Documentário “The Replacement Gods”

Este documentário é anunciado como uma comparação das histórias mitológicas e dos comics às histórias bíblicas, e essa é uma ideia que, à primeira vista, até parece interessante. No entanto, o seu conteúdo é de muito fraca qualidade, levando a que seja, pensamos nós, o primeiro conteúdo a cá ser mencionado pela sua notória falta de qualidade.

De um modo geral, este documentário pode ser dividido em duas partes. Na primeira são mostradas algumas das crenças mitológicas e religiosas da Antiguidade e é estabelecido um paralelismo das mesmas com as histórias bíblicas. Isto nada teria de errado, não fosse o facto de os criadores se apoiarem na antiga ideia de que esses paralelismos tinham sido antecipadamente gerados pelo Diabo para fazer com que as pessoas acreditassem menos na mensagem de Jesus Cristo. Como se isso não fosse suficiente, está repleto de erros notórios.

Na segunda parte o documentário socorre-se então de comics americanos e filmes baseados nos mesmos, com a intenção de apoiar a ideia de que todos eles, de uma ou de outra forma, promovem uma satirização da mensagem cristã. Dizem, por exemplo, que o Batman – o herói da história, recorde-se – é um demónio, mas que o Joker/Coringa é representado de forma muito positiva. Dizem que existem ideias demoníacas e mágicas por detrás de alguns criadores de comics, etc. Isto para, no fundo, argumentarem que o grande objectivo dos comics é fazer com que as pessoas descartem a mensagem de Jesus Cristo em favor dos encantos do Diabo. O documentário até termina dizendo algo como “só existe um herói que merece a nossa admiração, o nosso salvador Jesus Cristo”, demostrando bem as intenções dos seus autores.

 

Ainda estão a ler? Mesmo que alguém até queira apoiar essas ideias, por razões que não conseguimos compreender muito bem, existe uma falha absolutamente fatal em toda a sua argumentação, que passa por apresentar toda e qualquer informação de forma descontextualizada. Seria como ler Os Lusíadas em busca de uma única frase positiva sobre os deuses pagãos e depois apresentá-la assim, totalmente descontextualizada, para dizer que Luís de Camões era pagão – absolutamente ridículo!

 

Uma busca pelos seus produtores revelou que também existe um The Replacement Gods 2, mas somente pela visualização do trailer já se compreende que defende a mesmíssima ideia, recorrendo novamente a todo o tipo de informações descontextualizadas. É, por isso, um documentário absurdo, a evitar a todo o custo, sob pena de se perderem alguns minutos da nossa vida com algo que nem diverte, nem é verdadeiramente informativo.

Origem da expressão “Chamas Hilas”, e o mito desse herói

O mito de Hilas (e Hércules) é indissociável da trama da viagem dos Argonautas. Conta-nos essa outra história que quando estes heróis empreenderam a sua demanda, numa dada altura pararam numa ilha. Hilas afastou-se, acabando por ser raptado por umas ninfas de um curso de água próximo. Hércules, que o amava, recusou-se a partir sem o encontrar, abandonando a expedição principal para partir em busca do desaparecido. Enquanto caminhava, gritou repetidamente por Hilas, mas diz a história que nunca mais o encontrou, supondo-se que, eventualmente, tenha abandonado a busca.

 

Este mito é mencionado pelos mais diversos autores, sendo difícil saber qual a sua fonte mais antiga, mas é particularmente famoso do poema de Apolónio de Rodes já mencionado asim. Nesse contexto, “Chamar Hilas” é portanto uma tarefa totalmente impossível, na qual qualquer espécie de progresso real é impossível.

Origem da expressão “Uma mão lava a outra”

Uma mão lava a outra

Sobre a origem desta expressão famosa nos nossos dias, uma mão lava a outra, ela poderá provir de Axíoco, um texto apócrifo atribuído a Platão no qual é dito que “uma mão esfrega a outra, dá e recebe”. Porém, também está intimamente ligada a uma ideia muito presente nos provérbios gregos, que nos dizem que “A cidade preserva a cidade, o homem [preserva] o homem, a mão lava a mão, o dedo [lava] o dedo”. Trata-se, portanto, de uma referência a uma espécie de troca de favores necessária à existência humana; não era tanto, como nos nossos dias, uma alusão à concessão ilegítima desses favores, mas sim uma admissão de que nenhum ser humano poderia viver sem os demais. Hoje, porém, nas culturas lusófonas ela significa algo como “tu fazes-me um favorzinho a mim, e eu faço-te outro em troca.”

