O Sinal de Trânsito Mais Antigo do Mundo? (E o de Lisboa…)

Há algumas semanas vieram perguntar-nos se o sinal de trânsito mais antigo do mundo estava em Lisboa. Assim o diziam algumas notícias recentes… E conhecemos, de facto, dois antigos “sinais de trânsito” na cidade, datados de finais do século XVII e que apresentamos abaixo, mas a grande questão passa por saber se, de facto, eles eram mesmo os mais antigos do mundo, ou apenas e exclusivamente dos mais velhos que ainda podem ser encontrados na capital de Portugal. Vamos descobri-lo?

Os Sinais de Trânsito Mais Antigos de Lisboa

O Sinal de Trânsito Mais Antigo de Lisboa

Nas imagens acima podem ser vistos dois pequenos recantos da grande cidade dos Lisboetas. O primeiro é na Calçada de São Vicente; depois de passar o número de porta 48, o viajante que suba pode olhar para a direita e ver na parede um pequeno “letreiro” com uma língua portuguesa muito característica de outros tempos. O segundo é na Rua do Salvador; também aqui, um possível viajante que suba pode olhar para o lado direito e ver próximo do número 26, por cima de um equipamento moderno, um outro pequeno “letreiro” que partilha muitas das características do primeiro. Potencialmente terão existido (muitos?) outros, em tempos já esquecidos de antes do Terramoto de Lisboa, mas mais do que transcrever todo o seu conteúdo individual, importa é aqui perceber o seu contexto e significado.

 

Procurando-se por um sinal de trânsito mais antigo de Lisboa, estes dois contam-se certamente entre eles, e em ambos os casos estão localizados em ruas com pouca largura e um declive significativo. Face a essas características, é provável que em outros tempos tenham existido bastantes confusões em ambas as ruas, com algumas pessoas a quererem subir e outras a tentar descer. Para as evitar, o rei da altura, Dom Pedro II, mandou no ano de 1686 colocar placas como estas em determinados locais, procurando controlar o fluxo de “coches, seges e liteiras”. Assim lhes chama uma das placas, referindo-se a três tipos de veículos da época (respectivamente, com quatro rodas, com duas, e sem nenhuma). Ou seja, trocando por miúdos, o que andava a causar problemas em locais como este eram os veículos de transporte de passageiros… e, face a isso, lá surgiu a necessidade de se criar um tipo de informação que controlasse o que acontece em locais como esses, como hoje em dia se colocam semáforos e sinais de prioridade automóvel em determinadas ruas.

 

O Que É um Sinal de Trânsito?

Partindo de um suposto sinal de trânsito mais antigo de Lisboa, somos então levados a perguntar em que uma tal designação deve consistir. Naturalmente, ele tem de “regular ou orientar a circulação”, seja ela de veículos – como no caso acima – e de peões. Assim o informa o dicionário da Priberam. Tem, portanto, um carácter duplo, destinado não só a veicular alguma regra específica do local, mas também a informar algo de relevante para os viajantes. E esta é uma informação crucial na busca por um sinal de trânsito mais antigo do mundo, como iremos agora ver!

 

O Sinal de Trânsito Mais Antigo do Mundo

O Sinal de Trânsito Mais Antigo do Mundo

Face ao já dito acima, quem quisesse abordar a questão de uma forma imparcial poderia e deveria ter pensado que sinais com esse tipo de intenções já existiam no tempo dos Romanos, há muito mais de 2000 anos atrás. Nas imagens acima, a título de exemplo, do lado esquerdo pode ser visto um miliário, que na sua forma mais típica informava as distâncias entre vários locais, permitindo aos viajantes controlar melhor o andamento das suas viagens; e do lado direito colocámos um aviso latino Cave Canem*, “cuidado com o cão”, para mostrar que esse tipo de sinalética já é tão antigo como a língua latina. E estes são sinais de trânsito, ou devem ser considerados como tal, pelo facto de tentarem “regular ou orientar a circulação” de peões e veículos – e.g. “faltam X Kms [ou milhas] até Conimbriga“, ou “se passares por aqui arriscas-te a ser mordido por um cão”.

