem menino nepalês, nem respectivo linchamento, o que é uma vergonha, tratando-se tudo isto essencialmente de uma ficção pia para chocar a audiência e cumprir o apregoado objectivo da associação.

A proverbial montanha pariu um rato, mas se uma só pessoa doou dinheiro para eles, o objectivo de toda esta estratégia publicitária cumpriu-se mesmo. E, infelizmente, é mais uma ideia trazida da América do Norte, e os grandes culpados neste caso são os nossos jornalistas, que antes de trazerem isto a público deveriam, no mínimo dos mínimos, ter verificado se o caso era credível…

 

 

*- Falando sobre este livro de uma forma breve, ele demonstra que se até continua a existir racismo nos EUA, existe um conjunto muito significativo de casos falsos que são utilizados, de forma directa ou indirecta, para tentar manipular a opinião pública. Eles vão desde falsos casos de racismo, com contornos muito semelhantes aos do caso em questão, até homossexuais que deitaram fogo aos seus locais de trabalho e culparam supostas pessoas anti-gays (e depois receberam imenso apoio por isso…), falsa “islamofobia” (a acusadora preferiu inventar falsos “brancos” que a atacaram, em vez de dizer aos pais que tinha passado a noite a beber com o namorado…), desumanos apoiantes de Donald Trump (um opositor sempre muito fácil de demonizar em determinados exogrupos…), e muitos outros casos. Em dados pontos lê-se quase como um romance, este Hate Crime Hoax de Wilfred Reilly, pelo caricato de alguns casos que relata, e em que o aqui abordado hoje pouco destoaria.

António Tânger Corrêa e algumas estranhas histórias

Há alguns dias fomos alertados para algumas estranhas histórias que António Tânger Corrêa, um candidato às Eleições Europeias, andava a contar em praça pública. Se não conseguimos confirmar a totalidade do que nos foi relatado – que ele até teria falado de extraterrestres e outras coisas que tais – em pelo menos uma entrevista, e um livro (que ainda não lemos), ele fala de uma “Nova Ordem Mundial”, da “Grande Substituição”, de uma “dramatização da pandemia”, de “controlar a população”, entre outras do mesmo género. Tudo isso pode ser visto e ouvido carregando na imagem abaixo, mas a questão que nos importa, hoje, é de onde nasceram todas essas ideias.

As estranhas histórias de António Tânger Corrêa

Por estranho que possa parecer aos Portugueses, todas estas estranhas ideias não vieram apenas da cabeça de António Tânger Corrêa. E na verdade, num contexto de globalização da cultura americana não pudemos senão sorrir um pouco com tudo isto, porque não é muito habitual no nosso país ouvirem-se falar de mitos, lendas e conspirações de outros países de uma forma tão aberta e pública. Todas essas são ideias americanas, que têm uma enorme plêiade de temas associados e que vão desde os Protocolos dos Sábios de Sião até à falsidade de uma possível ida à Lua. Infelizmente, abordar todos eles numa só publicação seria difícil, mas decidimos que podemos apresentar alguns deles de uma forma muito breve.

 

A ideia da existência de uma Nova Ordem Mundial já existe pelo menos desde o século XVIII, muitas vezes em associação com a Maçonaria. No seu cerne, toda a ideia diz que existe “alguém”, cuja identidade nunca é muito clara e vai variando, que tem um plano malévolo para controlar toda a humanidade. Pode ser o Anticristo, pode ser o condenado Donald Trump ou o “Sleepy” Joe Biden, pode ser a família Rothschild, podem ser extraterrestres ou Judeus, etc., mas o elemento sempre comum é que essa tentativa de controlo é feita através de alguma grande instituição internacional, como a Organização Mundial de Saúde, a Organização das Nações Unidas, a Cruz Vermelha, etc. Será mentira? Será verdade? Como António Tânger Corrêa, também nós preferimos ter alguma dificuldade em reconhecer quais os limites da verdade e da ficção em toda esta ideia. Mas já lá voltaremos!

