“Europa”, de Mosco

Entre os poucos trabalhos que nos chegaram da autoria de Mosco conta-se Europa, um pequeno poema sobre o rapto da famosa princesa. De uma forma muito básica pode ser dividido em três momentos – um sonho profético que surge a Europa; esta e duas amigas colhem flores num campo, encontrando um dócil touro; a princesa monta-o, começando este a dirigir-se por mar para um local que posteriormente vimos a saber tratar-se de Creta.

Se este poema nem é muito complexo (é possível lê-lo em menos de 5 minutos, estando uma tradução inglesa disponível aqui), cada um dos seus momentos é detalhado com alguma profundidade, dando algum charme inesperado a toda a composição.

“Defesa de Palamedes”, de Górgias

O mito de Palamedes já aqui foi falado há algum tempo. Nessa altura foi referido que o herói se viu “acusado de (falsa) traição”; é dessa acusação precisa que Górgias o defende nesta Defesa de Palamedes, apontando alguns argumentos que o filho de Náuplio poderia ter usado em seu favor. As provas que utiliza são bastante razoáveis, de um ponto de vista retórico certamente que poderiam ter convencido os líderes dos gregos a absolvê-lo de quaisquer culpas, mas devemos ter em conta que, como sabemos através do respectivo mito, os seus opositores não eram imparciais, algo que certamente contribuiu para o desfecho do episódio.

 

Contudo, este é um texto simples e fácil de ler, apesar de só poder ser totalmente compreendido por aqueles que conheçam bem as acusações de que Palamedes foi alvo, visto que Górgias só se refere a elas de uma forma subetendida e, evidentemente, para delas se defender.

Era Héracles homossexual?

Era Héracles homossexual? É uma de aquelas questões que são colocadas muitas vezes, seja em relação a esta figura da Mitologia Grega ou a um outro herói, Aquiles. Mas, face a todo o contexto de todos os mitos de Héracles, poderia parecer-nos que as preferências sexuais do herói fossem bem conhecidas, mas Ateneu, no seu 13º livro, leva-nos a uma ideia intrigante: segundo ele, um Diotimo (hoje desconhecido) escreveu uma Heracleia, na qual Euristeu e este filho de Zeus eram amantes, tendo o segundo empreendido os seus famosos trabalhos para agradar ao primeiro – um Héracles homossexual?!

Tendo em conta que esta informação aparece inserida num conjunto de referências a pares semelhantes e que o autor dá referências bibliográficas para cada um deles, torna-se fácil concluirmos que esta era a opinião de um só autor e que, como pode ser visto através da mesma sequência no texto, não representava a opinião de nenhuma maioria.

São conhecidas várias relações do herói com mulheres, este também teve vários filhos, e se existem algumas referências à relação (não necessariamente amorosa) desta figura com Iolau ou Ílas, entre outros, é provável que a opinião de Diotimo seja exclusivamente isso mesmo, uma opinião de um só autor, até porque a obra que lhe é atribuída não nos chegou, dificultando a tarefa de averiguar em que medida Euristeu e Héracles até poderão ter tido alguns episódios de paixão.

Édipo e o enigma da Esfinge

Édipo e o enigma da Esfinge

Um dia, às portas da cidade de Tebas, um misterioso jovem encontrou-se frente-a-frente com um horrendo monstro. O nome do primeiro era Édipo, e a segunda era a Esfinge. Agora, este podia ser um confronto mitológico como tantos outros, mas em vez de o atacar fisicamente, a Esfinge propôs a Édipo que este resolvesse um enigma, aquele que nos ficou conhecido apenas como Enigma da Esfinge, sob pena de ser devorado, caso a sua resposta estivesse erradas. O enigma colocado a Édipo mantém-se famoso nos nossos dias e aparece nos mais diversos livros e programas de televisão, mas na Antiguidade parecem ter existido diversas versões desse enigma que lhe foi colocado pela Esfinge. A de hoje provém de um autor pouco conhecido chamado Asclepíades, que faz a Esfinge dizer estas palavras ao heróico Édipo – Com dois e quatro e três pés sobre a terra, tem uma só voz, e de entre todos aqueles que existem na terra ou no ar ou no mar só ele muda de forma. E quando é suportado em três pés, a força dos seus membros é mais fraca.

 

A resposta ao enigma é sobejamente conhecida – trata-se do homem – mas esta versão permite-nos, essencialmente, notar que a versão mais famosa e mais simples do enigma não era a única que existia, estando provavelmente a resposta, bem como parte do enigma (a referência aos 2, 3 e 4 pés), muito bem assente na trama mitológica que opunha Édipo à Esfinge.

O mito de Baubo

Esta sucinta história do mito de Baubo é-nos recapitulada por Clemente de Alexandria, procurando esse autor cristão com ela demonstrar aquela que considerava ser a enorme e constante imoralidade das fábulas e lendas pagãs. Porém, pelo facto de ainda existirem múltiplas estatuetas antigas representando Baubo, sabemos que pelo menos parte da trama é muito anterior a esse autor do século II da nossa era. Recordamos então este pequeno mito:

 

Baubo era uma mulher que recebeu Deméter em sua casa quando esta deusa procurava a filha pelo mundo fora. Tentou oferecer-lhe de beber e quando a figura divina rejeitou, Baubo levantou parte do seu vestido, mostrando os genitais à mãe de Perséfone. Esta riu-se, antes de aceitar, agora, a comida e bebida que já antes lhe tinham sido oferecidas.

O mito de Baubo

O mito de Baubo é, em suma, uma espécie de aventura anexa ao Rapto de Proserpina, que raramente é contada nesse seu contexto mas que, aparentemente, terá feito parte dele desde muito cedo, como demonstra a antiguidade das estátuas dessa figura. Porém, é igualmente possível que as estátuas antecedam o próprio mito, só se tendo associado a este numa época mais tardia…