 

Sabemos, portanto, que aqueles sinais de trânsito mais antigos de Lisboa não são, na verdade e contrariando o que muitos querem afirmar, os sinais de trânsito mais antigos do mundo. E, sendo assim, será que também conseguimos descobrir qual, ou quais, correspondem a essa potencial descrição? Não é de todo fácil descobri-lo, dado a passagem de milénios desde uma possivel primeira colocação de sinais como esses, mas é inegável que já na Antiguidade Clássica e no Antigo Egipto existiam coisas como estas. Por exemplo, quando aqui falámos sobre alguns mitos e lendas da Esfinge, referimos a presença no local de uma “Estela do Sonho”, com mais de 3000 anos e que apresenta alguma informação contextual para ser lida por quem aí passasse – e em que se distingue isso de sinais informativos que, nos nossos dias e em dados locais, nos informam sobre as histórias de determinados monumentos por que vamos passandos a pé ou de carro?

 

Em suma, se existem na cidade de Lisboa sinais de trânsito muito antigos, com quase 400 anos, eles claramente não são os mais antigos do mundo. Contudo, não é possível estabelecer, com honestidade e verdade, qual terá sido o sinal de trânsito mais antigo do mundo – eles já existiam nos tempos de Roma Antiga e das Pirâmides do Egipto, sendo quase certo que o primeiro exemplo de um “monumento” como esse já se tenha perdido há séculos e séculos. A intenção de controlar e informar o caminho dos viajantes parece, de facto, ter sido quase tão antiga como o próprio acto de viajar…

 

 

*- O desenho apresentado aqui é interessante, e ele ainda se encontra disponível para venda hoje em dia (e não fomos pagos para o informar). Mas cuidado, é um pouco caro – na altura desta publicação estava a 794€ !

A lenda de Inês Negra

A história da chamada Inês Negra é uma daquelas muito famosa no seu local de origem, a zona de Melgaço, mas não tanto em outros locais de Portugal. Por essa razão, decidemos então dedicar-lhe algumas linhas no dia de hoje, talvez até para que mais pessoas, pelo mundo fora, venham a conhecer esta pequena história de outros tempos.

A lenda de Inês Negra

Se é costume dizer-se que todas as lendas têm um fundo de verdade, neste caso específico sabemos que existiu, no tempo de Dom João I, um confronto entre duas mulheres na zona de Melgaço, e que uma delas, que aparentemente não era nativa da cidade, ganhou essa pequena escaramuça. Cerca de duzentos anos mais tarde, a vencedora passou a ser identificada com o nome de “Inês Negra”, sendo adicionados muitos mais elementos à sua história, que são aqueles que compõem o cerne da própria lenda, como o temos hoje.

 

Pergunte-se, então e antes de mais, porquê o nome de Inês Negra… provavelmente não terá sido pela cor natural da sua pele, mas pelo facto de esta se encontrar muito queimada pelo sol, fruto de se ter juntado ao exército de Dom João I para lutar contra os Castelhanos. Foi nesse papel que em dada altura se encontrou na zona de Melgaço, e em que discutiu, por palavras, quem deveria ser o futuro monarca de Portugal. A ela se opôs uma figura que apenas ficou conhecida pelo nome de “Arrenegada”, que defendia a causa castelhana. Então, a nossa Inês e essa misteriosa “Arrenegada” decidiram combater uma contra a outra, como se de verdadeiros homens se tratassem, para se decidir quem devia ocupar o trono de Portugal, se o nosso futuro D. João I ou o pretendente castelhano.

Curiosamente, se as informações que temos até dizem que a tal “Arrenegada” era muito maior e mais poderosa que a Inês Negra, ao final foi esta segunda que ganhou o combate, tornando-se uma figura famosa na região – em versões tardias, até rejeita qualquer recompensa do nosso monarca! – e levando a que a praça de Melgaço depressa se juntasse à causa de Dom João… mas se isso se deveu ao próprio combate entre estas duas mulheres, ou se tratou de mera coincidência, é algo em que as fontes consultadas parecem divergir um pouco, sugerindo ora uma, ora a outra resposta.

 

A verdade, essa e tal como a sabemos, é que uma pequena escaramuça teve, de facto, lugar entre duas mulheres na zona de Melgaço e no tempo de Dom João I, mas os seus contornos, ou a verdadeira identidade de ambas as combatentes, é algo que o tempo já há muito fez esquecer. Claro que tudo isto tem um fundo de verdade, como em histórias como as de Deu-la-Deu Martins ou do Bispo Negro, mas à parte do que já aqui admitimos, pouco se sabe sobre o que então teve lugar, ou em que altura nasceu verdadeiramente a história a que hoje associamos o curioso nome desta tal Inês Negra.