 

Outra alegação que ele faz é a da “dramatização de uma pandemia”, com a intenção de “controlar a população”. Essa segunda expressão não é muito clara, mas refere-se não tanto a controlar as pessoas – em estilo lavagem cerebral… – mas a reduzir o seu número, dado os valores cada vez mais crescentes da população mundial. Também não sabemos até que ponto isso poderá, ou não, ser verdade, mas quando se pensa em mitos como o da criação do Covid, depressa se abre a ideia de que alguém poderá desenvolver armas químicas com a intenção de reduzir o número de pessoas que estão vivas hoje em dia. E isto soará estranho, sem dúvida, mas há que frisar que nos EUA já aconteceu mesmo, durante os anos de 1932 e 1972, no chamado “Estudo da sífilis não tratada de Tuskegee” (que não é qualquer teoria da conspiração, mas algo completamente factual), em que a população negra foi usada como cobaia para o estudo de uma doença, como apenas se veio a comprovar mais tarde.

 

Portanto, de uma forma muito geral… será que as coisas que António Tânger Corrêa disse são verdade, ou a mais pura mentira? Mais do que responder a isso, parece-nos importante é frisar que são ideias muito comuns nos EUA e se tratam de conhecidas teorias da conspiração desse país. Isso não implica que sejam verdade ou mentira, existem opiniões fortes de ambos os lados, mas sim que as populações locais estão familiarizadas com essas histórias e têm quase sempre alguma opinião sobre elas. Discutem-nas como entre nós se discute, por exemplo, se foi mesmo pénalti num determinado jogo de futebol, e alguns descartam-nas de forma semelhante (e.g. “tu és Benfiquista, claro que achas que foi pénalti”, “Tu és de Esquerda, claro que acreditas em Y”).

 

Em suma, claro que soa estranho ouvir falar de coisas como estas em campanhas eleitorais em Portugal, mas as ideias veiculadas por António Tânger Corrêa nada têm de muito estranho, nem foi ele que primeiro as imaginou. Nasceram de uma americanização crescente da cultura portuguesa, como já vem acontecendo há décadas, em que se conta só parte da uma história mais longa como se fosse algo completamente real e bem assente na ciência e em factos comprovados. Estranho seria é se algum partido, daqueles que apoia a fantasia da “identidade de género”, viesse falar de John Money

A lenda do Salmão da Sabedoria

De entre as lendas que fomos lendo e ouvindo de terras da Irlanda, a do Salmão da Sabedoria, também conhecido por Salmão do Conhecimento, é das mais famosas. Como tal, e visto que dela nos recordámos há alguns dias atrás, é claro que merece ser contada por cá, para quem ainda não a conhecer!

A lenda do Salmão da Sabedoria ou Salmão do Conhecimento

Diz-se que em outros tempos existia algures na Irlanda um poço misterioso, cujas águas possuíam os poderes da sabedoria, e que estava rodeado por nove grandes aveleiras. Um dia, caíram dessas nove árvores nove avelãs, que antes de serem comidas por um salmão absorveram os poderes das águas locais. Assim, o outrora comum peixe obteve para si todo o conhecimento do mundo, passando a ser conhecido pelo nome de Salmão da Sabedoria. Desconhecemos se alguma vez fez algo de especial com esses seus novos poderes, e não conseguimos encontrar qualquer fonte literária que afirmasse que sim.

Depois, um herói poeta de nome Finegas (ou “Finn Eces”) ouviu falar deste animal e decidiu procurá-lo para si. Queria consumi-lo, e assim obter todo o conhecimento que existia. Tentou capturá-lo durante sete anos, até que lá acabou por conseguir esse seu objectivo. Tendo apanhado este peixe, deu-o ao seu servo Fionn, com instruções expressas de que este deveria apenas cozinhar o animal. E ele assim o fez, num espeto, rodando-o até este parecer estar cozido… mas querendo ter toda a certeza de que o peixe já estava pronto para consumo, Fionn tocou nele ainda quente, e a gordura que caía queimou-lhe o dedo, fazendo o jovem lamber o seu próprio dedo.

