O verdadeiro significado de “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”

É hoje sobejamente conhecido o verso que nos diz “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”. Está num dos poemas da Mensagem de Fernando Pessoa, e obteve até uma espécie de carácter de provérbio entre nós, mas parecem ser poucos aqueles que pensam no seu verdadeiro significado, no que estas belas palavras nos querem mesmo dizer. E não é o que pensamos… e por isso, hoje, revelaremos aqui o verdadeiro significado por detrás dessas palavras do poeta, com uma lenda que está hoje quase completamente esquecida.

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce

O verso em questão provém da Mensagem de Fernando Pessoa, como já foi referido antes, num poema que tem por título “O Infante” e que é o primeiro de uma sequência a que normalmente se chama “Mar Português”. É nele que estão os seguintes versos:

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Pelo contexto no próprio poema, depressa se deveria compreender que o sonhador é “O Infante” do título, o principal originador do período dos descobrimentos portugueses, aquele a que chamamos quase sempre Infante Dom Henrique. E até aqui tudo bem, presumimos que isto não traga qualquer grande novidade, mas o que apresentamos a seguir é muito menos conhecido e nunca parece ser dito nos bancos da escola. Faça-se até a pergunta – afinal, o que levou este nosso infante à sua expansão marítima? Num contexto físico, quase que apeteceria perguntar “Alguém sabe, alguém sabe?”, mas nestas coisas online é mais difícil fazê-lo, razão pela qual passamos já à própria resposta.

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce

Segundo uma espécie de lenda que precede o século XVI – e recorde-se que o Infante Dom Henrique nasceu em 1394 e faleceu em 1460 – ele foi levado a toda esta ideia da expansão marítima por um sonho que teve durante a noite. Não é muito claro ou seguro o que lhe apareceu nesse sonho, mas diz-se que nele Deus o convidou à descoberta das “Etiópias”, e que nessas novas regiões seriam encontrados muitos novos homens que precisavam de ouvir a mensagem cristã. E, se tal pedido divino ainda não fosse inspiração suficiente, Deus também revelou ao nosso Infante que nessas novas terras seria encontrado muito ouro, riquezas sem fim, que poderiam depois vir a ser utilizadas para combater os inimigos da fé cristã e cristianizar novos povos.

 

Terá sido isto verdade? Terá isto acontecido realmente ao nosso Infante Dom Henrique? Não há qualquer forma real de o sabermos, mas o que é difícil de disputar é que esta ideia, como já indicado acima, já existia antes dos inícios do século XVI e chegou-nos, no mínimo, por via de um autor que não fazia parte do clero, tendo por isso poucas razões para mentir sobre esta matéria. Depois, sabendo-se o interesse de Fernando Pessoa em mitos e lendas, no Misticismo, e em mensagens divinas como estas – recorde-se até o título da obra em questão, Mensagem ! – é quase certo que também ele conhecesse o que referimos acima.

Face ao contexto, os versos que dão o título às linhas de hoje – “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce” – ganham um significado muito mais concreto. Ele pode ser interpretado assim – Deus decidiu que o mar deveria pertencer a Portugal. Face a essa decisão, levou a que o Infante sonhasse com um mar português. E, nascido desse sonho, fomos então levados a essa grande e inovadora ideia de tentar criar um mar pertencente ao país dos Portugueses. E a esta mesma ideia se volta no final do poema – “Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez”, porque as intenções propostas pelo ente divino foram apenas parcialmente atingidas, mas “falta cumprir-se Portugal” porque a derradeira sequência do sonho, de um império riquíssimo que conseguiria eliminar os inimigos da Cristandade, não chegou a acontecer.

 

Como tal, a ideia de “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce” refere-se especificamente ao nosso Infante Dom Henrique, e pretende denotar que a obra construída pelo Homem, na sua face mais geral, só é possível com uma inspiradora intervenção divina, que neste caso em concreto nasceu de um sonho nocturno. E, para o seu século, a ideia não era nova nem louca – recordem-se, por exemplo, os antigos casos de Artemídoro ou de Senádio – mas foi aqui muito inspiradora dos Descobrimentos Portugueses, numa ideia que mais tarde virá a ser elaborada com o desaparecimento de Dom Sebastião e obras proféticas como as de Bandarra e do Padre António Vieira, em que continuou a haver uma tentativa de “fazer cumprir Portugal”. E, se não podemos ter 100% de certezas da intenção do poeta, podemos pelo menos acreditar que este poema de Fernando Pessoa foi escrito com conhecimento da lenda – ou realidade? – deste sonho nocturno do Infante Dom Henrique!