Dioniso e o mito da origem do vinho

Que Dioniso era o deus grego do vinho e da vinha é provável que já todos os leitores saibam. Ele tem diversos mitos associados – já aqui contámos, por exemplo, as histórias que o unem a Penteu, aos piratas, a Prosimno, e até ao seu simbólico antecessor, o estranho Zagreu, entre outras – mas a sua sequência mitológica mais evidente e mais significativa é, como nunca poderia deixar de ser, a do mito da origem do vinho. E é essa história que aqui decidimos contar hoje, de forma breve, mas também com uma citação tão bela que achámos que tinha mesmo de ser apresentada aqui.

Dioniso e o mito da origem do vinho

Conta-se, portanto, que em dado momento das suas muitas aventuras o deus Dioniso conheceu um jovem por quem se apaixonou. Ele chamava-se Âmpelo, e ambos nutriam uma enorme paixão um pelo outro, mas este acabou por falecer em virtude de um acidente (ou de uma vingança de outro deus)… os detalhes variam mediante a versão da história, mas todas elas dizem que o famoso filho de Zeus, na sequência dessa morte, depois criou a vinha e o vinho para homenagear eternamente aquele que tanto amava. E toda essa ideia é captada de uma forma belíssima na Dionísiaca de Nono de Panópolis; já cá citámos pelo menos duas vezes essa enorme obra – falando sobre a vida e a morte e de um episódio jocoso – mas esta sequência é de tal forma notável que achámos que a deveríamos apresentar aqui na sua forma completa. Para contexto, é um monólogo do deus Dioniso imediatamente após a criação dos dois elementos que o tornaram famoso – i.e. o vinho e a vinha:

Ó Âmpelo! Este é o néctar e a ambrósia do meu Zeus que criaste! Apolo tem duas plantas favoritas, mas ele nunca comeu o fruto de louro ou bebeu do lírio! O trigo não produz uma bebida doce, com a tua licença, Deméter! Eu fornecerei não apenas a bebida, mas também a comida para os homens mortais! O teu destino também é invejável, ó Âmpelo! Verdadeiramente, até os fios da Moira foram transformados em femininos para ti e para a tua beleza; para ti, o próprio Hades se tornou misericordioso; para ti, a própria Perséfone mudou o seu temperamento duro e te salvou vivo na morte para o irmão Baco. Não morreste como Atimnio está morto; não viste a água do Estige, o fogo de Tisífone, o olho de Megera! Ainda estás vivo, meu rapaz, mesmo se morreste. A água do Letes não te cobriu, nem o túmulo que é comum a todos, mas a própria terra encolheu-se de cobrir a tua forma! Não, o meu pai fez de ti uma planta em honra ao seu filho; o senhor filho de Cronos transformou o teu corpo em doce néctar. A Natureza não gravou aí nas tuas folhas sem lágrimas, como nos cachos inscritos de Terapne. Guardas a tua cor, meu rapaz, mesmo nos teus brotos. O teu fim proclama o brilho dos teus membros; o teu corpo corado ainda não te deixou. Mas eu nunca deixarei de vingar a tua morte; derramarei o teu vinho em libação ao teu assassino, o vinho de sua vítima! As suas belas pétalas envergonham as Hamadríades; o sumo dos teus cachos perfumados trazem-me um sopro do teu amor. Conseguirei alguma vez misturar a maçã na taça? Conseguirei deixar cair o sumo de figo na taça de néctar? O Figo e a maçã têm a sua graça até onde os dentes alcançam; mas nenhuma outra planta pode rivalizar com as tuas uvas – nem a rosa, nem o narciso tingido, nem a anémona, nem o lírio, nem o lírio-dos-vales, é igual à planta de Baco! Pois, com as novas correntes de tua frutificação esmagada, a tua bebida conterá todas as flores: essa única bebida será uma mistura de todas, ela combinará num só o perfume de todas as flores que sopram, as tuas flores enfeitarão todas as ervas da Primavera e a relva do prado!