Alguns momentos depois Finegas regressou e notou que havia algo de diferente no seu servo. Com algumas dúvidas, mas suspeitando do que se tinha passado, perguntou-lhe se este tinha comido o salmão. Primeiro o jovem negou tudo, mas após alguma insistência lá admitiu que tinha provado, por acidente, um pouco do animal. Em vez de se zangar, mas talvez com um pouco de desapontamento no peito, o mestre deste Fionn deixou-o comer todo o animal, e assim o jovem obteve todo o conhecimento do mundo, partindo depois para muitas outras aventuras…!

 

O que mais poderemos escrever sobre esta lenda do Salmão da Sabedoria? Há dias como estes, em que não se sabe muito bem como terminar um tema, mas algo que na nossa discussão estranhámos é o facto do peixe obter toda a sabedoria do mundo mas, aparentemente e segundo as versões que fomos conhecendo, nada fazer com isso. Terá existido uma versão, hoje esquecida, das aventuras deste estranho animal? Ou, em alternativa, terá sido uma forma da lenda original apontar que os animais simplesmente não têm forma de compreender o conhecimento? Esta conclusão parece ser a mais certa, porque se o animal possuía tanto conhecimento, como explicar que Finegas tenha sido capaz de o capturar? Mistérios…

A lenda de Rauðskinna

Rauðskinna  não é uma palavra fácil de dizer na nossa língua portuguesa, mas pode ser traduzida do islandês apenas como “pele vermelha”. É provável que o nome se tenha devido à cor da sua capa – ou, pelo menos, sempre assim o ouvimos e lemos – mas esta história de hoje, antes de mais, tem de vir com uma espécie de prefácio fulcral. Quase todos os livros de que falamos por cá foram lidos por nós, ou não os conseguiríamos apresentar devidamente. Mas, no caso específico de hoje, se até teríamos todo o gosto em ler a obra, não foi possível fazê-lo. Porquê? Porque ou nunca existiu – e já lá iremos… – ou mesmo que tenha existido, nunca foi editada e tornada pública.

A lenda de Rauðskinna

Nasceu, na Islândia do século XV, um homem que depois se tornou bispo e ficou conhecido pelo nome de Gottskálk grimmi Nikulásson. Diz-se que ele realizou muitos feitos significativos na sua vida, mas que o maior de todos eles foi a composição de um livro de magia com o título de Rauðskinna, uma obra com um carácter tão poderoso que até tornava possível conquistar o próprio Satanás. Depois, os anos foram passado e o famoso bispo faleceu, sendo ele supostamente sepultado com este livro em sua posse, aparentemente por se tratar da mais importante de todas as suas posses físicas.

 

Toda a história de Rauðskinna ficaria por aqui, não fosse o facto da obra, e os seus supostos poderes mágicos, terem atraído o fascínio das gerações posteriores, gerando diversas lendas. Provavelmente a mais basilar diz que em dada altura Gottskálk grimmi Nikulásson voltou à vida, tais eram os seus poderes místicos, e partiu para local incerto, numa altura em que este seu texto se desfez em pó. Outras, bem mais comuns, falam das mais diversas pessoas que foram tentando obter este texto para si, mas que falharam sempre nesse seu propósito, sofrendo consequências letais.

 

Se o Rauðskinna existe verdadeiramente, teríamos todo o gosto e interesse em ler essa obra, mas como frisado inicialmente isso não foi possível, nem o é actualmente. Sobre ela, restam apenas lendas e mais lendas, de quem também outrora partilhou do mesmo desejo, fazendo-nos crer que a própria existência das linhas que se atribuem a um antigo bispo das ilhas da Islândia são, também elas, a mais pura lenda e absolutamente nada mais. Mas, se estivermos enganados, se alguém até tiver uma cópia (verdadeira) da obra, teremos sempre todo o gosto em lê-la…