A origem do nome do Jogo do Galo

Presume-se que todos os leitores e leitoras conheçam o chamado Jogo do Galo, mas o mistério de hoje prende-se com o seu nome em Portugal. Isto porque, se no Brasil o mesmo jogo tem o nome de “Jogo da Velha”, possivelmente em homenagem às idosas inglesas que outrora muito o apreciavam durante as suas conversas nas tardes do famoso chá, de onde vem o estranho nome que o mesmo divertimento, tão simples de jogar, tem no nosso país?

 

O nosso Jogo do Galo parece ser tão antigo como a história da humanidade. Parece ter existido no Antigo Egipto, no tempo dos Romanos, na Idade Média, e aí por diante… mas sem que se saiba bem que regras foi tendo. Ao contrário de, por exemplo, o Xadrez, este parece ter sido sempre um jogo do povo e para o povo, em virtude da sua simplicidade de regras, que na forma mais simples nem sequer requer qualquer espécie de tabuleiro físico ou peças. Mas afinal, onde entra o tal galo, aludido no título da versão portuguesa do jogo?

A origem do nome do Jogo do Galo

Sobre essa possível origem do nome do Jogo do Galo, não é fácil descobrir quando ele primeiro entrou no nosso vocabulário nacional, mas… pelo menos desde inícios do século XX que na cultura inglesa existem máquinas, como as das feiras populares e arcadas, em que um opositor (humano) podia jogar contra um galináceo, num confronto que entre eles ainda hoje tem o nome de Bird Brain. Dado o facto de em outros tempos os casinos terem sido tão populares no nosso país, é provável que tenha sido por aí que este nome entrou na nossa cultura, pelo facto de existirem algumas versões do jogo em que o animal tinha esse papel principal.

 

Mas… porquê um galo, ou uma galinha? Porque não um cão, um gato ou uma vaca? Também essa possível origem anglófona para o nome do nosso jogo contribui para o explicar – como pode ser visto em muitos filmes ingleses, há entre esse povo a provocação de chamar chicken (que é como quem diz entre nós “mariquinhas”) a alguém que se pensa ser muito pouco corajoso… com algumas dessas máquinas de jogo de Bird Brain até a fazerem a piada, “She’s not chicken, are you?” (i.e. “Ela não é mariquinhas, tu és?”), uma ideia igualmente apoiada pelo facto de este animal, seja na forma feminina ou masculina, não ser propriamente imponente ou conhecido pela sua grande sabedoria.

Agora, é provável que estejam a pensar… se as galinhas, ou os galos, nem são visto como assim tão inteligentes, quão difícil seria derrotá-los neste jogo? Na sua versão actual – porque este jogo, com galinha incluída, ainda existe na cultura inglesa, como podem ver no vídeo acima – existe alguma batotice envolvida, com um computador a apontar a um animal treinado que quadrado ele deve “escolher”, mas na forma tradicional existiam pelo menos dois factores que ajudavam imenso à vitória deste opositor. Não só ele jogava sempre primeiro, mas num caso de empate físico – uma circunstância muito frequente no Jogo do Galo, ou da Velha, como sabem – a vitória era concedida à ave, constituindo uma derrota e ausência de qualquer prémio para o jogador humano… ou seja, mesmo sem a ajuda de qualquer batotice, o animal tinha sempre maiores chances de vitória!

 

Mas deixando essas outras histórias de lado, será mesmo esta a verdadeira origem do nome do Jogo do Galo? Não o conseguimos afirmar com cem porcento de certezas, mas pelos factores já apresentados acima é muito provável que o nosso nome para este jogo famoso internacionalmente tenha, de facto, derivado das versões inglesas em que ele era jogado contra um galo ou galinha, e dos quais encontrámos provas fotográficas de existência pelo menos desde inícios do século XX. Se os galos e galinhas já o jogavam numa forma mais simplificada e nessa mesma cultura anglófona, ou até mesmo na nossa, antes do ano de 1901, é algo que não conseguimos descobrir em tempo útil…

A lenda de Dom Thedon e Ardínia

Em dia que se supõe dedicado ao amor decidimos que teríamos de aqui contar uma história amorosa, e optámos pela de Dom Thedon e Ardínia. Na verdade ela já estava planeada há algum tempo, desde que aqui falámos de Maria Coroada e a Granja do Tedo, por ser a lenda utilizada no local para justificar o nome da povoação, mas chegou finalmente a hora de ela ser recordada por aqui.