 

Dá-me o melhor, Senhor da Arquearia, porque tu entrelaçaste o teu cabelo imutável com a tua grinalda de pétalas dolorosas! Ai, ai, está gravado nessas tuas folhas; e se o Senhor da Arquearia usa a sua grinalda no jardim, eu sirvo o meu vinho doce, eu ponho uma bela grinalda, eu absorvo Âmpelo para que esteja em casa no meu coração por esse delicioso gole. Brilhante, dá lugar a “Uvasfinas”! O sangrento derrama sangue para Ares, o Vinífero derrama para Dionísio o orvalho rubro da uva encharcada de vinho!

 

Deméter, foste derrotada com Palas! Pois as azeitonas não produzem alegria no coração, o trigo não enfeitiça um homem! A pêra tem uma fruta melada, a murta cresce em flores fragrantes, mas elas não têm uma fruta que encante o coração para afastar as preocupações do Homem! Eu sou melhor do que todos vocês; pois sem o meu vinho não há prazer na mesa, sem o meu vinho a dança não tem encanto. Deusa dos olhos brilhantes, bebe o fruto da tua oliveira, se puderes! A minha frutificação com os seus gloriosos presentes venceu a tua árvore. Com a tua oleosa oliveira, os atletas esfregam os seus corpos, sem deleite; mas o tristemente afligido que deu uma esposa ou uma filha ao destino comum, o homem que chora os filhos mortos, uma mãe ou um pai, quando provar do vinho delicioso, sacudirá o odioso fardo da dor sempre crescente.

 

Ó Âmpelo, alegras o coração de Baco mesmo após a morte! Vou embeber a tua bebida por todo o meu corpo. Todas as árvores da floresta inclinam a cabeça em volta, como alguém em oração curva o pescoço. A antiga palmeira inclina as suas folhas ascendentes, tu estendes os teus pés em torno da macieira, agarras as tuas mãos na figueira e seguras; elas sustentam a tua frutificação como escravas a sua senhora, enquanto escalas o ombro de tuas servas com as tuas gavinhas se empurrando e enrolando e tremendo, enquanto os ventos sopram no teu rosto as delicadas folhas multicoloridas de tantas árvores vizinhas com seus cachos espalhados, como se dormisses e eles te refrescassem com um sopro suave. Assim, a criada agita um leque leve, como é seu dever, e faz um vento fresco para o seu rei. Se trouxeres contigo as ameaças do meio-dia de Faetonte, ainda assim o vento etésio vem antes das tuas uvas, acalmando a sede da estrela sedenta da ardente Maira, quando o curso da temporada de verão aquece o teu suco maduro com o vapor de Sírio.

 

Assim se conta não só o mito da origem do vinho, tal como ele existia na Grécia Antiga, mas também a sua interrelação com o próprio deus Dioniso e a sua respectiva história, contada de uma forma bastante bonita. Esperamos, portanto, que gostem de conhecer este momento de uma obra da Antiguidade que ainda hoje é muito pouco lida!

A Lua Nova e a Lua Velha – três origens surpreendentes!

Claro que já todos ouvimos falar de uma Lua Nova, mas de onde vem esse nome, que supõe também a existência de uma Lua Velha? Não é algo em que muita gente pense, considerando-se o primeiro como apenas e somente um mero nome de um fase lunar. Mas, realisticamente, a existência e ainda utilização desse primeiro nome levanta algumas questões… às quais não saberíamos responder, não fosse o facto de termos encontrado, há umas semanas atrás, um fragmento de Gemisto Pléton, autor bizantino nascido no século XIV, que permite revelar a resposta por detrás de todo o mistério.

A Lua Velha e a Lua Nova

Segundo Gemisto Pléton, e certamente seguindo uma das fontes literárias de que tomou proveito (já lá voltaremos…), em outros tempos existiu, de facto, uma fase lunar conhecida por Lua Velha. Segundo o autor, ela era consagrada ao deus Plutão (o deus dos mortos, conhecido como Hades entre os Gregos), cujos ritos tomavam sempre lugar nessa altura. O que até explica, de uma vez por todas, a associação (posterior?) do mesmo astro a Hécate e à Feitiçaria, que se foi prolongando até aos nossos dias de hoje. Mas porquê essa referência a uma espécie de suposta “idade” no astro lunar? É aqui que as coisas se tornam muito interessantes, ao ponto de termos de fazer uma breve introdução adicional para o explicar!