A lenda do Basilisco de Urrialdo

Apesar de breve, esta lenda do Basilisco de Urrialdo não deixa de ser notável, porque contribui para explicar algo que, de outra forma, seria difícil de compreender. Mas já lá iremos, comece-se por uma breve introdução a todo o tema.

Um Basilisco que não o de Urrialdo

Já cá falámos anteriormente sobre o monstruoso basilisco, uma criatura que, segundo uma tradição especificamente ibérica, nascia de um ovo de um galo quando este fazia 7 anos de idade. Até aqui falámos da lenda de uma destas criaturas que, segundo a história, viveu em Viena, na Áustria, mas esse caso não foi único, existindo lendas de mais algumas criaturas dessa espécie por toda a Europa, e a de hoje vem do país de “nuestros hermanos”.

 

Conta-se então que existiu, algures no município de Vitoria (no País Basco), uma pequena fonte em que outrora viveu um basilisco. Ele foi aí colocado por um feiticeiro, que posteriormente até acabou por matá-lo, mas as populações locais tinham tanto medo do animal, que possuía a estranha característica de os matar somente com o olhar, que tiveram de abandonar completamente a região, fazendo restar da antiga povoação de Urrialdo apenas e somente uma igreja que o tempo se encarregou de destruir. Nela se acreditou que existiu, até inícios do século XX, um pequeno esqueleto do famoso animal (que nos ficou conhecido como o Basilisco de Urrialdo por esse local onde viveu), mas hoje já nada de palpável resta para o afiançar.

 

E, portanto, esta é uma daquelas lendas que parece ter existido para se explicar o porquê do completo abandono de uma povoção. Naturalmente que não é um caso único… mesmo em Portugal, existem algumas pequenas lendas para explicar eventos semelhantes. Uma delas diz-nos que uma determinada povoação – terá sido ela Idanha-a-Velha, ou uma outra? A memória escapa-nos neste instante – foi abandonada porque estava constantemente infestada por grandes formigas, o que causava muitos problemas aos habitantes locais, acabando por levá-los a ir viver para outro sítio. Certamente que existem muitas outras histórias assim, mas repita-se que a sua finalidade é quase sempre uma e a mesma – tal como este Basilisco de Urrialdo, que explica o abandono dessa povoação do norte de Espanha, também muitos outros locais tiveram as suas calamidades animais, vegetais ou miraculosas, por vezes mais lendárias do que reais, para explicar um abandono por parte dos antigos habitantes…

Tideu e Melanipo, um horrendo mito grego

Melanipo é uma de aquelas figuras da Mitologia Grega que poucos conhecem. O que, se por um lado, pode parecer um pouco estranho – uma consulta rápida a um dicionário do tema denota terem existido pelo menos 12 figuras com este nome – por outro, poderá dar a entender que nunca existiu uma figura suficientemente famosa com esse nome. Por exemplo, conhecemos apenas um Édipo ou uma Ônfale, mas já a personagem a que dedicamos as linhas de hoje é uma particularmente conhecida por um instante horrendo do Ciclo de Tebas a que até existe uma breve alusão nos Poemas Homéricos. E se ele parece ter sido pouco representado na arte da Antiguidade, este belíssimo exemplo de uma representação etrusca é aqui muito digna de nota:

O mito de Melanipo

No lado esquerdo pode aqui ser visto Melanipo, caído, enquanto que um outro combatente – que pode ser identificado como Tideu, a que já cá fizémos uma breve alusão antes – se lhe aproxima da parte traseira da cabeça. O que está verdadeiramente a acontecer? Conta-nos então este mito que os dois heróis se envolveram em combate; o primeiro foi derrotado pelo segundo, mas por razões que já não são claras o vencedor depois decidiu cometer um acto horrendo – quis comer o cérebro do derrotado. Repita-se, não sabemos bem porque quis ele fazer uma coisa tão estranha, até porque este acto parece ser completamente único nos mitos gregos da Antiguidade, mas sabemos que o fez em virtude de uma outra figura que interveio neste mesmo episódio…