A lenda de Dom Thedon e Ardínia

Conta então esta lenda que naquele sempre vago Tempo dos Mouros viveu nesta zona, provavelmente até no castelo de Lamego, uma princesa moura de nome Ardínia. Como é comum em histórias como estas, ela apaixonou-se por um cavaleiro cristão de nome Thedon (ou Tedo, ou Thedo, entre outras variantes). O sentimento da jovem foi partilhado pelo cavaleiro, e então eles fugiram para o Mosteiro de São Pedro das Águias, a alguns quilómetros de distância, onde casaram secretamente.
E tudo estaria bem se a história acabasse por aqui, nos mais plenos amores dos seus heróis, mas o pai de Ardínia depressa soube da ocorrência e decidiu procurar pela filha. Face ao grande crime que ela tinha cometido, o da conversão ao Cristianismo, ele sentiu que tinha de a encontrar. E fê-lo, matando-a na sequência do seu crime, e atirou o seu corpo a um rio próximo. Depois, Thedon, sabendo da morte da sua amada, atacou os soldados do pai desta, mas eles eram demasiados para os conseguir vencer. Também o mataram a ele, deitando igualmente o seu corpo ao rio local, que por toda esta bela desventura passou a ser conhecido como o Rio Tedo.

 

Lendas como esta são muito comuns em todas as regiões de Portugal – relembrem-se, a puro título de exemplo, as lendas do belo castelo de Almourol – e normalmente são utilizadas para se justificar o nome de algum elemento local. Aqui, neste caso em particular, claro que o nome de “Tedo” não poderá deixar de nos soar invulgar, e daí a necessidade da introdução na história de um cavaleiro com um nome igualmente pouco vulgar. “Pouco vulgar”, esclareça-se, no mundo real, mesmo naquele suposto tempo da Idade Média, porque nos romances de cavalaria de outros tempos abundam nomes claramente fictícios… e talvez também este tenha nascido de um deles? Não encontrámos nenhuma prova a favor ou em contrário, mas nunca se sabe…. E por isso, os amores de Dom Thedon e Ardínia são, no mínimo, uma forma local de se explicar o nome de um rio, sem que se saiba que verdade há por detrás de toda a sua história.

O Salmo de Pamoun o Boi

Pamoun o Boi é uma daquelas figuras que o tempo já há muito fez esquecer. E, na verdade, não fosse o salmo que apresentamos traduzido abaixo, de origem maniqueísta, e ele estaria agora completamente esquecido. Comece-se, portanto, por apresentar este curioso salmo, antes de discursar um pouco mais sobre ele:

O Salmo de Pamoun o Boi

Oiçam um boi, o choro de Pamoun o boi. Piedade, que faço o mundo chorar!
O que me deram os filhos da terra?
Agarraram machados de dois gumes e puseram-me nos pântanos,
Derrubaram árvores largas e até as finas.
Não recuaram, com a árvore larga cortaram um arado,
E da fina fizeram uma agulha afiada, depois levaram-na a um artista;
Ele, com a própria mão, moldou um jugo, colocou-o no meu pescoço,
E prendeu o arado atrás de mim.
Usaram a agulha para perfurar as minhas costelas,
Depois levaram-me ao filho do matador, o criador de bois.
O filho do matador despedaçou-me, espalhou-me por tendas estrangeiras,
Pendurou-me em mercados distantes,
Atirou os meus ossos a animais errantes à vista de todos.
Libertem-me dos donos; eles não me compram,
Queimam até o que está dentro de mim.
Não batam em Pamoun, o boi.
Agitem os vasos espirituais em vós mesmos.
Farei com que se sentem num lugar por onde passarão gerações,
Plantando, retribuindo-vos e dando-vos a vida.
A liberdade é a herança dos meus parentes no grande dia.
Amém.