Diagrama do Mundo no Maniqueísmo?

Há uns dias atrás falámos aqui sobre o Maniqueísmo. Na altura não pudemos falar de toda a sua teologia, mas mostrámos um diagrama do mundo tal como os Maniqueístas o representavam, na forma que voltávamos a apresentar acima. Não é nada fácil explicar cada um dos elementos que ele contém, mas quem prestar atenção poderá ver que na parte superior ele apresenta duas esferas. Supostamente, essa secção da pintura é uma representação da sua crença na transmigração das almas – trocando por miúdos, os Maniqueístas pensavam que quando as pessoas morriam as suas almas eram enviadas para a Lua, sendo depois pontualmente reenviadas para outro local.

 

Como também foi dito na altura, para criar estas suas ideias Mani utilizou um conjunto de fontes religiosas que o antecediam, entre elas a religião do Zoroastrianismo. Também Gemisto Pléton recorreu a essa mesma fonte, o que permite, finalmente e depois de toda esta não-tão-breve introdução, o porquê de ter outrora existido uma Lua Nova e uma Lua Velha. E de onde vem mesmo tudo isto?

 

Segundo um conjunto de ideias que na sua forma derradeira parecem ter vindo das doutrinas de Zoroastro (o “criador de toda a religião”, como lhe chama o autor bizantino), a Lua Nova era completamente invisível nos céus por estar vazia. Depois, à medida da passagem do tempo, ela ia-se enchendo das almas dos falecidos, como que “envelhecendo” e tornando-se, eventualmente, uma Lua Velha, ou Lua Cheia (de almas). Depois, lá tinha lugar a tal transmigração de todas elas para um outro lugar, como que a rejuvenescendo e levando-a de volta à sua forma “invisível”, renascendo e falecendo metaforicamente a cada novo mês.

 

Esta teoria sobre a origem da Lua Nova e da Lua Velha – ou Lua Cheia, se preferirem – é profundamente fascinante. Na tradição ocidental, diz-se que Zoroastro foi o criador da primeira religião (ou, pelo menos, dos primeiros grandes textos religiosos sistemáticos). Não é fácil calcular quando ele viveu, mas fala-se de ter sido há 2500-3500 anos atrás. Mas, mesmo assim, apesar dessa imensa idade, algumas das ideias que formulou foram sendo passadas de boca em boca para as religiões posteriores, tendo-se em muitos casos perdido o seu significado original.

E é isso que parece ter acontecido no caso da origem da Lua Nova e da Lua Velha – é particularmente curioso constatar que ainda hoje falamos dela como estando “cheia”, numa das suas quatro fases, mas sem que absolutamente ninguém pergunte… “Cheia? Mas cheia de quê?” Esta teoria explica não só isso, mas também a questão da sua suposta “idade”, da razão pela qual ela vai envelhecendo e rejuvenescendo ao longo dos dias do mês! Que vos parece, sabiam de tudo isto?

Um canto XI dos Lusíadas?

Quem tiver um mínimo de conhecimento da literatura portuguesa saberá que Os Lusíadas, de Luís de Camões, são compostos por dez cantos… mas qual não foi a nossa surpresa quando soubemos da existência de um canto XI! Por isso, quando aqui principia o ano do quinto centenário do nascimento do poeta, nada como apresentar nas nossas linhas algo verdadeiramente surpreendente!

 

Supostamente, quando o poeta naufragou no Rio Mecom, numa das mais famosas histórias da sua vida (a par da sua cegueira parcial, ou dos seus amores por uma Bárbara), ele conseguiu salvar o seu famoso épico, mas apenas numa forma incompleta, com aquele final que ainda hoje temos nas nossas edições. Contudo, ele tinha escrito mais um canto, o décimo-primeiro, que foi levado pelas águas e acabou por dar à costa numa praia próxima. Foi apenas reencontrado muitos anos mais tarde, as suas linhas quase “totalmente comidas e apagadas pela espuma e o sal de quatro séculos de ondas”, como é dito numa sua edição de 1937. Mas, infelizmente, desse suposto canto XI dos Lusíadas só nos chegou o seu final, com os versos que transcrevemos abaixo:

[O Descobrimento do Brasil]
Até ‘qui vos cantei a larga terra
Que a linha inclina e o Capricórnio acaba.
E a pintura vos fiz daquela serra
Que por florestas mil no mar desaba;
Como nesta, sem mácula de guerra
Que de sangue tingisse a espúmea aba,
Aquele ergueu a cruz na selva agreste
Que em estrelas se abriu em cruz celesta.

