Livro “Women of the Classics”

Agora disponível online gratuitamente, este livro em inglês conta a história de algumas das mais famosas mulheres dos mitos gregos e latinos, figuras como Helena (de Tróia), Penélope, Cassandra, Alceste, Medeia ou Dido. Está ilustrado com algumas belas “fotogravuras”, mas também conta a história destas personagens com recurso a textos simples e citações das obras traduzidas em inglês. Fica a referência.

A resposta de Cássia

Cássia foi uma poetisa bizantina que viveu por volta do século IX. Antes de se dedicar a uma vida religiosa era conhecida pela sua enorme beleza, e até esteve para casar com o Imperador Teófilo; é desse possível casamento que surgiu a resposta aqui relatada.

 

Conta então a história que quando era jovem Cássia foi levada a um desfile de noivas (essencialmente, uma espécie de exposição em que diversas mulheres eram colocadas em frente a um imperador, escolhendo ele com quem queria casar), e o jovem Teófilo ficou instantaneamente cativado pela sua beleza. Aproximando-se dela, disse “de uma mulher vieram as piores coisas” (referindo-se a Eva e ao episódio do fruto proibido), ao que Cássia rapidamente respondeu “E de uma mulher vieram as melhores coisas” (referindo-se a Maria, mãe de Jesus). Foi essa resposta ágil que de alguma forma ofendeu o imperador, ao ponto de este então escolher uma outra esposa em detrimento da bela Cássia.

 

Apesar de curta, esta é uma história que muito nos pode dar que pensar a vários níveis. Que lições retirariam dela?

“Timárion”, o homem que morreu por engano

Segundo esta história Timárion era um homem como nós. Um dia, ao vir para casa depois de um festival religioso cristão, sentiu-se mal, adoeceu e apesar dos esforços dos médicos da altura, durante essa sua viagem de regresso a casa acabou por morrer, mas… somente por engano.

 

Como será isso possível? Bem, é essa a trama desta obra impossivelmente atribuída a Luciano da Samósata. Segundo ela, quando Timárion estava doente pareceu perder toda a sua bílis, que se pensava ser um dos quatros elementos necessários à vida, e então as figuras incumbidas de levar os mortos para a sua morada final apoderaram-se da sua alma, levanda-a para o devido julgamento no reino de Hades. No entanto, estavam erradas – este herói, afinal de contas, não tinha perdido a sua bílis, mas algo que apenas se assemelhava a esta, gerando a confusão que levou à sua morte.

Timárion é então defendido em tribunal por um antigo conhecido, ganha o seu caso (mostrando que este não era um tribunal português, onde absolutamente nenhuma prova de vida o traria de volta), e é levado de volta ao reino dos vivos, onde depois reconta a um amigo tudo aquilo que viu durante o seu tempo de suposta morte.

 

Este é um texto interessante, muito provavelmente do período bizantino, que goza um pouco com outras concepções do mundo dos mortos, adicionando-lhes também alguns elementos cristãos. A visão que apresenta é até consistente com a das sátiras de Luciano, mas muitos são os elementos que tornam impossível essa sua autoria. Como este nem é um texto muito longo, fica o convite para que seja lido por todos aqueles que queiram uma leitura menos vulgar.

A “carta de Aristeias”

Esta Carta a Aristeias, também conhecida por Carta a Filócrates, foi escrita por volta do século II a.C. , e vários são os aspectos que a tornam importante. É, por exemplo, nela que é feita a mais antiga das referências à Biblioteca de Alexandria, em relação à qual nos é dito que um tal Demétrio de Faleros foi incumbido da compilação de documentos para o espaço. Entre muitas outras obras ele necessitava dos textos sagrados judaicos, e é essa imprescindibilidade que tem o papel principal nesta epístola.

São aqui feitas algumas descrições de alguma importância, e é depois descrito o processo como 72 tradutores (seis elementos de cada uma das 12 tribos judaicas) são incumbidos de fazer a primeira tradução dos textos hebraicos para o grego, originando a edição a que, em memória dos seus tradutores, ainda hoje chamamos Septuaginta.

 

Se estas informação basilares são relativamente conhecidas, a segunda parte do mesmo texto nem tanto o é. O rei do Egipto, tendo então todos esses 72 sábios judaicos na sua corte, decide fazer-lhes algumas perguntas, às quais todos eles respondem demonstrando a sua sabedoria de Deus e do mundo. A um deles é perguntado o que é melhor na vida, ao que ele responde:

Saber que Deus é o Senhor do Universo, e que no melhor que fazemos não somos nós que atingimos o sucesso mas Deus, que pelo seu poder realiza todas as coisas e nos leva ao nosso objectivo.

 

A outro é perguntado qual a verdadeira marca da piedade:

Perceber que Deus trabalha constantemente no Universo e conhece todas as coisas, e que nenhum homem que aja injustamente e com maldade pode escapar à Sua atenção. Como Deus é o benfeitor de todo o mundo, também tu deves imitá-Lo e não cometer ofensas.

 

A um terceiro é perguntado em que circunstâncias devemos sentir mágoa:

Nos infortúnios que se abatem sobre os nossos amigos, quando vemos que são prolongados e irremediáveis. A razão não nos permite sentir mágoa por aqueles que estão mortos e livres do mal, mas todos os homens sentem mágoa em relação a eles porque pensam apenas em si próprios e no seu próprio proveito. É apenas pelo poder de Deus que podemos escapar a todo o mal.

 

Muitas outras questões desta natureza são postas neste texto, algumas mais interessantes que outras, mas certamente que nos levam a pensar na ideia de que, mesmo passados todos estes séculos, as preocupações da humanidade ainda se parecem manter muito semelhantes, com estas respostas judaicas a serem muito semelhantes às dos teólogos cristãos modernos. É, mais do que a breve história da criação da Septuaginta, talvez essa a grande lição a retirar deste texto.

Porque Moisés tem cornos na estátua de Miguel Ângelo?

Sobre os cornos de Moisés presentes numa estátua de Miguel Ângelo, a que também poderíamos chamar chifres, no Livro do Êxodo, passagem 34:29 (e na tradução “João Ferreira de Almeida Atualizada”), é dito então o seguinte:

Quando Moisés desceu do monte Sinai, trazendo nas mãos as duas tábuas do testemunho, sim, quando desceu do monte, Moisés não sabia que a pele do seu rosto resplandecia, por haver Deus falado com ele.

 

Nada de particularmente invulgar teria esta passagem, não fosse o facto de diversas traduções dizerem que a face de Moisés passou a ter cornos após este incidente, expressão que tende a sobrepor aquela que aqui foi apresentada em negrito. Poderia, diriam certamente alguns, ser só mais um erro de tradução, como tantos outros que temos na nossa Bíblia, não fosse o facto de Miguel Ângelo assim o ter representado numa famosa estátua ainda hoje presente no Vaticano, em que Moisés tem cornos.

Os cornos de Moisés de Miguel Ângelo

Este erro parece ter surgido da tradução do Antigo Testamento feita por São Jerónimo, na qual uma só palavra – como tantas outras nessa sua edição! – foi mal transposta do Hebraico para o Latim, tornando uma face “iluminada” numa “com chifres”. Por isso, e como sempre, cuidado com as traduções!