“Crítias”, de Platão

Sobre este Crítias de Platão, eu poderia resumi-lo simplesmente dizendo que é uma sequela de Timeu, em que o monólogo de Crítias deveria seguir-se ao de Timeu (e as estes dois seguir-se-ia um Hermócrates, como este texto dá a entender, mas que aparentemente nunca foi escrito) e falar sobre os deuses. Porém, o texto está parcialmente perdido, e o único mito aqui contado é o da Atlântida, de que já falei anteriormente.

“Timeu”, de Platão

Quando, há alguns dias, uma amiga soube que eu estava a reler os textos de Platão e a falar dos seus mitos, fez-me uma especial referência a Timeu, pelo facto desta obra estar pejada deles. Se, por um lado, isso é difícil de refutar, por outro esses mesmos mitos também sofrem de um enorme problema, o de serem impossíveis de resumir. Claro que se poderá dividir esta obra em três partes – a criação do Universo, os elementos, e a criação do Homem – mas nem isso torna mais fácil realizar esta tarefa de sintetização simples. Estes não são mitos fáceis de explicar (com excepção da alusão ao mito da Atlântida, já aqui falado anteriormente), não são simples histórias com um início e um final, e na sua generalidade tendem a assumir que o leitor lê toda a obra, uma tarefa complicada devido à sua complexidade.

 

Se, por exemplo, na segunda parte da obra são referidos todo um conjunto de informações relativas aos quatro elementos, isto também assume que o leitor já sabe a razão pela qual Timeu os compõe por triângulos, algo que não é propriamente simples. Se é dito, mais tarde, que na segunda geração alguns homens foram transformados em mulheres, e outros em peixes, e ainda outros em pássaros, também as razões para tal não são simples. E como explicar o facto de, aqui, o mundo ser visto como uma criatura viva? Ou que existiria, acima dos famosos deuses gregos, uma outra entidade que os criou, e que levaria depois à criação dos homens? Ou como explanar os vários procedimentos com que cada pedaço do corpo humano foi criado? Tudo isto, e muito mais, está explicado nesta obra, através de palavras postas na boca da personagem que dá título ao “diálogo” (para ser mais correcto, é um longo monólogo).

 

Não se trata, como já referi, de uma obra simples, mas é igualmente uma obra de extrema importância, já que muitas das ideias nela referidas  influenciaram profundamente o Cristianismo, o Gnosticismo, o Neoplatonismo… em suma, a Religião, a Filosofia, e até a nossa cultura popular. Posso, como exemplo, referir que a figura do demiurgo, enquanto criador das mais diversas coisas, é muito semelhante ao Yaldabaoth gnóstico e até ao Deus cristão, e que muitos dos argumentos teológicos dos Padres da Igreja se parecem, curiosamente, com muitos dos elementos referidos nesta obra. Porém, os mitos entrelaçados desta obra são muito difíceis de separar, pelo que a melhor forma de os conhecer é, obviamente, a leitura de toda a obra, se possível com muito debate e exploração à mistura. Fica esse desafio, caso exista por aí um leitor mais corajoso!

“Górgias”, de Platão

No seu geral, este Górgias de Platão é um diálogo sobre a retórica. Sobre isso pouco mais haveria a dizer neste espaço; porém, perto do seu final, o autor conta-nos, através da boca de Sócrates, um importante mito:

 

No tempo de Crono os mortos tinham dois possíveis destinos: quem tivesse vivido de forma justa e honesta ia para as Ilhas Afortunadas, enquanto que quem fosse injusto e impiedoso seria punido no Tártaro. Porém, este julgamento era feito por juízes vivos, e as pessoas eram julgadas ainda em vida, o que levava a que algumas almas acabassem nos lugares errados. Plutão [outro nome de Hades] confrontou Zeus com este problema, e este segundo disse-lhe que o problema advinha dos julgados ainda estarem vivos e, portanto, terem as suas roupas, os seus estatutos, e até quem por eles testemunhasse. Então, decidiu deprivar o Homem do seu pré-conhecimento da morte, devendo este apresentar-se a julgamento nu (estando o juíz também ele nu de vida e vestes). Também, os homens vindos da Ásia seriam julgados por Radamanto e os da Europa por Éaco, sendo Minos o decisor em casos de dúvida dos anteriores.

 

Este mito parece-me demonstrar uma interessante oposição entre o mundo dos vivos e o dos mortos. Se, no mundo em que agora vivemos, existem um sem número de formas de formas de diferenciar os homens – seja a riqueza, as vestes, a quantidade de amigos, o emprego que têm, etc. – já no mundo dos mortos todos estaremos em pé de igualdade, e seremos julgados de uma forma imparcial. Esta ideia, depois tão popular na Idade Média e que me recorda os “Versos da Morte”, é uma interessante herança que nos chegou até aos dias de hoje, já que também muitas das religiões modernas (se todas, já não sei…) referem um julgamento dos mortos com base no que foram em vida – bons ou maus, entenda-se – e não em quem foram em vida. Seja ou não verdade, também nada perdemos em ser bons, justos e honestos…

“Simpósio”, de Platão

Quando um grupo de pessoas se reúne num banquete, é decidido que deverão discursar sobre o amor, um de cada vez. É essa a ideia por detrás deste Simpósio de Platão, em que a vários discursos se segue, eventualmente, o do sempre esperado Sócrates. Posso mencionar que cada um desses discursos tem o seu interesse particular, já que exploram as várias vertentes do amor, das mais básicas até ao amor pela sabedoria, mas é-me impossível resumir essas linhas, até porque muito da beleza e do conteúdo original acabariam por se perder. No entanto, posso e devo mencionar alguns dos mitos referidos na obra:

 

– É recordado, como importante exemplo de amor, a situação de Alceste, uma esposa que deu (literalmente) a vida pelo marido, quando os próprios pais deste se recusaram a fazê-lo. Depois, por amor e com intervenção divina, ela é trazida de volta ao mundo dos vivos; esta situação é oposta à de Orfeu, incapaz de trazer a amada de volta. Se o mito não é contado na sua totalidade, posso referir que esta é a mesma figura sobre a qual Eurípides escreveu uma tragédia.