[Os missionários, os donatários]
Depois vos já cantei como outros foram
E à vera lei de cima converteram
Os homens cor do cobre que devoram
Os guerreiros das tribos que venceram;
Como nas águas tórridas ancoram
As naus que às naus primeiras sucederam,
Levando a bordo, régios emissários,
Os ilustres primeiros donatários.

[O futuro do Brasil]
Império do Ponente, nova e quarta
Do lusitano mundo parte extrema,
As linhas dilatando sobre a carta
Em que a orla do Atlântico se estrema;
Porque Europa na Esfera se reparta,
Levada ao mando vosso e fé suprema,
Em proporções futuras vos cantei
Só por que vos cantasse, ínclito Rei!

[Dom profético]
Mas, Senhor, nem só de arte e só de engenho
O móbil das palavras se alimenta,
Que outro mais alto espírito mantenho
Que de razão e de razões se isenta;
Neste fogo divino em que ora venho
Novo canto a meus cantos se acrescenta,
Não com as invenções que a mente cria,
Mas com pura e acabada profecia.

Essas foram, ó Rei, imaginosas
Que Tétis descobriu ao forte Gama,
Pois em coisas se firmam numerosas
Que em meu e vosso tempo correm fama;
Esta vos dou sem formas enganosas,
Com forma só da invisível chama
Que o ceu ás vezes manda das alturas
Sobre as humanas suas criaturas.

[Rejeição das formas mitológicas]
Agora, pois, Calíope, me inclina
A mente, ás gregas musas inclinada,
Aquela rigorosa disciplina
Em nome dum só Deus de vez fundada.
Não mais se ajunte o mito á lei divina;
Seja tudo a palavra confirmada;
Que só com verbo claro e esprito puro
Romper se pode aos olhos o futuro.

[Alcácer-Quibir]
Uma áspera batalha vejo acesa
Entre armas Sarracenas e de Cristo,
No raivoso tropel e na bruteza
De fim não manifesto nem previsto;
Alevanta-se a fúria portuguesa
Mas nada vejo claramente visto:
Mudado fica em sangue o campo inteiro
E o pó das cavalgadas em nevoeiro.

[Dominação filipina]
Aqui me cega os olhos o negrume
De carregada nuvem temerosa
Que enche o céu com o túrbido volume
E a terra com a sombra monstruosa;
De raios, cento e cento, o férreo lume
De carregar começa; mas, gloriosa,
Nasce da terra agora a claridade
Que leva para longe a tempestade.

[Ouro do Brasil]
Já do metal, que a tantos tanto engana,
Das minas de apartado continente,
Vejo a pequena casa lusitana
Em pompa acrescentar-se, alta e luzente;
Antes a singeleza mediana
Nunca da firme casa fosse ausente,
Que onde valor não há que o peito escude
Se faz o ouro imigo da virtude.

[O terramoto]
Rompem-se por castigo os fundamentos
Da terra que se abala e se esboroa;
Revoltam-se os revoltos elementos
No soturno trovão que o ar atroa;
A dos cristãos famosos monumentes
Famosa e formosissima Lisboa
Some-se em ruínas no aberto chão!
Humano horror! Divina maldição!

[Invasões]
Feroce bando de águias vir descendo
Dos altos de Pirene, extremo norte,
Vejo nas asas e nas garras tendo,
Suspensas sobre a terra, guerra e morte;
Mas não vai por diante o vôo horrendo
Que lhe assopra contrário o vento forte:
Apenas ficam no ar turvo e sangrento
As penas arrancadas pelo vento.

Mas as penas sinistras que tombando,
Uma pot uma, vão na cara terra,
Em penas, mas de dor, se vão mudando,
Entre irmãos levantando indigna guerra.
Por cem cursos do sol, sem fé nem mando,
Em sua Pátria própria se desterra
O povo que no rosto verdadeiro
Paz feições e paz olhos de estrangeiro.

