O significado da Bhavacakra budista

A Bhavacakra é um daqueles símbolos budistas, em particular da sua forma tibetana, que são muito pouco conhecidos em Portugal. Talvez seja mais correcto é dizer-se que esta religião em si mesma é pouco conhecida em Portugal – relembre-se, por exemplo, o caso da Sapataria A Deusa – e é por essa razão que decidimos escrever estas linhas de hoje, pelo facto do símbolo a que as dedicamos, também conhecido como a “Roda da Vida”, captar de uma forma interessante parte das crenças dessa religião. Ele é representado de diversas formas, umas mais coloridas que outras, mas os seus elementos essenciais parecem manter-se sempre no número de sete, como assinalado abaixo. E é sobre os seus significados que se escrevem estas linhas:

O significado da Bhavacakra budista

1– Ao centro podem ser vistos três animais, que são um porco, uma cobra e uma espécie de pássaro; eles representam, de uma forma metafórica, a ignorância, a raiva e o apego ao mundo físico, como os três “venenos” que se acreditava afastarem as pessoas da mensagem budista.

2– O segundo círculo, aqui com algumas pessoas a caminharem ajoelhadas e outras em pé, cada qual no seu semicírculo, tem representado os resultados do karma; as primeiras são as que praticaram boas acções em vida, enquanto as segundas fizeram o seu contrário.

3– O terceiro círculo, aqui dividido em seis partes, tem uma representação sucinta dos seis mundos em que as pessoas podem renascer. Falar de cada um deles em grande detalhe seria difícil, mas na secção de baixo podem ser vistos os reinos “maus” (o dos animais, dos fantasmas, e o da existência infernal), enquanto na de cima estão os “bons” (o dos deuses, dos semideuses, e o dos humanos).

4– O quarto círculo tem representado as 12 razões simbólicas que afastam as pessoas de uma existência melhor. Seria aqui também difícil explicar o seu significado individual, mas entre elas contam-se o apego aos desejos do corpo, os novos nascimentos e a própria morte.

5– Já fora dos círculos pode ser vista uma figura monstruosa, que uns dizem ser Mara, a tentadora, e outros Yama, deus dos mortos. A sua presença pode ser justificada pelo papel de ambas as figuras em todo este ciclo.

6– No canto superior esquerdo pode ser visto ora a lua (aqui representada com o Coelho Lunar), ora uma estrutura com o mesmo significado – o de um escape a toda esta roda da existência.

7– Finalmente, no canto superior direito pode ser visto o fundador do Budismo, que com uma das suas mãos aponta para a lua, como que a dizer que só pelos seus ensinamentos o escape da roda da existência pode ser atingido.

 

Este símbolo da Bhavacakra é, portanto, um símbolo budista de especial importância no Tibete e em algumas partes da Índia, e ele capta essencialmente um conjunto de crenças dessa religião. Elas são fáceis de reconhecer pelos crentes locais – como o são, por exemplo, entre nós as representações das “Estações da Cruz” – mas para quem desconhece todo o seu contexto, como é o caso da maioria dos Portugueses, nem tanto, e foi mesmo daí que sentimos ser interessante uma sua breve explicação como a acima, pelo menos para quem queira aprender algo de totalmente novo.

As lendas de João Tição e Gil Fernandes

Hoje, optámos aqui por falar de duas lendas, as de João Tição e Gil Fernandes, devido a uma grande, mas bastante estranha, semelhança que apresentam. Qual delas terá aparecido primeiro? Será que um deles, conhecendo a história do outro, nela se inspirou para as suas acções? É provável que nunca o venhamos a saber, que jamais possamos vir a ter essa completa certeza, e face ao problema decidimos aqui contar ambas e deixar que os leitores formulem as suas próprias conclusões. Vamos a isso!

