Uma curiosa lenda de Elkasai

O nome e as aventuras de Elkasai estão hoje quase completamente esquecidos. É possível que pouquíssimas pessoas ainda o reconheçam como o fundador da seita gnóstica dos Elcasaitas (e autor de um Livro de Elkasai), enquanto outros saibam dele como o potencial inspirador do fundador do Maniqueísmo. É possível, até provável, que ambos tenham sido um só e o mesmo, mas isso é difícil de confirmar face ao pouco que ainda se sabe sobre a(s) figura(s). Porém, existem ainda breves lendas que lhe estão associadas, algumas das quais são tão invulgares que não poderíamos deixar de as relembrar por aqui.

Lendas de Elkasai

Ainda se conta que num dado dia Elkasai ia tomar banho num rio quando o espírito das próprias águas lhe apareceu, criticando-o pela sua acção. Depois, pediu aos seus companheiros que encontrassem outro lugar onde ele pudesse tomar banho, algum mais escondido… e isso foi feito, mas quando o profeta tentou usar essas outras águas, o espírito apareceu-lhe novamente, voltando a criticá-lo. Assim, este homem entendeu o seu erro e deixou de tomar banho.

Algum tempo mais tarde, tentou utilizar um arado para cultivar a terra – e o espírito desta apareceu-lhe, criticando-o por essa acção. Em seguida, quando ele e os seus companheiros se preparavam para cozer um pão, também o espírito deste apareceu a Elkasai, mais uma vez instando-o a que não fizesse essa acção. E o episódio repetiu-se com alguns vegetais, com uma palmeira e seus frutos, etc.

 

O que quer tudo isto dizer? Infelizmente, já muito pouco sabemos sobre Elkasai, ou em relação ao livro que tomava o seu nome, mas esta sequência de breves lendas poderá fazer supor que uma parte significativa da sua teologia assentava numa revelação mística semelhante a um panteísmo, em que cada parte do nosso mundo apareceu a este profeta e lhe revelou directamente, com mais ou menos detalhes, como gostaria de ser tratada. Por um lado é uma ideia fascinante, por outro temos de ser levados a questionar os seus limites – será que, por exemplo, existiam espíritos que apareceram ao profeta e aos quais ele se recusou a ceder? Nas histórias acima, ele deixou de cozer o seu pão; mas terá também deixado de beber água, ou de comer dadas frutas, ou mesmo abandonado as comidas de origem animal?

Não sabemos, não sabemos, não sabemos… e é, como habitual, esse o grande problema em escrever sobre lendas como estas de Elkasai – nelas, só temos acesso ao pouco que outros decidiram ceder aos nossos tempos, o que demasiadas vezes nos deixa uma história tristemente incompleta, em que a imaginação terá de ser mais forte que a realidade…

O mito grego de Glauco

Glauco, um deus marinho da Mitologia Grega e Latina,  é uma daquelas figuras cujos contornos essenciais se foram mantendo ao longo dos séculos, mas com alguns detalhes variantes. Ainda assim, o seu mito pode ser dividido em três momentos essenciais, que iremos detalhar abaixo.

O mito de Glauco

Todos os autores parecem concordar na ideia de que Glauco era, originalmente, um pescador numa qualquer terra da Grécia Antiga. Em dada altura da sua vida encontrou uma erva mágica que, ao consumir, lhe permitiu ascender ao estatuto divino e adoptar a forma de uma criatura marinha, meio-homem e meio-peixe (como um tritão). Foi sob essa nova forma que passou a ser conhecido como um deus marinho, tendo passado a viver entre os deuses das profundezas do mar… e se os detalhes de todo o episódio variam de fonte para fonte, é curioso que alguns autores chegavam a identificar a suposta erva que propiciou a transformação, como se ela pudesse ser reencontrada por cada um dos seus leitores.