 

[Adicionado posteriormente:]

Parece que a frase “A mão lava a mão: dá algo e poderás receber algo” já aparecia em fragmentos de Epicarmo de Siracusa, algumas décadas antes de Platão. Terá, então, sido essa a verdadeira origem da expressão? Até é possível, mas não temos forma de o afirmar com uma absoluta certeza.

Existe, igualmente, uma expressão caracteristicamente portuguesa, antiga, que diz “uma mão lava a outra e as duas lavam o rosto”, e que enfatiza ainda mais o facto de uma troca de favores mútua beneficiar todos os seus envolvidos…

Sobre o filme “Thor: Ragnarok”

Fomos ver o filme “Thor: Ragnarok” há alguns dias atrás e deixamos aqui uma breve referência. Cuidado, contém alguns pequenos “spoilers” relativamente à história do filme!

A mitologia nórdica, contrariamente à grega e latina, tem um final dos tempos há muito anunciado. Já disso cá foi falado há muitos anos (ver aqui), e somente pelo título poderíamos assumir que o filme falaria dessa derradeira aventura. E, de facto, Odin até relata a famosa profecia, mas depois o filme faz muito pouco com ela. Claro que se trata de um filme baseado num comic americano, não é – nem se supõe que queira ser – baseado nos mitos nórdicos, mas se pretendiam usar uma palavra tão emblemática no título, parece-nos que poderiam ter feito muito mais com o tema. O Ragnarok até ocorre, mas fica muito aquém das expectativas, e os heróis acabam por evitar consequências piores, contrariando todas as expectativas de quem conhecer os mitos. Contudo, visto que é, repita-se, baseado nos comics americanos e não nos mitos originais, é um filme relativamente bom, que até dá para rir em alguns momentos.

 

Deixamos um exemplo que apesar de ter pouco peso na trama, nos pareceu invulgar. Quando Thor primeiro chega a Asgard, tem a oportunidade de ver breves instantes de uma peça de teatro, “A tragédia de Loki de Asgard”, uma reimaginação de um evento que, se a memória não nos engana, teve lugar num filme anterior. A sequência não ocupa muito tempo da trama, mas leva-nos à ideia de que existem temas que, pela sua beleza, só podem ser captados no teatro – era a morte de Loki, mas também podia ser uma representação, por exemplo, das desventuras de Édipo ou as façanhas de Aquiles.

 

Em suma? Este filme merece ser visto por quem estiver interessado nos respectivos comics, mas muito pouco tem da mitologia nórdica (o que, dadas as especificidades, não pode ser visto como um defeito).

O significado da “Vingança de Neoptólemo”

O significado da Vingança de Neoptólemo começa aqui um período de algumas semanas em que irão ser abordados, mais consistentemente, alguns provérbios da Antiguidade que, em grande parte, ainda são usados em Portugal nos nossos dias (se alguém souber do uso destes provérbios no Brasil, por favor deixe algum comentário a indicá-lo). Se a “Vingança de Neoptólemo”, ou Neoptolemi vindicta, nem é um deles – de facto, pensamos que poucos ainda saberão a história desse herói – pareceu-nos que nada melhor do que um mito e um provérbio a ele associado para iniciar toda a sequência.

Na imagem acima pode ser vista uma das versões da morte de Príamo, segundo a qual este rei teria sido agredido até à morte com o corpo do próprio neto. Como se esta cena não fosse suficientemente horrenda (de facto, não ocorre tão cruelmente em nenhuma das fontes literárias que nos chegaram), Neoptólemo ignora todos os pedidos de clemência do rei e mata-o sobre o altar de um deus (frequentemente Zeus, mas varia). Tal abominação não poderia ficar sem uma qualquer espécie de punição divina. Por essa razão, quando mais tarde o mesmo herói foi a Delfos, acabou por ser morto da mesma forma que tinha morto Príamo, no altar do deus Apolo – a identidade do seu assassino já parece divergir, sendo um dos mais famosos provavelmente Orestes.

 

A “vingança de Neoptólemo” remete-nos então para uma ideia central do mito – que o culpado de um crime grave possa vir a sofrer na pele esse mesmo crime.