A lenda de João Tição e Gil Fernandes

Começamos então pela lenda de Gil Fernandes, apenas e somente pelo facto de ela ainda ser bastante conhecida nos nossos dias de hoje. Ela pode ser vista representada na imagem acima, referente ao município de Elvas, na forma de um cavaleiro com uma bandeira na mão. Diz então a lenda por detrás desta representação que numa dada altura da história de Portugal os Castelhanos invadiram o nosso país e roubaram uma das nossas bandeiras, o que na altura representava um enormíssimo insulto. Este herói elvense, movido pela honra, decidiu então ir a terras de Castela, recuperar a bandeira, e trazê-la de volta sem qualquer apoio de mais ninguém. Tal pensou, e da mesma forma o fez… e com bastantes dificuldades conseguiu obter a bandeira, sim, mas no seu caminho de retorno de Badajoz viu que muitos inimigos o estavam a seguir.

Correu, correu, correu sem cessar no seu cavalo, mas quando lá voltou a Elvas notou que os seus companheiros não podiam abrir as portas da cidade sem se colocarem a si mesmos em perigo. Face a isso, atirou a bandeira para o interior da fortificação e combateu com os Castelhanos, com os muitos inimigos, que o seguiam até à sua morte. Morreu, claro está, mas em prol da pátria e protegendo os ideais em que acreditava, e por essa razão a sua figura e as suas acções foram imortalizadas na história desta cidade de Elvas, como já pôde ser visto na imagem ali de cima.

 

Antes de qualquer comentário, conte-se então também a história de João Tição. Diz ela que numa dada altura da história de Portugal os Mouros roubaram uma das nossas bandeiras, o que na altura representava um enormíssimo insulto. Este herói de Trancoso, movido pela honra, decidiu então ir a terras dos seus adversários, recuperar a bandeira, e trazê-la de volta sem qualquer apoio de mais ninguém. Tal pensou, e da mesma forma o fez… e com bastantes dificuldades conseguiu obter a bandeira, sim, mas no seu caminho de retorno viu que muitos inimigos o estavam a seguir.

Correu, correu, correu sem cessar no seu cavalo, mas quando lá voltou a Trancoso notou que os seus companheiros não podiam abrir as portas da cidade sem se colocarem a si mesmos em perigo. Face a isso, João Tição atirou a bandeira para o interior da fortificação e combateu com os Mouros, com os muitos inimigos, que o seguiam até à sua morte. Morreu, claro está, mas em prol da pátria e protegendo os ideais em que acreditava.

 

Agora, quem prestar atenção a estas duas lendas, supostamente as de João Tição e Gil Fernandes, verá que têm bastantes semelhanças. Elas são tantas, de facto, que fazendo um bocado de batotice optámos até por contar a segunda com quase as mesmas linhas de texto que a primeira. Não sabemos qual das duas nasceu primeiro – a primeira, por mencionar os Mouros, ou a segunda, por se mostrar (hoje) mais famosa, apesar de já mencionar Castela – mas os seus contornos parecem semelhantes demais para esta se tratar de uma mera coincidência.

Qual das duas veio primeiro? Deixamos ao critério do leitor, já que ambas nos representam um herói disposto a tudo pelo orgulho e honra da sua pátria, e que chega ao ponto de perder a própria vida para defender o que lhe parece correcto. Seja o seu nome Gil Fernandes, João Tição, ou algum outro, esta é uma lenda que, em outros tempos, provavelmente terá inspirado os nossos cavaleiros a feitos grandiosos…

A origem da reparação pela escravidão

Há já alguns dias a estapafúrdia ideia de reparação pela escravidão reentrou na cultura portuguesa. Aos comuns mortais esta poderá parecer uma ideia completamente parva – ou, como uma idosa até nos disse, “então e as coisas que deixei em Angola? Quem me vai pagar isso a mim?” – pelo que achámos que poderíamos dedicar algumas linhas ao tema, ou mais especialmente à sua origem.