 

Num segundo momento, sendo já este deus marinho, Glauco apaixonou-se por uma ninfa, a então-bela Cila, supostamente tendo pedido à feiticeira Circe que o ajudasse a concretizar esse amor. Ele desconhecia, porém, que esta última também o amava, e então usou esse pedido como um subterfúgio para transformar a sua competidora num monstro horrendo. Depois, face a essa nova metamorfose, o herói depressa perdeu a sua paixão, mostrando-nos o quão “profunda” ela tinha sido.

 

Em terceiro lugar, o mito de Glauco tinha ainda uma face muito actual para os Antigos Gregos e Romanos. Segundo esta última vertente da sua história, era esta figura divina, talvez juntamente com Castor e Pólux, que socorria aqueles que se perdiam no mar, impedindo que se afogassem na sequência de alguma tempestade ou naufrágio. Porque o fazia? É apenas uma teoria, mas é possível que ainda se lembrasse do tempo em que ele próprio tinha sido um mero pescador, e quantas vezes as tempestades marinhas o tinham atemorizado…!

 

Mas… para terminar as linhas de hoje, este deus não era o único Glauco da Mitologia Grega. Existiam outras figuras que partilhavam o mesmo nome, e se falar de todas elas seria difícil, por motivos de tempo e espaço, podemos aqui referir uma grande figura tão famosa como a anterior, ou mesmo até mais – o herói que na Ilíada trocou a sua própria armadura de ouro com Diomedes, pelo facto dos seus antecessores terem partilhado de xenia (uma espécie de antiga relação de hospitalidade, cujos efeitos também se prolongavam pelas gerações seguintes). Ou um terceiro, um filho do Rei Minos (e irmão de Ariadne), que se afogou num pote de mel, mas posteriormente foi trazido de volta à vida com uma erva miraculosa apenas conhecida por duas serpentes…

Um Palácio Desconhecido em Sintra?

Por estes dias, ou até pelos últimos anos, um dos grandes problemas da vila portuguesa de Sintra é que está sempre demasiado cheia de turistas. Uma só fila para ir ver o Tritão do Palácio da Pena, ou o chamado Palácio da Vila, pode ter centenas e centenas de metros de comprimento e prolongar-se durante várias horas, enquanto que locais como o Convento dos Capuchos ou o Palácio de Monserrate, muito provavelmente por estarem um pouco mais longe do centro da vila ou serem menos conhecidos do grande público, têm muito menos visitantes.

Um Palácio Desconhecido em Sintra?

E depois existem locais que muito raramente são visitados pelas pessoas, como a Capela de São Mamede de Janas ou o pequeno mas belo palácio visto na imagem acima. É actualmente pertença de privados (mas que até pode ser visitado ocasionalmente), já foi dito “casa assombrada” num filme para adolescentes, e a quinta em que se insere até tem uma belíssima gruta. Mas não é, repita-se, caso único. Também poucos são os vistantes da zona de Adrenunes, e de outros tantos sítios que não estão assim tão longe da própria vila de Sintra… e é uma pena. Fica, portanto e para o futuro, o convite para que se visite não só o que é bastante conhecido, mas igualmente o que tem o seu charme ainda bastante desconhecido do grande público!

O estranho caso das irmãs gémeas Pollock (e onde estão actualmente?)

Falar do caso das irmãs gémeas Pollock implica, antes de tudo o mais, saber admitir que nem sempre temos todas as respostas. Não é possível tê-las. E assim, o que contamos aqui é uma história ouvida por nós, bastante difundida online, mas cuja verdade e derradeiros limites nunca ninguém parece ter querido investigar. Portanto, o leitor é aqui convidado a ler um breve resumo destes eventos e a formular a sua própria opinião…

