“Helena”, de Eurípides

Esta peça de Eurípides, Helena, baseia-se numa curiosa premissa, a possibilidade de Helena (a esposa de Menelau) nunca ter ido para Tróia. Através da influência divina de Hera foi criada uma segunda “Helena”, um espectro da original, e teria sido essa a levada por Páris, enquanto que a verdadeira estava a viver no Egipto. É nesse local que, após o final da Guerra de Tróia, Menelau viria a reencontrá-la, e é desse reencontro que fala este texto. Também fala de muito mais, numa trama que me recorda da Ifigénia na Táurida, mas a razão para estas linhas é mesmo essa ideia-base de uma Helena que estava em Tróia não ser a esposa de Menelau.

 

De um ponto de vista da trama da Guerra de Tróia, o facto de Helena estar na cidade é sempre um ponto fulcral – é o rapto de Helena que leva ao confronto, é esta Helena que tem a repetida possibilidade de se entregar aos Aqueus e que, eventualmante, até passa a ser odiada pela população, por todo o sofrimento que causa. Portanto, se existe alguém a culpar pela guerra, esse alguém seria obviamente Helena. Porém, se como Eurípides supõe, essa não era, realmente, a esposa de Menelau, Helena perde então toda a culpa que poderia ter no início e desenrolar da guerra…

 

Contudo, é curioso constatar que estão visão, mencionada por Eurípides, era extremamente infrequente já na Antiguidade. Com excepção de Heródoto e deste autor mais ninguém refere essa possibilidade, e mesmo autores mais tardios ignoram-na quase totalmente…

Sobre o significado de “logos”

Aqui fica uma interessante citação sobre o significado da palavra grega logos:

 

The term logos has played a famous part in philosophical theology. It appears in our New Testament at the opening of the fourth Gospel, “In the beginning was the Logos.” Our translators render the Greek term by the English “Word.” It is derived from the verb legein, to “speak” or “say.” Logos is primarily “what is said,” utterance, or speech. Speech, however, must mean something. When we look out upon the objects of the world around us—rock, river, tree, horse, star—we learn to separate them into groups, because while some say quite different things to us, others speak to us, as it were, with nearly the same meaning. We recognise a common meaning in various sorts of dogs, or in still larger classes such as the whole family of birds. But in human intercourse what is said has first been thought. Logos thus takes on another meaning; it is what thinking says to itself, or what we call “reason.” The processes of science consist in finding out these meanings or reasons, and getting them into intelligible relations with each other. And when the early Greek thinkers had reached the conception of the unity of the world, here was a term which could be called in to express it. The world must have a meaning; it must express some thought. And did not thought imply thinking?

fonte

Prometeu e a águia que lhe devorava o fígado

Apesar de toda a história de Prometeu ser extremamente conhecida, algo em que eu nunca tinha pensado (e presumo que o mesmo se passe com os possíveis leitores) era a razão do castigo que lhe foi dado por Zeus. Sim, claro, Prometeu deu o fogo aos Homens, enganou Zeus na questão dos sacrifícios, mas porquê este castigo de ter o seu fígado devorado diariamente, e não um qualquer outro?

 

Aparentemente a razão é revelada em Dos Rios, de (Pseudo-)Plutarco, quando este cita uma (hoje perdida) Teomaquia de Cleantes. Segundo este autor, após a guerra dos deuses contra os gigantes Cronus transformou-se num crocodilo, matou um pastor (de nome Cáucaso) e usou as suas entranhas para adivinhar o futuro. Foi-lhe revelado que os deuses estavam por perto, e o titã foi rapidamente capturado por Zeus, que o prendeu no Tártaro. Depois, o falecido pastor foi honrado por Zeus dando o nome ao monte onde estes eventos tomaram lugar, provindo o castigo de Prometeu do macabro acto aí perpetrado.

Um mito de Tisífone

Sobre o mito de Tisífone, esta figura é vulgarmente conhecida como uma das Fúrias, ou Erínias, na Mitologia Grega, e estas tendem sempre a ser mencionadas como um grupo. Isso é especialmente óbvio na Oresteia, mas existem vários outros textos onde isso ocorre. Foi, então, com alguma surpresa que encontrei um mito envolvendo exclusivamente Tisífone.

 

Segundo a história contada por (Pseudo-)Plutarco em Dos Rios, Tisífone ter-se-ia apaixonado por um jovem, de seu nome Citéron (ou Citerão? Honestamente, nunca gostei muito dessa forma de tradução), e enviou-lhe diversas mensagens, às quais este nunca respondeu. Então, a divindade arrancou uma das cobras que lhe serviam de cabelo e atirou-a ao rapaz, matando-o. Na sequência desta morte o monte onde o jovem levava os animais a pastar tomou então o seu nome, que ainda hoje mantém.

“Histórias Paralelas”, de (Pseudo-)Plutarco

Estas Histórias Paralelas, de (Pseudo-)Plutarco, que já vi incluídas nas Morais mas que não devem ser confundida com as Vidas Paralelas do famoso autor, apresenta 41 paralelismos entre diversas histórias da Antiguidade. Algumas delas eram reais, muitas outras eram puramente míticas, mas os paralelismos são perfeitos ao ponto de cada um deles apresentar histórias que, fora o nome dos intervenientes, se apresentam como quase iguais. Agora, a menção à obra neste espaço deve-se ao facto de, por vezes, mencionar mitos obscuros. Não irei citar os paralelismos, por economia de espaço, mas aqui ficam três dos mitos que achei mais interessantes.

 

Em primeiro lugar, mais um mito do Rei Midas, o mesmo que tinha o famoso toque de ouro: 

At the city of Celaenae in Phrygia the earth yawned open, together with a heavy rain, and dragged down many homesteads with their inhabitants into the depths. Midas the king received an oracle that if he should throw his most precious possession into the abyss, it would close. He cast in gold and silver, but this availed nothing. But Anchurus, the son of Midas, reasoning that there is nothing in life more precious than a human life, embraced his father and his wife Timothea, and rode on his horse into the abyss. When the earth had closed, Midas made an altar of Idaean Zeus golden by a touch of his hand. This altar becomes of stone at that time of the year when this yawning of the earth occurred; but when this limit of time has passed, it is seen to be golden.

 

Depois, a sucinta história de uma infrequente relação:

Aristonymus of Ephesus, the son of Demostratus, hated women and used to consort with an ass; and in due time the ass gave birth to a very beautiful maiden, Onoscelis by name.

 

Para terminar, uma prova de que a divinização dos homens nem sempre era tão verdadeira como se poderia pensar, já que aqui é usada como um simples truque para apaziguar o povo:

During the Peloponnesian War Peisistratus of Orchomenus hated the aristocracy and strongly favoured the poorer citizens. The members of the Council plotted to kill him; they cut him up into bits, thrust these into the folds of their garments, and scraped the earth clean. But the crowd of commoners caught a suspicion of this deed and hurried to the Council. Tlesimachus, however, the younger son of the king, was privy to the plot and drew the crowd away from the assembly by declaring that he had seen his father, endowed with more than mortal stature, being swiftly borne toward mount Pisa and thus the crowd was deceived.

 

(Fonte das três citações)