O tema da Reparação pela Escravidão

Desde os tempos da Antiguidade que existiu uma “tradição” na qual os vencedores das guerras recebiam uma espécie de tributo dos vencidos, destinada essencialmente a compensá-los pela destruição e problemas causados. Parte da ideia ainda se mantém nos dias de hoje – relembre-se, por exemplo, a reparação paga pela Alemanha no final da Primeira Guerra Mundial, uma das razões contribuintes para a Segunda – mas tem maior expressão em dois países de língua inglesa, a Inglaterra e os Estados Unidos da América. O primeiro caso é fácil de explicar, deriva do imponente império ultramarino outrora detido pelos Ingleses, mas o segundo merece algumas explicações adicionais.

 

Mais ou menos entre os anos de 1861 e 1865 teve lugar a chamada Guerra Civil Americana, entre a União (também conhecida como “O Norte”) e os Confederados (ou “O Sul”), com uma das grandes questões entre as duas facções a ser a da escravatura. Os primeiros estavam contra ela, mas os segundos apoiavam-na por diversas razões. Quando essa guerra foi ganha pelo Norte, surgiu então a ideia do Sul pagar a tal reparação, num acto não só a ser pago aos governos (como era habitual até então), mas também a cada ex-escravo, sendo-lhes prometido para o futuro a sua parcela substancial de dinheiro e/ou terras… algo que nunca veio a acontecer, mas que é repetidamente mencionado na cultura americana até aos nossos dias, nomeadamente quando algum candidato a um cargo político quer colocar os afroamericanos do seu lado, como se colocava tradicionalmente uma cenoura em frente a um burro.

Caso isto ainda não vos pareça um tanto ou quanto estranho, frise-se que numa das mais recentes promessas – e nunca passam mesmo disso, de meras promessas – se propunha garantir a cada americano de pele escura, apenas e exclusivamente em função dessa cor, um milhão de dólares! Mais estranho, só mesmo o facto de algumas universidades e empresas dos Estados Unidos da América privilegiarem candidatos apenas e somente pela cor da sua pele… o que, para nós, Europeus, seria um exemplo de racismo da pior espécie.

 

Assim, quando ainda se insiste na ideia de uma reparação pela escravidão, ela tende a vir desse contexto americano e da proliferação da sua cultura pelo mundo fora através de filmes e séries. Para que se entenda o absurdo de toda a situação, basta pensar-se da seguinte forma – já viram como seria se tivessem um terreno e, um dia, alguém vos viesse dizer que há 300 anos atrás um vosso familiar roubou um metro quadrado de terreno ao vizinho, e agora um descendente dessa pessoa quer receber o pagamento – com juros – pelo usufruto do local? Certamente que, mesmo com a presença de provas, vocês não poderiam senão rir-se! Mas, ainda assim, esta é uma ideia repetida que tende a surgir a público ora quando se pretende influenciar um certo segmento da população (como é muito comum nos EUA), ora quando se pretende distrair as pessoas de outras questões bem mais importantes (como aconteceu em Portugal há alguns dias atrás). E pergunte-se, quem não gostaria de receber dinheiro grátis só por serem quem são?!

A lenda da Penha dos Namorados (em Espanha)

Se o nome de Penha dos Namorados não é pouco vulgar, a lenda que aqui contamos hoje provém de Espanha, de um local próximo da cidade de Antequera. É uma história oral de génese medieval, que foi passando de boca em boca até primeiro ter sido posta por escrito no século XV. Reencontrámo-la entre os escritos de Andrea Navagero, que a resume com as palavras que traduzimos abaixo:

A Lenda da Penha dos Namorados

Aproximadamente a metade do caminho entre Antequera e Archidona passa-se junto de um monte muito áspero, chamado a Penha dos Namorados. O seu nome vem de dois apaixonados, um cristão de Antequera e uma moura de Archidona, os quais, tendo vivido escondidos muitos dias naquele monte sem ser encontrados, finalmente o foram, e vendo que não podiam escapar sem ser capturados, nem podendo suportar que os separassem para viverem um sem o outro, decidiram morrer juntos, e encurralados na penha mais alta do monte, após muitas lágrimas e lamentos pela sua má fortuna, vendo-se os perseguidores já muito próximos, abraçaram-se com carinho e, unindo os seus rostos, precipitaram-se da altíssima penha, dando assim nome ao monte.