[Invocação da Providência Divina]
O mundo vejo agora … Mas, ó cego!
Eu que cometo em vão o tempo vário
E na visão só vejo que desprego
Triste e calamitoso itinerário!
A vós, Divino Guarda, a vós me entrego
Por que o destino dai menos contrário,
Principalmente aqui, que sou chegado
Onde seja meu canto culminado!

[Guerra Mundial]
O mundo vejo agora em chamas todo,
Em nunca havida guerra semelhante;
Rompendo o mundo com horrendo modo,
Qual contra o céu o inferno se alevante;
Em vão a nívea flor torna do lodo
E abre a vitória as azas, triunfante!
Vitória e paz se volverão em guerra
Enquanto o ódio for o sal da terra.

[Prenúncio]
o maldito o primeiro que no mundo
Na mão fechada ergueu o gládio forte
E o golpe desfechou, rudo e iracundo,
Que por mãos de homem inventou a morte!
Mas que divina mão desce ao mais fundo
Um gládio erguendo com que as trevas corte?!
Senhor! ressuscitai do nojo e insânia
A minha bem amada Lusitânia!

[Aparição]
E um Homem vejo enfim, virtuoso e grande,
Na multidão surgir de homens pequenos,
Braço que Deus mandou para que mande
Com gestos luminosos e serenos;
A lei constante e igual por gládio brande
Que a todos mais exalte e a nenhum menos;
Eis sobe, como deve, ci ilustre mando
Contra vontade sua e não rogando.

[A palavra]
Neste as virtudes claras dos antigo
Se aclaram com ser prontas e correntes;
De fronte leal defronte dos imigos
O gesto muda aos ódios iminentes;
Benigna voz que sobre altos perigos
Reüne os portugueses excelentes,
A palavra, por nobre e por honrada,
Se faz maior ainda do que a espada.

[O império]
Neste a força renasce a cujo impeno
O marítimo Império desparzido
De novo se dilata no hemisfério
Por fé subida e nova engrandecido;
Vêde-lo, já sem mancha e vitupério,
O vosso Quinto Império renascido:
Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses,
Honrando, igual a igual, os portugueses.

[O Desejado]
Senhor! Senhor! na língua me embaraço
Por vos dar o que vejo do futuro,
Que da minha visão no extremo passo
Maravilha espantosa me afiguro:
Deste no braço vejo o vosso braço,
No seu perfil o vosso, régio e puro,
Na honra sua a vossa magestade,
Na dele e vossa a inteira cristandade.

A vós vos vejo, ó Rei, no alto governo
Da amada Pátria, lá no tempo adiante,
Por que o nome da Pátria seja eterno,
Oferto a Deus em vossa mão triunfante!
E por que, em som grandíloquo e superno,
De novo em todo o mundo de vós cante,
Convosco, sombra vossa, ínclito Rei,
Por o meu Portugal renascerei!

 

Impõe-se, naturalmente, aqui uma questão enormíssima – como pode aquela história, ali em cima, relativa à proveniência destes versos de um suposto canto XI dos Lusíadas, ser verdadeira? Além disso, seria o nosso Camões, além de poeta, também um profeta, em linha com o Bandarra? Ambas as coisas parecem demasiado improváveis, até porque, muito curiosamente, a edição deste texto foi do Secretariado de Propaganda Nacional, que nunca explica muito bem como os versos foram obtidos, e eles próprios dão a entender que apenas foram escritos depois do ano de 1914. São, portanto e muito naturalmente, estrofes falsamente atribuídas ao poeta, apesar de, à data da escrita destas linhas, a BND os atribuir, erroneamente, a Luís de Camões.

Um canto XI dos Lusíadas

Desconhecemos quem terá sido o seu verdadeiro autor, nos primeiros anos do século XX, mas a ideia da produção de um derradeiro canto para a obra não era nova – por exemplo, também António Gedeão (ou Rómulo de Carvalho, se preferirem…), nos seus tempos de meninice, tentou alguns versos com um objectivo semelhante, cuja primeira estrofe reproduzimos acima. Quem assim o desejar poderá vê-los nesta página externa, mas são menos interessantes que os reproduzidos aqui, até pelo facto de não virem com uma pequena lenda associada…