“Factos e ditos memoráveis”, de Valério Máximo

Se, em termos de Mitologia, estes Factos e ditos memoráveis de Valério Máximo não têm um conteúdo muito apelativo, a sua referência aqui deve-se ao facto dos nove livros que compõem a obra estarem repletos referências histórias, culturais, da maior importância. São referidos, por exemplo, a história de Horácio Cocles, que defendeu a cidade de Roma com a própria vida, ou a da criança que disse bekos (também constante na obra de Heródoto), entre muitos outros, estando estas histórias – se é correcto dar-lhes tal nome – divididas por tema, e dentro de um mesmo tema por origem romana ou a eles externa. Uma obra de extrema importância, para quem tiver interesse em conhecer estas histórias, muitas das quais hoje quase totalmente desconhecidas.

O “Testamento de Salomão”

O Testamento de Salomão, apesar de ter a sua base na famosa história bíblica do Rei Salomão, tem um aspecto que considerei importante o suficiente para o mencionar por cá.

 

Segundo este Testamento de Salomão, através de artes mágicas (ou milagres, ou o que lhe preferirem chamar) o Rei Salomão capturou diversos demónios, com a ajuda dos quais construiu o famoso Templo de Jerusalém. Eventualmente aproxima-se deste rei uma infindável horde dessas criaturas, e cada um deles revela o seu nome, ao que preside, e a forma como pode ser vencida. Porém, inesperadamente, pelo menos quatro dessas figuras são bem conhecidas dos mitos da Grécia Antiga – as sete plêiades, a Medusa, Hecáte, e uma tripla criatura que se pode transformar em Cronos – e apesar de não serem mencionadas pelo respectivo nome, pelas suas características são possíveis de distinguir das demais, figuras extremamente obscuras e que, arrisco-me a dizer, talvez até nem apareçam mencionadas em quaisquer outros textos. Existe também a referência a uma outra figura desta mitologia, aí já como anjo, mas parece-me ser somente uma coincidência de nome, já que nunca ouvi falar de uma semelhante metamorfose.

 

Será este texto do Testamento de Salomão, então, um dos primeiros em que as divindades pagãs começam a ser vistas como malévolas? Nos seus instantes finais existe uma referência implícita a Jesus Cristo (um dos demónios afirma temer alguém nascido de uma virgem e crucificado pelos Judeus), o que me parece querer dizer que ou o texto foi escrito já na nossa era, ou foi alterado posteriormente por Cristãos, ou que esta previsão, a ser feita antes do nascimento de Jesus, foi certeira. Em qualquer dos casos, a referência às quatro figuras que referi acima parece demasiado idêntica para ser mera coincidência…

O mito de Tício

Tício era filho de Zeus e da princesa Elara. Instigado por Hera, tentou violar uma deusa e foi morto (tanto a deusa, como a forma da morte, depende da fonte consultada). Após a morte, Tício foi então aprisionado no Tártaro, onde dois abutres receberam a tarefa de comerem constantemente o fígado deste herói até ao final dos tempos.

 

Este mito de Tício, relativamente simples, é aqui mencionado para mostrar dois elementos que considero interessantes: em primeiro lugar, tanto a deusa que sofre a tentativa de violação, como o deus que mata Tício, mudam dependendo da versão, o que nos permite constatar que não existe aqui uma versão canónica, mas sim múltiplas versões com um dado tronco comum. Isto ocorre em relação a muitos outros mitos, mas esse será um bom tema para o futuro. Em segundo lugar, compare-se o castigo deste gigante com o do titã Prometeu, cujo fígado era comido diariamente por um abutre, para ver que este tipo de castigo não era assim tão singular como se poderia pensar, apesar do mito de Tício – por oposição ao do titã – ser muito menos conhecido.

Sobre a interpretação dos mitos

Relativo à interpretação dos mitos, aqui fica um momento da obra Contra Celso, de Orígenes, que achei interessante:

 

Suppose that some one were to assert that there never had been any Trojan War, chiefly on account of the impossible narrative interwoven therewith, about a certain Achilles being the son of a sea-goddess Thetis and of a man Peleus, or Sarpedon being the son of Zeus, or Ascalaphus and Ialmenus the sons of Ares, or AEneas that of Aphrodite, how should we prove that such was the case, especially under the weight of the fiction attached, I know not how, to the universally prevalent opinion that there was really a war in Ilium between Greeks and Trojans? And suppose, also, that some one disbelieved the story of OEdipus and Jocasta, and of their two sons Eteocles and Polynices, because the sphinx, a kind of half-virgin, was introduced into the narrative, how should we demonstrate the reality of such a thing? And in like manner also with the history of the Epigoni, although there is no such marvellous event interwoven with it, or with the return of the Heracleidae, or countless other historical events. But he who deals candidly with histories, and would wish to keep himself also from being imposed upon by them, will exercise his judgment as to what statements he will give his assent to, and what he will accept figuratively, seeking to discover the meaning of the authors of such inventions, and from what statements he will withhold his belief, as having been written for the gratification of certain individuals.

Sobre os anjos e os demónios

Hoje, ao ler uma das obras de Fílon de Alexandria, encontrei um segmento muito curioso sobre os anjos e os demónios:

 

Those beings, whom other philosophers call demons, Moses usually calls angels; and they are souls hovering in the air. And let no one suppose, that what is here stated is a fable, for it is necessarily true that the universe must be filled with living things in all its parts, since every one of its primary and elementary portions contains its appropriate animals and such as are consistent with its nature

fonte: Sobre os Gigantes, de Fílon de Alexandria

 

Claro que Fílon é um autor contemporâneo dos inícios do Cristianismo, mas esta admissão de que os demónios são (quase) o mesmo que os anjos é extremamente interessante, ao demonstrar que, originalmente, não existia uma conotação tão negativa para os primeiros, ou tão positiva para o segundos, como já por cá mencionei uma vez…