Irmãs Gémeas Pollock

O casal Pollock vivia em 1957 na cidade inglesa de Hexham e tinha várias filhos. Um dia, quando dois deles iam para a escola acompanhados por um amigo, foram atropelados. Faleceram, trazendo muita e evidente tristeza ao casal. Mas cerca de um ano depois, em Outubro de 1958, Florence Pollock deu à luz duas outras meninas, que para a história ficaram conhecidas geralmente pelo nome colectivo de Irmãs Gémeas Pollock. Estas Jennifer e Gillian eram quase completamente iguais, salvo uns pequenos sinais que, curiosamente, as crianças falecidas também tinham tido. E depois, ao longo dos anos, elas parecem ter tido a capacidade de recordar todo um conjunto de capítulos do passado familiar que, supostamente, só seriam possíveis se elas fossem as reencarnações daqueles dois membros da família que já tinham perdido – por exemplo, conheciam casas nas quais nunca viveram (mas em que os falecidos tinham estado); sabiam de antemão de parques aos quais os pais nunca as tinham levado; e os pais viram-nas, pelo menos uma vez, e “encenarem” a morte dos irmãos então desaparecidos, com todos os pormenores sórdidos apenas conhecidos aos próprios.

 

Inicialmente, ao estudarmos este caso, pensámos que tudo isto fosse a mais pura ficção, como o caso de Danny, mas depois encontrámos diversos artigos em revistas sobre este caso, bem como vários médicos que estudaram em primeira mão o caso destas irmãs gémeas Pollock. É, a título de exemplo, particularmente notável o caso do Dr. Ian Stevenson. Ele esteve em contacto com estas duas meninas – então já senhoras – até 1985, e no livro de título Children Who Remember Previous Lives: A Question of Reincarnation informa o seguinte sobre todo o desfecho da situação:

Gillian and Jennifer Pollock grew up to become normal young women. Long before that, they had completely forgotten, in later childhood, the memories they had had of previous lives. In my later meetings with them they were mildly skeptical about their own case. By this I mean that, not then having any persisting memories of the previous lives, they did not present themselves as offering evidence for reincarnation, but they did not deny the evidence their parents had obtained from observing them when they were young children.

 

Será, portanto e como dizem muitos outros artigos sobre estas irmãs gémeas Pollock, correcto dizer-se que elas são uma prova provada da existência da reencarnação? Um dos grandes problemas em querer afirmar isso mesmo passa pelo facto do pai das gémeas sempre ter acreditado na reencarnação, sendo naturalmente possível que tenha utilizado as suas filhas numa estranha experiência para convencer a sua esposa da completa verdade dessa sua crença. Ele pode, pura e simplesmente, ter criado as suas crianças de forma a que elas se “lembrassem” de uma suposta vida passada. Por isso, e contrariando o muito afirmado online, talvez seja é muito mais seguro afirmar-se que este caso não deve ser usado para tentar provar a existência da reencarnação, até porque Jennifer e Gillian Pollock parecem já ter esquecido a sua “vida passada”, tornando impossível testar o que alegadamente sabiam…

 

Uma última questão – onde estás estas irmãs gémeas Pollock actualmente? Não conseguimos encontrá-las online, nem obtivemos qualquer resposta de algum possível familiar na área, mas dado o facto de, como o Dr. Ian Stevenson afirmou e nós já repetimos antes, elas terem esquecido a sua suposta “vida passada”, localizá-las na primeira pessoa em nada ajudaria na tarefa de averiguar a verdade por detrás desta história. Em melhor caso elas repetiriam que já não se lembram de nada, enquanto que no pior admitiam, pura e simplesmente, que alguém – possivelmente o pai – as tinha convencido a fingir todos estes eventos.