Esta é, portanto, uma lenda de paixões entre Mouros e Cristãos, muito comuns até do nosso lado da fronteira (lembrem-se, por exemplo, as Mouras Encantadas, uma das de Almourol, e assim por diante…), cuja trama levou ao nome do local. Não sabemos, nem se conseguiu descobrir, até que ponto a lenda terá algum fundo de verdade – e, de facto, até a sua versão mais antiga afirma desconhecer o nome do herói, sabendo apenas que ele era natural de Espanha – mas o facto consumado é que o local já tinha este nome na Idade Média e já era justificado com a história acima.

 

Mas… mesmo assim, um outro mistério paira sobre esta Penha dos Namorados espanhola. Quem prestar atenção ao local poderá notar que ele tem a forma de um rosto quase humano. Será uma espécie de gigante de outros tempos? Será que também essa forma humana tem algum lenda associada? Neste caso específico, e muito curiosamente, a resposta parece ser completamente negativa – é provável que a lenda acima, em virtude da sua grande fama, tenha impedido a formação de outras histórias igualmente associáveis ao local, e então o rosto quase humano lá assim permanece, sem um relato que o possa explicar, pela sua forma secundária em relação aos amores medievais de dois jovens de religiões diferentes…

O mito do Nurikabe

O Nurikabe conta-se entre um conjunto de criaturas mitológicas do Japão que, colectivamente, são conhecidas por yokai. Já cá falámos de algumas delas antes, como o Amabie (que protege contra o Covid-19), a famosa Kitsune, ou os Tsukumogami, mas também existem muitas mais, ao ponto de ser difícil detalhar todas elas apenas num breve punhado de linhas. Ainda assim, os tais yokai podem ser divididos em duas grandes categorias – na primeira seriam colocadas as criaturas para as quais existem verdadeiras lendas, muitas vezes em número considerável; enquanto que na segunda se poderiam apresentar aquelas cuja existência apenas pode ser inferida de manuscritos ilustrados nipónicos, talvez por se tratarem de figuras que apenas existiam na imaginação popular, como a nossa Cuca ou Coca portuguesa. A criatura a que dedicamos as linhas de hoje teria, necessariamente, de cair nessa segunda categoria.

Assim, o Nurikabe não é nem mais nem menos que uma espécie de parede personificada. Não conseguimos encontrar nenhuma história em que esta criatura tenha uma intervenção real, directa, ou em que fale com alguém, mas é frequentemente representada como invisível – ou, pelo menos, com uma forma em que a sua presença nunca é detectada – e capaz de impedir o progresso físico de alguém que se desloca para algum lado. Ou seja, se estiverem a passear em algum lado e, de repente, seja por meios físicos ou psicológicos, sentirem que não é uma boa ideia continuar por esse caminho, na cultura tradicional japonesa existiam algumas pessoas que atribuíam esse curioso sentimento a uma criatura, aquela a que dedicamos as linhas de hoje.

Infelizmente, pouco ou nada mais alguma vez nos é dito sobre ela. Existem pelo menos duas representações significativamente distintas para a sua figura – aquela que apresentámos ali em cima, e uma em que se assemelha ao cão-dragão de The Neverending Story – mas com excepção de toda a ideia por detrás desta criatura bloquear os caminhos dos viajantes, as fontes consultadas mais nada alguma vez nos dizem sobre ela… e não é, aparentemente, por falta de interesse dos autores desses manuscritos, mas apenas e somente porque nas épocas em que estes “bichos” começaram a ser representados, a história por detrás de cada criatura era demasiado secundária face à sua própria ilustração. E isso levou a todo um conjunto de seres que não podem deixar de nos intrigar (fica prometido que voltaremos a esse tema um outro dia), mas sobre os quais, pela própria natureza das fontes em que constam, os próprios mistérios são apenas naturais.