O que quer tudo isto dizer? Não sabemos se este tal Pamoun o Boi alguma vez existiu, ou se era uma figura meramente retórica, mas por este salmo escrito na primeira pessoa, a sua história é-nos apresentada de uma forma bastante íntima. Até quase que se sente o sofrimento do animal, pela forma como este descreve a sua vida. Se considerarmos todo o episódio no contexto das crenças de Elkasai, predecessor de Mani, é possível perceber que, no mínimo, este curioso salmo de outros tempos tentava incentivar ao não-consumo de carne animal, aparentemente sugerindo como alternativa o consumo de (tudo?) aquilo que podia ser plantado.

 

Ao mesmo tempo, toda a ideia por detrás deste Salmo de Pamoun o Boi permite-nos ver algo que está muito perdido nos nossos dias. É mesmo por isso que decidimos reproduzi-lo aqui, por essa ideia de que um salmo religioso não tem de ter sempre e somente intervenientes puramente religiosos. Aqui, a figura essencial não é Jesus, um dos seus santos, ou mesmo até Buda (o que até poderia acontecer, como acontece, em outros salmos maniqueístas…), mas um simples animal, celebrado como um ser quase humano, capaz de sofrimento e apto a nos convencer a que não o comamos. Com exemplos assim, talvez fossem menos as pessoas que comem carne animal, não vos parece, caros leitores?!

O misterioso elmo do Mosteiro dos Jerónimos

Se já cá falámos anteriormente sobre o Mosteiro dos Jerónimos, este também é um local que ainda esconde muitos outros segredos. O de hoje, de aquele que poderia ser apenas e somente um mero elmo decorativo, parece ser muito pouco conhecido nos dias de hoje, ao ponto dos visitantes nunca serem informados de toda esta história mesmo aquando das visitas guiadas. Será intencional? Já lá iremos…

O Mosteiro dos Jerónimos e o mistério do elmo

Como bem se sabe, a estrutura original do Mosteiro dos Jerónimos começou a ser construída ainda nos primeiros anos do século XVI. É difícil saber como ela foi sendo alterada ao longo dos séculos – relembre-se aqui, por exemplo, o seu pobre estado em finais de 1878 – mas existem, como dificilmente poderia deixar de ser, elementos que se foram mantendo. Um dos mais curiosos é a pequena imagem de um elmo que pode ser visto acima de uma porta. Ele é difícil de encontrar, o que até adensa um pouco o seu mistério, mas quem for capaz de o fazer poderá notar que ele está parcialmente danificado, quebrado. O que é estranho, já que o monumento foi sendo extensamente renovado ao longo do tempo, mas o elmo lá se encontra, assim mesmo, hoje como antes.

 

A ausência de renovação parece, no entanto, intencional. Isto porque o incomum elmo tem uma pequena lenda com ele relacionada – diz-se que ele quebrou a 4 de Agosto de 1578, no dia da fatídica Batalha de Alcácer-Quibir, mais ou menos na altura do desaparecimento do rei Dom Sebastião… e que somente voltará ao seu estado original na data do retorno desse verdadeiro monarca de Portugal, seja ela qual for. Portanto, visto que este elmo do Mosteiro dos Jerónimos permanece quebrado, de um ponto de vista lendário somos levados a acreditar que o rei ainda não voltou, mas reparar-se esta decoração – e é difícil acreditar que isso não tenha sido feito por meras razões de desatenção – quebraria o verdadeiro encanto de toda a lenda.

 

Se existem muitas outras lendas que associam este mesmo Dom Sebastião ao Mosteiro dos Jerónimos – já aqui falámos de algo muito mais notável quando abordámos o tema da origem do Sebastianismo, através de um túmulo do monarca no mesmo local – o que esta tem de muito especial é o facto de se tratar de uma história com vestígios físicos, que até podem ser vistos na primeira pessoa pelos visitantes. Contudo, já poucos os procuram… e a lenda ali permanece, dia após dia, à espera de quem a quiser redescobrir. Daí não apresentarmos uma imagem desse misterioso elmo neste artigo, apenas para deixarmos o convite, a quem assim o desejar, de um destes dias ir procurá-lo no famoso monumento nacional…

Qual o verdadeiro símbolo da Medicina?

