Muito pouco se sabe sobre a figura de Ocno, além do seu (obscuro) castigo no reino de Hades – por alguma razão que já não nos parece ter chegado, este herói foi condenado a enrolar uma corda para toda a eternidade, enquanto que um burro, possivelmente invisível (?), o seguia e comia essa mesma corda. Tal como sucede com outras figuras semelhantes (particularmente Sísifo), é possível que também esta fosse uma personificação de uma enorme perda de tempo.
O mito da Égide de Atena e a sua relação com a Medusa
Quando se ouve falar da égide (ou, no seu original, aegis) é quase sempre no contexto dos ornamentos da deusa Atena, e é vulgarmente vista como a cabeça da Medusa, cortada por Perseu e que, depois, dava protecção à deusa no seu escudo. É nesse sentido que aparece em muitos mitos e na arte grega, mas, aparentemente, não é a única versão da história.
Segundo, pelo menos, uma obra de Dionísio Escitobráquio, hoje perdida (mas que foi citada por outros autores), a égide seria, também, uma criatura mitológica nascida da Terra, que cospia fogo, e ia queimando as terras por onde passava. Eventualmente, essa criatura foi atacada e destruída por Atena, que passou a usar a sua pele como forma de protecção. Se a fonte para esta versão do mito não é propriamente muito conhecida, nem a sua trama muito repetida, não posso deixar de frisar que faz algum sentido. Veja-se, por exemplo, esta imagem:

Aqui, a aegis está colocada no peito de Atena, e não num escudo. Em muitas outras imagens da deusa, esta até pode ser representada com a cabeça da Medusa, morta por Perseu, no seu escudo (aí identificada pelo seu cabelo de serpentes), mas são raras as vezes em que não tem uma figura semelhante a esta ao peito. Ora, se a figura da Medusa já está colocada no escudo, seria um pouco absurdo identificar a constante neste amuleto também com essa mesma Medusa. Pode, evidentemente, ser identificado como um amuleto, esse elemento aqui colocado no peito da deusa, mas mais do que se tratar da Medusa, é possível que se trate de uma outra figura, mais obscura, como a deste mito, sendo até possível que os dois elementos, por terem funções muitíssimo semelhantes, tenham acabado por se confundir.
Regresso, e os objectivos deste espaço
É com alguma nostalgia que anuncio o regresso deste espaço, e que muitos novos conteúdos foram adicionados retroactivamente. Importa, ainda assim, explicar o porquê.
Quando, há quase uma década, comecei este espaço, fi-lo com uma motivação muito particular, a de tentar levar a tanta gente quanto possível os mitos e literatura da Antiguidade. Fi-lo, durante quase todo esse tempo, sem qualquer tipo de apoio, bem pelo contrário. E se procurei, uma e outra vez, pessoas interessadas nestes conteúdos e que me quisessem ajudar nessa pesquisa, esse é um objectivo que falhei, como já cá contei uma vez; porém, essa também tem de ser uma falha que já pouco invalida.
Se este espaço existe, é para juntar em roda de uma virtual fogueira todos aqueles que gostam dos mitos da Antiguidade, ou que, mesmo que não gostem, procuram por eles. Se tiverem dúvidas, se procuram algo de muito específico, basta colocarem um comentário, ao qual eu responderei logo que me seja possível.
Contudo, este espaço não é, nem tem a presunção/desejo de alguma vez vir a ser, um espaço semelhante a uma aula universitária. Ao leitor comum, bem sei que pouco importam debates de seis horas sobre o sentido de uma dada palavra, ouvir que a identificação de um texto de Proclo no Codex Marcianus Graecus 45 está incorrecta, ou longas deambulações sobre o latino “otium cum dignitate”. Se algum leitor me perguntar sobre essas coisas, obviamente que até poderei falar sobre elas, mas não é uma preocupação essencial deste espaço, nem um seu objectivo primário.
De igual modo, este espaço não pretende ser um local de mera publicidade, e se eu menciono por cá algum conteúdo externo, ou dado espaço, é por achar que os leitores poderão dele fazer um uso real, e não pelo facto de quaisquer responsáveis serem amigos meus, ou me terem pago almoços. Trata-se, nesse sentido, exclusivamente de uma tentativa de publicitar o que é bom, o que me parece útil, e somente isso.
É, então, nesses múltiplos sentidos que este espaço tem de continuar. Não pelo facto do meu nome ser X ou Y, não por eu ter sido aluno daqui ou de acolá, não por eu ter mais ou menos estudos, mas, e acima de tudo o resto, porque este pretende ser um espaço de todos aqueles que queiram vir a escutá-lo, ou que até desejem nele falar. É esse o convite que faço a todos os que o quiserem aceitar, e ao qual tentarei sempre responder enquanto o meu corpo e o meu tempo assim o permitirem.
A origem do Satanismo
Segundo a opinião de Epifânio de Salamina, um dos autores da Antiguidade Clássica que se dedicou ao estudo das mais diversas heresias cristãs, esta seria a origem do Satanismo:
[Falando de várias heresias, o autor acrescenta depois] Others in their own turn thought of something still more crafty and said, as though, in their simplicity, consulting their own intelligence, “Satan is great and the strongest, and does people a great deal of harm. Why not take refuge in him, worship him instead [of God], and give him honor and blessing, so that < he will be appeased* > by our flattering service and do us no harm, but spare us because we have become his servants?” And so, again, they have called themselves Satanians.
A ideia, em si, pode parecer um tanto ou quanto estranha, mas também faz muito sentido – se Satanás, ou o Diabo, ou como desejarmos chamar-lhe, é vulgarmente visto como uma figura nefasta, porque não prestar culto a ela, de forma a que deixe de nos prejudicar?
Dois pequenos jogos para Android
Encontrei, há dias, dois pequenos jogos para Android (se também existem para iOS é algo que já não sei) que merecem aqui ser mencionados. O primeiro deles, “Clash of the Olympians” (disponível aqui) tem como personagens seleccionáveis Hércules, Aquiles e Perseu. É um jogo bastante simples, com o herói seleccionado a ter de proteger um templo de várias criaturas mitológicas que procuram atacá-lo.
Para tal, o jogador terá de lançar algum tipo de arma contra os opositores que se aproximam, direccionando o seu ataque, bem como a força do mesmo, através do ecrã táctil. Nos níveis mais avançados, o jogador pode desbloquear poderes adicionais, novas habilidades, e encontrar criaturas mitológicas cada vez mais poderosas. O segundo jogo, “Glory of Sparta!” (entretanto desaparecido), coloca o jogador na pele de um guerreiro espartano e pede-lhe que defenda Termópilas.
Se os inimigos não são particularmente consistentes com os das histórias de Heródoto e dos outros autores (tratam-se, aqui, de esqueletos armados, o que nos poderia levar a pensar nas magias da Pérsia, mas presumo que não tenha sido essa a intenção dos criadores), este é um jogo de relativa simplicidade, e cujo maior apelo é, sem dúvida, o tema em que se baseia, que não me recordo de ter visto em qualquer outro jogo.