Assim sendo, no canto direito da imagem pode ser vista uma figura vagamente feminina com um pequeno recipiente na sua mão direita. A égide ao peito permite identificá-la como a deusa Atena. Segundo a mesma história, quando tudo isto teve lugar ela preparava-se para dar a Tideu – pai de Diomedes, uma figura muito famosa da Ilíada – um licor da imortalidade, mas face ao que presenciou com os seus próprios olhos depressa desistiu de toda a ideia… com alguns autores a dizerem, depois, que aquilo que ela aqui negou ao pai, acabou posteriormente por oferecer ao respectivo filho.

 

Este breve fragmento de um mito maior é francamente estranho. Ele parece preservar um conjunto de elementos mitológicos cujo real significado se foi perdendo com o tempo, levando a que mesmo na Antiguidade já não se soubesse muito bem de onde vieram. Qual seria a razão do mais que evidente ódio de Tideu por este Melanipo? Se os deuses necessitavam de uma bebida para dar a imortalidade aos seres humanos – provavelmente a sua amada ambrósia – porque é esse elemento também tão incomum em mitos mais tardios? Não sabemos responder a essas questões, porque, infelizmente, os textos iniciais que continham este estranho mito estão hoje quase perdidos e nunca explicam os verdadeiros contornos de toda a história. E, assim, resta-nos apenas esta breve alusão ao que parece ter sido um dos mais horrendos mitos da Grécia Antiga…

Sobre o Tributo das Cem Donzelas

Falando-se hoje sobre o chamado Tributo das Cem Donzelas, é desde já difícil saber como o descrever. Tratou-se de uma mera lenda, ou foi baseado em factos históricos ocorridos entre os séculos VIII e IX da nossa era? Se a resposta correcta for a primeira, como se explica a sua constância em diversas outras lendas – recorde-se, por exemplo, a curiosa lenda portuguesa de Guesto Ansures? Se for a segunda, como é possível compreender-se a existência de tão poucas provas físicas de uma tão estranha e repetida ocorrência? Talvez seja melhor começar-se pelo início e recapitular, de forma muito breve, o tema em questão.

O Tributo das Cem Donzelas - lenda ou realidade?

Conta-se que por volta de finais do século VIII o rei Mauregato I das Astúrias subiu ao trono de forma ilegítima com o auxílio de alguns combatentes islâmicos. Em troca desse favor, e apesar de ser cristão, ele concedeu – ou apenas aceitou, não é claro quem iniciou toda a ideia – ao seu auxiliador um tributo anual de cem donzelas (ou seja, cem jovens virgens). Como essa selecção era feita não é claro, as fontes existentes nada referem sobre a beleza das jovens (abrindo a possibilidade de que pudesse ser um bom truque para afastar de casa as jovens feias), mas algumas delas dizem é que 50 delas deveriam pertencer à nobreza e outras 50 ao povo, num estranho exemplo de igualdade medieval. As mesmas fontes também adicionam, mais raramente, uma referência curiosa – caso não existissem jovens suficientes, a falta de cada uma delas poderia ser substituída por um valor monetário que tinha sido estipulado de antemão. E então, segundo se diz, esse tributo anual de 100 donzelas prolongou-se por vários anos, até à (provavelmente lendária) Batalha de Clavijo.

 

Mas a grande questão, como já referido acima, terá mesmo de ser… foi este Tributo das Cem Donzelas uma realidade, ou mera história? Não sabemos, nem é fácil sabê-lo. Sabemos, isso sim, é que toda a situação gerou um conjunto de referências reais e lendárias ao longo dos séculos, desde pequenas piadas (e.g. “Porque queriam os Mouros as mulheres do local X? Elas lá são tão feias!”), até histórias que preservam oposições locais a esta ocorrência (e.g. a lenda dos Figueroas, em Espanha, muito semelhante à nossa lenda da “Canção do Figueiral”). Entre elas conta-se uma referência muito inesperada à finalidade dos Mouros para as tais donzelas: eles levavam-nas para os seus haréns, só assim se podendo explicar – segundo esta história – como cada um deles até conseguia ter tantas mulheres diferentes para si mesmo… uma ideia muito digna de nota, porque pode permitir compreender-se, finalmente, a verdade por detrás de todo o episódio.