 

– Se, na versão de Homero, a vida curta de Aquiles se deve ao facto deste ter escolhido juntar-se à Guerra de Tróia, é referida aqui uma outra versão do mesmo mito. Segundo esta, a morte de Aquiles derivava do facto deste ter morto Heitor, algo que fez como vingança pela morte do seu amado Pátroclo. Uma alteração no oráculo – Aquiles poderia juntar-se aos Gregos, não podia era matar Heitor – faz com que esta se torne uma história do poder e do ímpeto que o amor suscita nos seres humanos, quando estes se encontram em circunstâncias extremas.

 

– Sobre a relevante figura de Afrodite, é revelada a existência de duas deusas – uma delas filha de Urano, e outra filha de Zeus e Dione – que partilham um mesmo nome mas têm características diferentes, sendo a primeira a do amor intelectual e a segunda a do amor carnal e sexual.

 

– Da boca de Aristófanes surge um mito que considero muito interessante. Inicialmente existiam três sexos – o masculino, o feminino e um caracterizado pela junção dos dois anteriores, com duas cabeças, quatro braços, quatro pernas, etc – o último dos quais tinha capacidades muito superiores aos outros dois, sendo até capaz de desafiar os deuses. Então, estes decidiram separá-lo em dois, levando à configuração humana actual (e não temeriam voltar a fazê-lo caso continuassem a existir problemas, ficando os seres humanos a saltitar, providos de uma única perna). Assim, um dos objectivos humanos seria o de encontrar essa segunda parte de nós mesmos, de que fomos separados pelos deuses.

 

– Num relato em segunda mão (é-nos contado por Sócrates, que o ouviu da boca de Diotima de Mantinea), é dito que o Amor nasceu de uma relação sexual entre a Pobreza e a Abundância, explicando-se através desta paternidade o carácter tão contraditório da nova figura.

 

 

Em relação a estes mitos, devo começar por fazer uma menção ao mito de Alceste, que sempre considerei ser extremamente belo, não tanto pela forma como Eurípides o retratou mas por todo um conjunto de questões que pode suscitar. Era capaz de jurar que já tinha falado dele por cá, mas infelizmente não o encontro… terá então de ficar para uma oportunidade futura.

Também o mito de Aristófanes merece ser referido, não por ser absurdo, como as personagens da obra parecem pensar, mas por poder ser uma possível fonte da ideia de “alma gémea”, explicando a necessidade humana de um parceiro, de alguém que nos faça completos, como até poderíamos ser antes de Zeus nos ter separado. Seria uma sátira às teogonias da época? Talvez, mas é muito curiosa, essa ideia dos humanos como seres incompletos, sempre em busca da metade que lhes falta, e que parece até ter chegado aos dias de hoje.

“Fedro”, de Platão

É-me um pouco difícil resumir o tema deste Fedro platónico em poucas palavras, já que ele aborda dois temas que me parecem ser principais – o amor e a retórica – mas também diversos temas secundários, alguns dos quais de uma enorme complexidade. Assim, na sequência da leitura de um discurso de Lísias, Sócrates compõe ele próprio dois discursos sobre um tema semelhante, antes de falar da alma, do amor enquanto loucura, e da retórica e escrita. Pelo caminho, faz uma alusão ao mito de Orítia (uma jovem princesa raptada pelo vento Bóreas) e equipara a alma a dois cavalos e respectivo condutor, mas refere também alguns (pequenos) mitos que achei curiosos:

 

– Após ter insultado Helena de Tróia numa das suas composições, Estesícoro foi cegado miraculosamente. Porém, depois de fazer uma nova obra onde a absolvia de quaisquer culpas, recuperou a visão.

 

– Quando as Musas nasceram, e com elas a música, um grupo de homens foi de tal forma contagiado por esses encantos que deixaram de comer e beber, levando-os à morte. Depois, foram transformados em cigarras, que cantam desde o nascimento até à morte, sem nunca comerem. Após a morte, voltam a reencontrar-se com as Musas no céu e contam-lhes quem as homenageia.

 

– Após ter inventado muitas artes, Tot (o deus egípcio com cabeça de Íbis, para quem perceber menos destas coisas) mostrou-as a Amon (um dos principais deuses egípcios) na cidade egípcia de Tebas. Este segundo elogiou algumas criações, censurou outras, mas quando confrontado com as letras – que lhe tinham sido apresentadas como capazes de fazer os egípcios “mais sábios” e capazes de terem melhores recordações – referiu que estas tinham um enorme problema, o de fazer os homens mais esquecidos, já que estes preferirão escrever as coisas em detrimento de delas se recordarem, e parecerão omniscientes mas não irão saber quase nada.

 

Parece-me, contudo, que este é um texto não tão propício a uma leitura casual mas mais direccionado a um leitor avançado, já que alguns conceitos e ideias não são propriamente simples ou fáceis de entender.