O mito da Chegada do Homem à Lua

Não estava, originalmente, planeado falar-se aqui hoje sobre a Chegada do Homem à Lua. Porém, quando a semana passada aqui falámos sobre a origem da teoria dos Astronautas Antigos, referimos apenas de passagem que a primeira ida do Homem à Lua “supostamente teve lugar em 1969″. Um comentador anónimo fez questão de responder “Supostamente? Por esta é que eu não estava à espera”, mas o que ele ainda não sabia é que, na verdade, essas palavras faziam parte de uma pequena brincadeira cujo real significado apenas seria revelado mais tarde. Infelizmente, saiu-nos o proverbial tiro pela culatra, e então foi necessário antecipar bastante o tema de hoje. A nós, Europeus, o mito de hoje poderá parecer um tanto ou quanto estranho, mas ele é relativamente famoso na América do Norte, razão pela qual decidimos que tínhamos de o apresentar aos leitores!

O mito da Chegada do Homem à Lua

Quem tem interesse pela história mundial já sabe que nas décadas de 1950 e 1960 os Estados Unidos da América e a Rússia se encontravam numa espécie de “guerra” pela chegada ao espaço. Na sequência de episódios como os do Sputnik (o primeiro satélite artificial), da Laika (a primeira cadela no espaço), e de Yuri Gagarin (o primeiro homem no espaço), o primeiro desses dois países estava a ficar para trás na corrida… até que, em Julho de 1969, ele se antecipou ao seu opositor e foi o primeiro na Chegada do Homem à Lua, como aprendemos na sala de aula. Mas, se toda essa história ficasse apenas por aí, não estaria hoje a ser apresentada num espaço sobre Mitologia, não é?! Segue-se, portanto, uma parte que é muito menos conhecida em Portugal, e que os nossos professores nunca nos contaram!

Segundo o mito da Chegada do Homem à Lua, face aos sucessivos avanços soviéticos para uma tentativa de chegada ao nosso único satélite natural, em pleno desespero os Americanos desenvolveram um estranho plano de emergência. Recordando-se do excelente trabalho feito por Stanley Kubrick no filme 2001: Odisseia no Espaço, originalmente lançado em 1968, o governo americano deu fundos ilimitados a este realizador e pediu-lhe que fizesse um filme, o mais realista possível, de uma suposta chegada à Lua. Depois, as pessoas viram-no na televisão, ficaram todas muito impressionadas, e passaram então a acreditar horizontalmente que os Americanos tinham sido os primeiros a chegar à Lua, naquela que teria sido uma criação verdadeiramente digna de um Óscar!

 

Ao lerem estas linhas, é provável que alguns leitores lusófonos pensem “O quê? Isto está tudo maluco? Como é que alguém acredita nessa história?” Bem, este tal mito da Chegada do Homem à Lua parece ter nascido de uma sequência de coincidências bem reais. Ainda estarão vivas muitas pessoas que viram a emissão original, mas na altura não existiam vídeos caseiros facilmente acessíveis, ninguém em sua casa gravou essa chegada à Lua… e então, quando o conteúdo em questão começou a estar mais ou menos acessível ao público em geral, começaram a surgir algumas questões bastante curiosas. Apenas para apontarmos um pequeno exemplo, no vídeo reproduzido ali em cima a bandeira americana, prestes a ser colocada na Lua, parece baloiçar a favor do vento… mas não há vento no espaço ou na Lua! Ups, como se explica isso?!

 

Face a ocorrências como essas, o mito da Chegada do Homem à Lua nasceu do facto dos visualizadores que tentaram analisar o evento histórico se terem apercebido de todo um conjunto de elementos que, à vista desarmada, podem levantar várias questões (como a ausência do Coelho Lunar…?) O que gera algumas dúvidas, até porque a maior parte dos leitores não tem propriamente muita paciência para ler extensas dissertações sobre como foi possível o tal “vento” do vídeo. E, assim, é muito mais fácil acreditar-se na explicação mais simples e básica – i.e. “foi tudo uma trafulhice e nada mais!” – do que tentar procurar verdadeiras explicações para as diversas “falhas” que foram sendo encontradas em vídeos como aquele… e daí, repita-se, nasceu o tal mito americano que nos levou ao relato de hoje, como muitos outros do mesmo país, de que o exemplo da terra plana talvez seja outro igualmente famoso!