 

É provável, seguindo-se esse caminho, que a ideia do Tributo das Cem Donzelas tenha nascido de uma compreensão incorrecta e retroactiva de alguns dos costumes dos Mouros. Se se acreditava, nessa altura, que cada um deles tinha, por razões culturais, um verdadeiro direito a possuir várias mulheres, faz sentido que alguns Cristãos se tenham interrogado sobre a sua proveniência, levando à possibilidade de imaginar um tempo antigo em que elas tinham sido obtidas por oferenda cristã. Isso poderá, ou não, ter sido verdade, mas no mínimo dos mínimos deverá ter inspirado todo um conjunto de lendas a que ainda temos acesso hoje, nas quais diversos heróis – recorde-se, novamente, o nosso próprio Guesto Ansures – impediram algumas jovens locais de serem levadas pelos Mouros. E esta possibilidade não só pode explicar a existência das tais lendas, com as costumeiras interrogações por elas deixadas (i.e. se o objectivo fosse somente o de obter tantas jovens virgens quanto possível, é provável que muitos islâmicos tivessem obtido para si mulheres bastante feias, lamentando depois quem lhes tinha “saído na rifa”!), como também a ausência de provas físicas de todo o tributo – ele provavelmente existiu apenas na imaginação popular, não deixando por isso provas desta natureza!

O mito de Timetes

Falar da obscura figura de Timetes é falar, imperativamente, da Guerra de Tróia. Isto porque se, em relação a essa famosa trama da Antiguidade cada novo autor parece ter sentido a necessidade de ir adicionando novos pontos e contrapontos, aqueles que melhor serviam a narrativa que queriam construir, entre eles foram também surgindo todo um conjunto de oportunidades para criar algo de diferente. Os casos de Quinto de Esmirna, Dares Frígio ou Díctis de Creta são os mais evidentes, mas outros autores também foram adicionando, aqui e ali, novas partes da história.

O mito de Timetes

Por exemplo, da história geral de toda a guerra sabemos que quando o Cavalo de Tróia foi oferecido aos Troianos, teve lugar um pequeno debate relativo à possibilidade de o admitir na cidade. Fazê-lo poderá, hoje, parecer-nos completamente absurdo, não fosse o facto de alguns autores explicarem que nem todos os habitantes da cidade estavam contra os Gregos. Um desses casos, o que nos interessa particularmente hoje, era o de Timetes.

 

Quando Alexandre Páris nasceu, a sua mãe teve um sonho profético relativo ao futuro da cidade em que todos viviam. Ao leitor desse mito, poderá parecer evidente que a figura profetizada para causar toda essa destruição era o próprio Páris, mas com a intenção de poupar a vida deste seu filho Príamo e Hécuba tentaram disfarçar todo o caso, vendendo aos outros habitantes a (falsa) sugestão de que o futuro destruidor não era o seu recém-nascido, mas sim o de um homem chamado Timetes. E isto levou a que a mulher e o filho deste fossem rapidamente mortos, sem qualquer dó ou piedade.

Depois os anos foram passando, mas parece que Timetes nunca conseguiu superar esta perda da sua família directa. É provável que qualquer outra pessoa também sentisse dificuldade em fazê-lo. E então, quando o Cavalo de Tróia foi levado para as redondezas da cidade, este homem apercebeu-se do que se estava a passar e sentiu que, finalmente, tinha uma oportunidade para a sua vingança. Votou em favor da entrada do enorme Cavalo… e o resto, como se costuma dizer, é história!

 

Hoje, Timetes não consta entre os maiores heróis da guerra que opôs Gregos a Troianos. Talvez até nem esteja entre as 100 figuras mais importantes do conflito. Sabemos, isso sim, é que pelo menos um autor da Antiguidade, um tal Euforión, utilizou esta história, entre diversas outras, para justificar como foi possível que os cidadão de Tróia fossem enganados com um estratagema tão evidente.