À partida, falar sobre um verdadeiro símbolo da Medicina não deveria ter muito para dizer. Basta, por exemplo, abrir o site na internet da Ordem dos Médicos e aí pode ser encontrado, de uma forma mais ou menos estilizada, um bastão com uma cobra em seu redor. Mas depois, ao abrirmos um recurso como o site da Ordem dos Farmacêuticos, também aí pode ser encontrada uma representação semelhante, uma árvore com uma cobra em volta. E, em outros lugares, pode ser encontrado algo de muito parecido, mas com a presença de duas cobras… portanto, qual é o correcto? Aquele que pensamos ser ou, como no caso do Juramento de Hipócrates, andamos é todos a ser enganados?

O verdadeiro símbolo da Medicina

Na imagem acima, muito relevante para este tema do verdadeiro símbolo da Medicina, podem ser encontradas essas duas representações essenciais – uma espécie de bastão com asas no topo e duas serpentes em seu redor; e um simples bordão com uma só serpente aí enrolada. Variam não só na presença de asas, mas também no próprio número de répteis, como é óbvio… e são precisamente esses elementos que nos permitem descobrir o significado de cada um deles. Para o primeiro, as tais asas são um atributo do deus Hermes (o Mercúrio dos Romanos), que também as tem nas suas sapatilhas, enquanto que as duas serpentes são, em muitos mitos da Antiguidade, um símbolo da vida e da morte, como nos casos do mito de Tirésias, ou de um Glauco que foi trazido de volta à vida pelo poder de uma erva que apenas dois destes animais conheciam.

Para o segundo, a rudeza do bordão permite compreender que ele era utilizado para andar – não para esvoaçar, ou coisas semelhantes, como o anterior – enquanto que a serpente é aqui um símbolo para os venenos e suas curas, como no caso dos mitos de Orfeu e Eurídice ou Filoctetes. É, por isso, um símbolo do deus Asclépio (o Esculápio dos Romanos).

 

Os símbolos são parecidos, tanto ao nível das representações como da sua simbologia, mas se recordarmos que Hermes era o deus encarregado de levar os mortos para a sua morada eterna, o seu bastão com asas poderia sugerir, de uma forma tão errónea quanto assustadora, que os médicos têm completo poder sobre a vida e a morte. Por contraste, se o verdadeiro símbolo da Medicina for o segundo, o normalmente associado com Asclépio, sugere-se apenas a ideia do uso de drogas curativas, com poder limitado, até porque esta mesma figura, quando ainda era um mero ser humano, foi morta por Zeus por ter tentado trazer de volta à vida um falecido – Capaneu, Órion, as opiniões divergem.

 

Portanto, se os dois símbolos acima são mesmo muito parecidos, o verdadeiro símbolo da Medicina só pode ser o segundo, não só por ter estado associado desde o início a um deus desta área de conhecimento – Asclépio / Esculápio – mas por toda a simbologia mitológica de uma serpente VS duas serpentes. Desacompanhado, este réptil é um símbolo da preservação da vida pelas drogas (legais, acrescente-se hoje), enquanto que acompanhado e neste contexto ele é… estranhamente, um puro símbolo da divindade Hermes / Mercúrio, mais conhecido hoje na sua faceta de deus do Comércio, já que a sua tarefa de psicopompo – transportador das almas dos falecidos, se preferirem – já foi esquecida há muitos séculos atrás.

 

Mas, de uma vez por todas, simplifique-se tudo isto muito mais – se nada perceberem, nem quiserem vir a perceber, de Mitologia Grega ou Romana, como podem saber qual é o verdadeiro símbolo da Medicina? Basta que pensem na presença – ou ausência – das pequenas “asinhas” nessa representação. Se o símbolo as tiver, ele não é o da Medicina, mas sim o de um antigo deus hoje ligado quase exclusivamente ao Comércio, e que em representações na cultura popular dos nossos dias até tem sempre consigo umas sandálias ou sapatos alados!